A Magia de Luz
1 Prólogo
Notas iniciais
Depois de muito tempo sem escrever esta história, resolvi voltar a postá-la.
Excluí a versão anterior, pois mudei bastante coisa. Espero poder contar com vocês neste projeto. Estarei aguardando comentários, críticas e opiniões.
Boa leitura a todos!!
PRÓLOGO
Aquela noite tinha sido agitada. O velho Benjamin percorrera suas últimas horas se revirando em sua cama, remexendo os lençóis. Perdera a conta de quantas vezes havia se descoberto, jogando os panos para o lado com repulsa, e novamente se coberto, após sentir a frieza do inverno lhe acariciar a pele. Quando envolto nas cobertas, sentia-se sufocado. Quando descoberto, o frio o torturava causando tremores.
Nisso as horas passaram e a manhã começou a dar seus sinais. A cada minuto a luz intensificava-se um pouco mais. Ficar tanto tempo acordado possibilitou aos seus olhos se acostumarem com a escuridão noturna. Com a manhã chegando, era possível ver cada detalhe do quarto mal iluminado. Benjamin olhou para a cama improvisada ao lado da sua. Nela seu neto dormia.
Havia cerca de um mês que Theo fora mandado pelo pai para viver com o avô. O velho providenciara um quarto para o neto, ao lado do seu. Um cômodo que antes era uma despensa e estava servindo apenas para guardar entulho. O quarto foi limpo e esvaziado, mas quem disse que o menino aceitou dormir sozinho?
Benjamin não podia recriminá-lo. Theo mal completara seus oito anos de idade e já havia perdido sua mãe. Como se não fosse suficiente, seu pai agora o mandava para viver longe. Não era de se estranhar que o garoto se sentisse rejeitado e quisesse evitar ficar só, mesmo que apenas durante a noite. Dessa forma, a opção que o velho Ben achara para resolver a situação foi colocar o neto para dormir consigo.
Finalmente veio a primeira luz do alvorecer e Benjamin não esperou mais para se levantar. Fez a própria cama usando apenas a mão direita. O braço esquerdo pendia morto do seu lado. Dois anos atrás o experiente caçador havia tido o infortúnio de deparar-se com uma cobra-madeira. Uma víbora traiçoeira cujo corpo camuflava-se nas árvores que habitava. Tal animal era possuidor de um veneno tão poderoso que Ben só não morreu devido a um milagre concedido por Lorenna, a Deusa Caçadora. Entretanto, sua vida de caçador terminava nesse episódio. Perdera todo movimento e sensibilidade do braço picado pela cobra, desde o cotovelo até a ponta dos dedos.
Vestiu-se rapidamente e atou o membro imóvel junto ao corpo. Os dois últimos anos o ensinaram a não ter dificuldade com esse tipo de tarefa.
Chegou perto de Theo e reforçou suas cobertas pondo uma grossa manta sobre o menino adormecido. Aquela manhã estava particularmente fria. Afastou uma mecha castanha da testa do menino e a beijou. Antes de sair do quarto, pôs também sobre si uma capa e foi até lá fora para lavar o rosto. Percebeu que o dia ainda nem clareara direito. A atmosfera estava ainda exibindo seus tons cinza pelo ar. Foi até a cacimba, de onde tirou um pouco de água. O contato da água gelada na pele serviu para deixá-lo ainda mais alerta.
Entrou novamente na casa apenas para equipar-se. Fitou a parede onde estavam expostas as suas armas de caça, além de vários aparatos para preparo de armadilhas. O mostruário era bem variado, havia lanças de diversos comprimentos, arcos curtos e longos junto com aljavas repletas das mais diversificadas flechas, havia uma besta e dardos para serem usados nela, e também tinha armas mais primitivas, como fundas e bumerangues. A sua primeira opção sempre era o seu velho arco feito de pau-marfim, pelo menos até ele se lembrar que já não podia usar arco e flecha. Por fim escolheu um conjunto de lanças curtas de arremesso. Em seguida apanhou o material necessário para passar vários dias na mata. Na bagagem havia uma barraca para guardá-lo do frio e utensílios para ajudá-lo a preparar suas refeições, bem como uma bolsa com medicamentos, para qualquer eventualidade.
