Papai sairá mais cedo para ver a filha de Caliandra. Olho para o relógio, ainda faltava algumas horas até eu encerrar o expediente. Eu estava com fome, vou até a cozinha pegar algo para comer.
-Lucinda, posso pegar algo para comer? -pergunto para ela, que era uma das cozinheiras.
-Claro, tem um pedaço de bolo em cima da mesa.
-Obrigado.
Lucinda era muito gentil, ela trabalha aqui a muito tempo, até mesmo antes de eu vir a nascer.
Pego o pedaço de bolo, era de chocolate meu preferido, e volto para a biblioteca. Sento em minha cadeira e fico observando as estantes. Eu achava tão irônico, alguém que trabalhava na biblioteca e não podia ler.
Eu achava essa lei totalmente sem sentido, mas deveria haver algum motivo para ela existir. Campelle, era cheia de segredos e mistérios. E pra que servia aquele muro, se existe somente nos no mundo pra que nos isolarmos do "nada"?
Me lembro no meu primeiro dia de aula, eu havia perguntado para a professora se havia algo além dos muros. Ela disse que havia uma escuridão total, que o nosso mundo era só Campelle.
Termino meu pedaço de bolo e fico muito mais imersa nos meus pensamentos. Começo a reparar na biblioteca, seus livros eram catalogados por cor. Uma prateleira para os verdes, outra para os azuis, e por aí vai.
Acordo de meus devaneios, eu tenho trabalho para fazer. Me levanto e vou catalogar alguns livros que haviam sido retirados anteontem.

***

Novamente me envolvo com um livro, só que dessa vez não era de fantasia, era de algumas receitas culinárias. Olho para o relógio 21:50, pego me casaco e saio da biblioteca.
Me dirijo até a saída dos fundos, saio e vou em direção a minha casa. O vilarejo era bem perto do palácio, o caminho durava no máximo vinte minutos.
Começo a andar e meu olhar foca na floresta, ela ficava ainda mais incrível a noite. O céu estava repleto de estrelas, mas o que mais chamava a minha atenção era a lua, ela estava fraca. Como se ela achasse que iria acontecer algo ruim.
Apresso meus passos, eu não queria chegar tarde de mais em casa.
Quando já se dava para ver o vilarejo noto algo diferente, ele estava muito mais claro que o de costume. Chego mais perto, e percebo a diferença, ele está em chamas.
Todas as casas queimavam em um fogo que se espalhava por toda a vila. Olho para o grande relógio, marcava 22:10.
Caliandra, papai, Iris; ao me lembrar de minha família corro até a casa de Caliandra.
Ela estava totalmente coberta de fogo, entro pela porta dos fundos e começo a procurar por eles.
-Papai, Caliandra -grito em meio a fumaça- tem alguém aqui?
A casa estava quente e minha respiração se dificultava a cada segundo que se passava. Olho para o pela janela e vejo toda minha família do lado de fora, eles estava queimados e feridos.
-SOCORRO -grito.
Vou em direção à porta, quando uma tábua de madeira cai sobre mim, e depois disso, só me lembro da escuridão.

***

Acordo em um lugar diferente, era um pequeno cômodo, com paredes de madeira. Me levanto eu vestia um vestido simples branco, eu não me lembro de vestir aquele vestido; minhas pernas estavam enfaixadas e também havia um curativo em me braço direito.
Vou andando até a porta é a abro. Uma menininha de cabelos negros vem em minha direção sorrindo.
—Eu pensei que você nunca mais fosse acordar -diz ela com um tom de voz brincalhão- meu nome é Elora, e o seu ?
—Eu não me lembro -digo sentindo minha cabeça girar.
Onde eu estou? Quem eu sou? Várias perguntas como essas amontoavam minha mente, a única coisa que eu me lembrava era de fogo. A menina me observa com uma expressão curiosa.
—Você tem cara de -ela fez uma pausa para pensar- Rose, que tal?
Ela estava tão animada, seu sorriso era enorme, mal cabia em seu rosto pequeno, não queria desaponta lá.
—Amei, então eu sou a Rose -digo e ela sorri- mas, então Elora, você sabe como eu vim parar aqui?
—Você deveria falar com meu irmão, ele chegará daqui algumas horinhas -ela diz- até lá você pode me ajudar a preparar algo para o almoço.
—Tudo bem.
Vamos para a cozinha e Elora começa a pegar as panelas. Eu não me lembrava como se cozinhava, nem ao menos uma ervilha. Ela vai até um armário e pega algo.
—Você sabe ler? -ela pergunta.
—Posso tentar.
Meus olhos passeiam pela palavras escritas, eu me lembrava. Eu me lembrava como se lia, não podia ser grande coisa, mas ao menos eu me lembrava de algo.
—Sim, eu sei -digo sorrindo comigo mesma.
—Que tal fazermos, isso aqui -ela diz apontando para uma receita.
—Peixe assado? -pergunto.
—Sim.
—Então vamos fazer peixe assado.
Enquanto cozinhávamos Elora me contava como era sua vida. Ela tinha 11 anos, e dois irmãos um mais velho que ela, e outro que tinha 4 anos. Eles se chamavam Derik e Ian. Ela disse que Iam estava dormindo no quarto do irmão, e que Derik estava trabalhando.
Elora era uma menina adorável, mesmo tendo perdido os pais, ela e os irmão viviam um para o outro. O livro de receitas era uma herança da mãe que amava cozinhar, ela me contará que ela e Derik sabiam ler, e me fez jurar guardar isso em segredo.
—Elo quem está aqui? -aparece um garotinho esfregando os olhinhos, vindo em nossa direção.
—Ian, essa é a Rose -diz Elora me apresentando.
—Oi -digo para ele- você está com fome?
—Sim.
Ele se senta na cadeira, e Elora se levanta para servir a comida. Ela realmente era muito madura para sua idade. A porta se abre e escuto os sons de passos vindo até a cozinha.
—Derik você chegou na hora certa -diz Elora.
Derik entra pela porta, ele tinha cabelos negros e olhos azuis, usava uma jaqueta marrom desgastada e uma calça jeans.
Ele deve ter percebido que eu o olhava, já nossos olhares se encontraram.
—Elo, eu trouxe o remédio Ian -diz Derik entregando o pacote para ela.
—Eu não quero tomar esse remédio — Ian diz fazendo uma careta- ele tem um gosto azedo.
Derik vai na até onde Ian estava e se agacha. Ele retira uma balinha do bolso e entrega nas pequenas mãos de seu irmão.
—Se você tomar seu remédio certinho, você vai ganhar mais balinhas -Derik diz e Ian sorri.
—Pode deixar, eu tomar ele certinho.
—Você sempre arruma um jeito de convencê-lo -diz Elora sorrindo.
Derik se levanta e vem em minha direção.
—Sou Derik, e você ? -diz ele estendendo a mão.
—Sou Rose -digo para ele- será que poderíamos conversar ?
—Sim, sem problemas.
-Vamos comer primeiro -diz Elora- comida fria não é bom.
Nos sentamos na mesa e começamos a comer, realmente a comida estava boa. Durante toda a refeição, eu não conseguia tirar os olhos de Derik.