Notas iniciais
Alo, povo!! Mil perdões pela demora! Estava na última semana do trabalho e as coisas ficaram meio atropeladas, mas aqui está o novo capítulo! Fiquei meio insegura de como me aproximar da prática do erhu já que eu descobri o instrumento recentemente e tudo o que sei sobre ele foi baseado na Wikipedia kkkkkkk Mas enfim, fiquei satisfeita com o capítulo. Espero que gostem! Boa leitura ^^

A manhã finalmente havia chegado.

Jiang Cheng acordou mais cedo do que o normal, quase tão cedo como um Lan, mas não tanto. Afinal, ele não era louco de acordar tão antes do sol nascer. O estômago contorcendo de ansiedade.

Ele preparou-se, como em qualquer dia, acordou Wei Wuxian, como em qualquer dia e foi às aulas diligentemente, como em qualquer dia. Tudo estava na mais absoluta normalidade, tirando os olhares astutos e meio culpados que Wei Wuxian lançava em seu caminho toda vez que mestre Lan Qiren se dirigia a eles e do bater incessante do leque de Huaisang na mesa atrás dele.

Ele ia acabar quebrando aquela coisa e depois iria chorar pra Jiang Cheng.

Wei Wuxian estava também estranhamente quieto durante toda a duração das aulas e mesmo do almoço, fazendo com que o pavão e os outros alunos erguerem uma sobrancelha suspeita. Provavelmente pensavam que Wei Ying estava tramando alguma coisa, ou pior, que Lan Wangji havia conseguido domar o jovem maluco. Coitados, era meio rude erguer as esperanças de todos, principalmente do Mestre Lan, que parecia estranhamente feliz enquanto dava as aulas, quase flutuando. Ele até havia sorrido de leve quando Jiang Cheng havia respondido corretamente uma vez.

Tudo bem, aquilo era um choque. E o pior era que Lan Qiren, com aquele mínimo sorriso, parecia muito com Lan Xichen.

E… ele não fazia ideia do que fazer com isso. Então era melhor esquecer antes que virasse outro problema em sua cabeça.

Apesar de todos estarem felizes ou aliviados com a quietude de Wei Wuxian, Jiang Cheng não podia deixar de se sentir um pouco culpado. Wei Ying estava assim afinal porque Jiang Cheng mentira e colocara nos ombros do mais velho uma culpa que não estava realmente lá. Wei Wuxian estava, provavelmente, tentando não causar muitos problemas hoje, o que não significava que amanhã ele fosse continuar se comportando. Amanhã ele provavelmente seria o jovem extrovertido de sempre, alcançando o impossível e fazendo todos perderem a cabeça no processo, figurativamente. Porque era assim que Wei Ying era, ele queria abraçar o mundo, porém o mundo era repleto de pessoas invejosas como Jiang Cheng, que mentem e enganam só para ter o que querem.

O pensamento arrefeceu um pouco a ansiedade por passar a tarde com o Primeiro Jade de Lan. De que adiantava sair se escondendo por aí? Wei Ying ia acabar descobrindo em algum momento e ficaria chateado por Jiang Cheng ter mentido.

Afinal, não era assim que Jiang Cheng era. Ele era ridiculamente direto ao ponto. Sempre falava a verdade, não importando se isso machucasse ou ofendesse as pessoas. Essa era uma das características que seu A-die mais se incomodava, ele tinha certeza. Mas mentir não era a solução.

Estava decidido. Assim que ele voltasse, contaria a Wei Ying a verdade. Seu shixiong iria provavelmente rir dele, mas era melhor do que magoá-lo depois.

O gongo do final das aulas finalmente soou no meio da tarde. Os estudantes curvaram-se respeitosamente perante o mestre Lan antes de saírem aos pares, conversando em sussurros.

Jiang Cheng pôde ver o pavão olhando para eles, desconfiado, antes de também sair pela porta.

Deuses, como ele odiava aquele cara. Ele não merecia um mísero fio de cabelo de A-jie.

O jovem Jiang arrumou suas coisas e olhou para Wei Wuxian, que o encarava com uma expressão meio séria, meio duvidosa. Huaisang o esperava do lado de fora da porta, abanando o leque que surpreendentemente continuava inteiro.

— Eu não arrumei problemas para você, certo shidi?

