A Máscara

13 Capítulo 13 - Parceria com as trevas.


Notas iniciais
"Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?"

Depois que Belphegor se foi esperei por cerca de uma hora para começar a agir.

Amarrei o cabelo num coque frouxo e vesti a roupa mais descente que encontrei entre as que Suzanne me trouxe. Uma saia preta de couro, bem acima dos joelhos, uma regata branca e sapatilhas.

Peguei os objetos em baixo do travesseiro e fui até a porta. Fiquei nervosa por antecipação. Pedi a Deus que me protegesse e que me ajudasse a não ser pega. Se Belphegor imaginasse meus planos não sei o que faria comigo. Por muito menos quase me desmontou quando me jogou da sala de Raleph, sei que não toleraria uma afronta direta a sua autoridade. Talvez não houvesse motivo para tanta preocupação, era bem possível que Conner já tivesse sido exterminado.

Hesitei. Será que a hipótese de encontrá-lo compensava o risco? Odiei minha covardia. Nada justificava esses meus pensamentos. Como poderia conviver comigo mesma se nem ao menos tentasse? Conner faria o mesmo se eu estivesse na mesma situação que a dele, não faria? Não tenho certeza, mas de qualquer forma isso não tinha relação alguma com a maneira como eu deveria agir.

Empenhei-me na tarefa de destrancar a fechadura com meus apetrechos amadores. O nervosismo atrapalhou minha habilidade deficiente de destrancar a porta.

Assim que ouvi o “click” tive a certeza de que tinha concluído a primeira etapa da tarefa. Meu coração pulsava tão acelerado que eu era capaz de ouvir o ritmo de suas batidas martelando em meus ouvidos. Minha ansiedade e preocupação me paralisaram por um minuto antes de prosseguir.

Girei a maçaneta para descobrir um corredor longo, vazio, silencioso e mal iluminado.

Respirei fundo, procurando me acalmar. Deixei o garfo quebrado e os grampos jogados no chão, para que essa prova, propositalmente descuidada, garantisse a inocência da jovem carniçal.

Sentia-me muito grata a Suzanne, mesmo que não encontrasse Conner, ela havia me ajudado a tentar salvar um amigo. Jamais seria capaz de recompensá-la por isso.

Analisei o que faria. Não sabia nem mesmo que direção tomar. Porque diabos os príncipes precisavam dessas casas enormes, cheias de cômodos, quartos, banheiros, escadas...? Isso era um verdadeiro labirinto.

Suzanne havia dito que Conner deveria estar no porão. Isso provavelmente ficava no andar inferior, ou até mesmo no subsolo. Bem, de qualquer forma isso era um avanço, sabia que tinha que descer.

Fui até a escada, na ponta dos pés, evitando fazer qualquer ruído, por menor que fosse. Esgueirei-me pelos cantos, tentando ser mais imperceptível que uma brisa suave.

Já no andar de baixo precisei seguir por outro corredor longo. Era possível ouvir a movimentação nos quartos. Não tive outra opção. Ou prosseguia, torcendo para não ser pega, ou voltava para meu cativeiro. Regulei minha respiração, descalcei as sapatilhas e continuei na esperança de me tornar um fantasma.

A porta do primeiro quarto estava aberta. Vi os vampiros lá dentro, em volta de uma mesa para carteado hexagonal. Bebiam, o que supus ser cerveja, direto da garrafa. Pareciam bem concentrados no jogo. Provavelmente haviam sido designados para montar guarda na casa enquanto os outros caçavam.

Consegui passar por essa porta sem dificuldade. Nem se quer um deles olhou em minha direção. Obriguei-me a manter o ritmo lento, mesmo ansiando desesperadamente correr o mais rápido possível.

Antes de chegar ao próximo cômodo ouvi alguns ruídos.

Reconheci o que me parecia ser respiração ofegante, gemidos reprimidos, sussurros baixos.

Antes de estar frente à porta imaginei o tipo de imoralidade que acontecia ali. Isso era um bom sinal, provavelmente estavam ocupados o bastante para não notarem uma reles mortal passando pelo corredor.

Logo pude vislumbrar o que ocorria naquela sala.

