A Luz dos Olhos Teus
12 Capítulo doze
Notas iniciais
Ray Charles: Good love gone bad
http://www.youtube.com/watch?v=ly6ch4Q0JCQ
*.* Amo essa música. Se falarem mal dela, vão apanhar. Sério.
Naruto recebeu o dinheiro do cliente e deixou-o ir embora sem sequer abrir a boca para retrucar as reclamações infundadas que o outro repetia. Estava satisfeito por receber, mesmo que o serviço tivesse sido feito \"porcamente\".
Enquanto a manhã tentava se decidir entre o frio e o calor (discussão que aparentemente duraria o dia inteiro), Naruto tentava por si só escolher qual humor usaria para mais um dia de trabalho. O bom humor aguentaria qualquer piada sem graça que tivesse que ouvir ou reclamações de clientes chatos como aquele. O mau humor, por sua vez, deixaria claro para quem quer que fosse, que ele não estava interessado em nenhum tipo de conversa.
Por mais que fosse raro acontecer, Naruto estava mais propenso à segunda opção. Tudo em volta dele sugeria que tinha que se proteger de qualquer influência, se quisesse ter pique para chegar ao fim do dia. Com sono e o corpo doído pela noite mal dormida, até a indecisão do clima parecia um presságio de que era melhor ele voltar para a casa e reconhecer que não era um bom momento. Mas ele não tinha essa opção. Tinha que continuar trabalhando, se algum dia quisesse se dar ao luxo de parar.
Às vezes queria ter a “sorte” de Konohamaru e uma herança confortável, para fazer o que quisesse por algum tempo. Não podia evitar uma pontada de agonia, sempre que ouvia o garoto reclamar de alguma coisa. Ele teria o que desejasse, se aprendesse a pedir ao Asuma.
“No que eu estou pensnado?”, reclamou consigo mesmo, ligando o carro para sair dali e voltar para o seu lado da cidade.
Como sempre acontecia, Naruto sentiu remorso ao pensar que Konohamaru era um garoto mimado. Dentro de tudo que o garoto já tinha passado, perdendo a maior parte da família num intervalo de um ano, não importava mais se ele dava valor às coisas que tinha. Konohamaru dava valor às pessoas que perdeu!
Naruto suspirou, lembrando-se do dia em que ele e Iruka assumiram a responsabilidade pelo garoto. Asuma estava completamente perdido, tentando lidar com a súbita rebeldia do sobrinho, enquanto formava a própria família com Kurenai e o filho. Ele também perdeu o pai e o irmão, em pouco tempo, e estava tentando lidar com isso à sua maneira. Mas Konohamaru e Asuma tinham \"tempos\" e jeitos diferentes de pensar e sentir as coisas.
A intenção era que Konohamaru ficasse com Iruka e Naruto por alguns meses, até que o filho de Asuma e Kurenai nascesse. Ashido nasceu, estava para completar dois anos e Konohamaru permanecia como um “hóspede definitivo”.
Àquela altura não tinha mais jeito. Com dezesseis anos, o garoto não aceitaria fazer o caminho inverso da maioria dos adolescentes da sua idade, e simplesmente voltar para a casa da família. Ele tinha uma nova família agora, com um irmão mais velho e um pai. Naruto esperava que Konohamaru não precisasse de mais nada. Pois eles não tinham condição de dar mais do que aquilo.
“Irmão mais velho...”, aquela expressão ainda soava estranha, mas permitiu que um vislumbre de bom humor surgisse em seu rosto.
Tão rápido que se desfez no primeiro farol que Naruto encontrou.
*
- Com licença... – Neji bateu na porta da sala de Hiashi e abriu devagar, sem esperar permissão. – Mandou me chamar?
- Mandei. – Hiashi respondeu, sem levantar os olhos para ele.
O homem estava com a atenção voltada para os papéis em cima da mesa e para a tela de computador ao lado. Sua expressão séria quase nunca era desfeita e era intensificada pelos óculos que usava para ler.
- Só um instante. – Hiashi falou, levantando-se e indo até a porta com alguns dos papéis.
Neji não ousou se mexer. A convivência com o tio lhe ensinara mais do que ele se propôs a aprender. Ficar quieto esperando que Hiashi falasse primeiro, na maior parte das vezes era a melhor forma de ser ouvido depois. Não fazia idéia de porquê foi chamado ali. Só esperava que não fosse mais uma daquelas conversas que terminavam com os dois discutindo e passando mais algumas semanas evitando se falarem. Não que o problema fosse perder o contato com o tio, mas Neji não gostava de discutir com quem não sabia ouvir outras formas de pensar.
