A Máscara

5 Capítulo 5 - A fuga.


Notas iniciais
Sempre haverá outra oportunidade para se viver, morrer e amar.

Os dias seguintes não foram diferentes dos primeiros. Toda vez que a porta se abria meu coração disparava na esperança de ser Conner ou até mesmo Belphegor, entretanto, eu sempre me decepcionava. Não recebi mais a visita de nenhum deles.

Não havia nada mais angustiante do que ficar trancafiada e sozinha. A solidão e o absoluto silêncio era enlouquecedor.

Um dia, porém, uma das carniçais me trouxe o almoço. Deixei o chuveiro ligado e o vapor da água embaçou o vidro do box, tornando impossível a visão do que acontecia embaixo d’agua.

Ela foi até o banheiro, com o objetivo de me avisar sobre o almoço, no entanto, eu não estava lá. Havia me escondido no armário. Enquanto ela batia no vidro e chamava por mim, andei até ela na ponta dos pés e tranquei a porta do banheiro rapidamente por fora, sem dar chance a carniçal de tentar se safar.

Ela não seria capaz de arrancar a porta a pontapés, como um vampiro faria.

Logo seus gritos histéricos chamariam a atenção dos servos de Belphegor, mas o fato é que eu estava livre agora. A porta do meu quarto estava aberta e eu só precisava transpô-la.

Fui contagiada por euforia. Tive que controlar meu impulso de sair correndo, se o fizesse alguém desconfiaria e eu seria facilmente recapturada.

Saí pelo corredor com cabeça baixa e passos lentos.

O que eu não faria para ser invisível nesse momento? Meu coração se encheu da esperança de reencontrar minha família.

Desci as escadas silenciosamente. Era cautelosa até mesmo para respirar. Não podia chamar atenção para mim.

A grande porta de entrada estava escancarada, passei por ela sem dificuldades. Alguns funcionários da mansão caminhavam despreocupadamente, conversando numa língua que eu não compreendia. Estavam tão absorvidos com seus assuntos que não notavam minha presença. Agradeci a Deus por estar imperceptível. Isso se devia ao fato de Belphegor não desejar que os “outros” soubessem que ele mantinha uma humana como sua prisioneira, talvez para não levantar suspeitas sobre seu tótem.

Continuava no mesmo ritmo lento e não encarava ninguém.

Caminhei alguns metros até o portão. Havia uma guarita com um porteiro guardando a entrada. Seria o lugar mais difícil para se ultrapassar.

Procurei aparentar calma, se demonstrasse qualquer nervosismo poderia ser flagrada.

Mantive os passos despretensiosos.

Cheguei perto o bastante, a ponto de encarar os olhos castanhos do porteiro de meia idade. Percebi, com certo alívio, que ele não era um vampiro.

— Poderia me liberar, querido? — torci para que ele falasse meu idioma.

Embora parecesse não compreender minhas palavras, ele apertou o botão que liberava minha passagem. Eu mal podia acreditar em minha sorte.

Assim que me vi do lado de fora daquela prisão respirei profundamente. Continuei a caminhar sem pressa até tomar uma distância segura da casa. Quando achei conveniente disparei a correr com toda a velocidade que eu podia alcançar. Corri até estar cansada demais.

Após percorrer uma distância considerável, voltei a caminhar e a respirar sofregamente, sem fôlego.

O que eu faria agora? Como sairia desse país? Não falava outro idioma a não ser o meu. Não tinha um centavo no bolso.

O sol ainda brilhava no céu. Procurei caminhar sob sua luz, acreditava que ele seria meu aliado e que os vampiros não me atacariam se eu estivesse sob sua proteção.

No entanto, logo comecei a sentir um aperto em meu peito. Pensei que nunca mais veria Conner e que jamais olharia novamente para a face perfeita de Belphegor. Nunca mais sentiria toda aquela sensação de seu beijo, de seus toques. Não podia acreditar que eu sentiria falta dele, mas a verdade é que sentiria.

Se eu fosse sincera comigo mesma, aceitaria o fato de estar sentindo muito a falta dele. Estava enlouquecendo sem vê-lo durante os dias em que desapareceu.

