A Lágrima da Escuridão
10 Capítulo 9
Notas iniciais
— Dom se acalme. — Samantha disse preocupada.
Dominic que ainda estava em estado de choque, tentava segurar uma xicara de café que tremia como se houvesse um terremoto exatamente onde ele estava sentado, seus olhos estavam arregalados, sua pele totalmente pálida, suava frio e tinha seus músculos doloridos de tão contraídos que estavam.
Todos estavam reunidos na cozinha do edifício abandonado, era um lugar que na maioria das vezes era apenas Vesta que frequentava, mas quando Dominic foi resgatado por Leton, aquele foi o primeiro lugar a ter uma cadeira em que Dom poderia sentar sem cair no chão novamente rindo enlouquecidamente.
— Tem certeza que o café fará bem para ele Vesta? — perguntou ela tentando segurar as mãos de Dominic para que ele pudesse encontrar alguma firmeza.
— Claro. — Vesta respondeu enquanto jogava sua franja para trás, que lhe incomodava a visão. — O café é um bom calmante, o problema é ele conseguir engolir.
— Eu estou bem Samantha. — Dominic disse com voz tremula. — E eu só preciso de alguns minutos para engolir esse café.
— Leton eu acho que Dom não tem qualquer condição de falar aqui. — Siouxie falou sentada em cima de um balcão. — O que realmente aconteceu?
Leton, que estava ao lado de Dominic, estava pensativo e respondeu com o olhar fixo em outro lugar e distante:
— Dominic viu a Morte.
— Viu a morte? — Alec perguntou um pouco confuso.
— Sim, não estou falando da morte como acontecimento, mas sim da entidade que carrega o nome de Morte. Quando eu encontrei havia uma jaula toda sucateada, mas reconheci que era uma prisão onde os humanos a usavam para capturar seres intrusos do Plano Espiritual, na Primeira Era. Aparentemente o Limite da Razão encontrou essa jaula e conseguiram em uma tacada de sorte capturar a Morte.
— Isso não faz sentido. — Siouxie disse. — Como eles capturariam a própria Morte, sendo ela uma entidade tão antiga quanto o próprio Universo?
— A Morte em si é uma entidade que caminha pelo próprio Plano, coletando as Sielas mortas sem interferir no Plano Físico. — Falou Draen. — Mesmo que ela esteja relacionada a todas as pessoas que morram, a Morte como entidade também precisa sacrificar grande parte dos seus poderes para poder entrar no Mundo Físico.
— Ela estava na forma de uma criança. — Dom conseguiu falar depois de beber um gole de café.
— Eu disse que funcionaria. — Vesta cochichou para Alec.
— Quando estávamos dentro da jaula, a Morte tinha uma aparência infantil. Mas quando ela saiu...
— Deve ter sido aterrorizante. — Draen admitiu. — Provavelmente ela deve ter arrastado todos vocês para o Plano dela quando saiu da jaula e devolveu apenas você.
— O que eu me pergunto, — Leton se manifestou ainda pensativo — é o que a Morte estaria fazendo aqui no Plano Físico? Eu nunca sequer ouvi falar disso, se ela fez isso provavelmente tenha algum motivo.
— O que não faz sentido pra mim, é aqueles idiotas do Limite da Razão capturarem ela. — Siouxie falou.
— O Mestre certa vez disse que a Morte vem a este plano para verificar algo pessoalmente. — Draen explicou. — Eu deduzo que ela tenha visto ou sentido que alguma coisa saiu dos eixos e por isso precisou vir até aqui, mesmo limando seus poderes.
— Dom, nesses últimos dias aconteceu algo de diferente enquanto você fazia a sua vigia? — Perguntou Samantha.
— Não. — Dominic com um pouco de esforço já não tremia mais. — Talvez a única coisa de estranho, é que de uma hora para outra os desequilibrados sumiram.
— Provavelmente porque eles não podiam matar sem a Morte. — Vesta se pronunciou pela primeira vez. — E sim, com certeza aconteceu algo que trouxe a Morte até este Plano para verificar pessoalmente. Mas se fosse alguma coisa que acontecesse aqui no Ocidente, provavelmente saberíamos.
— E o que ela estaria fazendo aqui no Ocidente, se o problema era no Oriente? — Perguntou Dom.
— Aquelas gaiolas são antes de tudo mágicas. — respondeu Leton. — A Morte provavelmente escolheu algum lugar por aqui para se materializar, mas a jaula automaticamente a puxou para lá, já que ela foi projetada para capturar seres de Planos intrusos.
