A Luz em Meio a Escuridão
3 Hogwarts
O dia seguinte amanheceu tenso. O ar estava pesado e todos estavam apreensivos, não que fosse alguma surpresa, era sempre a mesma coisa toda a vez que as sirenes soavam. Todos com medo. Medo pelo que pode ter acontecido. Medo pelo que aconteceu. Medo pelo que poderia acontecer. Medo, medo, medo. Tom não sentia isso. Ele estava anestesiado, talvez seja por isso que ele achava todos tão patéticos, com seus gritos e choradeiras inúteis que não fazia nada além de testar a pouca paciência que ele tinha. Ele não via a hora de voltar a Hogwarts, lá ele não teria gritos acordando—o de madrugada, ou cobertores finos demais, ou colchões esburacados, em Hogwarts ele não teria que acordar sabendo que a comida seria uma sopa aguada. Mais uma vez. E o melhor de tudo: lá ele acordaria todo o dia sabendo que ao seu redor possuía pessoas minimamente similares a ele, não ratos, mas pessoas capazes de fazer o impossível, ou só até onde a capacidade insignificante deles permitia. Lá é seu santuário. Só mais algumas horas. Mais algumas horas e eu estarei lá.
Tom olhou para o relógio no que parecia ser a milésima vez, estava perto do horário. O orfanato era longe da estação e por isso, se Tom quisesse chegar a tempo tinha que sair cedo. Como ele, além de, não fazer a mínima questão de permanecer no orfanato, também não gostava de se atrasar seu horário de saída era tão cedo que poucas crianças estavam acordadas. Ainda bem. Carregando seu malão, desceu as escadas despreocupado com o barulho que estava fazendo.
— Garoto, já vai? – Srª Cole perguntou saindo da porta a esquerda que levava a cozinha.
Tom nem mesmo se deu ao trabalho de responder ou de olhar, continuou a andar em direção a porta puxando a mala.
— Está indo para aquela escola de aberrações. – Tom parou em meio passo, girou primeiro os olhos em direção a mulher, depois a cabeça, em seguida o corpo. Controlou o impulso de andar até ela e mostrar o que era uma aberração, ao invés disso somente lançou um olhar penetrante que deu arrepios à idosa. Virou novamente e foi embora. Em direção à estação. Em direção à Hogwarts. E para fora daquele inferno.
Tom chegou relativamente cedo à estação, já tinha bastante gente e a cada momento chegavam mais, algumas famílias conversavam animadamente, outras estavam em silêncio. Tom sentou em um banco esperando o Expresso Hogwarts aparecer com um livro à mão, Mein Magie de Grindelwald. Óbvio que a capa estava enfeitiçada para parecer outro livro.
Poucos tempo depois alguns de seus “amigos” foram aparecendo, os primeiro a se juntar à ele foram Abraxas Malfoy, pomposo e vestido de forma elegante dos pés à cabeça e Darius Selwyn, despreocupado e também elegante. Eles sentaram no banco onde Tom estava, cumprimentaram ele respeitosamente e começaram a conversar baixo. Tom não deu o mínimo reconhecimento à presença deles, achando seu livro muito mais interessante.
— Ora, veja só. Então é verdade... – Malfoy usou um tom bem humorado – Os Fawley voltaram a aparecer.
Ao escutar esse nome Tom levantou somente os olhos do livro para direção em que os dois estavam olhando. Próximo a entrada estavam quatro adultos e uma jovem muito bonita. A garota da livraria. Todos eles estavam conversando animados, os dois idosos estavam com detalhes na vestimenta que eram estranhos até mesmo para o padrão bruxo.
— Ela é um pedaço... – Malfoy comentou ainda encarando com um olhar que Tom descreveria como sendo próprio de um idiota acéfalo. – Soube pelo meu pai que ela vem da Castelobruxo. – Completou após o olhar indagador de Selwyn. – Uma escola de magia localizada no Brasil.
— Achei que os Fawley não tinham herdeiros.
— Um equívoco. Os idosos são pais do homem, casado com a mulher. Soube pela minha mãe que ela é brasileira, assim como a filha. – Malfoy completou – Pelo comentado a família dela também é puro—sangue, muito influentes no ministério de lá. Uma família bem antiga de fato.
