A Madrugada - Fred Weasley
1 A Madrugada
Notas iniciais
Agora, aqui deitada na relva, sinto a brisa fresca da madrugada afagando-me os cabelos e as recordações dos últimos momentos que passamos juntos tomam de assalto a minha mente. Durante a batalha, quando a adrenalina e o desejo de vingança tomaram conta da minha alma a dor era menos aguda, suportável até. Agora, ela perfura a minha alma como facas que me apunhalam repetidamente, sinto-me como um horcrux a ser despedaçado, uma sensação muito pior que a causada pela maldição cruciatos, talvez até pior que a maldição de morte. Quem me dera estar no lugar dele! Quem me dera ter sido eu a morrer! Teria sido rápido, fácil até. E, neste momento, não estaria aqui deitada na relva, a morrer lenta e dolorosamente por dentro.
As lágrimas teimam em manter-se dentro do meu organismo e, como um ácido, corroem o meu coração. O que eu dava para simplesmente, poder arrancá-lo do peito. E, enquanto esta dor me despedaça a alma, as memórias daquela noite torturam-me a mente.
***
– Fred! – disse eu correndo na sua direção e lançando-me nos seus braços para o abraçar. Ele retribuiu o abraço e beijou-me. Há três meses que não nos víamos, no entanto, a sua boca tinha o mesmo hálito fresco e os seus lábios continuavam quentes e macios.
– Oh Romeu e Julieta! Importam-se? Estamos na presença de menores de idade! – gracejou George.
Os nossos lábios separaram-se mas continuamos abraçados.
Todos os que se encontravam na Sala das Necessidades se riram.
– Estás é com inveja, oh Desorelhado! – respondeu-lhe Fred.
E, novamente, a sala se encheu de gargalhadas.
No entanto, todos se calaram quando a porta da Sala das Necessidades se abriu e por ela irrompeu um Harry cansado e desorientado.
***
Eu, Fred e George no estávamos no corredor do quarto andar. Tínhamos acabado de armadilhar a última passagem secreta para fora do castelo, não fosse dar-se o caso de os Devoradores da Morte conseguirem romper os feitiços de proteção que os professores tinham lançado.
– Fred! George! O Kingsley precisa de duas varinhas lá em cima, na Torre de Astronomia.- informou-os Remus e de seguida virou-se para mim — Elisabeth! O Seamus e o Dean precisam da tua ajuda no Salão Nobre. Eles disseram para trazeres o maior número de vassouras que conseguires arranjar e para levares os alunos que fazem parte das equipas de Quidditch.
Remus acabou de dizer isto e continuou o seu caminho, atravessando rapidamente o corredor.
– Porreiro! Já viram? Vamos derrotar os Devoradores da Morte num jogo de Quidditch. Não tem qualquer hipótese contra nós! – disse eu para os gémeos e todos começamos a rir às gargalhadas.
– É melhor irmos, senão o Kingsley ainda se passa. – disse o George.
– Pois, eu também! Tenho de ir chamar os melhores jogadores de
Quidditch se queremos ganhar aos Devoradores da Morte. Acham que o Quem-nós-Sabemos é um bom jogador?
– Nã... – respondeu o Fred — Já alguma vez viste um Slytherin a jogar bem?
– O mais certo era fugirem de medo assim que nos vissem montados nas vassouras.
E novamente todos irrompemos em gargalhadas.
Aproximei-me do Fred e beijei-o.
– Não matem os Devoradores da Morte todos sozinhos, deixem alguns para mim! – disse aos gémeos com um sorriso travesso – E, George! Toma conta dele.
– Prometo!
Dei um beijo rápido ao Fred e disse-lhe:
– Até já!
– Até já! — respondeu ele, afastando-se a correr atrás de George na direção da Torre de Astronomia.
***
Eu corria ao longo do corredor do sexto andar.
– LUNA! LUNA! – chamei-a e corri para a alcançar. – Luna, viste o Fred?
– Acho que estava no sétimo andar com o Percy!
– Obrigada!
Corri por entre Devoradores da Morte, alunos e professores que duelavam, abrindo caminho entre eles e lançando feitiços a Devoradores da Morte. Consegui, então, alcançar a escada que dava para o sétimo andar. Ouvi barulho de combates vindos do corredor. Lá estava Fred, Percy, Ron, Harry e Herminone e dois Devoradores da Morte jaziam no chão. Um deles era o nosso adorado Ministro da Magia, Pius Thikness, que estava transfigurado, o outro que eu não consegui identificar, tinha sido atordoado.
– Estás mesmo a gozar, Perce... – disse Fred – Acho que não te ouvia gozar desde que tinhas...
