A Luz e o Inseto
1 Nos Recessos da Nuvem
Notas iniciais
Faz um tempo desde que eu escrevi pela última vez mas Mdzs é tão maravilhoso que eu tinha que escrever alguma coisa.
Eu vou morrer com esse ship kkkkkk
Aviso: alguns fatos da novel serão mudados aqui, mas não todos. Portanto, spoilers! Quem ainda não leu eu indico que o faça o mais rápido possível. É maravilhosa.
Desejo uma boa leitura e nos vemos nas notas finais ^^
Seria um dia ensolarado, sem dúvida. As poucas nuvens que dividiam o céu flutuavam pacificamente, seguindo seus rumos com a leveza que só as nuvens têm. Por trás delas o céu clareava lentamente, anunciado o nascer de um novo dia. Mesmo assim, as temperaturas continuavam frígidas como no inverno, principalmente ali, nos Recessos da Nuvem. Uma leve neblina encobria a seita mais regrada do mundo do cultivo, tornando o ambiente límpido como o de um sonho. Mesmo assim, discípulos já andavam pelo lugar, indo calmamente para o refeitório, afinal, correr era proibido.
Jiang Cheng alisou suas roupas até que ficassem impecáveis. Apesar de já ter se acostumado com a rotina da Seita Gusu Lan, acordar cedo como um Lan era um desafio. Ainda mais depois de passar as últimas semanas tentando garantir que Wei Wuxian não se metesse em encrenca. Essa, por si só, já era uma tarefa quase impossível que ele devia balancear com os estudos contínuos, mas é claro que, mesmo com todas as preocupações, ele não deveria ter subestimado seu shixiong, que já no primeiro dia havia lutado contra o segundo jovem mestre Lan. O próprio Lan Wangji! Era ridículo.
Só de imaginar o que aconteceria caso palavra chegasse até Yumeng Jiang... Sua mãe ficaria lívida de raiva, fazendo o clã todo passar vergonha logo no primeiro dia, completamente inadequado!
E você, o que fez? Você é o herdeiro! Devia impor respeito, colocar aquele petulante Wei Wuxian no lugar dele! Mas ao invés disso você o segue como um cachorrinho, quando irá se comportar como um líder?!
Já seu pai não iria se incomodar, na verdade, risque isso, ele iria defender Wei Wuxian, o que iria gerar outra briga entre Jiang Fenmian e Madame Yu, provavelmente com ele no meio da discussão...
Ele é seu filho! Como pode colocar outro na frente dele?!
Jiang Cheng estremeceu, por causa do ar frio da manhã, claro. Seus pais ainda não haviam descoberto das encrencas em que Wei Wuxian se metia, mesmo com o mais velho ficando sob a supervisão de Lan Wangji — que os deuses cuidem de sua alma. Era como se, por uma vez na vida, as coisas estivessem se encaminhando bem, ou tão bem quanto possível. Era perigoso ficar otimista, ele sabia, mas ali em Gusu tudo parecia diferente, talvez ali ele fosse capaz de trazer orgulho para seu clã. Isto é, se ele continuasse estudando ao máximo em todas as matérias. Não é porque Wei Wuxian era melhor do que ele em tudo que Jiang Cheng não iria se esforçar para competir com ele.
Bom, pelo menos Jiang Cheng continuava, dentre os dois, em primeiro lugar na arte de acordar cedo.
Terminada a arte de se vestir, o mais jovem se virou para seu shixiong, que ressonava profundamente. Os cabelos estavam soltos e despenteados, apontando em todas as direções, e ele dormia todo torto, com um braço debaixo da cabeça e outro caído no chão, o corpo mal coberto pelas cobertas. Nada Lan. Jiang Cheng sorriu de canto ao imaginar o que o professor Lan Qiren diria se visse tal coisa. Provavelmente teria uma síncope nervosa, ou até mesmo um desvio de qi.
Jiang Cheng gostava do velho mestre Lan. Ele era sábio e calmo – quando Wei Wuxian não estava envolvido – além de ser rígido em suas lições. Jiang Cheng não conseguia imaginar a si mesmo vivendo o resto de sua vida sob a tutela de Lan Qiren, porém ele era um ar refrescante se comparado aos mestres do Píer Lotus, nem que isso se devesse em parte pelo completo desgosto que o velho mestre sentia por Wei Wuxian. Ali em Gusu era a primeira vez que um dos mestres não lambia o chão que Wei Wuxian passava e ignorava o herdeiro da seita, mesmo que este se esforçasse muito mais do que o mais velho. Ali era praticamente o oposto. Mestre Lan não suportava a existência do primeiro discípulo de Yumeng, mas parecia estranhamente gentil com Jiang Cheng?
