A Lógica Do Amor
3 Capítulo 2
Se sentia algum arrependimento por coagir Rin, Sesshoumaru não o demonstrava. Era como se apenas lhe houvesse sugerido colocar molho branco em vez de vinagrete na salada.
— Um ano — reiterou ele. — E tudo o que estou pedindo. Você nos ajuda a firmar nossas vendas domésticas e, no primeiro aniversário do bebê, compro a sua parte na empresa, se ainda estiver querendo vender.
— E o casamento?
Ele não respondeu de imediato.
Frustrada, Rin desejou poder interpretá-lo tão facilmente quanto ele parecia interpretá-la. Por que conseguiria agora, se durante os cinco anos em que conviveram como sócios nunca de cifrou seus pensamentos?
— Não se pode manter o que nunca se teve — filosofou ele, por fim, em tom crítico.
— Fale claro, Taisho. Vai me dar o divórcio?
— Você estará livre em um ano. Só quero que prometa que não irá para longe.
— Vou ter de permanecer em Tóquio?
— Quero meu filho, ou filha, por perto. É pedir demais?
É! Quase gritou Rin, mas se conteve. De qualquer forma, ele devia ter adivinhado a resposta, a julgar pela amargura que brotou em seus olhos âmbar.
— Desculpe-me — murmurou ela, pesarosa.
— Não estou tentando dificultar as coisas, mas você me pegou desprevenida!
— Eu também fui pego desprevenido.
— Eu sei. Mas essas exigências...
— São mais que razoáveis.
— Eu não acho! — Rin fechou os olhos, lutando para se recompor e para bloquear as lágrimas que vinham fácil ultimamente. — Sesshoumaru, isto não devia ter acontecido.
— Mas aconteceu. Goste ou não da ideia, vai dar à luz um filho meu.
Agachando-se ao lado dela, Sesshoumaru estendeu o braço sobre o ventre dilatado, mas então se deteve, a mão espalmada pairando poucos milímetros acima da criança. Foi só por um instante, mas ela viu sua máscara de indiferença cair, expondo um anseio agridoce de tocar o bebê, de sentir a vida que crescia lá dentro. Mas o controle voltou a congelar-lhe as feições.
Quando ele já recuava, ela impulsivamente agarrou-lhe as mãos e apertou-as com força contra sua barriga enorme. Sabia que o que ele mais queria era sentir a vida do filho pulsando. O calor de suas mãos grandes espalhava-se deliciosamente por todo seu ventre maduro.
— O bebê costuma se mexer bastante a esta hora do dia — confidenciou Rin.
Mal ela acabou de falar, Sesshoumaru sentiu vários chutes sob a palma da mão.
— É ele? — exclamou, maravilhado.
— Já tentando sair. Pelo menos é o que parece.
Ele apertou os lábios e baixou os cílios queimados de sol sobre os olhos âmbar que ameaçavam denunciar uma emoção. Passou a demonstrar apenas uma curiosidade moderada.
— Dói? — quis saber.
Se só a proximidade de Sesshoumaru já a perturbava, o que aquele contato físico não ameaçava provocar!
— Não. Se bem que todo desconforto vale a pena. — Sorriu. — Vale muito a pena.
— Está... feliz com o bebê?
— Sempre quis ter, mas Kohako... — Rin percebeu que não era hora de criticar o falecido marido. — Sim, Sesshoumaru, estou muito feliz com o bebê.
— Só não está feliz com o fato de eu ser o pai.
— Eu não disse isso!
— Nem precisava! Há minutos, disse que o que aconteceu entre nós no ano-novo foi uma aberração!
Rin baixou os olhos para o barrigão.
— A situação escapou ao controle.
Sesshoumaru recuperava o sarcasmo: — Com certeza, não houve planejamento.
— De qualquer forma, quero o bebê — reafirmou ela, pois isso fazia toda a diferença.
— Só não quer a mim. — Ele afastou as mãos e se levantou. — Devia ter me contado há meses. Não tinha o direito de esconder essa gravidez de mim.
Sesshoumaru tinha razão, e Rin reconhecia o fato.
— Desculpe-me. Acho que pressenti essa sua atitude quando descobrisse.
— E que outra atitude eu poderia tomar? — questionou ele.
— Qualquer uma mais sensata, que não envolvesse casamento.
Rin jamais voltaria a confiar num homem, não de todo o coração, nem a ponto de assumir um compromisso sagrado como o matrimonio.