Jiang Cheng ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Não. Claro que não. Só vou arrumar uns papéis com o Mestre Lan, nada demais. — Deuses, ele tinha que contar a verdade para Wei Wuxian depois. Era horrível vê-lo agindo como um cachorro pisado, pior ainda já que Wei Ying detestava cães.

Ele não podia deixar as coisas assim.

— Só que da próxima vez tente não dar um ataque cardíaco no velhote. É perigoso com a idade dele.

Wei Wuxian riu, coçando a cabeça embaraçado, mas ele parecia mais aliviado. E somente por isso o mundo soava certo novamente, fazendo Jiang Cheng sorrir um pouco também.

— Vou tentar, shidi. Pode deixar que o seu shixiong vai cuidar de tudo!

— É o que me preocupa. — Jiang Cheng não pode deixar de dizer, dando uma cotovelada no mais velho, que voltou a rir.

~~~~~~~~~~**~~~~~~~~~~

Jiang Cheng respirou fundo antes de entrar na clareira.

Ele seguia o mesmo caminho que Lan Xichen havia mostrado a ele na noite anterior. Era uma vitória pessoal não ter se perdido até chegar ali.

As pequenas cachoeiras continuavam no mesmo lugar, obviamente, suas águas dançando lentamente até o lago límpido no centro da clareira. As árvores balançavam ao sabor da brisa, que estava minimamente mais fria do que no dia anterior, tornando o ambiente fresco e confortável. O sol escondia-se por trás das poucas nuvens que adornavam o céu azul claro, e logo voltaria a sair para iluminar o lugar com sua luz dourada.

No meio da clareira estava Lan Xichen.

O Primeiro Jade de Lan sentava-se graciosamente às margens do pequeno lago, o Xiao apoiado em seu colo e duas xícaras de chá e um bule encontravam-se em um tronco cortado ao seu lado, funcionando como uma mesa improvisada.

Ele havia trazido até chá! Será que Jiang Cheng devia ter providenciado alguma coisa também? Talvez algo para comer ou…

Ele não teve tempo para pensar porque naquele momento Lan Xichen notou sua presença.

E sorriu.

— Jovem Mestre Lan. — Jiang Cheng teve a decência de se curvar. Desta vez ele não iria ficar parado olhando feito um idiota pervertido.

— Jovem Mestre Jiang. — Lan Xichen levantou e curvou-se também. Sempre respeitoso. — Por favor, sente-se.

Jiang Cheng finalmente permitiu-se adentrar na clareira.

Ele tentou ser o mais cauteloso possível, como se estivesse em território inimigo. Aquele era o espaço de Lan Xichen, afinal. Seria rude aproximar-se como se ele fosse o dono de tudo.

Lan Xichen continuava sorrindo. Apontou para um ponto no chão em frente ao lago para que Jiang Cheng se sentasse, o que o jovem fez o mais apropriadamente que conseguiu. Assim que se acomodou, Lan Xichen ofereceu um pouco de chá, o qual Jiang Cheng aceitou com um aceno pequeno de cabeça.

Deuses, até o chá era meio sem gosto. Será que o sabor ofendia tanto os Lans assim?

— O que acha do chá, Jovem Mestre Jiang? — o Primeiro Jade perguntou com um sorriso, porém este sorriso tinha um ar brincalhão que não estava lá antes, como se o mais velho soubesse exatamente o que Jiang Cheng achava do chá.

Droga, ele não devia ter disfarçado sua reação muito bem.

— É tão delicioso quanto a comida de Gusu, Jovem Mestre Lan. — bom, aquilo era educado o suficiente. Lan Xichen provavelmente não sabia da fama que a comida dos Recessos da Nuvem tinha entre os discípulos, afinal, a fofoca era proibida.

Porém Lan Xichen surpreendeu-o ao rir. Era uma risada de verdade, e ele ergueu uma mão sobre a boca para escondê-la um pouco, como se estivesse surpreso consigo mesmo por ter rido do que Jiang Cheng dissera.

— Sinto muito, Jovem Mestre Jiang. — seus olhos escuros brilharam com divertimento — Jovem Mestre Jiang deve ter provado chás melhores.

