12|11|1745 Castelo de Ocenia, Cornwall

Todos estavam errados. O rei, o duque de Newcastle, a marquesa viúva e Frederik todos erraram sobre a revolta jacobita. Ela não acabou nem se desfez, mas ela continuou, e além da Escócia.

A Escócia havia então caído, pelo menos Edimburgo e as mais importantes cidades. Isso não assustou muito, mas quando os jacobitas entraram na Inglaterra a alguns dias o medo existente se tornou visível. As notícias de como estava Londres era uma prova disso. O medo então levou o governo a ordenar que todos os lords tenentes formassem milícias e juntassem regimentos para proteger em todo o país.

Isso por si só não era um problema, era bom. Mas o problema chegou no dia anterior com uma carta do governo que dizia que estava na hora da Guarda Germânica prestar um serviço maior a coroa e ao parlamento, e junto vinha uma nomeação militar de coronel para Frederik. Isso dava então a ele um problema. Ele ainda não havia contado o que havia na carta, Anne apenas sabia que Carlisle estava agora sob o domínio jacobita.

Mas havia um motivo para Frederik ainda não fazer isso. O medo não o deixava. Nos últimos tempos Anne estava se mostrando muito mais doce e amorosa do que antes, mas quando se falava sobre o assunto da revolta ela sempre ficava muito sombria e desanimada. Embora ela nunca falasse o motivo, ele era bem conhecido. Anne não desejava que Frederik se colocasse em perigo, Anne tinha medo de o perder.

Isso fazia com que Frederik tivesse muito medo da reação de Anne. Mas ele deveria contar, seria melhor assim do que Anne simplesmente acordar e descobrir sozinha.

Encontrar Anne não foi nada difícil, ela estava no jardim leste, uma nova parte do jardim que ela mesma desejava plantar e cuidar.

– Frederik que surpresa!- Frederik sabia que no momento que Anne o visse ela diria isso.– Não é sempre que você vem aqui. Mas já que está aqui, o que você acha do meu jogo jardim?

– Vai ficar certamente muito belo. Mesmo que o outono não é a melhor época para se plantar.- Esse era o melhor que Frederik poderia dizer, na sua frente estava apenas grama, arbustos sem cor, árvores pequenas e mudas de flores.– Mas não é esse o meu motivo de vir aqui.

– Está certo então. Vamos tomar o chá que uma criado trouxe então. Os dias estão tão frios e sombrios, desejava eu saber o motivo?- Talvez fosse a chegada do inverno, ou talvez clima estivesse refletindo o humor de Anne, que também estava sombrio, mesmo que ela tentasse esconder sob uma fachada de alegria.– As miladys podem continuar a fazer o de antes.

– Suas damas não vão ficar ressentidas?

– Não elas não vão, todas sabem que quando uma marido deseja falar com a esposa, ele não deseja ninguém por perto.- Frederik poderia concordar com isso, embora fosse necessário que tivesse alguém perto o suficiente para evitar que discussões virassem brigas.– Mas o que você deseja falar? Minhas camélias não serão plantadas sozinhas.

– Chegou uma carta para mim.- Essas simples palavras causaram em Anne um gosto muito ruim, ouve uma grande pausa entre Anne colocar o chá na boca e o engolir, Frederik poderia bem ver como isso no mínimo a assustou.

– É de uma de suas irmãs? Ou de sua mãe?- Era cansativo para Frederik, Anne fazer isso quando ele já sabia que ela tinha conhecimento da resposta.– Isso me lembra que Catherine e Alice também enviaram notícias. O novo bebê de Alice é um menininho chamado Louis, e Catherine está grávida pela segunda vez, não foi ela que disse desejar não ser como eu e estar sempre grávida?

Havia uma grande diferença, para Catherine houve um intervalo de mais de um ano entre o nascimento de Ferdinand, e a nova gravidez, mas para Anne foi apenas seis meses entre o nascimento de Alfred e a gravidez de Henry.

Mas isso só mostrava a Frederik como ele estava certo, as pessoas falavam coisas erradas e repetidas sempre que estavam nervosas, Frederik apenas desejava entender o porquê de Anne não falar logo.

– Foi uma mensagem do rei, e você bem sabe o conteúdo dela.- Eles ficaram em silêncio por um momento, não só Frederik e Anne, mas também as damas de Anne. Mas ele acabou quando Anne, soltou sua xícara, se levantou e voltou para dentro do castelo.– Para onde você vai Anne?

Anne não foi muito longe, apenas foi o suficiente para que suas damas não ouvissem o que eles falavam, mas se poderia ver que Anne estava fazendo seu melhor para manter-se calma.

