A Música Que Nos Une
21 Capítulo 20
A viscondessa viúva de Bedford era uma mulher distinta. Cabelos arrumados em um penteado elegante e em tons loiros desbotados. Seu rosto era belo e com olhos azuis cinzas, como os de Henry. Ela usava um vestido de cor marfim, com mangas cumpridas, com pedrarias no espartilho, se estendendo no comprimento. Era alta e esguia. Andava com elegância e tinha o nariz arrebitado e pequeno. Apesar da elegância e delicadeza, seu olhar contrastava. Era duro, implacável. E quando seus olhos pousaram em Anne, a pobre jovem queria sumir para debaixo da terra.
— A estrada estava péssima, Jasper – ela comentou e olhou para Henry e a cadeira caída no chão. Fez uma careta desagradável. Voltou seu olhar glacial para o filho mais velho – Deve cuidar melhor do que é seu. Foi terrível vir de Londres a Sussex.
— Mãe, você sabe que não sou só eu que tenho terras por aqui, não sabe? – Jasper parecia não ter resistido em alfinetar.
Ela o ignorou.
— Como tem passado, Janet? – ela perguntou, em um tom indiferente.
— Bem senhora – E Anne pensou ter escutado ela dizer, bem melhor sem sua presença, mas não tinha certeza.
O olhar frio da mulher se virou para as crianças e enrugou o nariz de repente.
— Meus queridos netos. Estão cada dia mais lindos – ela comentou.
— Cumprimentem sua avó – pediu Jasper.
Janet revirou os olhos.
— Olá, vovó – disseram as duas crianças juntas, mas sem entusiasmo.
Isso não parecia irritá-la. Ela continuava tão fria quanto o gelo. Ignorou propositalmente Erik, enrugando o nariz. E então, se voltou para Henry, com um olhar glacial.
— Henry, precisamos conversar, agora – ela ordenou.
— Eu não vou...- ele protestou.
— Henry, por favor – Anne pediu.
Ele a fitou em agonia e assentiu. A viscondessa viúva a fitou como se fosse um inseto sobre os sapatos dela e saiu da sala com o filho atrás dela. Anne suspirou, aflita. O que eles iriam conversar? O lacaio que estava parado na parede veio até a mesa e levantou a cadeira, voltando ao seu lugar. Ela não conseguia entender como eles conseguiam fazer isso. Trabalhar e fingir que nada estava acontecendo. Ela estava com o estomago embrulhado.
Ela sentiu a mão de Janet a apertar.
— Vai ficar tudo – ela garantiu – Se precisarem fugir agora, eu os ajudarei. Sempre há Gretna Green.
Anne riu.
— De jeito nenhum. Vocês dois precisam se casar aqui. Eu não quero que fujam. Foi bem desagradável ter que fazer isso – Jasper comentou.
— Quer dizer que não gostou, Jas? – Janet perguntou, em um tom afiado.
— Eu gostei de você, não da viagem – ele respondeu, em tom provocativo.
Anne deixou de escutá-los e pediu licença. Ela notou o olhar apreensivo de Erik. Mas, não tinha tempo para pensar nele. Precisava de ar. Ela seguiu pelos corredores, se perdendo duas vezes, até que escutou vozes altas vindo de uma porta entreaberta.
— Você não vai sujar o nome da família, Henry. Vai voltar com sua esposa – Era voz firme da viscondessa viúva, vindo de um cômodo.
Anne ficou parada, sentindo a respiração represada.
— Eu não vou reatar com Ania. Está louca se acha que vou fazer isso – ele esbravejou.
— Modere seu linguajar – a mãe dele o repreendeu, em um tom frio – Eu não o criei para ser assim, Henry. Está nos envergonhando com esse papel ridículo. Uma coisa é eu aceitar você ser médico. O que não é ruim, de fato. Outra é se casar com uma simples serviçal. Por Deus. O que eu estava pensando em deixá-lo sozinho aqui?
— A senhora não reclama do dinheiro que enviamos para você. Então eu sugiro que a senhora não se meta no meu casamento – ele cortou. Sua voz parecia uma lâmina afiada. Retalhou a viscondessa viúva sem piedade.
— Vai me matar, é isso que quer? – a voz dela se alterou – Ah, meus sais.
— Mãe? – ele disse, tom arrependido.
Anne só escutou o baque no chão. Ela entrou pela porta a direita, pois era de lá que vinha os sons. Era uma sala de estar.
A viscondessa estava desfalecida no chão. Henry tentava levantá-la. Ele fitou Anne, com um olhar entre irritado e suplicante.
— Chame alguém, querida. Eu não sei se isso é uma cena ou se minha mãe está mal mesmo.
Anne assentiu e chamou um lacaio que passou por ela, no corredor. Eles levantaram a viscondessa, colocando-a em um sofá. Anne começou a abaná-la com um livro que pegou de uma estante, perto da janela, para ver se isso a fazia acordar. Ela despertou cinco minutos depois, com Jasper, Henry e Anne a fitando. Seu olhar se tornou inescrutável.