— Isso significa que o homem não manchou o sangue dele e que a família continua tendo Sangue sagrado. – Tom escutava tudo atentamente, sem desviar os olhos da garota apoiada no pai e sem falar.
— Não sei se a família da mãe dela tem alguma ligação com os trouxas, mas pelos boatos, não. – Malfoy pigarreou e coçou o rosto, uma mania irritante dele. – O que eu sei é que os Fawley não tem uma gota de sangue trouxa, então... bem provável que ela seja uma das poucas mulheres herdeiras de uma família do Sagrado vinte e oito.
— Uma raridade e tanto nos tempos de hoje. – Selwyn ironizou.
— Sim, pode ser uma adição e tanto. Pelo histórico, eu diria que não há dúvidas de para qual casa ela vai. – Malfoy finalizou com um ar pensativo. Se Tom não conhecesse ele, imaginaria que estava meditando, mas era o Malfoy. Nesse meio tempo seus olhos ainda estavam na garota nova, qualquer um que olhasse de fora não estranharia, parecia que de algum modo todos os estudantes estavam com a visão nela. Curiosos. Todos queriam ver quem era a transferida. A garota virou o rosto e, com seus olhos amarelos e incomuns, olhou diretamente para ele. Tom foi pego de surpresa, ainda assim, sustentou o olhar examinador sem deixar transparecer. Em questão de segundos ele percebeu um leve, muito leve, sorriso aparecendo no canto dos lábios dela.
-/-
— Querida, já sabe. Se precisar de alguma ajuda com poções, só me enviar uma coruja. – O avô de Olívia, Darius, lembrou pela segunda vez. – Hogwarts tem corujas disponíveis, com aquela confusão não deu para comprarmos uma pra você, mas estarei enviando uma de presente até o final da semana, tem preferência por alguma cor?
— Obrigada vovô, mesmo. Eu gostaria de uma preta, mas se não tiver o senhor pode escolher. – Olívia respondeu desviando os olhos do garoto bonito que havia conhecido na livraria. – E eu sou boa com poções, acho que tenho a quem puxar. – Deu uma risada. – Mas pode deixar que caso surja algo eu irei perguntar. – O idoso balançou a cabeça aprovador
— De vez em quando eu vou enviar uns bolinhos daquele que você gostou tanto, em Hogwarts tem, mas nenhum se compara aos meus. – Foi a vez da avó de Olívia falar. – Vou sentir saudade, faz pouco tempo que nos reencontramos
— Vamos nos ver nos feriados vovó. – Olívia falou enquanto abraçava a idosa.
— Ahh está tão longe. – A idosa afrouxou o abraço. – Escreva para nós, ok?
— Pode deixar! – Olívia mostrou um grande sorriso para a avó e virou para falar com a mãe
— Não se esqueça de escovar os dentes todos os dias depois de todas as refeições – A mãe de Olívia disse um português. – Só porque você estará convivendo com inglês não significa que não deva tomar banho todo o dia. Duas vezes mocinha. – Anthony, olhou para ela franzindo o cenho brincalhão
— Mãaae, eu sei. Tenho 15 anos, já sei dessas coisas.
— Não custa lembra, é o meu dever de mãe. – Amélia disse em uma voz amorosa. – Coma bem e faça seus deveres, entendido?
— Entendido. – Olívia quase bateu continência.
— Ok, vou sentir sua falta. Como todo ano. – Ela suspirou – Mas dessa vez é em um colégio estranho, cuide—se me escreva sempre que puder e não se meta em encrenca! Te amo.
— Obrigada mãe, também te amo. – Olívia virou em direção ao pai, apesar da mãe ser perfeita, sempre foi mais fácil conversar com ele. – Tchau pai.
— Tchau querida, cuide-se. E assim que for selecionada nos avise. – O adulto a abraçou – Não importa pra qual casa for, ok?
— Ok. – Olívia olhou um pouco séria para ele – Pai, você não me disse o que descobriu ontem.