Primeiro vi uma bela mulher sentada no colo de um vampiro. Suas nádegas depositadas sobre o joelho dele. A garota estava de frente a mim, contudo seus olhos estavam fechados. A cabeça inclinada dava ao monstro acesso a sua jugular. O sangue escorria por seu ferimento, colorindo de escarlate o fino tecido transparente de sua roupa de dormir. Uma das mãos da criatura massageava o seio esquerdo da humana, que gemia sem pudor, sentindo prazer em ter a vida sugada aos poucos.

Embora a luz trepidante das velas fosse escassa, pude ver também quatro mulheres completamente nuas fazendo uma dança lenta, sem música, para outro vampiro que acariciava uma menina. Sim, uma garotinha, que não podia ter mais do que 12 anos de idade.

Tapei a boca para conter um grito de horror. As dançarinas tinham o corpo coberto por sangue, que escorria pelos ferimentos recentes e gotejava no chão, fazendo com que escorregassem. Todavia isso não as impedia de continuar a dança, atrapalhadamente.

A criança sorria, divertindo-se com a cena e ganhava beijos de aprovação do demônio que a mantinha embalada em seus braços.

Meu estômago embrulhou imediatamente e tive que travar uma batalha comigo mesma para não vomitar ali. Precisei apressar o passo para não ver aquela criança ser ferida, abusada e morta. Não demorou até que alcançasse a porta que me levaria ao lado de fora da mansão. Fiz o esforço necessário para não fazer barulho, embora estivesse nervosa e consequentemente desastrada. Assim que a transpus me vi no jardim da casa.

Ajoelhei e respirei profundamente, olhando para o céu estrelado e me forçando a não vomitar. O barulho chamaria atenção. Precisava me acalmar, me concentrar em minha missão. Foi então que me dei conta. O que diabos eu estava tentando fazer?

Como podia ser tão egoísta pensando em libertar Conner? De que lado estava afinal, dos vampiros ou dos humanos? Se o salvasse estaria condenando milhares de vidas a servirem de brinquedo a mais uma criatura sádica e sem escrúpulos.

Arrependi-me do meu plano estúpido. Suzi tinha razão, humanos não se apaixonam por vampiros, não se tornam amigos. Não há parceria entre a luz e as trevas.

Estava decidida a não continuar com isso. Foi então que me dei conta de que estava livre. Poderia fugir se quisesse. Ao que me parecia nenhum daqueles vampiros se deram conta de minha fuga, entretendo a lembrança da minha última tentativa me desanimava. Talvez o melhor a fazer fosse voltar para meu quarto e torcer para que a guerra entre eles e os caçadores acabassem com o máximo de vampiros que pudessem.

Dei meia volta, porém antes de retomar o caminho que me trouxera aqui, uma imortal se materializou entre mim e a porta.

Agarrou-me numa chave de braço, me imobilizando imediatamente. Tudo isso aconteceu tão rápido que nem ao menos pude ver sua fisionomia. Supus que fosse mulher pelo aspecto vultuoso de sua silhueta.

— Adivinha que bichinho assustado encontrei perdido no jardim? — pronunciou no rádio.

Seus braços apertavam meu pescoço com força. Sentia a angustia e a dor do sufocamento.

O vampiro extremamente alto e musculoso chegou até nós em questão de segundos. Seu cabelo completamente disciplinado e longo estava preso num rabo de cavalo. Ele se agachou para nivelar nossa altura e me encarar. Nossos olhos se encontraram. Tudo que vi naquele olhar cinzento foi curiosidade.

Estreitou os olhos com a intenção de ver em mim algo que não via. Parecia decepcionado quando arrumou a postura.

— E então? O que fazemos com ela? — inquiriu a vampira que me segurava.

Ele considerou as possibilidades por um breve momento. A essa altura eu já não respirava.

— Essa mortal precisa de correção. Seu atrevimento é ofensivo — me debatia tentando fazer com que a vampira afrouxasse o braço.

— Não podemos fazer muita coisa — rebateu a mulher. — Essa menina é o pseudo tótem do príncipe do Distrito três.