— Pois não vou mudar de ideia, nem minhas exigências — finalizou Sesshoumaru. — Está de acordo com meus termos, ou não?
— Tenho alguma escolha?
— Não.
— Posso me recusar a me casar com você.
— Mas não vai fazer isso.
Rin conseguiu encará-lo tão impessoalmente quanto ele.
— Vou, sim, Sesshoumaru.
Ele respirou fundo.
— Receio que esteja cometendo um erro.
Ela odiava quando ele adotava aquela postura e expressão caninas, como um lobo prestes a investir. Principalmente quando focalizava a ela, pois isso significava que ela era a presa e estava para sucumbir.
— Que erro?
— É só eu pegar esse telefone, ligar para seus pais e fim de jogo. — Sesshoumaru não pôde conter o sorriso vitorioso. — Xeque-mate, queridinha.
Rin o olhava boquiaberta, incrédula e furiosa.
— Você não faria isso...
— Quer apostar? A esta altura, eles já devem saber que você está grávida.
— Teria sido um pouco difícil esconder isso deles.
— Eles sabem quem é o pai?
— Não.
Ele alargou o sorriso. Ela recordou quão despudoradamente beijara aquela boca na tal noite inesquecível.
— Como acha que reagiriam ao saber que sou eu o pai da criança?
— Depois de se levantarem do chão, você diz? — retrucou Rin.
— É, depois.
— Eles ficariam muito zangados — preveniu ela, tentando intimidar. — Muito zangados.
— Até eu explicar que não sabia da sua gravidez. Ela contraiu a boca.
— É, até você explicar.
— E quando eu dissesse que gostaria de me casar com você...
— Ficariam exultantes — completou ela.
— Foi o que pensei. — Sesshoumaru concedeu-lhe alguns segundos de reflexão antes de aplicar o último golpe: — Pronta para reconhecer a derrota?
Rin fumegava em silêncio. Sesshoumaru conhecia muito bem seus pais, fervorosos adeptos da unidade familiar. Seis meses antes, haviam recebido com alegria a notícia de que seriam avós, mas encararam mal sua recusa em revelar o nome do pai do bebê, bem como a ideia de desposá-lo. Podia contar com seu amor e apoio, mas sabia que os magoara e decepcionara muito.
Estava derrotada, mas fez Sesshoumaru esperar dois minutos inteiros antes de se manifestar:
— Casamento por um ano. Continuo colaborando com a SSI, mas você compra a minha parte ao final desse período. Combinado?
— Combinado. — Ele consultou o relógio de pulso. — Passo aqui amanhã às nove horas para irmos ao cartório. Vou falar com o juiz Larson. Se ele conseguir abreviar os trâmites, ao meio-dia estaremos casados.
— Tão rápido?
— Não temos muito tempo, concorda?
Rin odiava o fato de Sesshoumaru estar sempre certo. Mas já concordara em desposá-lo e não havia por que adiar o inevitável. Não se quisesse que o bebê tivesse o nome do pai.
— Acho que não vai dar para nos casarmos no templo, então...
— Importa-se?
— Importo-me. Mas, dadas as circunstâncias... — Sesshoumaru deu de ombros.
— Seus pais vão querer estar presentes, imagino. Rin sorriu, cansada.
— Creio que não conseguiríamos evitar.
— Ficamos assim, então.
Passaram alguns segundos em silêncio. Por fim, Rin levantou-se, desajeitada devido à barriga grande, constrangida devido à presença do homem que logo seria seu marido.
— Vou acompanhá-lo.
Ele não recusou, e caminharam juntos pelo corredor até o saguão de entrada.
— Tome conta dela, Gem — instruiu Sesshoumaru ao sistema de segurança. — E me avise se houver algum problema.
— RECOMENDAÇÃO REGISTRADA, SENHOR TAISHO. BOA TARDE.
Rin olhou brava para o painel de controle do sistema.
— Espere só um minuto...
— Está para dar à luz a qualquer momento, Rin — cortou Sesshoumaru, num tom condescendente que a fez ferver de raiva. — Só estou prevenindo o sistema quanto a complicações de última hora. Gem vai tomar conta de tudo.
— Não gosto de ser espionada!
— Gem não está espionando. Está protegendo você. É sua função.
— Por ora — avisou Rin.
— Até que eu diga o contrário — corrigiu ele.
— Até que eu descubra os códigos de anulação. — Cansada de discutir, Rin perguntou o que estava que rendo saber desde a chegada inesperada de Sesshoumaru. — Por que voltou antes do planejado?
— Digamos que tive um pressentimento.