Ao sair de casa percorreu o olhar pela vila até encontrar quem procurava.
– Mãe Branka. – chamou ao aproximar-se da mulher sentada em sua costumeira cadeira na frente da sua casa.
Mãe Branka era a mulher mais velha da vila Zafira, a matriarca que tinha em cada morador dali um filho seu. Desse modo, Benjamin, com cinquenta e oito anos, era o seu filho mais velho. Ela era sempre a primeira a acordar. “Quanto mais idosas as pessoas, mais cedo elas acordam. Não temos mais tanto tempo a perder dormindo”, era o que dizia a amável velhinha, que já ultrapassara os seus noventa anos e caminhava tranquilamente para seu centésimo aniversário. Já não temos tanto tempo, “vemos nosso fim chegar mais e mais perto a cada dia. E cada dia que chega queremos viver ao máximo”, ela explicava.
– Benjamin, meu filho, de pé assim tão cedo? – analisou-o por uns segundos e prosseguiu. – Teve uma noite sem sono, não foi? O que te atormenta?
Ben sorriu para ela e então se agachou para ficar na mesma altura.
– Sempre sabe o que se passa no coração de cada um, não é? – acolheu as mãos enrugadas e delicadas da senhora entre as suas. Então respondeu. – Mãe, eu não sei o que é isso. É uma urgência que eu tenho. Há algo para mim na floresta. Não sei o que é, mas sei que é importante.
– Tem que ir. A floresta vive. Se ela te chama, vá. Filho, ela quer te mostrar algo.
– Não sei quanto tempo ficarei lá. A senhora...
– Não se preocupe. Eu olho o menino. – ela o antecipou.
– Fique com ele. Não deixe que se sinta solitário. Theo tem sofrido tanto desde que veio pra cá... Não deixe que ele pense que eu o abandonei. Volto o quanto antes.
A velhinha anuiu com um sorriso gentil.
– Que Lorenna te acompanhe e te guarde dos perigos. – ela orou.
Benjamin rumou para a floresta para saber que assunto ela tinha a tratar com ele. Adentrou aquele lugar tão familiar para ele. Estivera ali diariamente durante toda a sua vida, conhecia cada árvore e cada pedra dali como se fosse um objeto de sua casa. Entretanto naquela gélida manhã algo parecia diferente. Havia algo a mais ali hoje, algo que teria que ser encontrado.
Aqui estou... Mas e agora? O que eu faço? O que procurar? O velho Ben ouvira o chamado, entretanto não sabia exatamente o que fazer.
Percorreu a mata durante muitas horas. Logo notou como fazia tempo que não entrava tão profundamente na floresta. Quanto mais penetrava, mais forte sentia a inquietação em seu peito.
A manhã veio e se foi rapidamente. No seu decorrer, Ben parou sua busca apenas para fazer uma refeição rápida. Caçou um coelho de pelo acinzentado e ligeiro. Preparou-o e comeu até saciar a fome. O que sobrou ele guardou para mais tarde.
Mais tarde chegou mais cedo do que Benjamin previra. A tarde passou por ele sem ser notada e de repente o sol já estava se escondendo por detrás das árvores, tornando-as negras contra a luz. Resolveu acampar ali, antes que ficasse escuro demais. Banqueteou-se com o restante da caça e deixou a fogueira acesa para afastar tanto as feras da floresta quanto o frio da noite. Montou sua barraca e adormeceu.
O dia seguinte e o posterior a esse foram réplicas do primeiro, com exceção do animal que caçou: um pato selvagem num dia e uma lebre no outro. Os dias passaram também com a mesma velocidade. Quando veio o crepúsculo do terceiro dia, Benjamin encontrava-se à margem do principal afluente do Divisor, um caudaloso rio que nascia no alto das montanhas e cruzava todo o continente dividindo-o.
Sem um barco, o Divisor era intransponível devido aos seus muitos metros de largura, mas seu braço esquerdo, o Corta-mata, era bem mais fino e mais a leste Ben sabia que havia uma ponte para cruzá-lo.