— Poderíamos entregá-la aos servos de Maxwell. Quem sabe quando assumir a coroa não nos dê títulos nobres em seu domínio? — ele voltou sua atenção para mim. — Solte-a, está morrendo — ordenou.

Caí no chão, sem forças. Respirava ofegantemente tentando fazer o ar voltar aos pulmões. O barulho que eu fazia, involuntariamente, era animalesco.

— Nem pensar — respondeu a mulher, ignorando meu estado deprimente. — Ainda acho que essa garota não é tótem nenhum, Belphegor só está usando-a para sair do tédio, zombando de seus inimigos, fazendo-os correr em círculo como um cão atrás da própria cauda. Se déssemos a ela o que merece, seríamos punidos com severidade.

— Está sugerindo que a levemos de volta para seu quarto de boneca? Nem pensar! Quero uma recompensa por ter impedido sua fuga. Se ele a encontrar lá nem vai acreditar que fugia.

Sentei no chão, ainda respirando com dificuldade, mas muito atenta à conversa deles.

— O que disse, Lohan? Quem a capturou fui eu. Talvez diga a ele que você teve uma pequena participação nisso, talvez.

Forcei-me a falar. Tossi na primeira tentativa, mas com esforço consegui:

— Por que pensam que fugi? — blefei.

Fiquei em pé, com toda minha dificuldade. Tentei parecer segura e superior. Deixei que me olhassem curiosos, enquanto batia a mão sobre a roupa para me livrar do pó.

— Vão pagar por isso — ameacei. — Bel saberá que me submeteram a maus tratos, sanguessugas ridículos! — os vampiros se entreolharam. — O próprio príncipe permitiu passeios noturnos. Se não sabem disso é porque ele não os considera de confiança. Agora, deixem-me em paz, quem sabe esqueço esse pequeno “incidente”. Não posso prever o que aconteceria a vocês, Bel ficaria zangado por acharem que uma humana seria capaz de fazê-lo de bobo — havia um brilho satisfeito no olhar de Lohan, como se agora eu tivesse a altura de suas expectativas.

— Viu isso? — disse ele, entre risos. — Ela acha que pode nos enganar.

— E se estiver falando a verdade? — a vampira estava temerosa.

— Claro que não está — parecia ainda mais impressionado por ela ter caído na minha conversa. — Já sei o que faremos! Vamos jogá-la no porão com os condenados. Assim que Belphegor voltar contamos o que aconteceu. Espero que dessa vez ela precise de aparelhos para respirar e se alimentar. A última surra me deu sono — Lohan agarrou meu braço e me arrastou até uma porta coberta por correntes e cadeados. Demorou alguns minutos para abrí-la.

Empurrou-me para dentro do porão e se apressou em fechar tudo novamente.

A violência do vampiro fez com que eu caísse de joelhos dentro daquele cômodo completamente escuro. Era possível ouvir minha respiração e as batidas do meu coração. Tenho que admitir que estava amedrontada.

Estendi minhas mãos enquanto caminhava para evitar tropeçar em algum objeto.

Será que Conner estava mesmo aqui? Entendi a decisão de Lohan como um toque do destino, se o encontrasse faria o que me propus a fazer quando destranquei a porta do quarto.

De repente, minhas mãos alcançaram alguma coisa.

Tateei aquele objeto rígido e gelado. Depois de alguns instantes percebi que não era um objeto, senti a saliência de um nariz e cabelos macios deslizarem por entre meus dedos.

Eu não estava só, havia um vampiro aqui.

Reprimi um grito e recuei alguns passos. Tropecei em alguma coisa grande que desabou no chão, ressoando alto.

— Deus, por favor, proteja-me! — sussurrei, antes de tropeçar e cair novamente.

Não me levantei, engatinhei por ali, afastando os objetos que se encontravam em meu caminho. Prossegui dessa forma até alcançar uma das paredes, levantei-me tateando-a, com a intenção de encontrar um interruptor.

Quase desisti de achá-lo, passei um bom tempo tateando a parede. Por fim, meu dedo o encontrou. Ascendi às luzes.

Era um galpão imenso apinhado de estantes de metal. Em cada prateleira havia incontáveis objetos.