— Sobre? – Ele se fez de desentendido
— Sobre a sirene, pai. – Ela revirou os olhos – O que aconteceu?
— Ahh descobri que foi um alarme falso. – Um par de olhos iguais aos dele continuou a encará-lo – Você não desiste... Identificaram uma máquina voadora trouxa não identificada se aproximando, mas não era nada. Satisfeita?
— Muito. Obrigada, não gostei de saber que poderia ter gente morrendo em algum lugar. – Olívia olhou para o Trem vermelho que estaria embarcando. Anthony achou melhor não mencionar que provavelmente havia muita gente morrendo no continente. Ela era uma criança e não precisava saber dessas coisas. – Está dando o meu tempo. Tchau gente. Amo vocês!
Dentro do trem Olívia procurou uma cabine para sentar, achou uma vazia, próximo onde seus pais estavam e ficou acenando até eles desaparecerem.
-/-
Logo no início da viagem passou uma senhora com um carrinho lotado de doces, Olívia comprou alguns Sapos de chocolate e suco de abóbora para experimentar, quando estavam abrindo o primeiro sapo uma garota loira e baixinha entrou, parou e olhou ela abrindo o sapo.
— Eu aconselho a tomar cuidado com esses. – A loira sentou em frente a Olívia depois de uma hesitação inicial.
— Hum?
— Eles pulam e não, não estão vivos, talvez tão vivos quanto um sapo de chocolate pode estar. – Ela deu um sorriso e balançou a mão em um aceno – Meu nome é Margareth Einloft, mas pode me chamar de Mag. – Olívia acenou
— Eu me chamo Olívia Fawley – Ela sorriu – Sou nova aqui.
— Eu soube. Pra falar a verdade todo mundo soube sobre você. – Mag pegou um saco com diversas balas do bolso. – Quer?
— Não obrigada.
— Então... Você veio transferida, não é? Faz muito tempo que ninguém se transfere para ou de Hogwarts, se alguma vez aconteceu. Me fale sobre a sua antiga escola. – Mag falou colocando algumas balas na boca.
— Hum... Se chama Castelobruxo, Escola de Magia Castelobruxo e fica no meio da Floresta Amazônica... – Olívia contou sobre a antiga escola, tudo que gostava e tudo que não gostava lá, conversaram sobre os alunos, professores arquitetura tirou dúvidas e ao final as duas já estavam rindo e se divertindo juntas.
— Então você fala português também... – Mag comentou após um momento de silêncio confortável. – Parece interessante, meus pais são alemães e eu arranho um pouco, mas você fala inglês muito bem.
— Falo português porque nasci lá, sou brasileira e minha mãe também, mas meu pai é inglês e ele fez questão de me ensinar tudo até o sotaque inglês – Ela deu uma risada
— Queria que meus pais tivessem me ensinado mais, sempre procuro saber mais, mas eles estão sempre ocupados. – Mag comentou com um expressão de irritação, olhou para o relógio e disse apresada. – Faltam mais ou menos 15 minutos para chegarmos, vá colocar seu uniforme, vou te esperar aqui.
— Ok.
Quando Olívia saiu do banheiro o trem já havia parado e o corredor estava cheio, empurrando algumas pessoas ela conseguiu voltar à sua cabine, Mag estava esperando já de pé e com as malas no chão.
— Achei que adiantaria se descesse as malas. –Comentou enquanto saia da cabine.
— Sim, obrigada. – Fora do trem elas foram andando até uma estrada com carruagens que andam sozinhas. – Interessante o transporte daqui.
— Não é? Mas infelizmente show você perdeu. É no primeiro ano, quando vamos a escola pelo Lago Negro é uma imagem espetacular! – Mag estava olhando para o nada, lembrando da primeira vez em que viu o castelo. – Sinto inveja deles por isso.
— Você está conseguindo me fazer sentir o mesmo. – Olívia disse enquanto se acomodava em uma carruagem.
A viagem foi rápida assim que chegaram um professor de barba longa e acaju, usando uma túnica bem detalhada azul clara e com óculos em meia lua escondendo olhos azuis veio de encontro a Olívia.
