A Lágrima da Escuridão
1 Prólogo
Notas iniciais
Enfim chegou a hora de que eu há anos tento evitar. Desde quando eu acolhi o primeiro Filho da Sombra, eu sabia que esse dia viria e meus próprios alunos se rebelariam contra mim, afinal, dentre todos eu ainda era o único que mantinha a minha humanidade em perfeita conexão com a minha Sombra.
Como um Filho Sombrio, nós podemos pensar sentir e raciocinar as coisas com mais coerência e razão. Dificilmente um de nós tomaria uma decisão por impulso ou por sentimentos a fim de colocar a própria existência em risco. Um Filho da Sombra jamais se jogaria na frente de uma Lâmina da Morte para salvar seu irmão, pois ele sabia que se seu companheiro estivesse para morrer, era inteiramente a sua culpa, e nada se podia fazer.
Os Filhos da Sombra precisavam de mim assim como um rebanho de ovelhas precisa do seu pastor para seguir seu rumo. Se eles perdessem totalmente a sua humanidade dentro de si e passassem totalmente para o caminho da sua Sombra, eles cairiam na ignorância e se afogariam nas águas do próprio orgulho. É algo natural, assim como os leões rugem, cachorros latem, pássaros cantam e humanos gritam, os Filhos da Sombra precisam estar sempre cientes que o seu dever não é ser maior que ninguém, apenas ser o que é.
Mas nós somos necessários para este mundo, para o Universo. São os Filhos da Sombra que mantém as coisas ruins longe dos olhos frágeis humanos, são eles que guardam as barreiras entre a sanidade e as aberrações negras que habitam as mais profundas e abissais crateras que estão entre a vasta Escuridão que dança por dentre os mundos.
Graças a esse trabalho, nós vimos coisas, sentimos nossas almas serem estilhaçadas em pedaços pelas coisas terríveis que cercam este belo planeta que parece estar na boca do fim. Talvez realmente seja o destino de todas as criaturas da Criação, no fim serem engolidas pela insaciável fome da Escuridão e acabarmos tendo nossa essência vagando por aí em um nada obscuro e gelado.
Por enquanto nós repelimos tudo isso, mas logo as cortinas desta janela, que separa nossa sanidade com aquilo que nos observa com olhos famintos, caia, nós estaremos diante do nosso fim. Esse será o dia de Tenebras Noctem.
Mas agora, a única resistência que a humanidade tinha contra o Tenebras Noctem se despedaçou como um fino vidro de cristal. Nós fomos traídos pelos nossos próprios irmãos por simplesmente eu ter escolhido salvar uma vida ao invés de dá-la a Morte. Muitos dos meus melhores e mais promissores discípulos foram mortos de maneiras inimagináveis apenas para que eles chegassem a mim. E para evitar mais derramamento do sangue que na qual eu jurei proteger, eu tomei a decisão final, deixando a minha tarefa primordial para o meu substituto.
Se você um dia existir mesmo, assim como eu, deixo para você o dever de manter o Equilíbrio, pois apenas você poderá ter o direito de julgar todas as raças, dando a elas a escolha de morrer ou se arrepender. Deixo a você os meus instrumentos para executar a arefa árdua e que provavelmente marcará dolorosas lembranças em sua alma. Deixo a você a sabedoria e razão para sempre fazer um julgamento justo. Deixo a você a minha força para que possa lutar contra aquilo que nos cerca.
Lamento que você tenha nascido com o sangue humano e com o manto da Sombra sobre sua cabeça, entretanto saiba que dentre todos os seres que habitam esses mundos você será o que fará a diferença dentre todos, mesmo que jamais saibam da sua existência, Guardião Sombrio.
O Mestre.
Por uma última vez, ele leu a carta que seu antecessor havia deixado. Deu um riso sarcástico enquanto dobrava o pequeno pedaço de papel amarelado e o guardava novamente no bolso interior mais fundo do seu casaco de couro.
“Deixo a você a sabedoria e a razão.” repetiu consigo mesmo em sua mente: “eu ainda mal consigo fazer uma conta numérica com menos de dois minutos e ainda vem me falar de sabedoria e razão? Que ironia esquisita.”.
