Admirei as inscrições na parede da tumba. Pareciam recém-pintadas, diferente de todas as outras velharias na pirâmide. Podia ver milhares de hieróglifos nas mais diversas cores, que pareciam quase brilhar. Aquela visão fez com que eu praticamente me esquecesse de todos os anos de estudo de arqueologia, esquecesse minha fascinação pelas antiguidades egípcias e sua mitologia. De repente um impulso tomou conta, e nada iria me parar. Andei em direção à parede e retirei um escaravelho verde que para qualquer um pareceria parte da pintura, mas de alguma forma eu sabia como desencaixá-lo.

Antes que pudesse colocar o escaravelho no lugar que meu instinto mandava, a razão tomou conta de mim, e me perguntei por que estava fazendo aquilo, e o que aconteceria se eu o fizesse. Este pensamento desencadeou diversos outros, entre eles uma lenda que ouvira alguns alunos contando, na época da faculdade. Na época eu não dei muita importância, nem sequer me lembrava dela... Até agora. Tinha tudo a ver com o lugar onde me encontrava. E não era boa coisa.

Então o escaravelho criou vida e voou de minha mão, indo com extrema velocidade em direção ao lugar onde eu o teria encaixado se não tivesse me lembrado da lenda. Tentei impedi-lo sem sucesso, e vi minha vida passar pelos meus olhos quando ele se juntou à pintura novamente. Se a lenda fosse verdade, este seria o meu fim, bem como o do Egito inteiro.

Não tive nem tempo para ter esperança de que a lenda fosse um boato, instantaneamente as inscrições na parede começaram a brilhar a ponto de me cegar, e quando a voltei enxergar, estava no meio de um turbilhão barulhento que cortava minha pele através das roupas. Percebi que eram milhares de escaravelhos voadores, e que, de acordo com a lenda, eles anunciariam a desgraça do Egito assim que saíssem pelo alçapão que me trouxera a esta tumba. Eu não podia deixar isso acontecer.

Com dificuldade, agarrei uma granada em minha mochila a atirei-a na parede pintada. A explosão foi maior do que o esperado, meus sentidos se confundiram, minha cabeça rodava, uma dor excruciante se espalhou pelo meu corpo, e eu desejei morrer. Mas isto não aconteceu. Logo meus sentidos voltaram a funcionar, minha cabeça e meu corpo relaxaram, e eu me levantei ainda dolorido. Percebi que a explosão causara alguns desmoronamentos, e agora o alçapão – a única saída – estava fechado. O turbilhão de insetos continuava a me machucar, e eu então me lembrei do fim da lenda contada há tanto tempo:

"Se o libertador da desgraça conseguir impedir a saída dos escaravelhos, ele se tornará imortal...", dissera ele. Uma onda de euforia tomou conta de mim. Conseguira impedir a saída dos escaravelhos, poderia realizar meu sonho, teria tempo para estudar toda a história do mundo, e vivê-la até seu possível fim.

No entanto a euforia foi substituída por desespero ao me lembrar da última frase da lenda: "... vivendo em um sofrimento eterno, só podendo descansar em paz ao engolir um dos escaravelhos. Porém, se o fizesse, o fim seria não só do Egito, mas do mundo todo."

O fim do meu sofrimento depende do fim do mundo. E de eu comer um escaravelho. Sem pressão.

Notas finais
Considerem que escrevi isto na madrugada do dia de entrega, e que tinha que caber em uma folha XD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!