E lá estavam eles. Seis vampiros petrificados com a estaca que lhe atravessavam o peito. Reconheci Conner, o único que além de paralisado estava amarrado a uma cadeira. Ainda usava as roupas de nosso casamento.

Sua pele encontrava-se arroxeada, havia ferimentos em seu corpo. Meu coração encheu-se de compaixão e chorei ao vê-lo naquele estado de putrefação.

Não sabia se estava consciente. Seus olhos estavam fechados e sua cabeça estava inclinada para o lado direito, repousando em seu próprio ombro.

Me lembrei que Conner não tinha morrido definitivamente. Eu só precisava tirar a estaca de seu peito e dar sangue humano a ele. Sim, foi isso que Suzi disse.

Agarrei a estaca cravada nele.

Precisei empregar muita força na tarefa de removê-la.

Caí para trás quando o pedaço de madeira resolveu ceder a meu esforço.

Pude ver o ferimento provocado por ela no peito de Conn, o rasgo que fez em sua camisa de linho branca e em sua pele. Lamentei por não ter impedido isso. Parecia fatal no meu ponto de vista. Ele não se moveu um milímetro.

Atirei longe aquela estaca maldita, com mais violência do que a necessária, tentando, num ato desesperado, arremessar com ela toda minha raiva, dor e indignação.

Levantei-me exaurida emocionalmente.

Me aproximei dele, sacudi seus ombros. Segurei em seu queixo e fiz com que seu rosto ficasse próximo ao meu.

— Conn, fale comigo! — pedi em voz baixa.

Voltei a sacudir seus ombros e fiquei impaciente por ele não me responder. — Conner! Abra os olhos — minha voz se elevava e meus olhos enchiam-se de lágrimas.

— Conn! — gritei, demonstrando meu desespero.

O vampiro não me respondeu, nem ao menos se mexeu.

Uma dor profunda atingiu meu peito. Por qual razão ele não reagia?

Oh Deus! O que Conner havia feito de errado? Me proteger? Me defender? Me ajudar?

Eu devia muito a ele. Esse vampiro tinha a tendência de me salvar, e não era preciso que eu pedisse sua ajuda. Ele havia sido muito mais que um amigo, havia sido um confidente, um cúmplice, alguém em quem eu podia confiar.

As lágrimas brotaram em meus olhos e lavaram minha face.

Abracei-me a ele, aos prantos.

— Não me deixe! — falava entre soluços. — Preciso muito de você — sentia seu corpo inerte entre meus braços, sua pele estava gelada como a de um cadáver. Não havia nenhum resquício de vida ali.

Me sentia culpada, se não fosse por mim ele não estaria nessa situação.

— Desculpe-me, Conn — ajoelhei-me diante dele e repousei a cabeça em seu colo, passei a acariciar suas mãos frias. — Não deveríamos ter ido para minha casa, eu não deveria ter concordado com isso — dei uma pausa, enquanto enxugava meu pranto com as mãos. — Eu tinha que cuidar de você, por que é isso que você sempre fez comigo, preocupando-se em me alimentar, cozinhando para mim, trazendo-me roupas apropriadas. Era meu dever retribuir esses cuidados — voltei a chorar. — Desculpe-me por falhar dessa maneira. Perdoe-me!

Odiei Belphegor por ter feito isso.

Foi aí que percebi que ele contraiu os olhos, num gesto quase imperceptível.

Meu coração disparou em meu peito, transbordando de esperança.

— Conner? — disse com a voz emocionada enquanto o sacudia.

O vampiro abriu os olhos demoradamente. Sorri abertamente ao vê-lo reagir, e o abracei com mais força do que deveria, fazendo-o gemer.

— Graças a Deus! — exclamei. — Achei que tivesse te perdido! — Conn não respondeu. Estava com a aparência horrível.

— Você está fraco, não é isso? — sentei-me em seu colo, de frente para ele, cada perna de um lado de sua cintura. Afastei meu cabelo e deixei meu pescoço á vista.

— Vamos, faça o que tem que fazer —orientei, amedrontada.

Conner me olhava inexpressivo, não reagia a meu gesto.

