A Luz do Palhaço

1 A Garota Brilhante


Senhoras e senhores.— Uma voz proclamava nos holofotes.
Está chegando o final do espetáculo.
Mas não acabou...
Porque agora vocês vão ver nossa estrela principal...
A razão de terem vindo aqui,
uma salva de palmas,
e contemplem,

Balio, o palhaço!! — Após tais palavras serem proferidas, não havia nada sendo ouvido no momento além da repetição unanime de gritos dizendo “Balio! Balio! Balio!”. As mais de mil pessoas do evento estavam gritando de maneira ensurdecedora.

Gritando por quem, você pergunta?
Ele mesmo.
Eu, Balio.

O circo, colorido e visualmente simpático, combinava com a alegria do palhaço Balio ao subir por um elevador até o centro do palco rodeado por ondas e mais ondas de fumaça colorida. Todavia, a alegria do palhaço Balio contrastava com o desanimo do real Balio dentro daquela fantasia. Ou seja, eu.

Quando chego, de alguma forma, o povo ascende os limites das cordas vocais e grita ainda mais intensamente que dá vez anterior. Agora que a fumaça foi embora, posso testemunhar o mesmo cenário que vejo quase todo dia: Um circo colossal; Paredes pintadas de listras de vermelho e azul atrás das cadeiras com o mesmo esquema, umas pintadas de vermelho e outras pintadas de azul. E, novamente, não conseguir contar nenhum lugar vazio. Outra vez lotado. Abaixo de meus pés, um enorme palco branco com círculos também vermelhos e azuis. E acima de mim luzes extremamente intensas cobrindo até o ultimo centímetro do lugar, e ainda a lâmpada especifica que cobre minha cabeça está quebrada. Que irritante.

Eu estico meu braço direito paro alto, vibrando meu corpo enquanto olho para o público. Toda a parte direita do palco é coberta de lindas explosões acompanhadas de minha mão. Em seguida, faço o mesmo com meu braço esquerdo. As mesmas explosões acontecem na parte esquerda do palco. Nisso, o povo vai à loucura.

Não suficiente, dou um giro e levanto meus dois braços para a parte frontal do palco, afim de realizar a explosão final.
(...)
Nada acontece. O povo fica em confusão.
Tento de novo levantar minha mão. Nada acontece. A multidão começa a ficar preocupada. Após isso, eu tento checar a parte do chão que não estava lançando explosões, olhando um pouco de perto.

Boom.

A explosão me acerta e eu caio do palco por causa do impulso.

— I-isso não estava no roteiro! – O circo chora de rir.

Isso estava no roteiro.

O público se enche de risadas com minha bunda pegando fogo artificial e eu correndo desesperadamente pelo palco. Que divertido.

O show continuou por mais uma hora.

(...)

Huff.

Este é meu dia a dia. Eu sou um palhaço sorridente quase toda hora. Eu sou um feliz e divertido bobão que faz a alegria da meninada e que manifesta multidões. Pra tudo que eu sirvo agora é rir.

Isso... não é tão bom quanto eu pensava.

Não consigo mais me enxergar como alguém sério na sociedade. Não estou fazendo isso por escolha própria, é apenas o que eu preciso fazer. A minha família é dona dessa grande empresa de circos, a Kiki. Kiki significa “Crise”, e leva este nome pela sua criação. Lançada em 2020, estava no ápice da grande crise brasileira onde nenhuma nova empresa podia sequer pensar em ter alguma chance no mercado nacional, mas de alguma maneira os Circos Kiki alavancaram o país totalmente. Blablabla de makerting. Então eles vêm a cerca de 10 anos se tornando uma das maiores empresas do mundo, tendo filiais em todo tipo de lugar do planeta.

Eu venho, forçado pelo meu pai – homem extremamente experiente no ramo circense – desde a minha infância, treinado para ser um palhaço. Na verdade, eu teorizo que até o meu nome, Balio, foi feito só pra ser um nome de palhaço. Acho que todo esse esforço funcionou, afinal, todos meu chamam de prodígio e sou elogiado pelos maiores astros da cultura circense. Eu gostava muito de fazer isso, eu ficava feliz em fazer isso, em deixar as pessoas alegres fazendo besteira e tal..., mas isso me degastou por dentro, me fez parar de me enxergar como alguém sério ou digno.

Tudo o que eu via em mim quando olhava para o espelho era Balio, o homem com uma grande peruca ruiva lisa, roupas largas todas listradas e pintadas de cores chamativas combinando com o medonho sapato quatro vezes maior que meu pé. O rosto lotado de maquiagem colorida, especialmente aquela realçando meu sorriso. Meu grande sorriso falso. Tudo aquilo era falso. Tudo me derretia por dentro.