Era a noite e o vento gelado batia contra seu rosto, ainda mais forte no topo daquele pequeno terraço acima de um edifício de quatro andares. Apoiado na ponta do parapeito ele parecia um felino, com seus braços apoiados nas vigas de concreto por dentre as pernas flexionadas e abertas, observava o movimento intenso das pessoas que passavam abaixo, numa das ruas mais movimentadas da cidade.
O que ele observava tanto naquele movimento com os olhos centrados em cada cidadão que passava ali? Muitas coisas, mas em especial ele procurava alguém que carregasse o fardo por ter deturbado o perfeito estado de harmonia das coisas. Aquelas pessoas jamais deveriam andar por dentre as outras, laranjas podres que aos poucos espalhavam sua podridão para as outras, e alguém precisava dar um fim neles.
Após alguns minutos de observação intensa, a sua presa finalmente apareceu andando. Exatamente no mesmo horário em que ela sempre passava por ali, apressada como sempre para chegar logo em casa e tentar afogar seu sentimento de culpa na bebida. Era um homem idoso, obeso, poderoso empresário, rico, influente e muito famoso, porém com um vazio escuro dentro da sua alma, por um crime terrível que ele executou para chegar ao poder.
Aquele homem conseguiu driblar a legislação e a justiça com seus contatos, usando sua influência para à corromper os juízes e promotores, dando lhe como inocente no caso e o arquivando dizendo não ter provas o suficiente para seguir em frente.
Uma mulher inocente morreu com um tiro na cabeça por isso, a filha desta mulher ficou desesperada ao saber que sua mãe havia morrido e correu desesperadamente pelo sinal verde, sendo atropelada por um ônibus, o médico que tentou salvá-la deveria ter ido embora, mas ficou no hospital e ao sair de lá foi esfaqueado na madrugada tendo uma hemorragia e morrendo na porta do seu próprio trabalho, o bandido que iria apenas roubá-lo, mas não matá-lo, foi fuzilado pelos policiais em uma perseguição de carros. O carro dos policiais bateu em um poste... E assim se sucede os eventos terríveis, por causa de apenas um misero ser um humano que agora andava livremente pelas calçadas.
Aquele poderoso homem pôde ter escapado da sua prisão, dado a volta por cima burlando as leis humanas, comprando as pessoas com seu dinheiro e criando outros meios para se sair ileso. Mas agora ele estava na mira do Guardião Sombrio, e ninguém jamais escapou ou escapará do seu julgamento.
Quando o homem estava exatamente no ângulo em que aquele Guardião Sombrio queria, ele saltou do parapeito como um atleta nadador que saltava do trampolim. Seu corpo descia em um rasante mortal como se no final haveria a água para amaciar sua queda até chegar a sua vitima. E quando o Guardião sombrio estava no alcance necessário, uma escuridão invadiu todo o local, fazendo com que tudo que possuía luz apagasse deixando o lugar em completo breu.
Antes que a sua presa sentisse sequer o medo, seu pescoço foi torcido duas vezes para os lados por duas mãos com uma força incomum, quebrando seus ossos como se fossem gravetos. Seu corpo desfaleceu nos braços do Guardião que o segurou para não deixa-lo cair. Rapidamente o Guardião Sombrio olhou para o alto e proferiu:
— Subir!
Junto com o cadáver ele desapareceu, fazendo com que as luzes novamente se acendessem. Ambos foram reaparecer novamente em cima do mesmo edifício que a pouco o Guardião Sombrio fazia sua busca, em cima de um símbolo desenhado ali.
Então, delicadamente o Guardião deitou o corpo já sem vida no chão, analisou sua face sem expressão por uma última vez e por fim colocou sua palma sobre a testa fria do homem dizendo:
— “Aqui termina sua estrada, que sua alma encontre o perdão daqueles que na qual morreram por sua causa e finalmente encontre o descanso eterno”.
Uma runa apareceu desenhada onde a palma do Guardião estava pousada, e aos poucos o corpo do homem foi sendo consumido por sombras que saiam do chão até não sobrarem nada. O Guardião Sombrio respirou fundo e sorriu. Virou-se e foi embora.
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