— Se não fizer será pego novamente, não queremos isso, certo? Você sabe que já passei por isso, então vai em frente, faça logo — aproximei-me ainda mais, deixando meu pescoço a centímetros de seus lábios.

Senti sua respiração gelada em meu pescoço, um arrepio percorreu meu corpo. Seus lábios frios moverem-se lentamente sob a pele fina dessa região.

A sensação não era ruim, mas num gesto defensivo afastei-me. Conn, por sua vez, hesitou.

Isso era necessário. Não podia ter medo agora. Voltei a me aproximar dele, segurei sua nuca e direcionei seus lábios até meu pescoço. Agarrei-me em seus ombros, na intenção de não me esquivar.

Voltei a sentir seu hálito gélido contra minha pele. Era uma sensação apavorante e sensual.

Seus lábios amaciaram meu pescoço, similar a um beijo suave. Fechei os olhos e me deixei levar por essas sensações estranhas.

Não demorou até que meu pescoço estivesse úmido.

Conner passava a língua com suavidade e em movimentos circulares soltei um gemido involuntário e cravei as unhas em seus ombros, prevendo o que aconteceria a seguir.

— ... Conn ... — minha voz estava falha, foi uma súplica para que ele não me torturasse dessa forma. Eu queria ser mordida. Surpreendi-me por desejar ser a presa de um vampiro.

Sem dar atenção a meu pedido, ele roçou de leve suas presas em meu pescoço, o arranhar de seus dentes me fez suspirar pesadamente.

Eu não podia resistir mais, agarrei seus cabelos e forcei sua cabeça contra meu pescoço. Esse gesto o encorajou.

Suas presas transpassaram minha pele, fui tomada por um dor pulsante e um prazer latente. Um grito abafado escapou de minha garganta.

Nesse instante nada mais existia, apenas aqueles caninos em minha jugular. Eu podia sentir que Conner se continha, o desejo dele era o mesmo que o meu. Não queria que fosse gentil, queria que ele cravasse seus dentes com força e que me sugasse com violência, no entanto, com dificuldade, ele mantinha o ritmo lento e torturante. Nenhuma palavra pode descrever o prazer que a mordida de um vampiro pode proporcionar.

Seus lábios amorteciam a agressão de seus dentes e eu podia sentir Conner sorver meu sangue, apreciando meu sabor em cada gole.

Tratava-se de um ato perigoso, íntimo e sensual.

Depois de alguns instantes, ele se livrou das amarras, como se fossem linhas. Envolveu minha cintura com um de seus braços. Com uma das mãos apoiou minha cabeça, enquanto me inclinava. Pude sentir o roçar de seu nariz em meu pescoço e seus lábios me pressionando com mais vontade. A temperatura de Conner se elevava, tornando-se febril, fazendo-me transpirar enquanto ele me sustentava em seus braços.

Percebi que morrer dessa forma não era ruim, talvez fosse a melhor maneira de morrer.

No princípio me remexia em seu colo, tentando fazer seu ritmo se intensificar, querendo sentir cada saliência de seu corpo contra o meu. Depois de alguns instantes estava entregue e submissa, permitindo que ele fizesse da maneira como achasse melhor.

Quando Conner descolou seus lábios de mim ainda não estava satisfeita, precisava que ele me mordesse mais. Sei que ele também não estava saciado.

E então vi a cena mais sensual que já havia presenciado em toda minha vida.

Conner olhou-me com olhos brilhantes, bochechas coradas e seus lábios manchados com o vermelho vivo do meu próprio sangue. Ele sorriu, exibindo suas presas afiadas e por fim passou a língua em seus lábios, de forma lenta e uniforme, engolindo até a última gota de sangue. Isso não foi assustador ou horripilante, foi sublime.

Respirei profundamente antes de desmaiar.

Quando voltei a mim, estava deitada no colo do vampiro que parecia preocupado.

— Estou bem — assegurei-lhe.

— O que fizemos foi uma loucura. Eu poderia ter te deixado em coma, ou te matado — Conn tinha uma boa aparência e sua voz estava firme.

— O importante é que você está bem e eu estou viva — disse enquanto me sentava, o vampiro me ajudou nessa tarefa, estava com vertigens devido a perca de sangue. Senti meu pescoço latejar e levei a mão até ele.