Ele não havia reparado isso a princípio, não até que Nie Huaisang cochichasse para ele noutro dia, reclamando da quantidade de regras que teria que copiar junto com Wei Wuxian como penitência por ter sido encontrado bebendo o sorriso do imperador. Jiang Cheng não fora penalizado porque primeiro: ele não estava bebendo e segundo – de acordo com Nie Huaisang – o mestre Lan o adorava.
Não era para tanto, se Jiang Cheng podia dizer alguma coisa era que o velho mestre não o detestava. Já era bom o suficiente para ele e acendia um pequeno calor em seu peito, um calor que ele nem se lembrava que existia, até ir estudar em Gusu. E agora, mais do que nunca, sabia que sentiria falta quando voltasse ao Píer Lotus.
Suspirando, Jiang Cheng foi até a cama de seu shixiong e puxou as cobertas com brusquidão, fazendo o mais velho murmurar em irritação, mexendo os braços como um fantasma procurando uma vítima.
— Acorde, Wei Wuxian. O gongo já bateu.
— ... Mais uns minutinhooos. – o outro praticamente miou como um gato, virando para o outro lado e encolhendo-se numa bola.
Jiang Cheng bufou, decidindo acabar de se arrumar antes de expulsar seu irmão da cama. Pegou uma fita roxa e puxou o cabelo longo em um coque apertado no topo da cabeça, deixando algumas mechas soltas para emoldurar seu rosto. Aquele era o estilo dos discípulos de Yumeng e ele o vestiria com orgulho, não que alguém além dele se importasse.
Com o cabelo e a vestimenta prontos ele virou-se decidido. Caminhou em direção ao adormecido e pacífico Wei Wuxian. Respirou fundo. Então de supetão empurrou o mais velho para o chão, segurando o riso e colocando sua melhor carranca no rosto.
— LEVANTA! Se você não se vestir em dois minutos vou para o refeitório sem você!
— AAAAAAAAAAAHHHHHHH, Shidi você é tão CRUEL!!! Eu sou o mais velho aqui, onde foi parar o respeito??!!
— Se você agisse como mais velho quem sabe eu o respeitasse?
— Meu shidi tem um coração de pedra! DE PEDRA! Coitado de mim, todo indefeso e você me ataca em um momento de vulnerabilidade! Como...
— Wei Wuxian, — Jiang Cheng rangeu os dentes – Você tem um minuto para se arrumar. Um, dois...
— Estou indo! Tô indo! – rápido como o vento o mais velho levantou-se e saiu correndo, mas não sem antes virar e mostrar a língua. Vendo isso Jiang Cheng agarrou a coisa mais próxima – o travesseiro – e jogou com força no outro, que desviou com graça e saiu correndo rindo.
— WEI WUXIAN!
Bom, esqueça o dia calmo e pacífico. Hoje seria um inferno na terra. Os deuses realmente o detestavam.
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Surpreendentemente as aulas passaram de maneira suave. Bom, mais ou menos. Eles aprenderam sobre a história das seitas de cultivação, formações de defesa, como cultivar melhor para alcançar a imortalidade, dentre outras coisas, mas na última aula do dia é claro que começaram a falar sobre energia ressentida e é claro que Wei Wuxian fez outra pergunta sobre o assunto, insistindo naquela teoria maluca de que talvez – ênfase no talvez – fosse possível controlá-la.
— Se uma horda de espíritos ressentidos nos atacasse não seria mais fácil controlá-los do que os combater??
Lan Qiren ficou vermelho como uma pimenta.
Jiang Cheng teve vontade de enforcar o irmão bem ali. Qual era o problema com cultivação normal? Por que qualquer um deles deveria se importar em tentar um caminho tão perigoso quanto o de cultivação demoníaca? Será que Wei Wuxian se considerava tão bom que ficou entediado? E por isso buscava outros caminhos, aumentando ainda mais a distância entre eles? Ele queria se afastar tanto assim de Jiang Cheng que até cultivação demoníaca era um caminho para ele?
Jiang Cheng rangeu os dentes. Não, isso não importava. Seu shixiong não pensava nele com tanto afinco. Jiang Cheng não era o centro do mundo, embora ele às vezes pensava seria tão ruim se o mundo o rodeasse por um dia? Como seria a sensação? Será que ele conheceria a felicidade ali?