— É o suficiente – ela disse, olhando para Anne que ainda a abanava com o livro.
Henry puxou sua noiva pela cintura, parecendo querer protegê-la.
— A senhora está bem? – Jasper perguntou.
A viscondessa se sentou, com um olhar afiado e ajeitou os cabelos e as vestes. Suas mãos estavam cheias de anéis reluzentes.
— E você me pergunta isso, Jasper? – ela rebatou, irritada – Como pode deixar seu irmão desejar fazer essa associação? Nós já temos vergonha demais nessa família! Eu aceitei casar-se com seu pai, pensando que poderia evitar esse tipo de escândalo. Mas, parece que algo que vocês dois puxaram dele. Um sangue ruim. Péssimo. E ainda tem a viscondessa viúva de Klyne. Ela é uma vergonha ainda maior. Por Deus.
Henry parecia ter crescido, ficado maior e sua voz se tornou soturna.
— Não se atreva a falar dela assim – ele cortou.
— Ó, Henry. Você ainda tem essa ideia de que ela possa se recuperar? Não há mais o que fazer. Ela está com a mente perdida – Seu tom era de desdém, enojado – Pobre Robert, perder o pai e ter uma mãe louca.
Anne queria entender o que a viscondessa queria dizer.
— A senhora vai parar com isso agora – Henry esbravejou – E vai se comportar. Eu não admito isso. Estou farto de você. Não vai ser convidada para meu casamento. E eu sinceramente, não queria que fosse minha mãe.
A viscondessa parecia ter ficado abalada. Ela o fitou com um olhar agoniado.
— Como pode dizer isso? – ela perguntou, magoada – Eu sou sua mãe.
— É uma pena – ele cuspiu.
— Henry, por Deus – Jasper protestou.
— Henry, pare com isso – pediu Anne.
— Você não sabe como ela é, Anne. Ela odeia a todos que estão abaixo dela. É mesquinha, vaidosa, cruel e mexeriqueira – ele acusou.
A viscondessa estava vermelha de raiva.
— Olhe aqui, mocinho...- ela tentou dizer, com o dedo indicador apontado.
— Parem, por favor – pediu Anne – Parem!
Ela precisou aumentar o tom de voz, para que a discussão encerrasse. Eles a fitaram, com espanto e a viscondessa com raiva.
— Henry, precisa parar com isso. Não brigue com sua mãe. Eu irei embora imediatamente, já que nosso casamento não pode ser aceito.
— O quê? – ele gritou.
— Uma moça sensata – a viscondessa aprovou.
— Anne, você não precisa fazer isso – Jasper disse, com um olhar conciliador.
— Preciso sim – Anne reforçou, com os olhos aguados – Eu não quero separá-los.
— Er...já estamos há muito tempo – Jasper confessou.
A viscondessa o fitou com um olhar assassino e se levantou.
— Deixe-a ir. Pelo menos, ela sabe seu lugar.
Anne saiu da sala, correndo, com as lagrimas nos olhos. Era como a Srta. Bennet. Mas, seu Sr. Darcy não viria para ela. Nunca viria, pois na realidade, um aristocrata não se casava com uma governanta. E Elizabeth não era governanta, só uma senhorita empobrecida.
Anne correu e se perdeu mais uma vez naqueles imensos corredores, cheio de quadros bucólicos e de armaduras. Se sentiu sufocar e perder as forças, até que encontrou Janet. Ela veio em seu encalço, a segurando.
— Pronto, pronto – disse ela, como se falasse com uma criança, acariciando os cabelos de Anne, que tinha o penteado desfeito – Não chore mais, ou vai ficar com rugas.
Anne riu, mas queria apenas chorar.
— Como consegue fazer piadas em momentos tão impróprios? – ela perguntou, enquanto as duas saíram daquele labirinto que era a mansão elisabetana, indo para os jardins.
— É meu talento natural, Anne. Deveria tentar – respondeu Janet, segurando a mão dela, com força – E escute, não se intimide com a viscondessa viúva. Ela é uma mulher que late, mas não morde. E Henry vai lutar por você, Anne. Eu nunca vi um homem que luta tanto. Até mesmo no boxe ele é bom.
— Ele luta boxe? – perguntou Anne, surpresa.
— Ah, sim – Janet confirmou, com um tom de reverência – Ele é ótimo. E está lutando pelo que acredita, Anne. Ele quer salvar a mente de sua tia, lady Klyne. Ela era uma boa mulher, mas começou a escutar vozes e ver coisas estranhas. Isso depois que o marido veio a falecer. Desde então, Henry cuida dela no hospital psiquiátrico.
Anne ficou surpresa pela coragem dele. E por seu trabalho.
— Ele nunca te contou? – perguntou.