Comecei a pensar que se eu conseguisse voltar para casa, minha família estaria em risco.

Bel não desistiria de seu tótem por nada. Se os inimigos dele descobrissem meu paradeiro viriam atrás de mim para me matar, transformando assim Belphegor em Nosferatu e tomando seu lugar como príncipe.

Talvez o menor dos meus problemas fosse ser prisioneira de Belphegor, afinal ele não me machucaria e deixaria minha família longe dessa confusão. Talvez essa fuga tivesse sido um erro .Um grande erro. Estava desprotegida, poderia ser facilmente encontrada por um vampiro rival ao príncipe.

Passei a caminhar desconfiada pelas ruas de Genebra. Olhando para todas as pessoas, temerosa de que fossem vampiros.

Depois de algum tempo meus pés doíam, estava faminta e o sol já havia se retirado.

Decidi me sentar num banco de praça, aproveitando a “segurança” que a movimentação de pessoas me dava.

Eu deveria ficar em um lugar público, isso evitaria um ataque de vampiros, afinal, eles não exporiam a máscara dessa maneira. Ou exporiam?

Considerei se deveria prosseguir com a fuga ou voltar para meu cativeiro. Como eu poderia embarcar de volta para o Brasil?

Fui arrancada de meus pensamentos quando vi um grupo de jovens andando em minha direção. Os rapazes tinham uma beleza sobre-humana. A palidez, comum em cada um deles, deixava claro a qual grupo pertenciam.

Olhei ao redor e vi transeuntes passeando de um lado a outro. Havia movimento aqui, “eles nada poderão fazer”. – pensei, sem ter certeza.

Tentei ignorar o fato de que olhavam fixamente para mim e que mantinham o ritmo marchado vindo até meu banco. Em poucos minutos chegariam aqui.

Por um breve momento torci para que fossem servos de Belphegor, mas não tinha como saber. Poderiam ser inimigos dele.

Não podia ficar ali e esperar para ver o que aconteceria.

Levantei-me e segui com passos rápidos em direção à rua. Não queria olhar para trás, mas podia sentir que estava sendo perseguida.

Um desses jovens materializou-se bem em minha frente, fazendo com que eu trombasse contra ele. Desequilibrei-me com a colisão, não cai, pois o vampiro de olhos verdes me amparou pelos ombros.

Quando dei por mim, o grupo estava ao meu redor, cercando-me. Pareciam perversamente satisfeitos ao me encurralar.

— Pegou a brasileirinha! Acho que terá uma boa recompensa — disse um deles.

Todos sorriram.

— Tomara que Max a dê para mim, retribuindo minha gentileza, é uma O+ — disse o mesmo rapaz, lambendo os lábios; Referia-se ao meu tipo sanguíneo.

Eles me guiaram até um carro preto que estava estacionado do outro lado da praça. Olhavam-me com muita curiosidade.

— O que será que o principezinho quer com essa mortal? — perguntou um dos rapazes do grupo.

O vampiro de olhos verdes, que me segurava pelo pulso, foi quem respondeu:

— Aquele esquisito não tem um tótem. Maxwell acredita que essa fedelha seja o tótem de Belphegor — os vampiros gargalharam com a suposição.

—Não é assim tão absurdo — disse um deles. — Por que diabos ele trouxe essa garota pra cá?

Eles me conduziram violentamente até o carro. A intenção deles era me jogar lá dentro. Gritei o mais alto que pude; Tratei de armar um verdadeiro escândalo. Se eu ameaçasse a máscara, Bel saberia disso mais cedo ou mais tarde, afinal esse era o Distrito dele:

— Ajudem-me, estou sendo raptada. Socorro! — berrava em alta voz.

O vampiro que me segurava tapou minha boca e disse em meu ouvido:

— Ninguém fala seu idioma aqui, idiota! Se ficar boazinha, vou providenciar que sua morte seja rápida e indolor, mas se gritar, farei uso de crueldade e você vai implorar pela morte — havia um tipo de prazer sádico em sua voz.

Ele me levantou do chão e tentava me empurrar para dentro do veículo. Eu gritava e dificultava o trabalho dele com os pés.

Por que raios eu fui sair do meu quarto?