Tal pensamento fez Jiang Cheng congelar. No que raios ele estava pensando? Como ele poderia querer tirar algo de seu irmão daquele jeito? Wei Wuxian não estava fazendo nada intrinsecamente errado. Um pouco fora dos padrões, talvez, mas nem por isso errado. Ele não merecia que Jiang Cheng o invejasse de tal forma, ainda mais quando ele era o único que parecia aturá-lo significativamente bem, e fazia até questão de lembrar-se dele quando não estava ocupado com Lan Wangji. Era muito egoísmo da parte dele exigir mais.
Egoísmo, Ignorância e ódio. Os três venenos. Sandu.
Realmente, sua espada tinha o nome perfeito para ele. Afinal, o que mais além dos três venenos era Jiang Cheng? Egoísta pelas atenções de sua família, ignorante para reconhecer a dor dos outros, sempre repleto de ódio, zangado demais, fechado demais. Era de se espantar que seu pai o desprezasse tanto?
Lentamente Jiang Cheng baixou a cabeça e fechou-se para a algazarra da sala de aula.
Jiang Cheng sabia que ele não era adequado para liderar. Ele nunca fora bom com as pessoas, sempre muito zangado, muito distante, nunca fazendo amigos, brigando com todos aqueles que o questionavam, enquanto Wei Wuxian era o total oposto, uma borboleta social. Ele realizava tudo com perfeição, era um mestre nas seis artes e até elas eram fáceis demais para ele. Mas havia uma coisa em Wei Wuxian que ele nunca teria: Wei Ying era gentil. Ele queria ajudar as pessoas. Era meio estabanado e infinitamente energético, mas no final, tudo o que ele fazia era para tentar melhorar o mundo.
E Jiang Cheng... Jiang Cheng não suportava isso, em algum lugar bem oculto dentro de si, logo atrás de toda a admiração que sentia por Wei Wuxian, a inveja reinava. No final, ele sempre carregava uma egoísta e horrorosa esperança de que Wei Wuxian era o responsável por levar o amor de seu pai para longe dele, mas ele se enganara. Jiang Cheng só havia a si mesmo para culpar. Era sua inadequação que sempre atraía as brigas em casa. Era seu egoísmo que tornava a convivência com Wei Wuxian algo doloroso. Era seu ódio que envergonhava seu A-die. Era a sua ignorância que o fazia ser um mau herdeiro para Yumeng Jiang. Wei Ying só era ele mesmo, e ele podia se orgulhar disso. Era o mais novo que não era bom o suficiente para poder se comparar.
Wei Wuxian era uma forte chama de luz.
Jiang Cheng era um daqueles insetos irritantes que eram sempre atraídos para a luz. E seu A-die sabia disso. E A-niang. E mesmo A-Jie...
— WEI WUXIAN!! FORA! – Lan Qiren gritou a plenos pulmões, o rosto vermelho como uma beterraba, a barbicha espigada como a de um porco espinho, apontando enfaticamente para a porta como se ela também o houvesse ofendido.
Wei Wuxian deu uma risada sem graça e saiu correndo pela porta, antes que o mestre Lan perdesse ainda mais a paciência com ele e o punisse com mais severidade.
Jiang Cheng suspirou. Seu shixiong provavelmente estava indo em direção a biblioteca, pronto para irritar outro Lan (o dificilmente irritável Lan Wangji), pelo menos esse calaria Wei Wuxian na hora se ele começasse a falar asneiras. Como ele estaria ocupado copiando as regras a tarde toda, Jiang Cheng tinha o resto do dia livre.
Geralmente ele usava esse tempo para praticar cultivação e estudar o máximo que conseguisse, antes que seu irmão voltasse rindo alto e o distraísse.
Mas hoje, naquele momento especificamente, tanto estudo parecia sem sentido. Afinal, de que adiantava tanto trabalho se nada que ele fizesse seria o suficiente?
Jiang Cheng olhou para sua mesa pensativo. Na mesa do canto Nie Huaisang o encarava de maneira estranha, acenando para tentar atraí-lo, mas Jiang Cheng não se importou em responder. Huaisang só o aturava por causa de Wei Wuxian, caso contrário ele o deixava em paz. Pelo menos nesse sentido ele era respeitoso o suficiente. Isso ou ele ficava aliviado de se afastar quando Wei Ying não estava por perto. Afinal, ele também deveria ver quem Jiang Cheng realmente era.