— Isso explicaria a minha Sombra ficar nula lá dentro. Como eu sou e não sou deste plano ao mesmo tempo, o efeito funcionou parcialmente em mim.
— Vesta está certo, se a Morte procurasse algo aqui no Ocidente, nós já saberíamos o que é. — Siouxie falou. — Leton você tem notícias do Oriente?
— Não. Para ser sincero, de uns tempos para cá, toda vez que tento viajar para o Oriente eu começo a perder o controle. É como se algo atraísse a Lágrima da Escuridão para lá, então não posso mais arriscar.
— Cedo ou tarde, alguém vai precisar ir para lá. — disse Draen. — Não podemos ficar esperando notícias antes que aconteça uma desgraça.
Dominic por um instante pensou em Mika que naquele momento deveria estar no navio rumando para o Oriente. Mesmo que dificilmente os humanos fossem envolvidos nesse tipo de coisa, ele temia que ela pudesse sofrer qualquer consequência por esses mistérios que envolviam o outro lado do mundo.
— Eu entendo sua preocupação Draen. — ressaltou Leton. — Mas por enquanto, temo que nós precisemos de uma aliança para fazer essa travessia de maneira segura.
— Estou perdendo algo? — Siouxie franziu o cenho.
— O Senhor das Travessias, O Senhor do Silêncio, O Arauto do Mistério. Ele tem vários títulos.
— Vincent. — Samantha e Vesta pronunciaram juntos.
— Eu finalmente consegui a aprovação de sua esposa para que possamos visitar seu esconderijo, depois de anos desaparecidos. — Leton estava com um sorriso vitorioso no rosto.
— Estou realmente impressionada. — Siouxie falou arqueando a sobrancelha esquerda. — Tem certeza disso?
— Absoluta, hoje eu a encontrarei pessoalmente para firmarmos isso.
— Onde é o encontro? — Ela voltou a perguntar. — Num esgoto?
— Cemitério. — Leton respondeu.
— Típico deles. — Samantha suspirou.
— Samantha, por favor. — Leton protestou. — Nós sabemos que eles são um Domínio totalmente diferente dos outros, é óbvio que eles iriam preferir um lugar longe de qualquer centro de humanos. Além do que, ela vai pessoalmente me ver.
Desta vez o choque atingiu todos os Filhos da Sombra, com exceção de Dominic e Alec que não tinham ideia do que estavam falando.
— Espera aí, a Filha da Sombra mais reclusa do mundo vai sair da toca? — Siouxie perguntou segurando a risada.
— Por incrível que pareça sim. — Leton respondeu com um sorriso humilde no rosto. — Mas preciso que pelo menos dois de você venham comigo.
— Eu passo. — Dominic falou sonolento. — Essa é a quarta noite que eu estou sem dormir e meu corpo está em estado dormente.
— Ok, então Siouxie e Draen vem comigo. — Leton apontou. — O restante fique aqui e vigiem o edifício para caso alguém de outro Domínio esteja rondando. Tenho certeza que não fomos seguidos e que eles mal sabem quem é Dominic, mas precisamos nos precaver.
Vendo que o assunto estava acabado, Dom se levantou lentamente e foi andando em direção ao seu quarto.
— Qualquer coisa é só me acordar, boa noite. — Ele foi dizendo enquanto entrava no corredor principal.
Ao chegar na sua cama, Dominic retirou sua blusa e a pendurou no cabide próximo a porta, lentamente removeu o par de tênis dos pés e se jogou na cama. Em menos de um minuto sua mente escureceu e ele seu corpo finalmente encontrou o descanso que procurava. Entretanto, lá no fundo, a voz agonizante da Morte ainda repetia no seu consciente e a cena que ele presenciou horas atrás vinha em sequência o arrastando para uma reprise em forma de pesadelo.
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Os raios do sol já iluminavam seu quarto quando Dominic acordou. Por mais que seu corpo estivesse descansado novamente, sua mente ainda parecia pesada e atormentada pelo o que ele havia presenciado no dia anterior. Para isso, ele decidiu ocupar sua mente com algo para não ficar pensando muito nisso. A primeira coisa que ele fez foi ir até a cozinha, preparar um café, comeu dois pães, depois disso jogou água no rosto e escovou seus dentes. Enquanto fazia essas tarefas, Dominic ouvia com clareza os sons da cidade lá fora, dos carros, das pessoas e do movimento em geral, significando que o prédio estava totalmente silencioso e vazio.