Ela ergueu o sobrolho.
— Um pressentimento, é? Você, Sesshoumaru?
Ele não pareceu se perturbar com a insinuação.
— Ao contrário do que imagina, Rin, não sou um computador.
Com isso, Sesshoumaru transpôs a soleira e se foi.
Sesshoumaru permanecia na varanda da casa de Rin, de costas para a porta que ela acabara de bater. O simbolismo da cena não lhe passava despercebido, tampouco a ironia daquela situação. Mais uma vez via-se abandonado ao relento. Uma imagem assaltou-lhe a mente, a de um
garotinho estoico.
Sozinho, o garoto via à frente uma vaga de estacionamento vazia. A suas costas, um feio prédio escolar projetava-se contra um lúgubre céu de inverno. Enquanto ele esperava, um floco de neve solitário desceu devagar diante de seus olhos, instável ao sabor de um vento gélido. Nem assim ele se moveu, alheio ao frio, à raridade da neve em Tóquio ou ao adiantado da hora. Recusava-se a liberar as emoções que lhe açoitavam a alma. Lágrimas seriam inúteis, mesmo que ainda tivesse a capacidade de chorar. Mas já não podia. Elas haviam se congelado, muito tempo atrás. Por isso, continuou esperando, como sempre esperara.
Reprimindo as lembranças, Sesshoumaru baixou a cabeça, a exemplo de um touro enfurecido pronto a atacar. Endureceu o queixo e cerrou os punhos. De novo, não. Descobriria um jeito de entrar, de alcançar o calor pelo qual ansiava. Não importava quanto tempo levasse, ainda iria se regozijar no aconchego que era Rin.
—Como se sente?
Rin fez uma careta e se remexeu no desconfortável banco de madeira do lado de fora do gabinete do juiz. Não que fizesse diferença. Por mais que mudasse de posição ou massageasse os músculos contraídos à base da espinha, não encontrava alívio.
— Quer mesmo saber?
— Eu não teria perguntado, se não quisesse.
— Estou bem. Apenas toda inchada, dolorida e com mal-estar geral.
Sesshoumaru não se divertiu, conforme ela esperara. Tampouco lançou mão de chavões inúteis. Em vez disso, estendeu o braço em torno dela e apertou o punho cerrado em suas costas junto à cintura.
— Melhorou?
Ela soltou a respiração quase gemendo de prazer.
— Onde aprendeu a fazer isso?
— Puro instinto.
Instinto? Eis algo difícil para Rin imaginar. Sesshoumaru mostrara-se sempre tão metódico e disciplinado. Definitivamente, não parecia alguém que reagia a impulsos. No que se referia à impulsividade, elaera a especialista.
— Há um assunto que gostaria de discutir com você.
— Mais surpresas? — retrucou ele, irônico. — Não me diga que vamos ter gêmeos.
Vamos ter!Rin apertou as mãos unidas no colo. Ele repetia a atitude. Destacava o laço que os unia, lembram do que tinha tanto interesse quanto ela na pequena vida que se expandia sob seu coração. E essa atitude dele a abalava mais do que gostaria de admitir.
— Não, não vou ter gêmeos. Pelo menos o médico não comentou nada. É sobre meus pais...
— Eles virão para a cerimônia, não?
— Virão, mas... Quando lhes falei do casamento, eles ficaram com a impressão de que... bem, de que íamos nos casar por livre e espontânea vontade.
— Mas é por livre e espontânea vontade.
— Eu sei, por causa do bebê. — Rin limpou a garganta, constrangida. — Mas eles pensam que é porque... estamos apaixonados. — Olhou-o desolada. — Não tive coragem de dizer a verdade.
Sesshoumaru absorveu o comentário sem preocupação aparente.
— Como receberam a notícia?
— Ficaram exultantes.
E quão surpresa não ficara Rin ante a satisfação com que os pais aceitaram Sesshoumaru. Pensando bem, a família sempre simpatizara com ele, bem mais do que com Kohako, seu falecido marido, talvez por saberem o quanto este era deficiente em termos de honra e profundidade emocional. Sesshoumaru podia ser de uma dignidade inabalável, mas não parecia capaz de sentimentos profundos. Sob tal aspecto, os dois maridos se mostrariam muito parecidos.
— Eles não perguntaram por que esperamos tanto tempo?
— Perguntaram. — Rin deu de ombros. — Eu disse que adiamos a decisão até você voltar da Europa, achando que devíamos esperar mais algum tempo após a morte de Kohako para assumirmos um compromisso. E também para termos certeza de que nossos sentimentos um pelo outro não
mudariam.
