Notas iniciais
Demorei?

Estava sentada em um carro apertada na janela. Quinn estava sentada entre mim e Santana, tentando aliviar ao máximo o clima péssimo que estava no carro. Nós duas tínhamos nos tornado grades amigas em poucos meses, e ela já sabia de toda a história com Santana.

– Então... Finn mandou uma mensagem de novo? – ela disse quebrando o silêncio desconfortável.

– Sim. – respondi – disse que tinha um cheiro muito forte nessa escola. Resolvi investigar.

Voltamos ao silêncio constrangedor. Eu estava praticamente há um ano sem trocar uma palavra com Santana, e devo dizer que aquilo estava me matando por dentro. Ela ainda vinha me procurar às vezes, mas cada vez que eu via seus olhos meu peito doía mais e mais. Parecia que tudo o que vivemos foi uma mentira, que nada realmente valeu para ela.

Mas mesmo assim não podia deixar de lançar longos olhares para o seu corpo. Ela estava... Diferente. Seu rosto tinha uma expressão mais madura, seus cabelos estavam mais longos, e o corpo... Ela estava linda. Não importa o quão brava ou magoada eu fique com ela, nunca vou deixar de acha-la a mulher mais linda de todo o mundo. Só sinto falta de chama-la de minha. Mas eu simplesmente não consigo engolir meu orgulho.

– Chegamos meninas. Boa sorte. – Puck falou da direção do carro. Agradecemos e pulamos porta a fora.

Caminhei o mais rápido que pude para perto da escola. Primeiro, estava frio. E quando digo frio, subentenda congelando. Segundo, as pernas de Santana estavam mais compridas e ela já não tinha tanta dificuldade em me alcançar. E a minha melhor amiga ficava se fazendo de desentendida e caminhava a vários passos atrás de mim, tentando me deixar com ela.

– Britt, para. Por favor... – ouvi a voz de Santana me chamando baixinho.

Fechei os olhos com força e apressei o passo. Quinn parou na rua e ficou olhando para o nada, desviando completamente a atenção de nós duas. Santana apertou o passo e agarrou meu braço, me forçando a parar.

– Britt, me escuta. Por favor, só me dá uma chance e...

– Não! Você acabou com tudo no instante em que escolheu mentir pra mim! E você sabe como eu sou com mentiras, Santana. Pare de agir como se você não tivesse outra escolha. – falei magoada – Agora vem, temos uma missão para cumprir.

Virei minhas costas e ela continuou segurando meu braço. Contei até três silenciosamente e voltei a me virar para ela. Tive a estúpida ideia de olhar diretamente nas orbes escuras, e vi nelas a mesma dor que via nas minhas quando me olhava no espelho.

– Quando voltarmos. Não aqui, não agora. Eu prometo que eu te escuto, mas por favor, me solta. – falei com o tom de voz mais baixo. – Nós realmente precisamos ir, Santana. Por favor, me solta.

Ela assentiu com os olhos levemente marejados e afrouxou o aperto. Soltei-me de suas mãos e estava prestes a voltar a caminhar quando ela puxou meu corpo contra o seu num abraço apertado. Seu rosto afundou no meu pescoço por alguns segundos e eu não me mexi. Minha pele estava em chamas sendo pressionada contra a sua. Não pude me conter e pousei meus braços ao redor de sua cintura, apertando-a contra meu corpo com mais força.

Nos separamos e ela abriu um sorriso fraco. Dei as costas e voltei a caminhar, agora seguida pelas duas. Senti falta de seu corpo no instante em que nos separamos, mas meu orgulho não deixava que eu transparecesse esses sentimentos.

Paramos frente a porta da escola e a abrimos. Arregalei meus olhos com o que vi. Agora era oficial. Todas as minhas missões me levavam para lugares incríveis. O saguão era gigantesco, com a decoração rústica dando um toque confortável ao lugar. Mas eu não tinha muito tempo para admirá-lo, então nós três começamos a atravessá-lo. Pude ouvir um som alto de música não muito longe de onde estávamos.