“Acho que eles devem ter saído.” Dom pensou consigo mesmo enquanto descia as escadas para o subsolo em direção a biblioteca.
Dominic foi em direção a sua escrivaninha e ascendeu a luz da sua lamparina que iluminou o mural a sua frente, ele observou todas as coisas que poderiam ter relação com a Tenebras Noctem, entretanto, nada. Nem mesmo a aparição da Morte juntou alguma coisa.
Após esta pequena conjectura, Dom abriu uma das gavetas ao seu lado e retirou um diário de capa encouraçada bastante gasta. Ao abri-lo Dom precisou reajustar sua Sombra para que as letras manuscritas do alfabeto Umbra começassem a fazer sentido, formando a seguinte frase:
O Diário do Guardião.
Ano Zero da Era Zero, dia zero do mês zero, Primeiro Guardião.
Dominic então começou a lentamente folhear as páginas daquele diário. Muitas delas já estavam gastas pelo tempo e outras um pouco ilegíveis. Em cada uma delas havia vários tipos de anotações, desde conceitos complexos da Sombra até o comportamento de humanos em determinados momentos da sua vida, além de desenhos, fórmulas, gráficos, rabiscos e dentre outros. O diário servia para que o Guardião Sombrio registrasse todas as coisas que não conseguia explicar e para anotar eventos chamativos, assim no futuro ele poderia usar aquelas anotações para estudos futuros ou ser usado pelos Guardiões seguintes.
— Para que eu vou anotar coisas nesse diário, sendo que houve apenas um Guardião antes de mim? — Dominic certa vez se perguntou. — Eu deveria ser no mínimo o décimo.
— Sempre precisa haver um segundo Guardião. — O Mestre retrucou. — Qual é o problema disso?
— É estranho. O Mestre viveu sabe-se lá quantos anos para escrever isso, eu ao contrário, envelheço normalmente e morrerei como um humano normal. O conteúdo vai ser extremamente menor.
— A qualidade vem antes de quantidade, preocupe-se em apenas anotar o que é interessante.
Dom a partir daquele dia decidiu que pensaria daquela maneira para não se sentir tão inferior.
Ele então molhou a ponta de uma pena no tinteiro ao seu lado, sacudiu para tirar o excesso de tinta e começou:
Capital, Quinquagésimo Segundo Ano da Terceira Era, quinta feira do Sétimo mês, Segundo Guardião.
Desde que visitamos a cidade da Joia Despedaçada eu senti a Voele de duas garotas se comportarem de maneira nunca antes vista. Ambas possuíam o mesmo sentimento incógnito e que eu não consegui identificar de principio. Não era nada perigoso ou que saísse do Equilíbrio, era apenas algo diferente e que todos os humanos sentem. Entretanto eu deveria reconhecer aquele sentimento, afinal eu também o sentia de certa maneira, mas para mim ele também era estranho.
Voltando para casa, Leton me contou que eu não conseguir distinguir este sentimento, porque a pessoa teoricamente estaria sentindo ele por mim, levando a única resposta possível: amor.
Em um primeiro momento fiquei confuso em relação a isso, qual seria o motivo de elas sentirem um sentimento tão complexo por alguém como eu? Ainda mais que uma delas, nutre um amor por outra pessoa. Mas pensando com mais calma, vejo que isso foi apenas um resultado momentâneo, pelo fato de eu ter salvado a vida delas em situações complicadas, e imagino que logo isso desapareça. Nada é permanente, muito menos um sentimento por mim.
Dominic fechou o diário, guardou a pena novamente dentro do tinteiro, passou a mão no rosto e pensou em Mika. Ela estaria realmente bem? O Oriente era realmente seguro para ela? Por que ele se importava tanto?
— Interrompo? — Leton bateu na porta.
— Fique a vontade.
Leton entrou e sentou-se na cadeira ao lado da escrivaninha.
— Não tivemos tempo de conversar desde que essa loucura começou. — Ele falou.
— Achou o pessoal do Domínio do Silêncio?
— Sim, estaremos os visitando hoje a noite. Mas não é sobre isso que eu vim falar.
— E então?
Leton se debruçou sobre a escrivaninha.
— Temos visitantes indesejados aqui na Capital.
— Sempre temos. — Dom suspirou desanimado.
— Dessa vez é diferente. — Leton tinha uma postura séria e focada, o que deixou Dominic um pouco preocupado. — Realmente eles são indesejados.