— Não é ruim! — Jiang Cheng acenou enfaticamente com a mão que não segurava a xícara de chá. Deuses, claro que Lan Xichen sabia! — Eu…

— Não precisa ficar nervoso, Jovem Mestre Jiang. Acostumar-se a uma culinária tão… branda deve ser difícil, ainda mais quando se vem de Yunmeng. Ouvi dizer que a comida do Píer Lótus é deliciosa. — Lan Xichen sorriu, mostrando claramente que não estava ofendido.

— Ah, obrigado… — Jiang Cheng murmurou inteligentemente.

Ele não esperava por isso. Geralmente quando ele era sincero sobre uma coisa que não gostava, as pessoas se zangavam com ele. A-die sempre dizia que era indelicado dizer que não gostava de algo, e A-jie sempre dizia que a forma com que Jiang Cheng se expressava devia melhorar.

Seja gentil, A-Cheng.

Ninguém nunca ria do que ele dizia.

Ninguém além de Lan Xichen.

O Primeiro Jade de Lan terminou de tomar o chá sem gosto e posicionou a pequena xícara novamente no tronco cortado ao seu lado. Jiang Cheng terminou rapidamente de tomar seu chá enquanto o mais velho retirava do seu lado uma caixa relativamente grande que há pouco estava escondida por entre a grama. Ao lado dela, havia outra caixa, provavelmente contendo o erhu que Lan Xichen usaria para ensiná-lo.

— Jovem Mestre Jiang, espero que não se importe, mas tomei a liberdade de escolher um dos erhu dos Recessos da Nuvem para que você possa praticar. — Lan Xichen disse com um sorriso discreto, oferecendo a caixa em sua direção, embora ele parecesse um tanto nervoso.

— Não se preocupe, Jovem Mestre Lan. Tenho certeza que deve ter escolhido bem. — Jiang Cheng disse meio sem pensar, distraído demais com a caixa que tinha em mãos para se sentir constrangido. Lan Xichen parecia um pouco mais aliviado, no entanto.

A caixa tinha pelo menos oitenta e cinco centímetros de altura e vinte de largura para acomodar o instrumento confortavelmente. Era feita toda de madeira polida e pintada manualmente de branco, com alguns desenhos de nuvens e montanhas a adornar as laterais. Era linda.

Jiang Cheng sentiu as mãos tremerem um pouco ao posicionar a caixa à sua frente. Era bonito demais, e ele não conseguia parar de pensar que talvez tudo desmoronasse caso ele fizesse o mínimo movimento errado. O mais jovem pousou as mãos sobre a superfície lisa, apreciando o trabalho manual feito ali antes de aproximá-las do feixe que abriria a caixa. Ele olhou para Lan Xichen um tanto inseguro, mas este somente sorriu gentilmente e acenou com a cabeça, incentivando Jiang Cheng a continuar.

O feixe abriu com um clique suave.

Se a caixa por fora já era uma maravilha em si, nada havia preparado Jiang Cheng para o instrumento.

O erhu era formidável. Feito de sândalo vermelho, polido e brilhante. As duas únicas cordas brilharam sob a luz solar, iluminando todo o instrumento com uma luz dourada encantadora. Ele tinha ao menos oitenta centímetros de altura, e o arco, feito de bambu, estava encaixado suavemente entre as duas cordas. A caixa ressonadora na base do erhu era toda trabalhada em tons de branco e azul, um distinto instrumento de Gusu.

Jiang Cheng retirou lentamente o instrumento da caixa protetora e o posicionou em seu colo. Ele era leve e esguio, possuindo uma certa graça que Jiang Cheng não podia nem esperar compreender. Lentamente, o jovem passou levemente os dedos pelas cordas e um som um tanto desafinado o respondeu, assustando-o um pouco fora do transe no qual havia entrado.

Jiang Chen olhou para Lan Xichen, um pouco envergonhado por ter se perdido no momento.

— É lindo, Jovem Mestre Lan.