— Professor Dumbledore! – Mag praticamente gritou ao seu lado.
— Olá senhorita Einloft, como foi o seu verão? – Os olhos dele brilhavam estranhamente, como se ele tivesse uma piada muito engraçada na cabeça e não quisesse falar.
— Muito bom senhor, e o seu? – Ele abriu um sorriso calmo
— Cheio de noites quentes comendo sorvete de limão. – O estranho e bondoso homem virou para Olívia – Senhorita Fawley, poderia me acompanhar por favor?
— Hã... Tudo bem, claro. – Apesar da estranheza do homem Olívia gostou bastante dele.
— Meu nome é Albus Dumbledore, sou professor de transfiguração. – ele começou a andar pelos corredores do castelo como se conhecesse tudo pela palma da mão. Olívia se sentiu um pouco intimidada e soube na hora que ela com certeza se perderia. – Estou levando—a a minha sala para fazermos a sua seleção antes do primeiro ano chegar.
— O primeiro ano não vem também? – ele soltou uma risada baixa
— Claro que não, seria um desastre se tirássemos a primeira experiência deles em Hogwarts. – ele completou com uma voz nostálgica. – Tão memorável. Porém você é um caso à parte, Professor Dippet e eu concordamos que você não se sentiria confortável sendo selecionada junto com o primeiro ano em frente à escola inteira.
— Isso com certeza não seria uma boa memória... – Olívia teve calafrio ao se imaginar nessa posição.
— Chegamos – Disse Dumbledore abrindo a porta. – Venha entre, não tenha medo, sente-se ali. – Ele apontou para uma cadeira frente a mesa, a sala era confortável e aconchegante, a lareira crepitava e estranhos objetos prateados estavam fazendo barulhos em cima da mesa junto com um chapéu velho e amaçado, o chapéu parecia ter anos. Não. Séculos de existência. – coloque ele na cabeça, por favor.
Olívia fez o que foi pedido e logo o chapéu começou a se movimentar e a falar.
— Hum... uma quintanista. Que raro. – A garota deu um pulo quando a voz do Chapéu ecoou em sua cabeça. – Reação de primeirista. Vamos ver.... Você é bondosa e defende os seus, uma boa amiga eu vejo, mas não acho que Lufa Lufa seja para você. Você tem ambição e é ligeiramente vingativa... hummm.... O que é isso que eu vejo em você, uma grande habilidade seu pais não sabem, eu percebo. Uma decisão sabia, nem todo mundo aceitaria bem isso. Uma raridade você é. Você se daria bem na Corvinal, é inteligente e criativa, gosta de saber das coisa, é espirituosa, pelo visto também seria uma boa Grifinória, vejo coragem em você, é aventureira e tem uma linha ética muito bem definida.... O que seria melhor para você? A inteligência da Corvinal? A coragem da Grifinória? Ou a ambição da Sonserina? Humm... Decisão difícil. – GRIFINÓRIA. – O chapéu parou de se mover de repente e ela apoiou ele na mesa.
— Fico feliz em ouvir isso. – Ele estava sorrindo e com os olhos brilhando. – sou diretor da Grifinória e imagino que você será uma grande adição a nós.
— Obrigada professor, estou feliz em fazer parte. – Olívia viu o senhor pegar o chapéu novamente. – Apesar de não saber muito, meu avô falou muito bem da Casa.
— Darius Fawley, se não me falha a memória – ele comentou enquanto levantava. – Um ótimo Corvino. – Comentou como para si mesmo. – Acho melhor nos apresarmos ou iremos atrasar a cerimônia. Vamos, eu te guio de volta. – Já na porta ele pareceu se lembrar de algo. – Ahh, não podemos voltar com a suas roupas assim, vou dar um jeito nisso. – Ele balançou a varinha levemente e as roupas de Olívia ganharam detalhes vermelhos, onde antes estava o brasão de Hogwarts agora estava um com um leão na frente. –Agora sim, perfeito.
— Obrigada. – Olívia se sentiu meio desengonçada enquanto andava atrás dele, quantas vezes ela tinha agradecido mesmo?
Fale com o autor