O velho caçador fitou o céu e pôde ver as primeiras estrelas nele se desenhando. Enquanto o sol escondia-se no poente, a pequena lua surgia tímida no lado oposto, em sua fase minguante. Era chamada de Menina. Sua irmã mais velha, a lua de nome Donzela, já pairava pálida no alto do céu ainda claro, de braços abertos para receber a menor. Estivera lá durante o dia também, em sua fase crescente quase cheia, agora esperava a noite vir para que pudesse mostrar ao mundo seu belo vestido prateado.
Apesar do anoitecer iminente, Benjamin recusou-se a recolher-se. Aquela sensação de urgência voltava a atingi-lo.
Olhou para além do rio estranhamente ansioso. É lá... O que quer que eu vim buscar está logo ali, do outro lado, ele soube. Então Benjamin ignorou as sombras que se espalhavam sobre a floresta e rumou em direção à ponte que o levaria para a outra margem. Quando lá chegou, o sol já havia morrido no horizonte, entretanto a noite estava luminosa. Agradeceu a Lorenna por aquele ser um ano agraciado pela presença da Donzela.
Atravessou o rio com o coração aos pulos. Estava perto, ele sabia. Seguiu o curso d’água em direção à jusante. Não demorou muito até que finalmente a viu. Mais à frente, numa clareira iluminada pelo luar, jazia o corpo de uma criança. Os últimos metros foram percorridos correndo. Ajoelhou-se ao seu lado e tocou-lhe a face. A pele muito branca estava gelada, mas as bochechas e a ponta do nariz estavam coradas pelo frio, o que deu a Benjamin a esperança de que a garota estivesse viva. Pôs o dedo sob o nariz e confirmou. Para seu regozijo, ela respirava, ainda que debilmente.
– Ei! Menina. – chamou inutilmente.
Retirou sua capa. Cobriu a menina e a acolheu em seu único braço móvel, sacudindo-a de leve. O frio doeu-lhe as articulações, mas ele suportou.
A menina não devia ser mais velha que Theo. O que uma criança tão pequena faz aqui?, Ben perguntava-se. Buscou ao redor por alguém, alguma coisa ou algum indício que explicasse a presença de uma criança desacordada numa floresta como aquela. Foi em vão. O único povoado que havia perto dali era Zafira, a estrada ficava há dias de onde estavam. Poderia ter vindo pelo rio? Ben cogitou, mas o rio nascia nas montanhas, logo em seguida havia uma queda d’água razoavelmente alta e quilômetros de rio corriam depois dela. Não sobreviveria às águas frias. Olhou para cima e a Donzela lhe retribuiu o olhar. Pensou por um momento que poderia ter caído diretamente da lua, mas logo descartou a ideia.
Todavia, não havia tempo para isso. Apressou-se e seguiu para casa.
A jornada de volta para casa foi difícil. Com muita dificuldade Benjamin conseguia alimentar a menina, que continuava num estado semi-inconsciente. Pelo menos, agora aquecida, parecia ter a respiração mais estável. Isso era um alívio.
A tarde do terceiro dia de viagem já definhava e o anoitecer logo chegaria. Entretanto, Ben estava quase chegando a Zafira e nas proximidades da vila os perigos eram muito menores. Decidiu não parar para acampar essa noite.
As luas estavam altas no céu noturno quando chegaram ao povoado. Como se o tempo não tivesse corrido, a primeira pessoa que Benjamin viu foi a velha matriarca Branka, sentada em sua costumeira cadeira na frente da sua casa.
Ao vê-lo carregando aquele embrulho, a senhora não pôde evitar que um arquejo de surpresa se soltasse. Aproximou-se com seus passinhos diminutos e cautelosos e as costas curvadas sob a idade. Já desconfiava do que se tratava. Chegando a ele, conferiu sua suspeita. Depressa a matriarca despojou-se de sua manta e cobriu os dois com ela.
– Uma criança... – ela proferiu em um tom entre a dúvida e a surpresa.
– Me ajude, Mãe. – pediu com a expressão aflita. – Ela não acorda!
Enquanto falavam já se dirigiam até a casa. Quando entraram foram diretamente para o quarto que fora reservado ao neto. Ben depositou a menina na cama também preparada para o menino e perguntou:
– Onde Theo está? – não o havia visto ao entrarem. Estava preocupado com a reação do menino à sua ausência de quase uma semana.