— Me chame de Xichen. — o outro respondeu sorrindo, parecendo contente consigo mesmo. — Se vou ensiná-lo a tocar erhu não será necessário nos tratarmos com tanta formalidade.

Jiang Cheng engoliu em seco. Isso… isso era uma honra! Nunca em um milhão de anos ele havia sequer imaginado que tal situação seria possível.

— Nesse caso, pode me chamar de Wanyin. Obrigado por me ensinar… Xichen. — era estranho, mas o nome soava bem e Jiang Cheng gostou de dizê-lo em voz alta, ainda mais quando Lan Xichen praticamente brilhou ao ouvir seu nome na voz do outro.

— Não precisa agradecer, Wanyin.

E lá estava aquele calor no peito novamente. Era… era bom.

A partir daquele momento, Lan Xichen retirou seu próprio erhu da caixa protetora ao seu lado e começou a ensinar os básicos, como segurar o instrumento e afiná-lo, usando os dois afinadores localizados na parte de trás do cabo.

Lan Xichen era um ótimo professor, mais paciente que Lan Qiren e muito mais gentil do A-niang. Suas instruções eram fáceis de seguir e, mesmo quando Jiang Cheng cometia um erro, ele não se zangava, somente iniciava o movimento de novo e esperava que Jiang Cheng seguisse a liderança.

Após afinar uma vez o erhu com a ajuda de Lan Xichen, Jiang Cheng pediu que o mais velho desafinasse o instrumento novamente para que ele pudesse tentar afiná-lo por si mesmo. Demorou um pouco, Jiang Cheng ainda considerava o erhu um instrumento um pouco estranho de segurar, mas ele finalmente conseguiu sintonizá-lo como Lan Xichen havia ensinado.

— Wanyin aprende rápido. — Lan Xichen comentou sorridente, observando-o com olhos brilhantes.

Jiang Cheng sentiu seu rosto esquentar e olhou para a água da lagoa tentando esconder seu embaraço. Como Lan Xichen conseguia cumprimentar as pessoas de maneira tão natural?! Não devia ser humanamente possível. Mas novamente, Lan Xichen era um Lan, e um Lan exemplar ainda por cima, claro que ele poderia fazer qualquer coisa.

— É só a afinação, não é nada demais.

— Afinar bem um instrumento é tão importante quanto saber tocá-lo, Wanyin. E você realiza esta tarefa excepcionalmente bem para um iniciante. — Lan Xichen respondeu, sem perder uma batida.

Desta vez Jiang Cheng ficou quieto, sem saber como retrucar.

O silêncio estendeu-se, mas não era desagradável, era calmo e pensativo, como se Lan Xichen estivesse pensando profundamente sobre algo. Depois de alguns segundos o mais velho pareceu tomar uma decisão e acariciou lentamente a base do erhu enquanto falava.

— Quando comecei a tocar Guqin, Shufu veio me ver em uma das aulas. Eu queria tanto impressioná-lo que acabei afinando de maneira errada em minha pressa por mostrar o quanto havia aprendido. Você pode imaginar o quão desastrosa a situação foi. — Lan Xichen sorriu quando viu a expressão incrédula no rosto de Jiang Cheng.

— Quando acabei de tocar minha música desafinada Shufu me encarou desapontado, dizendo que a pressa nunca levava a lugar algum, um instrumento não toca música alguma se não estiver afinado, é trabalho do músico cuidar de seu instrumento como cuidaria de uma criança pequena, com cuidado e dedicação. Um bom músico é definido não pela dificuldade das músicas que consegue tocar, mas pelo cuidado tido com o que tem em mãos.

Jiang Cheng não conseguia imaginar a cena. Um jovem Lan Xichen levando bronca de Lan Qiren, e pior ainda, porque fora impaciente demais e havia tentado impressionar seu tio da maneira errada. Era tão… fora do que Jiang Cheng esperava de um Lan perfeito como Lan Xichen, mas de algum modo isso o fez relaxar um pouco.

— Deve ter sido horrível ter enfrentado seu tio naquele momento. — ele disse com um sorriso pequeno, tentando soar simpático.