Não tínhamos ido muito longe quando ouvi passos no piso de pedra, e um homem e uma mulher marcharam saindo das sombras para nos interceptar. Ambos tinham cabelos grisalhos curtos e uniforme preto em estilo militar com debruns vermelhos. A mulher tinha um bigode ralo e o homem, a cara perfeitamente barbeada, o que me pareceu meio invertido. Os dois caminhavam rigidamente, como se tivessem cabos de vassoura grudados com fita adesiva nas costas.

– E então? — perguntou a mulher – O que estão fazendo aqui?

– Ahn... — Percebi que não havia planejado nada para aquela situação. Estava tão em desviar das investidas de Santana que não levara em consideração que alguém poderia questionar por que três crianças estavam se esgueirando para dentro da escola no meio da noite. Não tínhamos conversado no carro sobre como faríamos para entrar. Eu disse:

– Senhora, nós estamos só...

– Ah! – disparou o homem, o que me fez dar um pulo. — Não são permitidos visitantes no baile. Vocês vão ser ecs~pulsos!

Ele tinha um sotaque – francês, talvez. Pronunciava o x como pixel. Era alto, com cara de águia. Suas narinas se dilatavam quando ele falava, o que tornava difícil não olhar para o nariz dele, e os olhos tinham duas cores diferentes — um era castanho, e o outro, azul — como os de um gato de rua.

Calculei que ele estava a ponto de nos atirar na neve, mas então Quinn deu um passo à frente e fez algo muito estranho. Ela estalou os dedos. O som foi nítido e forte. Talvez fosse apenas minha imaginação, mas senti uma lufada de vento se propagando da mão dela pelo saguão. O vento passou por cima de todos nós e fez tremular os estandartes nas paredes.

– Ah! Mas não somos visitantes, senhor, — disse Q. — Estudamos aqui. O senhor lembra: eu sou Quinn. E estas são Santana e Brittany. Estamos na oitava série.

O professor estreitou os olhos de duas cores. Eu não sabia o que Quinn estava pensando. Agora provavelmente seríamos castigados por mentir e também atirados na neve. Mas o homem pareceu hesitar. Ele olhou para sua colega.

– Senhorita Tengiz, conhece estes alunos?

A despeito do perigo que corríamos, tive de morder a língua para não rir. Uma professora chamada Tem Giz? Ele devia estar brincando.

A mulher piscou, como alguém que acabava de despertar de um transe.

– Eu... sim. Acho que sim, senhor. — Ela nos olhou, carrancuda. — Santana. Quinn. Brittany. O que vocês estão fazendo fora do ginásio?

Antes que pudéssemos responder, ouvi mais passos, e Finn veio correndo, sem fôlego.

– Vocês conseguiram! Vocês...

– O que é isso, senhor Hudson? — disse o homem. Seu tom deixou claro que ele detestava Finn. O que significa “conseguiram chegar”? Estes alunos moram aqui.

Finn engoliu em seco.

– Sim, senhor. É claro, Dr. Streppe. Eu só queria dizer que estou muito contente porque elas conseguiram... Fazer o ponche para o baile! O ponche está uma delícia. E foram eles que fizeram!

O homem estreitou os olhos, como se estivesse decidindo se estávamos falando a verdade. Por fim, apenas nos mandou voltar para o ginásio.

Corremos logo atrás de Finn em direção à música.

– Como fez aquilo? – perguntei a Quinn – Com os dedos.

– A névoa? Will não te mostrou como fazer?

Neguei com a cabeça e dei de ombros. Will devia ter seus motivos para não me ensinar a controlar a névoa.

– Então, qual é a emergência? – perguntei a Finn.

– Encontrei dois semideuses.

Fiquei estática. Encontrar um já era bastante raro, mas dois? Definitivamente, algo estava errado naquele lugar.

– São irmãos. Uma tem catorze e ele tem doze anos. E são fortes, muito fortes. E estamos sem tempo. Monstros. – Finn despejou tudo rapidamente.

– Certo, — disse Quinn. – Esses meio-sangues estão no baile?

Finn assentiu.

– Então vamos dançar – disse a loira. — Quem é o monstro?

– Ah! — falou Finn olhando em volta, nervoso. — Você acabou de conhecê-lo. O vice-diretor, Dr. Streppe.