— E eles?
Rin sentiu as faces queimarem.
— Eles disseram que, se estávamos certos de nossos sentimentos para dormirmos juntos, estávamos certos o bastante para nos casarmos.
— Sempre gostei dos seus pais! — festejou Sesshoumaru, indiferente à zanga dela. — E o bebê? Eles não perguntaram por que não me casei com você tão logo soube da gravidez?
Rin temera que ele chegasse a tal questão.
— Eu disse que você só soube do bebê ao voltar da Europa.
Sesshoumaru olhou-a admirado.
— Mulher corajosa.
— Era a verdade. Pelo menos isso era.
— O que leva a outro enigma. Por que não me contou antes sobre o bebê?
Rin deu de ombros.
— Você ia voltar em três meses, lembra-se? Achei melhor dar-lhe a notícia pessoalmente.
— Mentira. É o que vem afirmando a si mesma todo esse tempo, mas não entrou em contato comigo por um motivo muito simples: estava com medo.
Rin endureceu o queixo. Nem sob tortura reconhece ria a verdade daquela observação acurada. Sem ousar encará-lo, concentrou-se na parede oposta.
— Eu queria dar a notícia pessoalmente, já disse. Não tenho culpa se decidiu estender a viagem para seis meses e, depois, para nove. Ora, Sesshoumaru, em nossa última conversa, você já falava em completar um ano de estadia lá!
— Eu teria voltado antes, se você tivesse me contado. Droga, eu teria pego o vôo seguinte se me pedisse: "volte para casa", ainda que não me contasse sobre o bebê.
Para casa?Rin arrepiou-se à ideia.
— Bem, não foi necessário, concorda? Você antecipou seu retorno, de qualquer forma. — Novamente desconfortável, mexeu-se no banco. Nada de alívio. — Não acreditei quando abri a porta e vi você de pé na minha frente.
— Eu também fiquei espantado — replicou Sesshoumaru, seco.
— Nesse caso, disfarçou bem.
— Anos de prática. Rin olhou-o curiosa.
— Quer dizer que treinou esconder as emoções? Por quê?
— Foi uma escolha lógica, na época.
Rin não se deixou enganar pelo tom indiferente. Aos poucos, aprendia a espiar atrás daquela máscara dele. Por mais intrigante que parecesse, era como se ele implorasse que ela descobrisse aquilo que ele tanto se empenhava em esconder.
— Mas algum acontecimento deve ter imposto tal escolha. O que foi?
— Descobri a inutilidade das emoções numa fria tarde de dezembro.
— Uma epifania, Sesshoumaru? Você? — Superada a surpresa, Rin concluiu: — Em consequência, decidiu seguir os passos do senhor Spock? Adotou a filosofia vulcaniana da lógica sem emoção?
Os olhos âmbar dele eram puro gelo.
— Digamos que nunca me apresentaram um argumento convincente para que eu mudasse de ideia.
— Algo terrível deve ter acontecido para você tomar uma decisão tão radical. — Rin franziu o cenho, preocupada. — O que foi? Alguém magoou você?
Sesshoumaru não teve chance de responder, presumindo que quisesse. Os pais de Rin chegaram, mais uma leva de irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas.
— Meus parabéns! — exclamou a mãe, Izara, beijando-a no rosto. Abraçou Sesshoumaru, que se levantara. — Não se preocupem com nada, vocês dois, temos tudo sob controle. E não se levante, Rin! Sesshoumaru, não permita que ela se levante até a hora da cerimônia.
Rin adorou ver Sesshoumaru embasbacado. Precisava praticar mais a arte de esconder as emoções.
— Mas do que está falando, mãe? — indagou, conhecendo-a bem. — O que é que vocês têm sob controle?
— O casamento, é claro! — Izara bateu palmas. — Vamos lá, meninas. É preciso começar com o pé direito.
As irmãs de Rin formaram um semicírculo em torno dela, cada uma com um presente. Ela não pôde evitar as lágrimas, embaraçada e feliz ao mesmo tempo. Embaraçada por deixá-las pensar que aquele casamento
ocorreria por mais do que conveniência, feliz porque elas se importavam e
faziam questão de demonstrar.
— Primeiro, uma coisa velha — anunciou Izara, sentando-se a seu lado. Estenderam-lhe um pacotinho. — Vamos, abra.
Rin rasgou o papel de embrulho, sorrindo para Sesshoumaru, que recolhia o material descartado. Quase não acreditou ao abrir a caixinha.