E, de repente, uma barulho ensurdecedor cortou o ar. Num ato reflexo, tentei proteger a cabeça com as mãos e, em simultâneo, agarrar a varinha. Momentos depois, estava parcialmente soterrada por pedras e pedregulhos. Abri os olhos, mas a poeira bloqueava-me o campo de visão. Consegui libertar-me daquelas pedras e corri na direção de três cabeças ruivas. Naquele momento, só queria abraçar o Fred e dizer-lhe que estava bem, que estávamos todos bem. Mas, algo de estranho se passava.
– Não... não... não! – gritava Percy – Não! Fred! Não!
Será que o Fred estava ferido? Porquê que o Percy estava tão desesperado?
Quando, finalmente consegui alcançar aquelas três cabeças ruivas, empurrei o Percy para o lado e debrucei-me sobre Fred.
O que é que se passava? Porque é que ele não se mexia? Porque é que ele não me abraçara e me beijara assim que me vira? Porque é que ele se mantinha quieto enquanto o pobre Percy gritava por ele?
– Fred! – chamei-o – Deixa-te de brincadeiras! Porque é que não te mexes?
Porque é que ele não me respondia? Ele sempre respondia quando ouvia a minha voz!
– Fred! Olha para mim! Sou eu, a Lizzy, estou aqui! – falei eu, num tom de voz mais alto.
Olhei em volta, todos estavam ali, o Harry, o Ron, a Hermione e o Percy e todos me olhavam como se estivessem à espera que eu percebesse algo muito óbvio.
– Lizzy, o Fred está... – Hermione não conseguiu acabar aquilo que me estava a dizer, pois começaram a surgir maldições vindas de todos os lados.
– Baixem-se! – gritava o Harry.
E, mesmo assim, mesmo com todas aquelas maldições a vir na nossa direção, Fred não se mexeu e, foi então, que aquele macabro puzzle começou a montar-se lentamente na minha cabeça. Fred sempre me protegera dos perigos. Lembrava-me de uma vez, há quatro anos atrás em que durante um jogo de Quidditch eu havia caído da vassoura e ele se tinha lançado numa descida vertiginosa para me apanhar. Ou, daquela vez, há dois anos atrás em que o Filch nos tinha incriminado de lançar bombas de bosta nos corredores e o Fred tinha ido dizer à Umbridge que tinha sido apenas ele, no entanto, como eu também tinha ido dizer à Umbridge que tinha sido apenas eu, isso resultou num castigo para ambos. Fred nunca permitiria que nada de mal me acontecesse se pudesse evitá-lo. Se ele ainda não se tinha levantado para lutar contra as maldições que vinham na nossa direção era porque, de facto, não podia. Era porque, como Hermione me estava a tentar dizer, ele estava morto. Neste momento, tinha que ser eu a protegê-lo. Eu tinha de proteger não o seu corpo, mas a sua alma. Tinha de garantir a segurança daqueles que ele ama e matar aqueles que o mataram a ele.
–Percy! Não podes fazer nada por ele, Percy. Vamos... – dizia Harry a Percy, que estava deitado sobre o corpo de Fred.
Hermione soltou um grito. Virei-me e vi uma acromântula a tentar entrar no castelo por um dos buracos abertos na parede. Harry e Ron derrubaram-na com feitiços de atordoar.
– Trouxe as amigas! – gritou Harry.
Vi então, umas quantas outras aranhas gigantes entrarem pelo mesmo buraco na parede. Eu e Harry gritamos feitiços de atordoar que fizeram a aranha da frente rebolar a cair através do buraco por onde havia entrado, levando as outras consigo em efeito dominó.
– Vamos embora, JÁ!- gritou Harry – assim que começaram a chover mais maldições.
Eu, Harry e Percy, transportámos o corpo de Fred para um nicho onde antes estava uma armadura escondendo-o bem. Harry e Percy saíram dali de imediato, no entanto, eu deixei-me ficar ali, olhando o corpo inerte de Fred.
– Desculpa ter chegado tarde de mais... – disse-lhe e pela primeira e única vez naquela noite, as lágrimas escorreram-me pelo rosto — ...tarde de mais para te salvar... tarde de mais até, para me veres uma última vez antes de morreres. – fiz uma pequena pausa — E, desculpa agora abandonar-te aqui. Mas tenho que continuar a lutar, para te vingar, para proteger aqueles que amas... Devo-te isso e prometo que vou fazer os impossíveis para evitar que mais algum Weasley morra hoje. Sei que é isso que queres que faça.
Debrucei-me sobre o seu rosto e disse-lhe “Amo-te!” e beijei os seus lábios. E, pela primeira vez, experimentei uma sensação completamente diferente: os seus lábios já não estavam quentes e macios, mas pelo contrário, frios e sem expressão.
–Adeus! – disse-lhe e senti um vazio no peito tão profundo. Mas eu não me podia deixar abater. Concentrei-me no meu desejo de vingança e fui em busca dos Devoradores da Morte, não com o anterior objetivo de Atordoar, mas sim com um novo objetivo, o de Matar.
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