Não precisou esperar muito para ter a atenção do Hyuuga. Logo, o homem voltou para a sua mesa, sem os papéis e com os óculos de leitura em mãos.
- Eu espero não estar interrompendo nada…
- Não senhor.
- Eu chamei você aqui para pedir um favor. – Hiashi fez uma pausa, durante a qual interpretou o silêncio do sobrinho e seu olhar questionador como um consentimento para prosseguir. – Você sabe que a sua prima Hinata está cursando administração...
- Eu sei. – Neji cortou, intuindo para onde aquela conversa levaria.
- Eu estava esperando que ela se interessasse pelo nosso negócio, mas não acho que esse seja o caso. Ela até agora não se esforçou para ir atrás de um estágio ou um emprego fixo. Mas eu acho que já está na hora dela encontrar um rumo para sua vida.
- E no que eu posso ajudar?
- Hinata é próxima de você e com certeza está mais propícia a ouvir o que você tiver a dizer do que se eu tentasse alguma coisa. Então se puder ajudá-la a encontrar um emprego ou algo para fazer, eu…
- Eu entendi, tio. – Neji não estava surpreso. Hiashi e Hinata eram parecidos em um ponto. Sempre que precisavam conversar entre eles, recorriam a um intermediário. – Eu vou dar um jeito nisso.
- Tem mais uma coisa. – Hiashi falou, voltando a colocar os óculos. Um sinal claro de que voltaria à sua atividade logo. – Não diga a ela que eu te pedi isso.
Mais uma vez, Neji não ficou surpreso, nem esboçou nenhuma reação de desaprovação ao modo como o tio levava os assuntos familiares.
- Como quiser. – Garantiu, levantando-se. – Posso ir?
- Pode.
Hiashi já estava com os olhos no computador, quando dispensou Neji. Porém, assim que ele saiu, o homem desviou a atenção para a porta que se fechava. Instintivamente, sabia o que Neji pensava sobre aquilo tudo. No entanto, o rapaz era o caminho mais fácil e rápido para alcançar sua filha.
*
A manhã já havia acabado e o dia se preparava para a tarde fria que estava para chegar.
Naruto continuava com aquela sensação estranha. Sua mente estava cheia de lembranças que ele tentava evitar e negava para si mesmo que elas estavam querendo atormentá-lo. Enquanto as rejeitava, tentava pensar em outras coisas, ouvir música... Mas mesmo isso não estava funcionando. Era ela de novo. Aqueles olhos que ele estava acostumado a fitar, a boca que ele nunca foi o único a beijar e aquele coração que por muito tempo ele pensou ser o dono. Não podia acreditar que ainda pensava em Shyon daquela maneira. Como podia ainda se entregar àquelas lembranças?
Aquilo o incomodava de um modo que ele não conseguia entender. Quanto mais fugia da imagem de Shyon, mas pensava nela e mais se odiava. Sua expressão começava a refletir aquele sentimento que o cegava e já não se achava capaz de fingir casualidade com qualquer cliente que fosse.
Um medo incerto invadiu-o de assalto. Ao mesmo tempo uma certeza indescritível. Naruto sabia que Shyon estava por perto, de alguma forma. Sabia que cedo ou tarde a encontraria em algum lugar. E ele não queria isso. Só havia uma escolha sensata para aquela situação. Voltaria para casa. Já havia passado tempo demais tentando se convencer de que as coisas melhorariam.
Entrou com o carro no primeiro retorno que encontrou, decidido a voltar para casa. Pareceria patético para qualquer um na situação dele, correr atrás de uma fortaleza, para não encontrar com uma mulher. Mas ele sabia que seria perdoado por aquele deslize. Shyon não era qualquer mulher.
*
Hinata atendeu ao celular sentindo o coração disparar ao ver o nome de Neji na tela. Com seu melhor sorriso sendo disperdilçado por ele não estar ali para vê-lo, Hinata cumprimentou-o tentando controlar os sentimentos loucos que sempre a pegavam despreparada quando falava ou estava com ele.
- Vai fazer alguma coisa na hora do almoço?
- Só se você me convidar... — Sorriu, ansiosa para que Neji fizesse aquilo.
- Tudo bem. Então eu vou te buscar daqui a pouco... Preciso falar com você.
- Sobre o quê?
- Vou te fazer uma proposta... Mas deixe isso para depois. — Hinata tinha quase certeza que Neji estava sorrindo enquanto falava com ela. — Eu estou um pouco ocupado agora. Mas... Nós conversamos mais tarde, certo?
- Certo. Vou esperar por você.