— O camafeu¹ da vovó! Oh, mãe, não pode estar se separando dele...
Com cuidado, abriu o fecho minúsculo e puxou a tampinha dupla. Dentro havia uma foto sua e uma de Sesshoumaru. Ele espiava por sobre seu ombro.
— Onde conseguiram essa foto? — Ele pensou bem e se lembrou. — Ah, foi numa festa de Natal, há dois anos.
— Deu um pouco de trabalho, mas somos uma família decidida. — Izara passou a mão na barriga de Rin. — Assim que este pimpolho der o ar da graça, vamos acrescentar a fotinho dele. E ainda sobra espaço para mais uma. — Deu-lhes uma piscadela. — Como Rin adora crianças, tenho certeza de que esse espaço logo estará preenchido. Depois, é por conta de
vocês.
O rubor tomou as faces de Rin, ao mesmo tempo que lhe estendiam outro presente.
— Uma coisa nova? — arriscou, tocando na fita cor-de-rosa. Puxou a tampa da caixa e paralisou-se. Era uma fronha branca com dois monogramas em rico bordado: um "S" entrelaçado num
"R".
— Como não sabíamos o tamanho certo da roupa de cama, vamos encomendar o resto assim que nos disser— explicou Izara. — Gosta?
Rin mordiscou o lábio, embaraçada. Como não pensara nisso? Seus pais imaginavam que Sesshoumaru e ela, uma vez casados, passariam a viver como marido e mulher de verdade, partilhando uma casa euma cama. Esforçou-se por manter a mão firme ao sentir a textura do trabalho manual.
— É lindo! Obrigada.
— Nossa cama é king-size— informou Sesshoumaru, para desalento de Rin.
Izara alegrou-se.
— Vou fazer a encomenda assim que chegarmos em casa!
— Agora, uma coisa emprestada — anunciou Ruki, irmã mais velha de Rin. — Usei isto no meu casamento, deve se lembrar. — Estendeu-lhe uma grande caixa quadrada. — Você achou tão lindo. Eu empresto.
Rin removeu com cuidado as camadas de papel de seda, até se revelar o chapéu de aba larga que Ruki usara no lugar do véu. Delicado e feminino, o acessório, enfeitado com uma larga fita e imenso laço de cetim, prendera seus cabelos castanho-escuros com perfeição. Sem dúvida, lhe cairia igualmente bem. Tinha o mesmo tom de branco do vestido que escolhera para a cerimônia, e o laço combinava com o debrum no corpete.
— Obrigada, Ruki. — Esforçava-se por manter um sorriso, emocionada com a consideração da família. Não esperara nada daquilo, quando deveria. — Prometo de volvê-lo intacto.
Prestativo, Sesshoumaru tirou o chapéu de dentro da caixa e ajeitou-o sobre seus cabelos, inclinando-o de modo que a aba larga se dobrasse levemente sobre um de seus olhos.
— Está linda — elogiou, sincero. — Ou melhor, perfeita.
— Ainda não — protestou a irmã mais nova de Rin.
— Ela ainda não abriu o meu presente.
Rin ficou pensativa.
— Bem, já ganhei uma coisa velha, uma
coisa nova e uma coisa emprestada. Está faltando...
— Uma coisa azul — completou Mika, estendendo uma caixa estreita.
— Estou quase com medo de abrir —confessou Rin, escaldada das brincadeiras da irmã.
Tratava-se de uma insinuante meia-liga preta enfeitada com uma fita de cetim azul.
— Vamos ver se serve — atiçou Mika, expondo a peça diante de todos.
— Cabe a mim, acho — prontificou-se Sesshoumaru, pegando a meia-liga.
Antes que Rin pudesse protestar, ele ergueu seus tornozelos e removeu seus sapatos. O desafio era evidente nas profundezas de seus olhos âmbar, ora em brasa. Pousando-lhe ambos os pés na coxa musculosa,
posicionou a meia-liga e começou a deslocá-la lentamente pernas acima.
De início, suas mãos apenas roçaram nos ossos finos dos tornozelos. Mas então ele começou a brincar com a pele sensível, ensaiando um ritmo primitivo que lhe aqueceu o sangue e encheu-a de um desejo doce, forte. Ao mesmo tempo que queria cessar o contato, ansiava por atirar-se nos braços dele e reaprender os passos daquela dança específica. Esta opção era impossível, com a família toda observando-os. Por isso, submeteu-se à
agonia, centímetro por centímetro, conforme ele deslizava a meia-liga por suas pernas protegidas por meias finas. A altura dos joelhos, ele se deteve.