Foi nessa exato momento que um Maserati preto parou próximo a nós. Belphegor desceu do automóvel. Seu rosto perfeito estava transfigurado pela ira que sentia. Ele aproximou-se de onde estávamos. O vampiro que me segurava, soltou-me abruptamente.

Eu não sabia o que seria pior: ser levada pelo grupo de vampiros ou enfrentar a fúria de Bel.

— Veio buscar seu brinquedinho, Belphegor? — perguntou um deles, com certa hostilidade.

O príncipe não respondeu a pergunta. O olhar que lançou em sua direção o reduziu a um verme, indigno de atenção ou de uma resposta.

Os outros vampiros do grupo abaixaram-se, fazendo uma respeitosa reverência a ele, exceto aquele que anteriormente me segurava. O dono dos olhos esverdeados.

Bel se dirigiu a ele ao dizer:

— Contemple-me como sua autorridade. Faça como esses escrravos e dê a mim o que me é de dirreito, ajoelhando-se, humilhando-se. Cultue-me como o senhor desse reino, pois você nóm serve parra nada, a nóm ser reverrenciar-me — os vampiros se entreolharam, tão embasbacados quanto eu própria.

— Desculpe-me, majestade, por minha distração — retratou-se o vampiro, fazendo uma mesura provocativa. — Fico feliz por estarmos em local público. Um honrado membro da Camarilla não arrumaria contendas aqui para não expor nossa máscara, presumo — completou sorrindo escancaradamente.

— A máscarra nóm é apenas um disfarce, meu carro crriado, serrve também parra que os covardes se escondam por trás dela, evitando prrestaçóns de contas. Faça isso, use-a para sua proteçón, pois sabe que precisará desesperradamente disso daqui por diante.

— Peço permissão para me retirar — rendeu-se o vampiro, dessa vez sem ironias.

— Permissón concedida.

O grupo entrou no carro e arrancaram cantado pneus.

Bel me olhava enraivecido. Estava parado frente a mim com toda sua beleza e me torturava com seu olhar.

— Me perdoe — desculpei-me, olhando para meus próprios pés.

— Vai pagar por isso — disse ele. — Pagar carro e... — antes que pudesse concluir seu pensamento, o abracei.

— Senti sua falta— confessei.

Não sei por que fiz aquilo, talvez por estar feliz por ter sido salva, ou talvez por achar que atitudes ternas amenizariam seu furor.

Ele ficou calado por um momento. Imóvel. Parecia desconfortável e inatingível. Cheguei a cogitar a possibilidade de tê-lo constrangido, embora isso fosse pouco provável. Mesmo estando aninhada em seu peito não ouvia as batidas de seu coração, nem o som de sua respiração. Não havia qualquer indicio de sua parte que aprovava meu gesto, nem que reprovava.

Então, ele se desvencilhou do meu abraço e se afastou mais do que o necessário.

— Acha mesmo que vai me cativar? — um sorriso estampou seu rosto.

— Quer mesmo apelar parra meu lado sentimental? Posso jogar esse jogo, Clarrice, mas vou ganhar — admoestou.

Não sabia como responder a isso. Me senti desencorajada a bolar frases para provocá-lo. Estava nervosa, muito nervosa. Essa minha fuga iria resultar numa guerra. Os inimigos do príncipe contra seus aliados. Eu contra ele. Quais chances eu tinha de não me machucar?

— Bel, você bebe? — ele me encarou, surpreso com a pergunta. Vislumbrei confusão em seus olhos celestiais. — Digo, bebidas alcoólicas? — perguntei novamente, ansiando para que a resposta fosse afirmativa.

— Sim — respondeu-me hesitante, quase desconfiado.

— Ótimo. É disso que estou precisando no momento — confessei. — Me paga um drinque? Estou meio desprevenida.

Para minha surpresa ele sorriu.

Fomos a um boteco qualquer. Pedimos bebidas de baixa qualidade. Tanto eu quanto ele bebemos além da conta. Não conversamos muito entre um copo e outro.

O beijo na festa de Raleph colocou minha cabeça a prêmio. Será que eu teria que fugir até o fim da minha vida? Belphegor pretendia me manter presa até o limite da velhice ou o limite de alguma doença terminal? Quanto mais eu bebia, mas necessidade tinha de ingerir aquilo. Queria que meus pensamentos fossem seriamente prejudicados, essa seria a única forma de parar de pensar sobre isso.