Ao desligar o telefone, Hinata precisou de alguns minutos para que o coração parasse de comemorar por algo que não existia. Há muito tempo ela tentava conter sua imaginação, para que ela não fosse mais longe do que era permitido. Mesmo assim, não conseguia evitar. Neji era tudo em que ela conseguia pensar e tudo o que Hinata queria. Deixar sua imaginação criar ilusões independia de sua vontade. Era inevitável. Automático.
Um preço a pagar pela atenção de um homem como Neji.
De todos os tipos de relação que poderia uni-los, tinham que ser primos?
*
Naruto chegou em casa, jogando o chaveiro na mesa da cozinha. Foi direto para o banheiro, jogar água gelada no rosto e fazer uma última tentativa de esquecer aquele rosto. No entanto, assim que encontrou o próprio olhar no espelho, não conseguiu ver nada de que gostasse. Apenas um homem apavorado pelo fantasma de uma mulher... Não era ridícula aquela situação? Esconder-se, envergonhar-se, mentir para si mesmo, fingir para alguém que não estava lá para julgá-lo...
Obrigou-se a continuar encarando os próprios olhos azuis, pelo espelho, até que se reconhecesse neles. No entanto, não houve tempo para isso. Assim que fitou sua imagem, a campainha do apartamento tocou, despertando-o do torpor.
Enxugou o rosto com a toalha que havia ao lado do espelho e voltou sem pressa para a sala, mas soltou um \"já vai\" para quem quer que estivesse ali.
Precisou de alguns segundos para acreditar que era ela mesma e que aquela sensação estava certa. Shyon estava parada diante dele, tão bonita quanto da última vez que a vira, pelas costas. O cabelo loiro e comprido, preso num rabo de cabalo simples e não havia nenhum traço de maquiagem no seu rosto, o que era incomum.
Não disse uma única palavra, custando a aceitar que não estivesse sonhando.
- Oi... — Shyon obrigou-se a dizer e ele não teve outra opção se não acreditar que ela era real. — Eu precisava te ver.
Depois de um segundo ou dois sem saber o que dizer, Naruto se sentia fraco para repudiá-la. E fraco para acolhê-la.
- Por quê? Pensei que nunca mais veria você. E eu já estava acostumado com essa idéia.
- Eu não sei porque... Eu apenas...
Naruto sabia que o certo era mandá-la embora, de volta para o marido. Mas a ligação que acabava de descobrir que ainda mantinha com ela, o impediu de fazer coisas racionais. Abriu mais a porta para que ela entrasse e ficou apenas fitando-a, esperando por algo que nem sabia ao certo o que era.
- Eu sinto a sua falta.
- O seu marido deve sentir a sua também. — Falou bruscamente, sem querer realmente dizer aquilo. Não conseguia tirar os olhos dela, ao mesmo tempo que tentava se manter longe.
Fazia pouco mais de um mês que a relação entre eles tinha acabado, com um ponto final tão repentino quanto o começo. Era uma paixão que enlouquecia os dois e os cegavam para o certo e o errado.
Shyon ainda tinha aqueles olhos tristes. Cheios de um desejo insano de liberdade. Que chamavam Naruto para dentro deles, que o pediam para que a salvasse e levasse com ele para onde fosse... E ele não conseguia resistir àquele chamado. Gostava de como se sentia forte e invulnerável por poder salvá-la como ela queria. Gostava de ser a única opção ou a melhor delas. Gostava de Shyon porque ela acreditava que somente ele era capaz de causar aquelas sensações nela. Era a fraquesa dela... A fragilidade...
- Eu deveria saber que não dava para ficar longe de você... — Shyon falou, aproximando-se dele.
O perfume que ela usava Naruto conhecia muito bem. Tragava os sentidos, dava liberdade aos impulsos... Ou isso era o efeito daquela mulher?
Fosse o que fosse, Naruto estava com a mente exausta para questionamento e seu corpo sentia saudades de um toque mais íntimo...
- Eu nunca deveria ter me aproximado de você... — Falou, com a voz mais baixa e calma.
Shyon passou a mão pelo rosto dele, buscando o olhar que ele evitava. Mas Naruto não repelia o toque.
- Eu am...
Naruto não deixou que ela terminasse a frase. Sabia o que ela ia dizer, mas não queria ouvir. Juras de amor não combinavam com eles. Aproximou-se rápido para um beijo, que combinava vontade com uma promessa de que eles não precisavam de palavras. O que acontecia ali, era outra coisa. Sórdida e mesquinha.
Notas finais
Mesmo assim, eu aceito críticas ruins... U_u'
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