A Máscara
21 Capítulo 21 - Hipnose.
Notas iniciais
O quarto dele ficava no último andar. Quando abri a porta me deparei com um lugar completamente impessoal. Não havia nada que me revelasse algo sobre o príncipe. A única coisa familiar era o cheiro de seu perfume. A cama era maior do que a do meu quarto e com dossel. O armário branco tomava toda uma parede. A porta-balcão dava acesso a uma sacada grande com visão para o jardim. No banheiro uma enorme banheira de louça fina.
Abri o armário ainda na esperança de encontrar alguma coisa mais particular. As camisas estavam separadas por cores, bem como os ternos. Os sapatos ficavam na parte inferior, novos e engraxados.
A coisa mais pessoal que encontrei foi uma gravata italiana suja de sangue coagulado. A porta se abriu, assustando-me e me deparei com Suzanne, que depositava uma bandeja de alimentos sobre acomoda.
— Graças a Deus! – disse a ruiva, vindo em minha direção com os braços abertos. — Tive tanto medo que ele te machucasse! – confessou enquanto me abraçava apertado.
— Também estive preocupada com você. Imaginei que Bel te culparia pela minha fuga.
Ela se desvencilhou. — Se o príncipe conseguisse pensar em alguma outra coisa, a não ser te trazer de volta, provavelmente eu teria sido castigada. Mas ele não estava preocupado em como aconteceu, só queria recuperá-la.
Suzanne olhou ao redor e perguntou em voz baixa: — Conseguiu salvar seu esposo? – sorriu baixo.
— Sim. – não pude esconder a tristeza da recordação. —Mas aconteceram muitas coisas depois disso.
Ela me puxou pelas mãos e fomos nos sentar sobre a cama.
— Então me conte. Não tenho nada para fazer essa tarde. – piscou brincalhona, genuinamente interessada na história.
— Resumidamente eu o salvei e fugimos daqui. Ficamos viajando sem destino por dias, até que decidimos ir a uma boate. Nos embriagamos e acabamos por nos entregar a luxuria.
— Vadia! – sussurrou Suzanne, dando um tapa de brincadeira na minha perna.
— Calma, não fomos tão longe. – disse em minha defesa. — Depois Conner se enfureceu com minha rejeição e me drogou, me abandonando inconsciente num hotel. Acordei no carro, com os capangas de Belphegor. O príncipe me atacou num banheiro público, agressivo e depois carinhoso. No caminho me deixou só e Conner me raptou para se desculpar, mas Bel nos encontrou e deformou Conn. Nos encontramos com um ancião que disse que Conner está bem, e agora estou de volta.
Falar essas coisas em voz alta me fez compreender o tamanho da confusão em que eu estava metida.
Suzanne piscava atônita. — Sua vida é um tédio. – disse irônica. Sorrimos. — E o que está fazendo na alcova do rei? – brincou a ruiva.
— Ele tem medo que eu fuja. – dei de ombros.
— Até parece! Ele te quer na cama dele. Sempre quis. Está na hora de colocarmos nosso plano em prática. – esfregou as mãos com ansiedade e aquele sorriso maligno não abandonava seu rosto bonito.
— Nem pensar, Suzan. Se soubesse o que eu vi, o que ele fez! Não vou me envolver em joguinhos. Isso está fora de cogitação.
— Clarice! Ele faz o que quer com você. Tem que no mínimo fazer o mesmo. – ela se levantou e me examinou minuciosamente.
— Está péssima! – concluiu. — Cabelos ressecados, pele desidratada, sobrancelha por fazer e unhas idem. Sem falar nessas roupas! – ela fez cara de nojo.— Vou dar um jeito, volto num segundo.
Logo estava de volta cheia de produtos de higiene e beleza. Demoramos algumas horas no embelezamento. Tinha me esquecido de como alguns dos procedimentos eram doloridos.
Depois da tortura pude apreciar minha imagem no espelho e tenho que confessar que minha aparência melhorou razoavelmente.
— Agora é só colocar em prática o plano de deixar o orgulhoso de joelhos. Você está linda, Clarice. Use isso a seu favor.
Passei os dedos entre os fios do cabelo hidratado, brilhante e disciplinado. — Já disse que não vou participar disso. – estava decidida.
Suzanne revirou os olhos. Contrariada.
— Trouxe algumas camisolas. – sorriu maliciosa.
Como era de se esperar, nenhuma delas era apropriada para dormir. Morreria de vergonha se ele me visse vestindo alguma delas. Era um convite para o pecado.
Me atrevi a vestir uma das camisas dele. Azul clara de linho. A ruiva deixou o quarto depois de um sermão, dizendo que eu devia tentar, que me render não era uma opção e toda aquela coisa feminista. A noite não demorou a chegar.
Estava deitada às 21 horas, mas ansiosa demais para dormir. O cheiro dele no travesseiro atrapalhava ainda mais minha tentativa de descanso. Cansei de rolar de um lado pro outro e me levantei, era madrugada. Fui até a sacada e me inclinei sobre o parapeito, observando os vampiros que estavam de vigília no jardim. Alguns notaram que eu os observava e pareciam incomodados. Pela primeira vez percebi como devia ser humilhante usar seus dons para guardar uma humana, que para eles nada mais era do que uma fonte de alimento. Não estavam contentes com a função.
Ainda refletia em como minha presença ali era desagradável, quando ouvi alguém mexer na porta. Antes mesmo que pudesse me virar para ver quem entrava, fui agarrada pelos ombros e levada de volta para o quarto numa velocidade alucinante. Ainda estava assustada, sem ar e com o coração descompassado quando Belphegor me encostou contra a porta do armário. Ele me encarou com seus olhos de gato e eu simplesmente não podia desviar meus olhos do dele. Havia um magnetismo incomum, inumano, no jeito de me encarar. Eu nem ao menos conseguia piscar.