— Está bom aí — sussurrou Rin, aflita.
—De jeito nenhum — contrariou Sesshoumaru, determinado.
A família não ajudava em nada. Em vez de apoiar Rin, incentivava Sesshoumaru a fazer o pior. Após lançar-lhe um olhar zombeteiro, ele se concentrou na barra do vestido, sob a qual fez desaparecer a meia-liga. Por fim, alcançou o topo das meias, tateando o elástico apertado que as mantinha no lugar. Acabava de descobrir que as meias modernas dispensavam ligas. De qualquer forma, meias-ligas e gravidez não combinavam.
— Mas o que temos aqui? — indagou ele, confuso.
Rin viu as irmãs suprimirem o riso.
— Estou usando meias sete-oitavos. O elástico forte dispensa ligas.
— Ah, que interessante. Vou querer ver isso depois...
— De jeito nenhum!
— Mas, querida, nunca vi esse tipo de meia antes. — Um brilho traquinas iluminou os olhos dele. — Você, nosso bebê e essas meias. Eis algo que eu daria uma fortuna para ver.
Trêmula, Rin desanimou:
— Creia-me, neste caso, a ignorância é uma bênção. De qualquer forma, não estou em condições de dar um showerótico.
Sesshoumaru ficou sério, e ela podia jurar que ele recordava algo com saudade.
— A gravidez a deixa mais bela do que pode imaginar — afirmou, franco. — Pelo menos, na minha opinião. Neste momento, nada me daria
mais prazer do que ver você nessas meias, com nosso bebê seguro dentro da sua barriga. Nada... exceto colocar a aliança em seu dedo.
— Oh, Sesshoumaru — murmurou Rin, emocionada às lágrimas. Fitou-o enternecida.
— Lamento interromper, mas estão nos chamando — informou Mika.
Sesshoumaru já estava recomposto.
— Acho que vamos ter de deixar isto para outro dia.
Com evidente relutância, ele fez as mãos percorrerem o caminho inverso, das coxas para os joelhos, dos joelhos para os tornozelos. Após calçar-lhe
novamente os sapatos, levantou-se e ajudou-a a se erguer do banco.
Rin continuou se apoiando nele até sentir as pernas firmes. A incursão das mãos dele sob sua saia abalara-a ao ponto do enfraquecimento. Para completar, sentia cãibras devido ao longo tempo sentada no banco de madeira duro.
Sesshoumaru fez a família toda de Rin entrar primeiro no gabinete do juiz e então se mostrou hesitante, olhando para os dois lados no corredor.
— Sesshoumaru? — chamou ela, curiosa.
— Já vou.
Ele se demorou mais um minuto, checando o corredor inúmeras vezes. O que estaria esperando? Ou melhor, quem? Conforme Kohako comentara certa vez, os pais de Sesshoumaru já eram falecidos e ele era filho único, ou seja, não tinha família. Teria convidado parentes distantes para assistir à cerimônia?
— Quem você está...?
A expressão gélida dele a fez desistir da pergunta. O inverno devastara toda a vida em seu rosto, atingindo-lhe a alma com a força de um vento ártico. O que teria causado tamanha transformação?
Minutos antes, ele se mostrara todo alegria e ternura, provocando-a e
seduzindo-a.
Mas então acontecera algo que lhe roubara as emoções e o obrigara a se fechar. Algo relacionado a alguém que deveria ter surgido naquele corredor, mas não surgira.
— Está pronta? — indagou ele.
As palavras mais pareceram cacos de gelo, brilhantes e duras, cheias de uma terrível frieza.
— Eu estou — garantiu Rin. — Mas e você?
Ele a encarou então, e ela se assustou. Seus olhos estavam vazios. Horrivelmente vazios. As íris âmbar eram aço, chamas desprovidas de calor e luz.
— Para que protelar? — Sesshoumaru pegou-a pelo cotovelo.— Vamos. Está na hora do nosso casamento.
1Um camafeu (do francês antigo, camaheu) é uma pedra fina cinzelada de
modo a formar uma figura em relevo (em oposição a entalhe) e que comporta ou
não camadas superpostas de cores diferentes.
Fonte: Wikipédia
Notas finais
Bom, vamos lá, poxa, eu sei que tenho poucos leitores, mas um sinal de vida de vez enquando é válido!
Espero o feed back de vocês!
Beijocas
Tsuki Hime
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