— Fale logo quem é.
Leton se calou em um silêncio preocupante, respirou fundo e encarou Dom:
— Demian está aqui.
Dominic se engasgou com a própria saliva.
— O que? Mas o que diabos ele está fazendo aqui?
— Eu não sei, mas se não tomarmos cuidado, todos do nosso Domínio estará correndo perigo. Principalmente você.
— Bom, eu sempre sou o mais vulnerável, qual é a novidade?
— Eu lhe aconselho a parar com as caçadas durante a noite, até ele ir embora.
Dominic estreitou os olhos.
— Isso não é bom, você sabe disso.
— Sim eu sei. Mas se Demian lhe encontrar, teremos sérios problemas Dominic.
Dom nunca viu pessoalmente Demian, mas sua reputação tanto entre os Filhos da Sombra quanto nos livros do Mestre era algo realmente invejável. A principal fonte de sua fama era que Demian alcançou o impossível e, assim como Dominic, era único no mundo. Sua habilidade de controlar a Sombra e o seu oposto, o Espírito, o transformava em alguém tão poderoso e temido até pelos lideres dos Domínios.
— Ele é afiliado ao Domínio da Sabedoria estou certo? — Perguntou Dom se recuperando do choque.
— Mais que isso, ele é um Filho da Sombra de alto escalão, braço direito de Jericó.
— Merda... — Dom praguejou baixinho.
Jericó era o líder do Domínio da Sabedoria, e se autodenominava o novo Mestre, este Domínio era o segundo maior dentre os sete e provavelmente o mais perigoso. Mesmo que o Domínio da Força fosse o mais populoso, o Domínio da Sabedoria tinha Filhos de altíssimo nível, além de serem excelentes estrategistas.
— Fique fora das caçadas Dominic, pelo menos por um tempo, até que ele saia daqui. Mantenha sua Sombra branda e tente não chamar muita atenção.
— Falar é fácil. — Dom guardava o diário novamente na gaveta. — Mas sabe que eu tenho um impulso, se eu passar por algum desiquilibrado, eu não conseguirei controlar.
— Se for o caso evite sair daqui do edifício durante um tempo. Só saia quando estiver conosco, para não haver perigo.
— Por que se importa tanto comigo Leton? — Dominic indagou. — Eles não irão ganhar absolutamente nada comigo.
— Você faz parte deste Domínio Dom, e eu como protetor de vocês não posso arriscar a vida de nenhum.
— Eu não sou um Filho da Sombra, não sou um irmão de vocês.
— Mas faz parte do meu Domínio, seja você humano ou Filho. — Leton, se pôs de pé. — Mas é só um conselho, se quiser sair durante a noite para caçar fique a vontade, mas tente chamar o mínimo de atenção possível.
Leton saiu.
Dominic ficou tenso, assim como Leton sempre ficava quando o assunto era Demian, o mais astuto e poderoso Filho da Sombra. Dom não sabia ao certo qual era o medo de Leton por ele, já que com a Lágrima da Escuridão era possível fazer absolutamente qualquer coisa com apenas um mero pensamento. Mas outra duvida veio a mente de Dominic naquele momento, o que necessariamente faria o braço direito do líder do Domínio da Sabedoria vir pessoalmente até a Capital? Será que estava atrás de Alec também? Dom tentou deixar aquilo de lado e seguir a orientação de Leton, mesmo que fosse difícil.
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A noite daquele dia caiu rápida e logo todos os sete estavam em frente a entrada de uma catacumba dentro de um cemitério. Siouxie andava de um lado para o outro impaciente, Dominic observava cada detalhe ao seu redor, como se estivesse estudando todo o local por algum motivo que nem ele sabia ao certo, o restante apenas aguardava pacientemente os Filhos daquele Domínio peculiar aparecer.
— Eu odeio cemitérios. — Siouxie praguejou.
— Tem medo de algum morto sair do caixão e puxar seu tornozelo? — Dom perguntou ainda olhando os arredores.
— Se isso acontecesse provavelmente eu iria chutá-lo. — Siouxie respondeu convencida. — E quanto a você? Por que está tão preocupado assim?
— Bom, eu sou o único que realmente posso morrer aqui, então preciso estudar todas as possibilidades possíveis de sair daqui vivo em caso de alguma emergência. Além disso, cemitérios podem ser excelentes para se esconder.
— Vai se abraçar com algum morto dentro de um caixão?