Bel parece ter lido meus pensamentos quando tomou a lata de cerveja de minhas mãos.

— Bebeu mais do que seu fígado é capaz de suporrtar — se sentiu obrigado a explicar seu gesto grosseiro e autoritário ao ver minha insatisfação.

Precisei de ajuda para chegar até o carro.

Tive a impressão de que Belphegor dirigia em círculos, mas minha cabeça girava demais, de modo que é impossível precisar esse fato.

Ele parou o veículo num desses motéis de beira de estrada.

— É melhor nóm irrmos para minha casa — explicou-se.

— Tudo bem — daria essa resposta para qualquer coisa que ele dissesse no momento, meu raciocínio estava preguiçoso.

Entramos no motel.

Meu estado alcoólico me divertia. Gargalhava comigo mesma.

Apesar da sala de recepção rodopiar, pude perceber que as paredes estavam descascadas em três cores diferentes.

Um sofá com diversos módulos preenchia um canto e manchas instalavam-se em seu estofado marrom.

Sorri, ao ver a situação da espelunca. Não era o tipo de lugar que um homem tão sofisticado quanto Bel pernoitaria. Quais eram suas reais intenções? Talvez aquele abraço tivesse dado a ele uma impressão errada a meu respeito. Gargalhei em alta voz, novamente, com esse pensamento. Talvez nem fosse uma falsa impressão. Queria que Bel se aproveitasse de mim essa noite.

Ele conversou com o atendente obeso em uma língua que não compreendi. Tirou algumas notas da carteira. Depois de pagá-lo recebeu uma chave.

Não preciso dizer que não havia elevadores no prédio.

Subi os primeiros degraus com dificuldade, eu gargalhava achando graça de meu próprio desequilíbrio. Sem paciência com minha coordenação motora afetada, Bel me tomou em seus braços.

Envolvi seu pescoço em meus braços, achando a situação romântica e apropriada.

Ele não fazia esforço algum em me carregar e podia ser apenas impressão minha, mas acreditava que ele estava se divertindo me vendo naquele estado.

Enfim chegamos ao quarto 41. Tinha uma grande cama redonda ali e espelhos afixados no teto. O lugar fora feito para o pecado da carne. Me perguntei quantos casais já haviam se atracado naquele cômodo. Independente de quantos foram, tinha certeza que o lugar nunca tinha recebido um convidado tão ilustre quanto Belphegor. Eu era uma garota de sorte.

A cama estava arrumada com uma colcha vermelha de mau gosto. Tapetes espalhavam-se por toda parte, empoeirados e coloridos. Não combinavam em nada com a decoração.

Assim que Belphegor me devolveu ao chão corri atrapalhadamente até a cama e me sentei forçando uma pose sensual.

Fui presenteada com um sorriso que me fez desejar sentir novamente o gosto daqueles lábios.

Joguei-me na cama percebendo o perigo da situação. Abracei uma das almofadas — amarela gema de ovo. Se sóbria eu já tinha dificuldades em me controlar diante dele, embriagada seria o meu fim.

Vi o vampiro tirar seu casaco e deixá-lo sobre uma cadeira. Não conseguia tirar os olhos dele.

Em seguida passou a desabotoar sua camisa cinza, botão por botão, encarava-me enquanto se despia. Já conhecia Belphegor o suficiente para saber que me provocava.

Esse era o momento para eu fingir não estar abalada, todavia, não estava em meu perfeito juízo, ou então usei a bebida como desculpa e continuei a encará-lo, mordendo meus lábios.

Pela primeira vez vi Belphegor sem camisa.

Sua pele clara e delicada contrastava com ombros largos e tronco definido. Nada no mundo poderia ser tão belo.

Seu sorriso malicioso mostrava que ele estava consciente que me perturbava, e isso o agradava. Caminhou até a cama, segurando a camisa e me ofertou-a.

— Precisa de um banho, Clarrice. Use isso — disse com seu sotaque sensual.