— Deixe-me ver o estrago que lhe causei — disse ele, retirando minha mão do local para observar. Ele fez uma careta ao ver meu pescoço.

— Está muito feio?

— Uhum. Eu estava sedento — revelou o vampiro. — Me desculpe! — completou, cheio de culpa.

— Foi incrível, não foi? — perguntei, relembrando as sensações dessa mordida. Conner riu alto.

— Foi intenso — respondeu-me.

— Mas, não foi assim com Gage, por quê? — Conner deu de ombros, não por não saber a resposta, apenas por não querer explicar.

Forcei-me a ficar em pé. Ele me ajudou.

— Só espero que essas mordidas não me transforme numa de vocês — confessei.

— Não vai. Você teria que sorver nosso sangue para se tornar uma de nós e estar entre a vida e a morte.

— Por quanto tempo eu fiquei desmaiada?

— Aproximadamente 20 minutos — meus olhos se arregalaram.

— Temos que ir — dei alguns passos até a porta, me apoiando nos braços dele.

— Temos? Você não vai a lugar algum — disse rispidamente.

Ele não sabia de nada, estava desinformado demais para opinar.

— Conn, eu fugi do meu quarto e fui pega. Aqueles vampiros devem ter avisado Belphegor e ele deve estar a caminho. Se ele por as mãos em mim, me mata. Temos que ir, agora.

— Não posso te levar comigo — se desvencilhou de mim.

— Ah não? — comecei a elevar a voz. — Me sacrifico por você e é assim que retribui?

— Clarice! — me repreendeu. — Ficou louca? Não posso te tirar daqui. A casa está cercada e se você acha que é só pelos servos de Max está completamente enganada. Belphegor tem inimigos em todo o mundo, de muitas espécies e eles devem ter montado acampamento pela redondeza. Estou fraco, mal posso garantir minha sobrevivência, se te levar comigo estarei te condenado à morte. Acredito que até mesmo o príncipe tem tido problemas em te manter a salvo. Deve estar matando uma dúzia de leões por dia. Por que acha que ainda está no Brasil? Ele não deveria estar cuidando de seus assuntos na Europa, onde é o território dele? Bel não tem como te tirar daqui. – fiquei em silêncio, digerindo o que me dizia.

— E se não estivéssemos sozinhos? — apontei para os vampiros petrificados. — Podemos salvá-los e levá-los conosco.

Conner sorriu. — Olhe para eles, Clarice. Não os reconhece? Tire a estaca do peito de algum e lhe dê sangue. A primeira coisa que fariam seria te matar.

Observei com mais cuidado. Esses vampiros pertenciam ao grupo que me atacou na praça da Suíça.

— Conn ... — implorei. — Você não pode me deixar aqui. Se eu fugir com você terei uma chance, se ficar, Bel me mata.

— Ele não vai — Conner sorriu com a ideia. — Vai esbravejar, socar uma parede, quebrar algumas coisas, mas não vai machucá-la — engoli seco e olhei para meus pés, envergonhada pelo que iria dizer.

— Nosso relacionamento declinou desde que você saiu de cena. Não estamos no auge da gentileza mutua —Conn me segurou pelos ombros e procurava meus olhos.

— Ele te machucou? — assenti. Sua fisionomia tornou-se brava.

— Ele tem passado dos limites, mas não posso permitir que te machuque. Isso é uma covardia . Bel está tão perturbado que nem o reconheço — ignorei sua explicação.

— E então? Vai me levar? — insisti.

— Me faria feliz se quisesse mesmo vir comigo, mas sei que só quer que eu te leve por ser uma medrosa. Tem medo do que ele possa te fazer — meu rosto se transformou numa carranca. — Tudo bem, vou ver como posso nos tirar daqui — embora estivesse contrariado parecia feliz.

— Seja rápido, a qualquer momento Belphegor vai arrebentar essa porta, sedento por meu sangue.

***

Notas finais
Gostaria de agradecer a "[ID #125216]Tortuguita" por betar o capítulo e me ajudar com o título do mesmo.Valew, gata! *-*