— Quem sabe, talvez seja melhor do que reclamar que odeia cemitérios.
Siouxie não respondeu, pois viu duas silhuetas aparecerem andando por dentre os corredores de túmulos. Eram dois homens, jovens, um deles usava uma roupa rasgada, colete sobre as mangas, touca sobre os cabelos longos e de tamanho mediano. O outro era loiro, cabelos curtos e espetados, possuía olhos verdes e usava uma camiseta regata e shorts.
— Senhores. — Leton disse cordialmente.
— Vincent os aguarda no nosso lar, por favor, nos acompanhem.
Os dois tomaram a frente do grupo, foram até as gavetas de mármore que trancavam aquele mausoléu e as puxaram sem muito esforço. Um ar denso e pesado saiu de dentro daquela boca sombria e escura, era possível ver o estreito corredor iluminado por castiçais que se estendiam por vários metros abaixo do solo.
— Odeio lugares fechados. — Dom suspirou.
Primeiro entraram os dois Filhos, o restante percebendo que não poderiam entrar de outra maneira se dividiram em duplas. Leton e Draen foram os seguintes, seguidos por Samantha e Alec, Siouxie e Dominic, finalmente o sorridente Vesta foi o último.
A arquitetura daquele lugar era rustica. As paredes e o teto eram feitos de grossos tijolos de pedra, as colunas que ser ergueram a alguns passos mais ao fundo tinham um pouco de detalhes, mas já estavam gastas com o tempo.
Não demorou muito para que aquele único corredor se transformasse em um labirinto de entradas, caminhos e divisas. A cada dez passos, eles sempre caíam em uma bifurcação com três ou mais caminhos que levavam a lugares distintos.
— Não seria melhor um de nós ficarmos na saída para caso haja problemas? — Perguntou Alec com um leve toque de preocupação.
— Daríamos uma péssima impressão. — Samantha respondeu. — Nós precisamos confiar neles para que eles confiem em nós. Então, para isso todos do nosso Domínio precisam entrar.
— Alec tem um ponto. — Dom sussurrou para Siouxie. — Se caso haja algum conflito aqui nesse lugar estreito e confuso, estaremos com problemas.
— Está me dizendo que não se garante sozinho? –— Siouxie rebateu com um sorriso provocador.
— Se acontecer algo aqui, provavelmente quem vai ter que tirar você daqui vai ser eu, porque provavelmente a única coisa que você vai querer fazer é quebrar tudo até isso desmoronar na sua cabeça oca.
Os dois discutiram pelo restante do caminho e nem se deram conta de quando chegaram finalmente no seu destino. Os corredores estreitos deram lugar a um salão amplo e sustentado por pilares que se transformavam em arcos no teto, muitas colunas estavam tombadas, ao redor não havia nada senão apenas entulhos. Dominic observando a arquitetura daquele lugar deduziu que era uma catedral das civilizações Pré-Cometas soterrada e preservada por anos. Entretanto, ela ainda mostrava claramente o que fora a sua era e como ela se foi pela decadência daquele lugar.
Ao norte, ficava um altar que ostentava dois tronos que, diferentemente do de Maximilian, estavam decadentes assim como o restante daquele lugar. Sentado neles havia um casal que os observava fixamente.
— Vincent, como o senhor havia pedido, aqui está o Domínio da Última Noite.
Vincent era um homem de aparência comum, mas ao mesmo tempo assustadora. Sentado de maneira irregular no trono, destacava-se pelo chapéu negro que lhe cobria os olhos, seus cabelos eram longos e encaracolados, usava um casaco de couro escuro, seu pé direito repousava sobre o joelho da perna esquerda.
— É um prazer revê-lo Vincent. — Leton disse fazendo uma reverencia com o corpo.
— Honra-me com sua presença em nosso lar, Leton. — A voz de Vincent pode ser ouvida claramente por todos, mas ela ecoava como um sussurro de tão baixa e suave. — Foi digno ver que você se esforçou em nos encontrar.
— Se não fosse por sua esposa, provavelmente eu jamais suspeitaria que estivesse literalmente embaixo do nosso nariz.
— Como sabes, meu Domínio não gosta de contato com o mundo externo. Não há nada de nosso interesse lá.
— É perfeitamente compreensível. O mundo já não é o mesmo que fora durante o nosso tempo.