Agarrei a camisa e me desequilibrei ao levantar. Fui sustentada pelos braços fortes de Bel.

A bebida tirou minha inibição, ou abalou meu senso de certo ou errado. Sem pensar acariciei seu braço, apertando seus bíceps rígidos. Bel estava quente.

Ele permitiu essa ousadia, embora não demonstrasse contentamento algum.

Guiou-me até a porta do banheiro. Não me considerava capaz de ir sozinha até lá.

Durante o banho pensei em quanto o desejava, desde quando o vi pela primeira vez. Pensei em como estava sendo fútil em ter interesse por um monstro assassino. Não era fácil para eu admitir que gostava mesmo de Belphegor. Gostava do seu sorriso cínico, da sua aparência esplendorosa, de seu cheiro másculo, do seu jeito cafajeste, dos seus olhos azuis que me perseguiam durante os sonhos. Tentava lutar contra esse sentimento com toda força que havia em mim, mas era mulher, humana, cheia de defeitos e estar sozinha com ele abalava minha determinação de não me envolver.

Desliguei o chuveiro e preferi não usar a toalha encardida pendurada ali.

Vesti a camisa cinza que estava impregnada com o cheiro dele. O tecido macio acariciava minha pele úmida do banho. Era como se eu estivesse sendo abraçada por ele. Suspirei.

Quando abri a porta limpei a garganta para anunciar minha presença;

Ele estava deitado na cama redonda, sem camisa. Mexia no controle remoto da TV pré-histórica, tentando fazê-la funcionar. Olhou em minha direção. Seu olhar me fez corar, me senti nua, sendo analisada daquela maneira por aquele par de olhos claros.

Bel ofertou-me um sorriso malicioso e me chamou com o dedo.

Me permiti não pensar e agi como qualquer garota de minha idade, sem me castigar por estar sentindo as coisas que sentia.

Fui cambaleante até a cama. Ajoelhei-me sobre ela e me aproximei do vampiro, engatinhando.

Havia alguma coisa em seu olhar, só não pude identificar o que era. Ele encostou sua testa a minha, sem tirar meus olhos do dele.

Deus! Como o queria.

Com agilidade ele me deitou na cama e se posicionou sobre mim. Suas pernas travavam as minhas. Ele não precisava se preocupar com isso, eu não iria a lugar algum.

Envolvi seu pescoço em meus braços e lhe dei um sorriso convidativo.

Belphegor entendeu meu gesto e seus lábios encontraram os meus. A ansiedade de seu beijo era tamanha que podia ser comparada a violência.

Ele deixou que eu sentisse todo seu peso sobre mim, apertando-me contra o colchão. Nossos hálitos se misturaram, respirar tornou-se quase impossível sendo comprimida daquela forma. Meus lábios moviam-se com a mesma urgência que os dele. Bel não estava sendo delicado em suas caricias, e eu o tratava da mesma forma. Precisa senti-lo, deixava essa ânsia me dominar. Puxava seu cabelo.

Não havia uma parte de mim que não estivesse fundida com a dele.

Estávamos tão colados que mal contávamos como dois, e mesmo assim não estávamos colados o suficiente para mim.

A sós. Ninguém mais.

Bel mordeu meu queixo e deslizou com sua língua molhada até meu pescoço. “Meu Deus, não permita que eu desfaleça” – pensava.

Senti suas mãos em minha coxa, deslizando sobre minha pele. Gemi com essa sensação. Sentia-me quente, quase febril. Meu corpo pedia pelo dele, de uma forma que me enlouquecia.

Seus lábios encontraram minha orelha:

— Te querro, Clarrice — sussurrou com a voz rouca.

Era tudo que eu queria ouvir nesse momento. Estremeci ao sentir seus dentes roçarem no lóbulo da minha orelha.

O vampiro encontrou os botões da camisa que eu vestia. Com habilidade abriu dois deles, revelando meu colo.

Seus lábios deslizaram até lá, beijando com uma vontade angustiante.

Grunhi ao saber que sua boca estava tão próxima aos meus seios.

Arranhei suas costas, sem piedade. Passei minhas unhas de seu tórax até seu abdômen, fiz com que Bel soltasse um ruído estranho, que me pareceu uma reclamação ou talvez tenha sido aprovação.Com as mãos ali procurei desesperadamente o feche de sua calça.