– Você não é inglês Frederik, não tem a obrigação de servir nem ao rei nem a nação.

– Realmente não sou, mas o rei me fez um coronel do exército...

– A lei diz que os lords tenentes devem proteger os condados e fazer milícias.- Eram realmente muitos pontos Frederik iria concordar, mas havia uma coisa que fazia toda a diferença.– Você não é nada disso.

– O rei me ordenou pegar a Guarda Germânica, que está a serviço do rei, e a liderar para ajudar a proteger a nação.- Anne não deu nenhuma resposta, como Frederik imaginava. No final o mais importante era sempre a vontade do rei e Anne sabia disso.

O silêncio de Anne continuou por um bom tempo, tempo necessário para que ela pudesse pensar em algo e voltasse a mostrar a mesma expressão de sempre, a de frio orgulho.

– Creio então que você irá para Bristol, sendo ela uma grande e importante cidade. Quando será?- Realmente Anne voltou ao normal, até mesmo seu orgulho no falar que tudo mascarava havia voltado.

– Eu não sei, quando o lord tenente disser, ou talvez em uma semana, tempo suficiente para formar algo.

– Está certo então.- Para Anne esse foi então o fim dessa conversa, como sempre era. Mas hoje Frederik não estava disposto a aceitar.

– Ainda não acabou Anne.- A confusão era bem visível em Anne, nunca era assim.– Nós falamos da invasão, falamos do seu jardim, falamos de como eu não sou, e agradeço a Deus por isso, britânico. Mas há outra coisa: o seu medo.

– Eu não...

– Você tem medo Anne, um que eu posso ter ideia, mas não totalmente, um medo que só você sabe, que só você conhece.- Nesse momento Frederik pode a ver a distância entre ele a Anne diminuir. Ela não ousaria o dar um tapa, ou iria?– Por que você esconde ele? Fale dele, me diga! Vamos ser como pessoas normais, e me revele isso.

O tapa que Frederik imaginava que iria levar não veio, o que era uma graça. No lugar veio então um abraço terno e simples, que falava muito.

– Não somos pessoas normais Frederik.- Não era a resposta que Frederik desejava ouvir. Anne o soltou e falou mais.– Apenas volte vivo.

Foi isso, e apenas isso. Depois ela voltou para seu jardim.

*****

24|11|1745 Castelo de Ocenia, Cornwall

Anne não tinha coragem para fazer isso, talvez em sua imaginação sim, mas na prática não. A talvez duas horas, Frederik junto com a maior parte da guarda de Anne em Ocenia, haviam partido para Bristol. A despedida foi cheia de ansiedade, tristeza e esperança, afinal os jacobitas estavam bem longe de Bristol.

Mas enquanto a marquesa viúva, Alfred, Henry e a pequena Anne se despediam de Frederik e da guarda. Anne estava sozinha no escritório do marquês William, não ouve coragem para descer e se despedir. O próprio Frederik teve que vir, e se despedir. Foi o momento mais frio que Anne teve com Frederik, um abraço, um beijo rápido e uma promessa.

Agora Anne estava novamente sozinha no escritório, embora suas damas estivessem certamente do lado de fora esperando, estava ela sozinha e com seus fantasmas. Mesmo que todos esses no momento fossem papéis, sejam eles pinturas ou relatórios de suas propriedades.

Tais relatórios Anne nunca dava muita importância, todos falavam de dinheiro, gastos, ganhos e coisas relacionadas. Ficar olhando para eles era cansativo e as vezes triste, Anne até poderia ser considerada negligente com suas propriedades, mas elas estavam indo muito bem desde 39, e não sofreram muito mesmo quando Anne se tornou marquesa.

Anne não gostava disso, era preferível outras coisas, como relatórios diplomáticos, relatórios que nem Anne, nem seu pai antes deveriam ter, ou mesmo relatórios sobre a própria Grã-Bretanha.

Mas no momento era preferível a Anne se concentrar nas suas propriedades, esse era um modo de esquecer que seu marido estava lutando contra uma rebelião, e que essa rebelião estava acontecendo.

E infelizmente nem mesmo isso fazia Anne se esquecer. Isso lembrava Anne de como Frederik sempre dizia que eles eram como os reis William e Mary, mas ao contrário. Sendo Anne, William, que embora um estrangeiro cuidava mais dos assuntos de Estado; e Frederik sempre se comparava com Mary, que embora fosse de direito a rainha, ela se contentou a um papel menor, quase de rainha consorte.