Vincent, assim como Vesta, falava enquanto mostrava um leve sorriso com o canto da boca. Aquilo perturbava Dominic, que não conseguia decifrá-los de forma alguma. Mas ele já esperava aquilo, Vincent sempre fora descrito nos livros do Mestre como alguém extremamente fechado e que dificilmente era visto pelos próprios irmãos, entretanto ele estava sempre presente em qualquer lugar, a qualquer hora.
— Mas acredito que coisas maiores lhe trazem aqui. Diga-me, Leton, o que lhe fez sair do seu esquecimento para o mundo?
— Você mais do que ninguém deve saber que as Fendas estão se abrindo. Por enquanto ainda são pequenas, mas temo que elas aumentem de tamanho, e meu Domínio não poderá conter todos.
— E todos os outros Domínios se negam a fazer isso, já que estão ocupados demais cuidando da guerra medíocre entre eles. — Vincent complementou. — Porém, não podemos negar que muitos eventos estranhos fora deste miúdo mundo na qual nós vivemos estão se intensificando mais.
— O que quer dizer?
— Shaitans estão debandando para os confins de Carphita. Zankarins loucos reapareceram no Oriente, o céu se tornou escarlate em plena luz do dia, Filhos estão sentindo suas Sombras ficarem mais densas, como se algo se aproximasse e as deixassem mais intensas. As Fendas são apenas consequências disso. — Vincent fez uma pausa e então encarou Dominic. — Além disso, esses estranhos eventos estão afetando o Equilíbrio e consequentemente a humanidade, pergunte ao seu Guardião Sombrio o quanto subiu o número de assassinos só no último ano.
“Como ele sabe que eu sou?” Dom se perguntou.
— Você faz parte disso tudo, Leton. — Vincent continuou. — Quanto tempo mais você irá conseguir segurar o que está dentro de você? Quanto tempo mais demorará a que sua metade lhe ache e finalmente a Décima Terceira Estrela Caída brilhe novamente? Não posso negar que você é um aliado com um valor inestimável. Mas precisamos admitir que você é um perigo em potencial aqui.
Dominic não estava entendo absolutamente mais nada. Leton, porém olhava Vincent com firmeza e convicção.
— Se essa batalha já está perdida, eu não sei. Mas eu não posso sentar e esperar que tudo aconteça, Vincent. — Leton respondeu calmo, mas confiante. — Eu não irei me esconder embaixo da terra, em um lugar que demonstra claramente a decadência do que nós fomos um dia. Eu jamais recuei perante algo, nem quando o Mestre se foi, e não vou recuar agora.
O silêncio dominou aquele lugar, Dominic sentiu uma tensão gigantesca crescer entre Leton e Vincent. Ele pensou em como fugir dali, mas lembrou-se que estavam no meio de um labirinto subterrâneo.
— Sua coragem e determinação são louváveis Leton, mas ela será o suficiente para encarar todo o problema?
— Não. — Leton respondeu direto. — Elas não foram, e nunca vão ser, mas se eu não posso mais fazer isso, preciso motivar quem pode.
— E quem é?
— Em sua hora você vai saber. Mas o que eu lhe proponho aqui é o presente e não o futuro.
— Uma aliança para o presente, pensando no futuro. — Vincent riu.
Leton também soltou uma risada e disse:
— Sabe que não temos chance contra o que vem Vincent, mas ainda podemos fazer com que as coisas sejam diferentes e ajudar a mudar o rumo disso.
— Talvez. O que acha Sansara?
A mulher ao seu lado não respondeu, apenas continuou os olhando com um olhar vazio e sem vida. Dominic que tinha instruções para não olhar diretamente para nenhum Filho da Sombra durante esses momentos, acabou sendo vencido pela curiosidade e fitou Sansara por um segundo, mas ele não esperava que os seus olhares se cruzassem por um instante.
Foi apenas um instante, mas Dom pode ver que Sansara era diferente de muitos Filhos, havia uma melancolia e um vazio tão grande naquele olhar que ele percebeu a verdadeira gravidade no estado de Sansara.
“Ela está com a Siela quase coberta pela Sombra” ele concluiu em sua mente “Sansara é um Filho que está no final de sua vida”.
A resposta pareceu não vir, mas quando ninguém mais esperava, uma voz fraca saiu pelos lábios de Sansara.
— Acho que devemos lutar.
Siouxie foi a primeira a mostrar sua surpresa quando ouviu aquilo.
— O quê?
Vincent continuou inalterável com seu sorriso misterioso. Leton primeiramente esboçou surpresa, mas deu uma risada simples, porém feliz em seguida.