— Me possua, Bel — disse em tom manhoso e ofegante.

Seu olhar brilhava de desejo, mas havia triunfo ali.

— Você me quer? — perguntou, olhando em meus olhos.

— Quero. Eu quero!— foi quase uma súplica.

Ele me beijou com suavidade nos lábios e levantou-se. Estava sorridente quando vestiu o casaco.

Sentei-me na cama desnorteada, piscando repetidas vezes. O que ele estava fazendo?

— O que houve? — perguntei, tentando voltar a meu estado normal.

Ele sentou-se na cadeira, apoiou seu queixo sobre seus dedos alvos e longilíneos. — Você me disse que nóm querria estar em minha prresença. Disse que nóm prrecisava de mim e que nóm gostava de meus toques e beijos. Só querria prrovar a você que está louca por mim. Querria que grritasse meu nome, que dissesse o quanto me anseia. Agorra já sabemos que você nóm está comigo a contragosto — e então, sorriu debochado.

Senti minhas bochechas formigarem, estava envergonhada por minha atitude leviana.

Respirei profundamente tentando manter o bom senso. Como Belphegor podia ser tão... tão baixo? Ele me elevava ao céu e me atirava direto ao inferno em menos de um minuto. O odiava e o desejava quase que na mesma proporção.

Ele viu alguma coisa em meu olhar. Levantou-se e caminhou em minha direção para me acalmar, suponho.

— Ouça-me, Clarrice, eu só querria que você admitisse... — não deixei que concluisse.

— SAIA DE PERTO DE MIM, SEU DOENTE! — berrei furiosa, agarrei uma luminária que estava no meu alcance e atirei contra ele. Me sentia humilhada e usada. Esse salafrário não encostaria mais um dedo em mim.

Belphegor se protegeu com as mãos e parecia se divertir com minha ira.

— Clarrice, eu odeio semprre ter razóm — depois de refletir por alguns segundos se retificou: — Mentirra... Eu adorro — ele continuava a caminhar até a cama com um sorriso vitorioso.

Levantei-me de lá, corri para o lado oposto em que ele estava, até alcançar a porta.

Belphegor se materializou em frente a ela, impedindo minha saída.

— Aonde vai com tanta prressa? — disse o infeliz.

— EU TE ODEIO!— gritei enquanto me afastava.

— EU TAMBÉM TE ODEIO! — berrou ele.

Sentei-me na cama. Minha respiração era difícil. Sentia um vazio e uma frustração indescritível.

Bel se trancou no banheiro .

Que ódio! Arremessei um bibelô que se desfez contra a porta do banheiro.

O obeso da recepção bateu em nossa porta e disse algumas palavras que não entendi. Presumo que tenha dito que iríamos cobrir os prejuízos de nosso sexo selvagem.

Fiquei alguns minutos sentada na cama. Torci para que Belphegor passasse muito tempo por lá, não queria voltar a ver seu rosto essa noite.

Não demorou muito para que eu me decepcionasse.

Ele abriu a porta com a expressão mais alheia possível. Como se não houvesse acontecido nada.

Ajoelhou-se perto de mim. Não olhei para ele. Continuava furiosa e me sentindo uma tola.

— Muito bem — disse o vampiro. — Já acabei meu show. Vamos continuar de onde parramos.

Eu tive que olhar a expressão dele. Espantei-me ao ver que ele falava sério.

— Você enlouqueceu? Jamais voltará a tocar em mim — prometi entre os dentes.

— Mas isso quem decide sou eu, chéri — Respondeu arrogante.

— Escuta aqui, Bel... — Antes que eu começasse uma discussão ele me imobilizou na cama segurando meus braços e inclinando-se sobre mim.

Contornou meus lábios com a língua. Fechei os olhos, para que a visão de sua beleza não atrapalhasse minha determinação de não corresponder a suas carícias.

— Você não fará nada contra a minha vontade — afirmei, tentando resistir a ele.

— Porrque acha que nom farria? — seu tom era baixo e rouco. — Acha que isso pesarria na minha consciência? — questionou.

Tentei me livrar dele, amedrontada depois de sua ultima frase.