Lan Xichen riu divertido, parecendo envergonhado com a lembrança.

— Os estudantes sempre dizem que Shufu é aterrorizante quando está com raiva, mas o pior é vê-lo decepcionado. Posso contar nos dedos o número de vezes que ele se decepcionou comigo, mas cada uma delas ficou gravada em minha memória. Nunca mais deixei de afinar propriamente um instrumento depois daquilo.

— E assim surgiu Lan Xichen, o temido afinador de instrumentos. — Jiang Cheng brincou, fazendo o outro rir de novo.

— Nenhum instrumento fica desafinado em sua presença. Quando ele aparece os músicos gritam em festa. — Lan Xichen continuou, seus olhos brilhando de humor. — Eu não me importaria se esta fosse minha cultivação, salvaria nossos ouvidos de muitas músicas horríveis.

Jiang Cheng não pode deixar de rir um pouco.

— Está brincando.

— Wanyin, como eu poderia brincar em uma situação como esta? — Lan Xichen respondeu, fingindo descontentamento, mas o brilho nos olhos o traía.

Quem diria, o sorridente Primeiro Jade de Lan tinha humor depois de tudo. Não… não era o que ele esperava, Jiang Cheng achava que receberia uma aula direta como Lan Qiren faria, nunca havia passado pela sua cabeça que ambos acabariam brincando um com o outro. Era muito melhor do que seus sonhos mais loucos — não que ele tivesse imaginado o que aconteceria ou algo do tipo.

— O ponto é: a maioria dos estudantes tenta impressionar seus professores fazendo algo para o qual não estão preparados, mas Wanyin não fez isso. Wanyin focou em fazer o melhor possível aquilo que eu ensinei, e o fez magistralmente. Fico feliz.

— Você tem que parar de elogiar as pessoas a torto e a direito. — Jiang Cheng murmurou entre dentes, seu rosto com certeza estava vermelho como uma pimenta agora. Lan Xichen era impossível.

— Mas, Wanyin, como não elogiar quando o crédito é devido? — Lan Xichen disse com um sorriso brilhante, aparentemente se divertindo às custas de Jiang Cheng.

— Fique quieto.

Lan perfeito uma ova. Lan Xichen era uma ameaça à sanidade mental de qualquer homem.

O mais velho só riu de sua desgraça. Porém, por algum motivo, Jiang Cheng não se importou. Lan Xichen não ria como se Jiang Cheng fosse uma piada, ele ria como se a situação fosse divertida e o mais novo fosse parte dessa diversão, não o alvo dela. Era uma risada boa de ouvir.

Eles continuaram praticando por um bom tempo. Lan Xichen ensinou algumas notas básicas e como mover o arco da maneira correta, ajudando Jiang Cheng a praticar cada movimento.

O som de dois erhus preencheu a tarde quieta nos Recessos da Nuvem, um deles era mais tímido e inexperiente, enquanto o outro era seguro de si, mas calmo e paciente, guiando seu colega de maneira gentil até que este ganhasse mais prática.

Foi uma tarde calma e pacífica, uma das melhores que Jiang Cheng tivera em toda a sua vida.

Foi somente quando o sol descera no horizonte a lua começado a brilhar que eles finalmente pararam de praticar.

Jiang Cheng conseguia sentir o sorriso em seu rosto e suas bochechas doíam, sinal que ele estava fazendo isso a algum tempo. O que por si só já era um feito inédito. Talvez Wei Ying tivesse razão, Jiang Cheng passava tanto tempo com o cenho franzido que os músculos de seu rosto haviam se esquecido como era sorrir.

Lan Xichen estava radiante, os olhos escuros refletindo a luz prateada da lua como dois faróis na escuridão.

— Obrigado, Xichen. — Jiang Cheng não pode deixar de dizer suavemente, mais suave do que pretendia.

— O prazer foi todo meu, Wanyin. — outro sorriso gentil, um que ficaria na memória de Jiang Cheng por anos a vir.