— Nunca mais vai pôr os pés nessa sacada. – disse pausadamente com a voz mais sedutora que já ouvi.
Balancei a cabeça aturdida, confusa. Então empurrei seu peito, indignada, sabendo exatamente o que tinha feito. Já bastava fazer o que queria com a minha vida, não iria controlar minha mente, me obrigando a obedece-lo. Quando me virei para voltar à sacada, algo bloqueou minha passagem, como se houvesse uma parede de vidro que me impedia de passar. Lancei um olhar de puro ódio em sua direção. Bel me levaria à loucura. Já não era fácil estar presa contra minha vontade, ver o mundo desmoronar a minha volta, ser perseguida e ameaçada a cada maldito instante, não admitiria ter a mente corrompida por ele.
Já tinha toda a discussão em mente e todas as palavras ofensivas na ponta da língua, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, comecei a chorar. De inicio só não consegui conter as lágrimas que apareciam em meus olhos. Envergonhada perante minha fraqueza escondi o rosto com as mãos e passei a chorar compulsivamente. Tinha evitado esse momento com todas as minhas forças. Agora que todo meu desespero vinha à tona, só queria ser capaz de desaparecer.
Ele não podia presenciar essa cena. Toda minha fragilidade e humanidade expostas. Esse era o momento perfeito para que gargalhasse e zombasse de mim, dizendo o quanto era superior, que eu não passava de uma rendida. Mas o que ele fez foi muito pior. Ficou parado, impassível, inexpressivo, assistindo eu me afundar em agonia. Provavelmente se deliciando em não ter sentimento algum, enquanto eu sucumbia as minhas fraquezas.
Eu tremia, soluçava. Nem sei como cheguei até a cama e me sentei sobre ela, tomando o cuidado de esconder meu rosto molhado. Quando me acalmei um pouco, Bel se pronunciou.
— Nóm posso deixar que fique encostada no parrapeito. Você poderria ter uma ideia estúpida.
— E-eu não ia me atirar lá embaixo. N-não vou me matar por sua c-causa. – disse secando as lágrimas.
— Estamos indo de mal a pior. – sentou-se ao meu lado, tomando o cuidado de manter certa distância. Eu estava em plena crise emocional e ele não devia estar habituado a isso. Minha humanidade o desconcertava, às vezes. — Nunca mais me hipnotize. – a autoridade no meu tom me surpreendeu. Bel me encarou. — Ou melhor, faça isso. Me hipnotize para que eu não me lembre nada do que já aconteceu. Tire minhas lembranças, Bel. Por favor. Me faça te esquecer.
Ele me olhou compadecido. Se aproximou e me envolveu num abraço apertado.
— Sei o que quer dizer, ma poupée. Eu também adorrarria te esquecer. Você é minha maldiçón. Saber da sua existência me faz desgraçado e exultante ao mesmo tempo. Querria nóm saber que você existe. Estarríamos em melhor situaçón. Nóm posso fazer com que me esqueça, nóm é tóm simples.
Eu ainda chorava, embora com menos intensidade. Assenti, era exatamente isso, éramos a maldição um do outro. Belphegor acariciava meus cabelos quando disse:
— Ouça-me, chérie, já nóm podemos viver nessa guerra. Nóm há nada que possamos fazer. Só nóm resista. Sabemos que prrecisamos um do outrro, nóm vamos mais fingir que nóm. Isso está nos enlouquecendo. – Bel se aproximava, os olhos azuis pregados em meu rosto, a boca entre aberta, seu perfume convidativo, as roupas caras... Me afastei dele, secando as lágrimas e tentando regular minha respiração.
— Não vou fingir que nada aconteceu. Temos que manter distancia um do outro. O que está nos matando é essa proximidade.
Ele balançou a cabeça em negação, parecia impaciente com minha teimosia.
— O que está nos matando é o orrgulho, a vaidade. Se admitíssemos que temos que ficar juntos e trrabalhássemos para que desse certo, evitarríamos prroblemas. Estou disposto a tentar.
Raciocinei por um momento, mas a verdade é que de qualquer forma eu seria a maior prejudicada. Quanto mais próximos, mais afetiva e tola eu me tornava. Quanto mais distantes, mais violento ele ficava.
— Me deixe em paz. – implorei, massageando as têmporas. — Eu vou ficar quietinha nesse quarto, eu prometo, só não me obrigue a vê-lo.
Foi então que senti seus dedos agarrarem meu braço com violência. Me arrependi por ter olhado em seus olhos azuis, abrasados, daquela forma insana de quando o vampiro se sentia desafiado.
— Sou eu quem dá as orrdens por aqui. – disse pausadamente. Seus olhos escorregaram até meus lábios antes que ordenasse:
— Beije-me.
Senti meus músculos se retesarem, fechei as mãos em punho, sentindo o autocontrole me abandonar. Mordi o lábio inferior, com tamanha força que o fez sangrar. O gosto metálico de sangue preencheu minha língua. Ele fez novamente, me hipnotizou! Minha vontade não era nada diante de sua ordem. O odiava, com toda força que havia em mim.
Me aproximei de Bel, segurando com força em seus ombros e encostei minha testa na dele. O suor brotava em minha pele e as lágrimas conseguiam vazar dos meus olhos cerrados. Ouvi o ruído abafado de seu sorriso. Poderia matá-lo nesse momento.
— Nóm resista, Clarrice. É inútil.
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