— Parece que temos uma decisão então. — Vincent falou levantando a cabeça e mostrando por fim seus olhos azuis. — Então os convido que passem esta noite aqui conosco.
–----
O corredor que levava aos quartos era mais amplo do que os outros, as pesadas portas de madeiras deixava aquele lugar mais semelhante aos calabouços e prisões de milênios atrás. Enquanto eles eram guiados pelos mesmos dois Filhos, Alec perguntou:
— Por que precisamos passar a noite aqui? Sendo que nós sequer precisamos dormir.
— É algo simbólico. — Dominic respondeu. — Os Filhos da Sombra não possuem muitos ritos para forjar alianças, mas este é o mais comum. Quando um Filho aceita as acomodações de outro, está dizendo que tem confiança mesmo se precisar fechar os olhos. Entretanto, isso é algo inédito, já que nunca um Domínio aceitou o outro em sua casa.
Eles conversaram mais um pouco sobre alguns assuntos até todos se dirigirem para os seus respectivos quartos. Diferente de quando foram para Joia Despedaçada, ali eles puderam ficar em quartos separados cada um. Dominic estava com medo de ver algo caindo aos pedaços, mas surpreendeu-se ao se deparar com uma cama macia, lareira acesa, um armário com várias gavetas e bem iluminado. Sentiu falta de uma janela para que ele pudesse observar o que havia lá fora como sempre fazia antes de dormir, mas não o incomodou tanto naquele dia.
Dom fez como se estivesse eu seu próprio quarto, retirou seu casaco, suas luvas e seu pingente, os colocando sobre um cabide logo atrás da porta, olhou rapidamente para os símbolos tatuados em suas mãos, sentou-se na cama e fechou os olhos. Viu que seu sono ainda não havia chegado, mesmo sendo aquela sua terceira noite sem dormir. Então para não deixar que sua mente fosse invadida por cenas de seu passado que ele queria esquecer, Dominic foi até a lareira e sentou-se na frente dela observando as chamas e os estalos da lenha sendo queimada.
Enquanto estava naquele momento de silêncio, Dom ouviu alguém bater na porta do seu quarto.
— Quem é? — Ele perguntou se levantando rapidamente e indo em direção a porta, mas ninguém respondeu.
Dom desconfiado tocou na fechadura da porta e a puxou um pouco, abrindo uma fresta para que ele pudesse ver quem estava no lado de fora. Ficou surpreso, e por fim abriu ela por completo.
— Pois não senhora? — Perguntou Dominic enquanto via Sansara parada na frente dele.
— Posso entrar? — Sua voz ainda era baixa e fraca.
— Claro.
Dominic esperou ela adentrar no quarto e então fechou a porta novamente. Sansara sentou-se no pé da cama perfeitamente ereta e com as mãos repousando em seu colo. Sua face era praticamente uma pedra de mármore, mesmo que sua pele fosse macia e clara, era impossível ver qualquer tipo de expressão em seu rosto. Seus longos cabelos negros estavam jogados para o lado e seus olhos da mesma cor observavam o nada.
—Me desculpe se assustei você, normalmente os humanos ficavam assim quando me viam.
— Eu já estou acostumado com pessoas estranhas. — Dominic soltou sem querer e demorou um pouco para se tocar. — Quer dizer... Não é isso que você está pensando.
— Desde quantos anos você é o Guardião Sombrio? — Sansara o ignorou por completo.
— Aos sete minha Sombra se manifestou, aos treze Leton me ensinou a ser o Guardião.
— Mas ainda assim a chama da humanidade ainda queima dentro de você. Então acredito que existem muitas coisas que sejam estranhas para você.
— No começo sim, mas hoje isso não me afeta mais, porque eu também faço parte do estranho. — Dominic falou com uma naturalidade que causou um ar leviano de surpresa em Sansara, mesmo que praticamente imperceptível.
— Você é diferente dos outros, é diferente de tudo. Você não tem a sede pelo poder, você não possuí a loucura de um Filho da Sombra jovem, mas também não tem o brilho humano no olhar.
Dominic ficou em silêncio.
— Sua pequena Sombra dança como as chamas desta lareira. Mas ela não dança sozinha, e sim com algo que é tímido e que pouquíssimos conseguem enxergar, mas está lá. Você é realmente diferente de tudo que eu já vi.