Depois da cena, que havia se tornado cada vez mais comum nas últimas semanas, a aula acabou rapidamente. Jiang Cheng não prestara atenção em nada. Ótimo, mais uma coisa para ele correr atrás.
Os alunos saíram tão rápido quanto era permitido, sem correr, não cochichavam também – afinal a fofoca era proibida. Jiang Cheng, entretanto, sabia que assim que estivessem longe dos olhares atentos do mestre Lan, todos começariam a discutir sobre o ocorrido. Só de pensar nisso o jovem herdeiro sentia uma dor de cabeça chegando.
Nie Huaisang passou por ele, que ainda se encontrava sentado na mesma posição, meio sem saber o que fazer. Aqueles pensamentos não eram novos para ele, mas dessa vez eles tinham uma lógica que ele não conseguia contestar. Eram muito verdadeiros.
— Jiang-xiong, tudo bem?
Jiang Cheng ergueu os olhos pela primeira vez desde que Wei Wing fora expulso da sala. Huaisang encarava-o com a cabeça inclinada para o lado. Seu leque sempre presente o abanava um pouco rápido de mais para quem estava calmo.
Ótimo, agora o outro achava que ele era fraco. Maravilhoso, somente o que ele precisava. Claro que as pessoas só repararam nele quando ele estava em momentos ruins. Esse era o lugar onde ele se destacava, afinal. Wei Wuxian era sempre respeitado pelo quão alto conseguia chegar, e Jiang Cheng era reconhecido por suas baixas, ali ele era o número um... Não adiantava ficar pensando nisso. As coisas eram o que eram.
Wei Ying era uma luz poderosa, Jiang Cheng era um inseto irritante.
— Estou bem, Nie Huaisang. – ele respondeu com a voz um tanto rígida.
Huaisang franziu as sobrancelhas. Talvez fosse porque Jiang Cheng o chamara pelo nome completo? Mas esse era o objetivo, eles não eram próximos, então por que deveriam se chamar por nada menos que seu nome comum?
— Você sabe que Wei-xiong não pensa muito de falar, não precisa ficar zangado com ele.
Claro, Huaisang só estava conversando com ele por causa de Wei Wuxian. Típico. O que ele esperava? Mesmo assim, por que a realidade ainda machucava tanto?
— Eu sei disso, Nie Huaisang. – Jiang Cheng forçou-se a ficar calmo e levantou-se com o máximo de leveza que conseguiu, adequando a postura e colocando as mãos atrás das costas. – Mas ainda assim devo pedir desculpas ao Mestre Lan pelos problemas que Wei Ying causa, é o mínimo que posso fazer como herdeiro de Yumeng. Com licença.
Jiang Cheng curvou-se polidamente para o outro e começou a andar em direção ao Lan mais velho, pelo menos naquilo ele era bom. Com o decorrer dos anos ele havia virado mestre em limpar a bagunça que Wei Ying deixava para trás. Huaisang, porém, chamou-o de novo.
— Jiang-xiong. – ele tinha um sorriso tenso no rosto, os olhos escuros brilhavam estranhamente – Assim que Wei-xiong sair da punição de hoje vamos juntos para a cidade Caiyi? Vai ser bom para todos nós nos livrarmos por um tempo dessas regras, não acha?
Jiang Cheng olhou-o, tentando desesperadamente não mostrar emoção alguma no rosto. Por que Huaisang se incomodava em convidá-lo se não gostava de sua presença? Era por Wei Wuxian? Mas seu shixiong conseguia se divertir muito bem sem a presença do sempre mau humorado shidi. Qual a lógica? Bom, não importava.
— Eu vou estudar hoje, não posso. – Mentiu e virou-se para sair, recusando-se a ouvir o “mas” que Huaisang tentava proferir.
Jiang Cheng estava cansado de ser a pessoa que os outros aturavam. Se sua presença não agradava ninguém então ele ficaria longe.
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Nie Huaisang o havia distraído. Mestre Lan já havia saído da sala quando Jiang Cheng conseguiu se soltar do jovem Nie, que estava irritantemente persistente por algum motivo.
Jiang Cheng saiu pela porta, tentando a muito custo não bufar. Onde o mestre Lan teria ido? Ele nunca havia pensado — por bons motivos — o que o mais velho fazia em seu tempo livre. Como ele iria encontrá-lo?