E nesse momento em específico Anne se lembrava ainda mais dos dois e das semelhanças com ela e Frederik, não só o fato de William ser também holandês. Mas também de que agora Anne estava cumprido o papel de Mary, e Frederik o de William, já que enquanto o rei holandês lutava contra os jacobitas e os franceses, a boa rainha Mary cuidava da nação com mais interesse. Enfim eles estavam cumprindo seu papel, embora esse no momento estava sendo horrível para Anne.

Anne poderia certamente continuar a pensar sobre o assunto o dia todo. Certamente seria rápido considerando que ela havia passado uma hora fazendo isso. Mas Lady Richmond a impediu.

– Minha marquesa, está na hora de minha senhora ir brincar com as pequenas altezas.

– Eu agradeço por me lembrar milady, eu já irei.- Anne sim iria, as suas propriedades poderiam esperar.– Eu preciso de alguém para fazer isso em meu lugar.

Enquanto Anne caminhava para o berçário novamente pensamentos ruins começaram a tomar conta de sua mente, estava sendo cansativo isso para Anne. Só lhe restava então a esperança de que seus filhos a distraisse.

Mas quando Anne entrou no berçário ela encontrou uma pequena surpresa. Sua mãe, a marquesa viúva já estava lá, com sua pequena Anne que estava com brincando com pequenos brinquedos, mas o que mais chamou sua atenção foi Alfred e Henry, que estavam brincando de "guerra".

– Mamãe o que é isso? Você sabe que Alfred não pode se cansar.

– Ele não está se cansando Anne, o próprio Dr. Fritz disse que seria bom ele fazer exercícios.- Mas o Dr. Jarvis havia dito o contrário. Mas um era inglês e o outro holandês, e Anne preferia o conselho do primeiro.

– Eu não irei fazer nada então. Mas por que meus filhos não vem me cumprimentar?

Não ouve resposta, pelo menos não dos mais velhos. Apenas a pequena Anne foi trazida pela ama.

– Minha príncesa sim vem me ver. Está tão grande, e bela. E ela é tão inteligente.- Anne estava muito satisfeita com sua filha, na verdade estava com todos os seus filhos. Eram crianças saudáveis, inteligentes e bonitas.– É a minha imagem, todos são.

– Sim. Mas a pequena Anne tem os olhos de um Orange, e Henry se parece muito com Frederik.

Não ouve tempo para Anne responder. Um choroso Henry veio até Anne para reclamar de algo que só depois de muita insistência Anne pode entender.

– M-mamãe. Alfred... Alfred me machucou com a espada.- Não seria algo muito ruim, se Henry não estivesse chorando. E Anne não gostava ouvir choro.

– Alfred! Me diga o motivo disso.- Anne esperava que Henry logo parasse de chorar, e que Alfred não começasse a fazer o mesmo.

– E-ele me venceu e eu não gostei.

– Não podemos vencer sempre. Peça perdão.

– Está certo mamãe. Desculpe Henry. Por favor não me castigue mamãe.‐ Alfred abaixou a cabeça e começou a fungar. Era melhor então dizer algo a mais, Anne não queria ouvir mais choro.

– Não vou lhe castigar. Mas chegue mais perto.- Alfred parou de fungar e se aproximou. Um bom menino, como sempre.– Nunca mais machuque seus irmãos, nem se estiver com muita raiva faça isso. Assim como não faça isso a ninguém, um príncipe Tudor-Habsburg é sempre gentil e bondoso, é sempre um verdadeiro cavalheiro. Me entendeu Alfred?

Anne fez seu melhor para ser doce, o que só conseguiu fazer no final. Anne bem se lembrava que sua mãe falou a mesma coisa anos antes, mas foi de uma forma muito mais gentil. Mas Alfred assentiu, então Anne não precisava se preocupar. Mas para tentar ser mais gentil Anne também beijou a testa de Alfred.

– Mamãe o que são... jaco... jacobitas?- A pergunta de Alfred assustou um pouco Anne, era difícil pensar em uma simples explicação.

– Eu também quero saber. Papai disse que ia parar a rebelião dos jacobitas mas não nos explicou o que é isso.

Anne não tinha uma resposta simples para Alfred e Henry, então com um olhar para sua mãe, a marquesa viúva fez esse trabalho.

– Eles desejam tirar a coroa do rei, e colocar no lugar o filho de alguém incapaz.

– Isso é horrível, se isso acontecer Georgie nunca vai ser rei.- Era uma alívio Alfred pensar assim, isso significava que ele mesmo jovem ele era muito leal ao futuro rei. Isso seria útil no futuro.

– Mas não se preocupem, papai não vai deixar que isso aconteça. Vamos brincar agora?

Falar da rebelião não era no momento bom. Fazia Anne sentir medo e tristeza. Mas brincar com suas três crianças a fez esquecer por um momento isso, apenas por um momento.