~~~~~~~~~~**~~~~~~~~~~

Um trovão estrondoso o acordou.

A tempestade rugia furiosa, raios iluminavam os céus e a quantidade de água que caía era o suficiente para transbordar os lagos ao redor de Yunmeng. Era a época dos lótus florirem e iluminarem as águas com suas cores arroxeadas. Jiang Cheng só esperava que a maioria das flores sobrevivesse até a tempestade passar, caso contrário, ele temia que o festival em duas semanas fosse severamente comprometido ou adiado.

O líder da seita revirou-se, tentando encontrar uma posição mais agradável para voltar a dormir. O quarto foi iluminado pela luz prateada de outro relâmpago. Logo viria o trovão…

Jin Ling detestava tempestades quando era pequeno. Ele costumava sair correndo de seu quarto, logo ao lado do de Jiang Cheng, e jogar-se na cama de seu Jiujiu, escondendo-se debaixo das cobertas e tremendo tal qual uma folha seca ao vento. Depois de se acalmar um pouco Jin Ling ia esconder o rosto sob as mantas, envergonhado.

Jiang Cheng ia descobrir o rosto do sobrinho, e encontrá-lo franzido enquanto ele tentava não chorar, as bochechas gordinhas vermelhas e a boca contorcida. Naquelas noites Jiang Cheng percebia o quão parecido com ele seu sobrinho havia se tornado. Sempre brigando quando algo que ele não queria acontecia. Rápido para a raiva e lento para a gentileza. Sempre chorando escondido.

Não devia ser assim, ele deveria ser como A-jie, ou mesmo aquele pavão tenebroso, ou até mesmo Wei…

Mas dentre todos da família, Jin Ling teve que puxar ao tio mal humorado e severo que todos temiam. Será que ele havia feito alguma coisa errada? Ele havia tentado criar A-Ling com o máximo de gentileza que conseguia, talvez fosse por isso que o moleque fosse tão mimado. Mas talvez mesmo o seu lado gentil fosse bruto e severo demais para criar uma criança. Ele não havia nascido para ser pai. Ainda mais sozinho, sem a ajuda de alguém mais gentil, alguém em que A-Ling pudesse contar as coisas que ele não se atrevia a dizer a Jiang Cheng.

Entretanto, infelizmente, Jiang Cheng era só o que Jin Ling tinha.

Aqueles Jins abelhudos na Torre da Carpa não se importavam mais com o menino do que se importavam com um cão maltrapilho nas ruas. Apesar disso, Lanling era o futuro de Jin Ling, seu verdadeiro lar. Talvez se Jiang Cheng o tivesse deixado crescer lá, com os sorrisos vazios e falsidades do ouro, Jin Ling fosse menos parecido com o tio rabugento de quem ninguém se aproximava. Talvez ele fosse capaz de fazer amigos, talvez ele fosse mais feliz. Isso pelo menos quando A-jie ainda vivia.

Mesmo assim, mesmo com todos os sorrisos falsos e perigosos de Jin GuangYao e promessas de um avô que nem se dignava ver o próprio neto, Jiang Cheng via o quanto Jin Ling estremecia toda vez que chegavam a Lanling.

Era enfurecedor.

Mas ali, naquelas noites de chuva, como seu sobrinho enrolado e tremendo ao seu lado, Jiang Cheng se permitia abraçá-lo. Só um pouco.

Tudo bem chorar, A-Ling. Isso era o que A-jie diria.

Jiang Cheng, entretanto, sempre preferia o silêncio. Com o silêncio era mais difícil machucar as pessoas do que com as palavras ásperas que sempre saiam de sua boca. A-Ling merecia alguém gentil, mas Jiang Cheng não era assim. Silenciosos abraços eram o máximo que ele conseguia oferecer sem ofender ninguém.

E Jin Ling sempre o abraçava de volta com força redobrada, até finalmente conseguir dormir, mesmo que a tempestade continuasse pelo resto da noite.

Jiang Cheng sorriu para si mesmo, embora a cama ao seu lado estivesse fria e vazia. Jin Ling nunca gostara de tempestades. Mesmo depois de crescido. Será que estava chovendo em Gusu? Se estivesse, seu sobrinho estava provavelmente acordado e encolhido debaixo das cobertas, talvez com o cenho franzido e bravo consigo mesmo por não conseguir dormir.

Ou talvez ele já estivesse crescido demais para isso. Já houvesse presenciado coisas piores do que um trovão na noite. Afinal, fazia somente um ano desde o desastre com Jin GuangYao. Um ano desde que um tio ameaçou a vida do próprio sobrinho.

Toda vez que Jiang Cheng fechava os olhos a cena desenrolava-se na sua frente.

A-Ling com as cordas finas e brilhantes no pescoço. Os filetes de sangue que escorriam quando ele se mexia. Sua expressão de puro horror…

Jiang Cheng fechou os olhos. Jin GuangYao estava morto e enterrado. Zewu-Jun o havia matado. Nada podia machucar A-Ling, ainda mais agora que ele estudava em Gusu tal qual Jiang Cheng fizera.

Este foi o acordo feito com Lanling Jin, assim que os estudos de Jin Ling acabassem ele poderia ser considerado Líder da Seita. Pelo menos dessa forma ele poderia ter um pouco mais de certeza de que aqueles velhos mentirosos não se aproveitariam da boa vontade de seu sobrinho por ser um bom líder.