Jiang Cheng olhou de um lado para o outro e só viu árvores e templos pacatos. Sem sinal de discípulos ou do mestre.
Talvez ele devesse começar a procurar por algum lugar? Os moradores dos Recessos da Nuvem viviam em uma área separada da dos visitantes, como Jiang Cheng iria saber para onde o mais velho teria ido? Talvez fosse melhor voltar para os alojamentos e encontrar um Lan para mostrar o caminho. Sim, essa era a opção mais sensata. Ele poderia informar que estava a procura do Mestre Lan Quiren para sanar uma dúvida ou algo do tipo. Ou simplesmente diria a verdade. Talvez o mais velho ficasse feliz ao saber que Jiang Cheng tivera todo esse trabalho só para se desculpar. Não que isso importasse, mas ainda assim seria algo bom, certo? Afinal, Lan Qiren era o único que parecia ter por ele alguma ínfima consideração. Seria ótimo sentir aquele calor no peito se fizesse algo que o mais velho gostasse…
E lá estava ele de novo, fazendo algo por benefício próprio, esperando que alguém o apreciasse, e não tomando a atitude certa simplesmente porque era o certo a fazer.
Egoísmo, ignorância, ódio.
Sandu.
Jiang Cheng estremeceu e sorriu amargamente, o que pode ter ou não formado uma carranca fúnebre em seu rosto, ele não sabia. Parecia que era impossível escapar de sua natureza. Havia qualquer mérito em tentar?
A-niang dissera uma vez que ele deveria treinar a mente para manter-se sempre no caminho correto, mas parece que ele a treinou para manter-se no caminho venenoso. Não era a toa que A-niang estivesse sempre desapontada com ele. Parecia que, até nos mínimos detalhes, o jovem herdeiro havia entendido tudo errado.
Como ele conseguia ser tão incompetente em tudo?
Jiang Cheng pensou amargamente, finalmente olhando em volta para ver aonde estava. Seu coração afundou.
Jiang Cheng havia ficado tão preso em seus próprios pensamentos que, sem que percebesse, caminhou por uma divergência de caminhos. Ao invés de permanecer sempre a direita, ele, em algum momento, escolheu uma bifurcação a esquerda, e agora que olhava em volta, estava em uma parte completamente estranha de Gusu, rodeado por árvores desconhecidas e caminhos mais desconhecidos ainda.
Realmente, os céus o odiavam.
Ele virou para trás, mas em algum momento a trilha havia desaparecido. Esse caminho era tão pouco usado que até a trilha se apagou? Mas era só o que faltava. O que ele tinha na cabeça durante a manhã quando pensou que o dia seria calmo e bondoso com ele? Só podia ser merda. Nunca nada era bondoso com ele. Por que aquele dia, dentre todos, seria diferente?
—Bom, pior do que isso não dá para ficar. — ele murmurou para si mesmo. Decisão tomada, voltou por onde viera — ele tinha quase certeza de que viera dali. Afinal, em algum momento ele deveria chegar em algum lugar onde pudesse pedir ajuda. Os Recessos da Nuvem não eram tão grandes assim.
O dia estava lindo em Gusu. As árvores balançavam com a brisa e os pássaros cantavam silenciosamente. O sol brilhava com força, mesmo que em poucas horas a noite já chegasse — mais um motivo para que ele encontrasse o caminho o mais rápido possível. Estava estranhamente quente para uma tarde nas alturas dos Recessos da Nuvem, não era um dia nada parecido com o que aquela manhã anunciara. Era como se até o clima estivesse fazendo isso para deixá-lo irritado.
Em poucos momento — minutos ou horas, ele não sabia — Jiang Cheng soava, tanto de calor, quando de nervoso. E se ele nunca achasse o caminho de volta? Será que alguém sentiria falta dele? Será que o puniriam por chegar atrasado ou algo do tipo? Ele seria esquecido? Não é como se ele fosse memorável de uma maneira que agradasse as pessoas. Ele era muito duro para isso.
Às vezes, o lugar que Jiang Cheng mais odiava estar era dentro de sua própria cabeça.
Jiang Cheng parou e suspirou, tentando se acalmar. O sol já estava se pondo, se ele continuasse com os nervos à flor da pele nunca sairia dali. Ele tinha que pensar racionalmente. Continuar andando reto parecia um bom plano. Mas ele já estava andando a tanto tempo. O quão grande era Gusu??