— Nunca, Janet. Ele só disse que está fazendo uma pesquisa nesse hospital.
— Ó, bem...um dia ele irá te contar. Até lá, finja que não sabe.
Anne assentiu. Sabia tão pouco de Henry. Deveria ter conversado mais com ele, mas a atenção do dois estava voltada para Erik o tempo todo, ou em uma maneira de saciar a paixão que sentiam. E ele passava a maior parte do tempo ocupado, trabalhando. Até mesmo pacientes vieram buscar ele, para pedir auxílio. Já precisou sair de madrugada para costurar um homem baleado. Henry era assim, um homem que ajudava a todos. E lutava pelo que acreditava. Anne precisava se espelhar nele e lutar pelo que ela acreditava com mais afinco. Mas, estava tão cansada de julgamentos. Estava cansada de se sentir fora do lugar. E não pertencer a nenhum mundo. Não era aristocrata, não tinha mais família, mas também não era uma governanta, de fato. Nasceu para ser uma dama, mas jogou isso fora, quando se arruinou. O que lhe sobrava então? Qual era seu futuro, afinal?
***
Anne deitou a cabeça nos travesseiros macios e olhou as cortinas fechadas, de cor amarela. Era uma cama de dossel muito bonita. Ela sentia falta disso. Mas, também sentia falta do seu quarto simples, na casa de Henry. E de como o corpo dele a abraçava, enquanto eles dormiam. Mas, aquela noite, ele não estava ali. Devia estar com Jasper, tentando se acalmar. Ela deveria estar lá com ele. Mas, que direito ela tinha? Ela nem deveria ser sua noiva. Não deveria estar ali. Seu coração doeu só de pensar na realidade. Precisava ir embora. Com o dinheiro que receberá pelo seu livro, poderia começar de novo. Não seria difícil. E Henrietta, a jovem que comandava a Editora Harrison por enquanto, havia dito que ela poderia escrever uma sequência do livro. Era um sucesso e tanto. Então, ela iria sobreviver e não trazer mais vergonha a Henry.
A porta do quarto se abriu e ela escutou passos pesados sobre o piso de mármore. A cortina se abriu para revelar o rosto cansado de Henry. Ele tinha os olhos vermelhos. Recendia a brandy e charuto. Sua gravata estava desfeita e só vestia uma camisa e calças.
— Tem espaço para um homem desesperado? – ele perguntou.
Não havia como negar um pedido dele. Ela deu espaço para que ele se deitasse, estendendo a mão. Ele sentou e tirou os sapatos e se deitou ao lado dela, fechando a cortina. Era bom estar ali com ele. No escuro. Só escutava o som das suas respirações. E sentia o abraço dele e o som do seu coração batendo sobre o ouvido dela, enquanto se aconchegava em seu peito. Ele suspirou frustrado, quebrando a magia do silêncio.
— O que foi? – perguntou ela.
— Eu queria que minha mãe sumisse – ele confessou – Ela é insuportável.
— Eu sinto muito. Se eu fosse mais adequada...
— Não diga isso. Eu já lhe disse que meu sangue é tão azul quanto o seu, Anne – ele cortou, impaciente – Essas regras são tolas. Ridículas e sem logica. Por Deus, somos tão atrasados. Estamos sempre tentando nos diferenciar e se distanciar, como se fossemos tão perfeitos e imaculados. Mas, parece que não evoluímos, Anne. Ainda louvamos mitos. Ainda acreditamos em ideais ilógicos, que não podem ser questionados, ou seremos severamente punidos por pensar.
— Henry...eu não queria causar esse transtorno...
— Você não ouviu, Anne? – ele a segurou, fazendo a erguer a cabeça, parecendo olhar para ela, mas estava muito escuro para distinguir suas feições – Você não é o problema. É esse sistema castrador em que vivemos. Acho que vamos para América. Eles são uma república e tem ideias progressistas.
Anne riu.
— Se disser isso em público, talvez você seja preso na torre de Londres, por ser contra a monarquia – ela brincou.
— Talvez, mas você vira me resgatar, minha heroína? – ele perguntou e dessa vez, a beijou nos lábios.
— Eu irei – ela disse, com a voz fraca.
— Então, comece o resgate agora, Anne. Eu preciso ser resgatado desse poço em que estou. Puxe-me para fora e me faça viver de novo.
Ela fez isso. E muito mais. O amou com toda intensidade, se esquecendo que deveria sair da sua vida. Ela deveria fazer isso, mas deixou que ele a tomasse para si. Deixou que ele a beijasse em todo seu corpo. E que fizesse amor com ela, até dormirem de exaustão.
Talvez, amanhã, ela pensou. Ela iria partir e não olhar para trás. Deixaria Henry livre. E ele poderia ficar livre, sem ser manchado por ela. Sem ter sua reputação arruinada por se associar com alguém tão baixo na escala social.
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