— Você se refere a mim como se eu fosse algo em especial, mas a verdade é que eu sou a junção de vários defeitos. — Dom soltou uma risada desanimada. — Eu não sou imortal, não possuo uma Sombra intensa, consigo sentir, mas não consigo retribuir, preciso tirar o lixo do mundo pela pior maneira possível.
— Eu jamais disse que seria fácil. Mas você resiste bravamente a tudo que poderia lhe sugar para baixo. O que te motiva a seguir em frente?
Nada veio a cabeça de Dominic.
— Não sei. Talvez eu não tenha outra escolha.
— Em nenhum momento você lutou por alguma coisa?
Dominic pensou em Jake, Gabriela, Raquel e Mika rapidamente.
— Talvez. — Ele respondeu. — Mas qual é o sentido disso tudo?
— Quando o Mestre me converteu, eu me senti livre das correntes que me aprisionavam no mundo humano. A minha Sombra fora a mais ativa e explosiva de todas, nem mesmo Siouxie tinha tanta energia quanto eu. Eu me sentia invencível e quando a cisão entre os Filhos aconteceu, minha sede por sangue foi saciada. Matei tantos que mal conseguia contar, cada um que caía aumentava ainda mais ainda meu ego.
— Minha Sombra foi crescendo junto com a minha insanidade. — Continuou. — E quando me dei conta minha Siela já não passava de um mar negro que havia sido tomado totalmente pela escuridão. E hoje estou aqui, com quase toda a Siela tomada pela Sombra.
Dom conseguiu visualizar Sansara em seu auge mesmo sem ter realmente visto e ao olha-la naquele estado, ele conseguiu ver o que a Sombra pode fazer com uma pessoa num período longo, era como ver um usuário de drogas em um estado terminal.
— Hoje, se minha Sombra ascender apenas um pouco, provavelmente será o meu fim. Nestes momentos eu sinto tanta falta da minha humanidade, de ter morrido quando deveria.
Dominic sentou-se novamente na frente da lareira.
— Eu sinceramente não tenho ideia de como você se sente Sansara. Minha Sombra nunca vai me impedir de ter sentimentos e me tornar um ser sem alma. Mas... — Dominic parou um instante, com seus olhos fixados nas chamas. — Não acho que vocês, Filhos da Sombra que já estão morrendo, tenham perdido a sua razão de viver. Eu acredito que todos ainda têm a humanidade dentro da Siela, mesmo que quase lá no fundo, ela ainda vive e pulsa dentro de vocês. No fim das contas, os Filhos da Sombra ainda são humanos e quem sabe podem até sentir, só não fazem isso por simplesmente não tentarem.
— Você acha isso?
— Você já tentou nutrir algum sentimento desde quando se transformou em um Filho?
— Nunca.
— Então talvez seja interessante você tentar, vai que dá certo.
— Quais são as chances de isso dar certo?
— É por isso que os Filhos da Sombra irão cair em decadência. Para vocês tudo precisa ser exato e sem falhas, vocês não tentam sem ter certeza de que vai dar certo. E eu me incluo nessa equação também. Mas talvez a resposta para sua pergunta de como eu consigo seguir em frente mesmo com tudo me puxando para baixo, seja pelo fato de eu não ter certeza de nada e ainda assim continuar em frente.
— Você é realmente diferente. — Dominic que ainda observava a lareira não viu, mas pela primeira vez em anos o rosto de Sansara finalmente traçou um distante sorriso.
— Eu não sei. — Dom respondeu distante. — Como eu disse, Essas coisas valem para mim também, às vezes. Não pense que eu sempre sigo em frente determinado por eu simplesmente querer, porque por mim, já teria fugido daqui para bem longe.
Sansara se levantou e andou em direção a porta.
— Sua personalidade é algo interessante, parece que estou falando com duas pessoas totalmente distintas.
Dom olhou para o lado oposto do quarto e viu o Mestre fazendo um aceno com a mão.
— É apenas imaginação.
–----
No outro dia, o Domínio da Última Noite estava de partida.
— Nos veremos em breve Vincent. — Leton falou.
— Tão breve que nem imagina. — Respondeu Vincent sempre enigmático.
Quando eles viraram as costas em direção a saída, Vincent observou Dom como se tivesse reparado em alguma coisa, virou-se para a sua esposa:
— Você notou essa aura estranha, mas ao mesmo tempo familiar?
— Sim, sem duvidas eu já a vi antes. — Respondeu Sansara enquanto teve a leve sensação de que sua Sombra havia encolhido minimamente.
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