E esse era um fardo que Jiang Cheng nunca quis que Jin Ling enfrentasse. Tão novo e mesmo assim já preso à posição de líder, preso a conselheiros que não podiam se importar com o que acontecia com a seita e só adoravam o dinheiro que entrava em seus bolsos. Jiang Cheng realmente tinha passado sua sina ao mais novo, tanto em personalidade quanto em destino…

Pelo menos o mestre Lan Qiren poderia preparar A-Ling para ser um líder… E Jiang Cheng estaria lá também se ele precisasse de ajuda. E até mesmo Lan Xichen.

Apesar de estar em reclusão desde a morte de Jin GuangYao, o Líder da Seita Lan havia se oferecido para ajudar Jin Ling caso fosse necessário. O sempre gentil Zewu-Jun. E embora fosse um tanto cruel aceitar essa ajuda — já que o Primeiro Jade passava por um momento tão difícil — Jiang Cheng se sentia grato.

Era por isso que suas memórias de Gusu o haviam contemplado enquanto dormia? Por sua gratidão?

Ou era…

Suspirando, o Líder de seita levantou-se. Ele provavelmente não dormiria mais naquela noite.

Lan Xichen o havia ensinado muito. Desde o momento que se conheceram Jiang Cheng nutria um grande respeito pelo mais velho. E depois de tudo o que aconteceu, a guerra contra os Wens, a destruição do Píer Lótus e o ataque aos Recessos da Nuvem, todos os problemas que se seguiram depois da morte de Wei Wuxian… Lan Xichen estivera com ele, como um porto seguro, uma luz no meio do escuro.

O quarto foi novamente iluminado por um relâmpago, e logo em seguida o estrondo do trovão o seguiu.

Jiang Cheng acendeu uma única vela e aproximou-se de algumas caixas meio escondias no canto direito do aposento. Elas estavam repletas de pó, já que nenhum servo tinha qualquer permissão para limpá-las. Jiang Cheng também nunca havia se incomodado, e na maioria das vezes ele esquecia de sua existência, muito mais ocupado com os problemas de um líder de seita do que com o conteúdo existente ali.

Lan Xichen esteve com ele em muitos momentos difíceis, porém havia muitas águas azedas entre eles agora. Talvez coisas ruins demais para serem consertadas.

Outro relâmpago.

Outro trovão.

Abrindo as caixas lentamente, Jiang Cheng conseguiu vislumbrar a forma empoeirada e um tanto abandonada do erhu. Esse não era o mesmo que Lan Xichen o havia dado nos Recessos da Nuvem, aquele havia queimado com o resto do Píer Lótus. Mesmo assim era um instrumento bonito, feito sob medida. Todo negro, feito de sândalo. Somente na base detalhes brancos pintavam a Qin tong, feita de pele de píton, formando um lótus.

Jiang Cheng sentou-se no chão com as pernas cruzadas e pôs-se a afinar o instrumento.

A última vez que o havia tocado Jin Ling ainda era pequeno, e o som calmo e contínuo das cordas do erhu acalmavam e entretinham muito a criança bagunceira, fazendo-o dormir rapidamente para que Jiang Cheng pudesse trabalhar. A-jie também adorava ouvi-lo. Quando ela visitava o Píer Lótus com Jin Ling, fazia questão de que Jiang Cheng tocasse ao menos uma música para ela.

Ele deveria ter tocado mais para ela, quantas vezes mais ela quisesse...

Depois de afinado, Jiang Cheng desencaixou o arco de bambu e arriscou algumas notas.

Ele estava fora de prática e o som saia meio indeciso, mas aquilo não era problema.

Entre o barulho de raios e trovões quem poderia ouví-lo?

Notas finais
E então, o que acharam? Shufu: pelo que entendi é algo entre tio por parte de pai e pai, já que foi Lan Qiren quem criou Xichen e Wnagji, caso eu esteja errada por favor me avisem! Pavão: apelido carinhoso que Jiang Cheng e Wei Ying dão a Jin Zixuan kkkkk Qin tong: parte octagonal na base do erhu. Só para esclarecer: Jiang Yanli e Jin Zixuan morrem nessa história, só não no mesmo momento que no canon. Eu queria que Jin Ling pudesse ao menos passar alguns anos com os pais. Vamos falar mais dessa parte nos próximos caps. Essa foi a música que ouvi enquanto escrevia. Não tem nada a ver com o erhu mas me inspirou bastante kkkkk: https://youtu.be/PuCr5zz5Xko
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.