– Ele já dorme, não se preocupe, querido. – Branka o confortou. – Mas e esta princesinha?
A matriarca analisou a garota inconsciente. Apesar de meio esfarrapado, provavelmente pelos dias que passara na mata, seu vestido era admirável. A idosa tocou-lhe uma das bochechas rosadas e afastou uma mecha cacheada do rosto. A pele alva era macia. O cabelo, em uma tonalidade suave e delicada de verde claro que puxava para cinza, era macio e bem cuidado. Bem poderia se tratar mesmo de uma princesa, ou pelo menos de alguém com algum dinheiro, mas aquilo destoava ainda mais do fato de ela ter sido encontrada em meio à floresta.
– Estava desmaiada depois do Corta-mata. – Ben explicou. Trazia no único braço todos os cobertores que achou na casa. – A encontrei já faz três dias. Ela não acorda. – havia desespero e medo em sua voz.
Branka o acariciou as costas para confortá-lo.
– Ela ficará bem. A Floresta lhe guiou até ela e você a encontrou. A Deusa não é assim tão cruel a ponto de dar-lhe esperanças apenas para tomá-la de volta. – o ajudou a cobrir a garota adormecida. Reservou as duas últimas cobertas e entregou ao filho. – Agora precisa cuidar de se aquecer também. Já não é mais nenhum menino e sei que passou frio nesses dias. Esses seus velhos ossos devem estar congelados.
E realmente estavam. Benjamin tentara não transparecer as dores nos ossos e articulações, mas parece ter sido em vão. Ainda tentou protestar e ficar ali cuidando da menina, mas Branka completou:
– Eu fico aqui esta noite. – lançou o olhar para a porta. – Ora! Veja só quem acordou.
Só então Ben viu o menino que chegava à porta, enrolado no cobertor demasiado grande que se arrastava no chão. Provavelmente acordara com o barulho dos dois velhos. Theo correu até o avô, levando consigo a pesada manta. O homem abaixou-se para receber o neto num abraço de um braço só.
– Vovô, o senhor demorou. – ele reclamou e logo se ateve à garota na sua cama. – Quem é?
– O vovô foi buscar essa menininha. Ela estava sozinha na floresta, não podia deixar ela lá, não é? – Ben tentou explicar, mesmo sem saber quem era aquela criança.
– O que ela fazia lá? Vai morar aqui com a gente? Como é o nome dela? – deu mais uma olhada na menina, sua curiosidade infantil transbordando. – Ela é bonita. – comentou por fim.
– Sim, vai ficar aqui. Por um tempo. – foi a única questão que pôde responder. O menino o fitava esperando respostas para as demais.
– São muitas perguntas, Theo. – Mãe Branka interveio. – Por que não pergunta para ela quando ela acordar? Seu avô está cansado, precisa dormir agora. – a última frase foi dirigida ao filho mais velho.
O homem obedeceu e retirou-se para seu quarto. Estava deveras cansado. Branka, como prometido, ficou para cuidar daquela criança desconhecida e desacordada, na esperança de poder desvendar esse segredo ao amanhecer, quando ela despertasse. Theo fez questão de ficar com a velhinha, que ainda não se acostumara a chamar de mãe. Era muito estranho para ele chamar de mãe a mãe do seu avô. Aquela foi a primeira noite em que o garoto dormiu no quarto que há muito lhe fora oferecido.
O dia veio devagar. Nem Theo nem Branka dormiram satisfatoriamente. O menino, devido a sua ansiedade, e a velha, devido a sua preocupação. Ambos agora cochilavam em uma velha poltrona ao lado da cama, o garoto aninhado no colo da senhora, cobertos pela manta quente e macia trazida arrastada por Theo.
Os raios solares que entravam pelas frestas da janela do quarto ainda estavam tímidos quando Benjamin adentrou o aposento. Tentou ser silencioso, mas mesmo assim acabou acordando os outros. Entretanto os olhares dos que despertaram não se moveram para onde ele estava e, sim, para a menina. Ela estava sentada na cama, alternando olhares assustados para o estranho que entrava e os dois estranhos que vigiavam seu sono, antes de ela despertar.
Continua...
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