Não podia saber se ele estava blefando ou não. A essa altura já não tentava deduzir o que se passava na cabeça de Belphegor. Ele era louco o suficiente para me rejeitar quando eu o queria e me forçar se eu não o quisesse.

Virei o rosto para não encará-lo, foi nesse momento que o telefone tocou.

Bel demorou para atendê-lo. Revirou os olhos quando viu a insistência do chamado.

Saiu de cima de mim, permitindo assim que eu respirasse.

Andou pelo quarto com o aparelho na mão.

— O que foi, Conner? — perguntou impaciente.

Ficou calado, apenas ouvindo. Disse por fim:

— Te encontrro em sua casa — desligou o aparelho.

Voltou a caminhar pelo quarto e dessa vez me fuzilava com seu olhar.

— O que houve? — não agüentei minha curiosidade.

— Sabe essa raivinha que te fiz passarr hoje? Essa pequena frustraçóm? Isso nóm é nada comparrado com o que você fez comigo. Você fugiu da minha casa, se voluntarriou de isca parra meus inimigos. Agorra eles vão te caçar até no inferrno se for prreciso — sua expressão começou a ficar mais severa.

— Desculpe-me, Bel. Não fiz nada com a intenção de causar problemas. Eu só pretendia...

— Você é uma teimosa — me interrompeu. — Eu disse que erra parra aceitar seu destino. Mas, a garrota estúpida é incapaz de ficarr quieta em seu canto. Tem que se rebelar e arrumarr planos mirrabolantes parra escapar.

— E o que queria? — meu tom começava a se elevar. — Que eu aceitasse de bom grado ser sua prisioneira?

— Era o mínimo que poderria fazer — ele se aproximava de mim com um andar nervoso. — Eu salvei sua vida duas vezes. Deverria ser um pouco mais grrata — Bel parou frente a mim.

— Grata? Me salvou de Conner, mas me sequestrou. Eu preferia morrer a viver enjaulada. Me salvou dos vampiros na praça, mas foi você mesmo quem me colocou em situação de risco. Se não tivesse me raptado, se não tivesse me beijado na festa eu não seria um alvo de vampiros — desviei meus olhos de Bel. Seu olhar tornou-se assustador.

— Você se dá tanta imporrtância! — disse ele. — Fala como se fosse obrigaçóm minha te salvar o tempo, como se nóm gostasse de estar sob meu poder. A verrdade é que você está adorrando. Nunca um homem como eu se interressarria por uma mosca morrta como você. Isso te eleva. Nunca terria tanta emoçóm na sua vida se nóm fosse por mim. Vivia num lugarzinho subdesenvolvido, trrabalhava parra ganharr uma misérria que mal dava parra bancar seus estudos e hospedagem, estudava em uma univerrsidade desconhecida e com prrofessores mal prreparrados e mal pagos. Sua única diversóm erra dar uns amassos nos colegas que freqüentavam a academia de ginástica. Sem cérebrro, mas cheios de músculos e esperrmas, isso erra tudo o que querria. – levantei-me indignada após tantos insultos. Andei até Bel sem me intimidar com seu olhar rancoroso.

— Não sei de onde você tirou tantas informações equivocadas a meu respeito, mas isso não importa, pois não dou a mínima para o que você pensa. Sabe qual seu problema, Bel? Você tenta inverter a importância das coisas, por que isso lhe é conveniente. A verdade é que eu tenho uma vida toda pela frente e você não faz parte dela. Não preciso de você pra nada. No entanto, o que seria de você se não fosse eu? Você não tem futuro algum. Está condenado a passar a eternidade escravo de uma sede que te consome. Pode ter dinheiro, pode ter um cargo importante entre os seus, pode ser lindo, mas nada disso preenche esse vazio no seu peito. Ou melhor, só uma coisa preenche: EU. E quer saber? Dispenso essa “emoção” que você diz me proporcionar, e quanto a você, me dispensa? — meu tom era triunfante. Percebi que isso o aborreceu. Estávamos muito próximos.

— Você é tom PETULANTE — senti seu hálito na minha face com seu grito. — Te dispenso a horra que bem quiser. Acabei de dispensá-la, quando se ofereceu parra mim — ele pausou apenas para imitar meu tom de voz ao dizer: — Me possua, me possua!