Jiang Cheng parou um pouco para descansar, sentou em uma pedra de tamanho razoável e fechou os olhos. Respire fundo.
Dentro.
Fora.
Dentro…
O dia inteiro fora desperdiçado. Ele não havia comido o almoço, perdera também toda uma tarde que poderia ter sido usada estudando e treinando com a espada. Mesmo que todo o esforço não fosse o suficiente para superar Wei Ying ou para modificar a si mesmo, ainda era melhor do que se perder no meio da seita aliada como uma criança pequena.
O que seus pais diriam? Wei Ying provavelmente riria da cara dele, chamando-o de bebê…
Wei Wuxian já deveria ter acabado de copiar as regras da seção de hoje, o que significa uma coisa: seu irmão estava sozinho e sem supervisão, solto como o vento para fazer o que quiser. O desastre era certo. Jiang Cheng puxou os cabelos devagar, a desgraça estava feita e era tudo culpa dele.
Tudo era culpa…
O que é isso?
Jiang Cheng ergueu o rosto, olhos ainda fechados esforçando-se para ouvir melhor. Por alguns segundos não houve um som sequer além do da natureza ao seu redor. Ele deveria estar ficando louco. Nem algumas horas pedido no meio das árvores e ele já estava tendo alucinações. Era um recorde pessoal.
Ele levantou-se resignado e estava prestes a continuar andando sem rumo quando ouviu de novo.
Alguém está tocando flauta?
Era o fraco som de um Xiao. Se havia música, então havia alguém por perto! Renovado, Jiang Cheng começou a correr em direção ao som.
Por um momento, pareceu que ele corria para a direção errada, pois o som não ficava mais alto. Em Pânico o jovem quase caiu, porém a música começou, lenta mas seguramente, a ficar mais alta. Ele estava na direção certa!
Quanto mais perto ficava, mais Jiang Cheng percebia o quanto a música era bonita. Em Lótus Pier não era muito comum a cultivação pelo caminho da música, não era impossível, mas não era o caminho Jiang. Dessa forma, Jiang Cheng encontrava-se secretamente fascinado por qualquer um capaz de produzir tal arte. Ele nunca havia tentado. Não havia tempo para fazer algo que não tivesse sua seita em mente.
Wei Wuxian era bom em todos os instrumentos que tentava, mas Jiang Cheng tinha que admitir que nem seu shixiong era tão bom no Xiao quanto aquele que ouvia agora.
Deve ser um cultivador e tanto.
A música estava cada vez mais próxima. As notas belas e poderosas quase podiam ser vistas flutuando no ar, aprisionando Jiang Cheng em um transe. Como alguém poderia tocar tão bem assim? Era a música mais bonita que ele havia ouvido na vida. Nada se comparava.
De repente a música parou. Jiang Cheng sentou seu coração saltar no peito e correu mais rápido.
Não, por favor, não me deixe sozinho…
O jovem parou quase derrapando e ofegante em uma pequena clareira à beira de duas límpidas cachoeiras. Ambas não tinham muita altitude ou água, e se uniam silenciosamente formando uma lagoa calma que refletia o céu no crepúsculo.
Jiang Cheng sentou seu coração parar no peito. Se antes tudo tinha andado muito rápido, agora o tempo parava, pois a visão a sua frente era tão poderosa a ponto de congelar tudo ao redor.
Se Wei Wuxian era uma chama poderosa, Lan Xichen era o próprio Sol. Naquele momento, Jiang Cheng sentiu-se como o mais ínfimo inseto, porém até um inseto sente-se grato por ser banhado por tal luz.
Sem aviso, o Primeiro Jovem Mestre Lan fechou os olhos castanhos profundos, levou o Xiao aos lábios e voltou a tocar.
E mais uma vez houve música.
Notas finais
shidi: irmão marcial mais novo
A-niang: mãe
A-die: pai
A-jie: seria algo como irmã
Peço desculpa se as traduções não estão adequandas, caso vocês tenham sugestão sobre isso gostaria de ouvir ^^
Fiquei um tempo sem escrever, então já peço perdão caso não tenha sido a melhor experiência. No futuro planejo rever esse capítulo e corrigi-lo um pouco. Espero que vocês estejam prontos para entrar nisso comigo kkkkkkkk
Agradeço aqueles que chegaram até aqui, significa muito para mim. Qualquer erro de digitação podem me avisar, adoraria saber o que vocês acharam.
Nos vemos no próximo e obrigada pela leitura^^
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