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– Lá estão – Finn disse acenando com a cabeça na direção das arquibancadas – Blaine e Rachel Berry.

Desviei meus olhos para os dois. Os irmãos tinham a pele morena e os cabelos escuros. Pareciam com Santana, tirando o fato de seus olhos serem totalmente negros. Quase impossível de distinguir a pupila. Cogitei que pudessem ser filhos de Atena, mas achei pouco provável.

– Vamos pegá-los. – falei calmamente caminhando até os dois.

Dei um passo à frente, mas Quinn pôs a mão em meu ombro. O vice-diretor, Dr. Streppe, se esgueirara por uma porta ao lado da arquibancada e estava perto dos irmãos Berry. Ele acenou friamente com a cabeça em nossa direção. Seu olho azul parecia incandescente.

A julgar pela expressão dele, adivinhei que Streppe não se deixara enganar pelo truque de Quinn com a Névoa, afinal. Ele suspeitava de quem éramos. Estava apenas aguardando para ver por que estávamos ali.

– Não olhe para os irmãos — ordenou Quinn. — Temos de esperar uma oportunidade de chegar até eles. Precisamos fingir que não estamos interessados neles. Despistá-los.

– Como?

– Somos três meio-sangues poderosos. Nossa presença deve confundi-lo. Misturem-se. Ajam naturalmente. Dancem um pouco. Mas fiquem de olho naquelas crianças.

– Dançar? — perguntou Santana.

Quinn fez que sim. Ela prestou atenção na música e fez uma careta.

– Eca. Quem escolheu Jesse McCartney?

Finn pareceu ofendido.

– Eu.

– Ah, meus deuses, Finn! Isso é tão careta. Não dá para tocar Green Day ou coisa assim?

– Green o quê?

– Nada, não. Vamos dançar.

– Mas eu não sei dançar!

– Você consegue se eu conduzir — disse Quinn. — Vamos, garoto-bode.

Quinn arrastou Finn até o meio da pista de dança e começou a dançar lentamente com ele. Senti os braços de Santana enlaçarem o meu pescoço e me puxarem para a pista de dança. Estremeci e coloquei minhas mãos na sua cintura. A morena deitou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio por alguns minutos.

– Eu senti falta disso – ela murmurou – desculpe se estou te forçando a qualquer coisa.

– Nós nunca dançamos assim, Santana. Ao menos não com frequência. – retruquei tentando manter minhas barreiras.

– Eu sei. Estava falando de ficar abraçada em você.

Senti as paredes começarem lentamente a desmoronar. Por mais que eu me esforçasse para ser firme com ela, não estava funcionando.

– É uma boa hora para conversarmos agora? – ela perguntou.

– Santana...

– Eu sei. Acampamento. Mas... É estranho ficar sem dizer uma palavra, Britt-Britt.

– Eu não mordo. Pode falar comigo.

Ela voltou a deitar o rosto no meu ombro e encostou o nariz no meu pescoço. Senti meu corpo tremer e apertei um pouco mais a sua cintura contra mim. Ela levantou os olhos castanhos e voltou a me fitar.

– Não diz nada. Só escuta. Eu te amei, eu te amo e sempre vou amar, não importa o que aconteça. Eu sei que eu errei, e errei feio com você Britt, mas eu quero provar que eu cresci. Me dá uma chance de recuperar a tua confiança. É só isso que eu quero meu anjinho.

Não disse nada, apenas fiquei abraçada a sua cintura no meio da pista. Senti vontade de beijá-la ali mesmo, mas não me rendi aos meus instintos. Apenas encostei meu nariz na sua bochecha e depositei um beijo no local.

– Eu sinto sua falta, Santana. Mas isso não quer dizer que está tudo bem. E repito, depois conversamos. – murmurei em seu ouvido.

Ela assentiu e abriu um sorriso. Desviei os olhos de seus lábios e voltei a prestar atenção na música, procurando os irmãos com os olhos. Mas eles haviam sumido. Contra minha vontade, soltei a cintura de Santana e apontei para a arquibancada vazia. Ela assentiu e correu para procurar Finn e Quinn, enquanto eu procurava por contracorrente no meu bolso e partia para atacar.

Notas finais
Aprovado?