Que ódio! Antes que eu pudesse responder à altura ouvimos alguém mexer na maçaneta da porta que estava trancada a chave.

Ouvi Bel sussurrar: “Merde”, antes de me jogar ao chão.

Foi tudo muito rápido. Em fração de segundos eu estava deitada com ele sobre mim. Ele deve ter amortecido a queda, pois não sentia meu corpo dolorido. Vimos por de baixo da cama os pés do obeso da recepção.

O vampiro me encarou e colocou o dedo indicador em meus lábios.

— Shhhhh — seu tom era quase inaudível.

De repente não estava mais em cima de mim. Sumiu como por um passe de mágica.

Espiando debaixo da cama vi o gordinho cair. Levantei-me assustada.

Bel segurava uma espingarda.

— O q-que houve?

— Esse imbecil foi hipnotizado. Recebeu orrdens para matar a garrota que estivesse comigo.

Minhas mãos cobriam meus lábios, estava horrorizada ao ver uma poça de sangue se formar em baixo da cabeça do homem.

— Cristo! — disse espantada — Você o matou?

— Nóm, estamos ensaiando uma peça de teatro — revirou os olhos.

Permaneci paralisada.

— Nóm seja tom virrtuosa, Clarrice! Sabe que faço isso todos os dias.

— Não precisava tê-lo matado — não conseguia tirar os olhos do cadáver.

— Ele tencionava matá-la. Deverria me agrradecer e não crriticar — explicou-se.

Nunca havia presenciado um assassinato, exceto quando Conner me levou para a construção abandonada, entretanto estava muito drogada para me lembrar de todos os detalhes. Definitivamente estava em choque.

Belphegor parecia impaciente com minha reação.

— Prrecisamos sairr daqui, nom é mais segurro.

Eu não conseguia me mover. Bel saltou sobre o homem morto e me pegou em seus braços.

Antes de passarmos pela porta, ele olhou a poça de sangue que se formava ali e disse em tom pesaroso:

— Que desperrdício!

Olhei para Belphegor boquiaberta. Não podia acreditar nisso. Ele retratou-se:

— Eu sei. Estamos sem tempo parra um lanchinho.

Em um segundo descemos as escadas. Bel me acomodou no sofá manchado e foi mexer nas gavetas da recepção.

Ele me mostrou que o telefone estava fora do gancho.

— O grrandóm foi hipnotizado pelo telefone — disse Belphegor. — Isso significa que eles nom estóm porr aqui, ainda.

Assim que o vampiro pegou a chave na gaveta, puxou-me pela mão e me arrastou para o estacionamento. Estava muito escuro.

Só havia dois automóveis, o Maserati preto e uma caminhonete marrom. Fomos até a caminhonete.

Bel me colocou no banco de passageiros. Acho que ele estava preocupado com minha expressão.

— Nóm vou mais machucar ninguém, se nóm forr necessárrio — prometeu.

Ele assumiu a direção e saímos dali.

— Vou ligarr o som, parra desestrressar — me informou.

Ele tentava sintonizar uma estação de rádio e eu tentava não pensar no cadáver que deixamos no motel.

— Você está estressado, Bel? — perguntei, depois de ponderar o que havia dito.

— Nós estamos — respondeu. — Existe muita tensóm entrre nós — completou sorrindo, como se isso fosse algo formidável.

A música que tocava no rádio era Tutti Frutti do Elvis Presley. Belphegor tamborilava os dedos no volante e cantava com o rei. Eu o observava. Estava com o casaco aberto, revelando seu peitoral. A cor preta do tecido era um contraste com sua pele pálida.

Seu cabelo estava desgrenhado, acredito que eu o havia bagunçado enquanto nos agarrávamos no quarto.

Como podia ser tão lindo?

Sorri ao vê-lo cantar: “Awop-bop-a-loo-mop alop-bam-boom”, com sua voz desafinada.

Olhei através da janela do carro, a fim de desviar meu olhar dele.

A ultima coisa que eu pretendia era me apaixonar por Belphegor, e isso estava se tornando uma tarefa impossível.

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