Não sou esse Balio. Eu sou Balio, jovem pálido de 1,72 metros. Cabelo castanho curto, liso e bagunçado, de terno e calça jeans na maioria do tempo. um rosto sem graça lotado de olheiras e uma boca sempre pra baixo. Um olhar vazio, mas um olhar verdadeiro. Quero sair de toda essa palhaçada(Haha!) circense e me tornar o que sempre quis: um poeta.

Depois do espetáculo, fui morto de suor e fadiga, para o camarim. Tirei minha peruca ruiva, nariz de palhaço, e toda essa fantasia em geral. Lá estavam meus amigos e companheiros de trabalho, tão cansados quanto eu.

Mesmo o show tendo acabado, vejo um dos membros do espetáculo se enfeitando na frente do espelho. Era óbvio quem era. Conheçam Luna Valuna, a luxúria em pessoa. Ela é uma jovem, um pouco mais velha que eu, com 1,69 de altura. Sua boca enorme sempre sorrindo e olhos fechado evidenciam a felicidade recorrente no seu rosto branco, ou pelo menos acho que é branco, porque é difícil perceber com os cinco quilos de maquiagem –predominantemente rosa – que ela coloca na cara. Seu cabelo também exala o mesmo ar de felicidade; Aquela juba enorme meio encaracolada e lisa da cor de vinho lotada de brilhos que deixam seu cabelo tão dourados que parecem loiros. Ela quase sempre está usando essas botas da mesma cor de vinho e meia-calça branca. Com um vermelho mais claro, está usando um vestido extremamente curto com mangas largas. A bota e o vestido também estão cobertos de brilhos. Mais brilhante ainda são seu monte de joias: anéis cobrindo todos os dedos(e não, ela não é casada), brincos e colar no formato de estrela. Ela é um brilho em pessoa, em personalidade e aparência. E não posso esquecer da coisa mais aparente no seu perfil, ela tem um busto absurdamente monstruoso. Sério, são muito grandes. Eu não estou sendo pervertido nem nada, eu tenho é medo disso.

Luna é minha melhor amiga, a pessoa que mais tem me dado apoio nos últimos 5 anos de circo que venho trabalhando, então sou a pessoa que mais conhece ela na vida. Por fora, ela pode parecer apenas uma menina extremamente feliz e simpática. De fato, ela é! Além disso, ela é vaidosa, adora se mostrar, fica cuidando do próprio corpo o tempo inteiro e adora também falar com todo mundo e participar de tudo. Acho que é um dos motivos dela ser a acrobata do grupo, ela faz uns ângulos que meu deus. Sim, ela é tudo isso, e isso é tudo que sabem dela por fora, mas eu sei o que ela é por dentro... ela é uma maldita duma pervertida. O maior segredo dela é seu livro predileto, o kama sutra que ela carrega pra todo lado. Isso mesmo, aquele livro de posições sexuais zoadas. Apesar de não ser o único livro sobre sexo que ela lê. Ela tem dezenas desse tipo guardados na sua casa. Luna é a maior experiente sexual que eu já vi, e olha que ela é virgem. Maldita pervertida.

A seguir, vejo, apressado para sair logo do local, um homem moreno e alto. Este mais adulto que eu e a Luna. De cabelos cacheados até o fim do pescoço com um grande, brilhante, e estiloso terno preto e camisa branca. Porém, tudo disfarçado por uma extensa chamativa capa vermelha que cobre 5/6 do seu corpo. Tudo isto embaixo de uma ampla cartola preta com listra vermelha.

Seus grandes olhos, que cobrem quase o rosto inteiro, comumente preocupados e nervosos, estavam correndo pra lá e pra cá para conseguir arrumar sua mala depressa para sair. A sua boca tremida também não sossegava. Esse aí é o Solo, mas... é, não posso dizer muita coisa sobre ele. Ninguém pode. Ninguém aparentemente conhece ele. Ele apenas é um rapaz nervoso e misterioso que evita socializar com qualquer um.

Quer dizer, Solo não é de todo ruim, sabe. Pelo contrário. Tipo, muito pelo contrário. Ele é provavelmente o profissional mais profissional que existe. Vocês já viram o currículo dele? Pois é, eu vi. É amedrontador. Cinco páginas e meia. Solo trabalha como o mágico do circo, e os talentos dele são absurdos. O cara tem umas cinco faculdades e uns dez cursos, tudo em coisas relacionadas ao entretenimento, magica, circo, e essas coisas. Infelizmente, como eu disse, ele é uma pessoa muito misteriosa e apenas não fala com ninguém. Tudo que conhecemos é o perfil externo dele e seus atributos facultativos. E lá vai ele, todo nervoso sem dizer por quê. E mesmo se perguntarmos, ele evita conversar e foge do assunto.

Estes foram os membros do circo que estavam aqui. Contando comigo, modéstia a parte, acho que são esses três gênios que fazem o circo ser tão famoso: Luna – a acrobata pervertida, Solo – o mágico misterioso, e eu, Balio – o palhaço entediado.

Huff.

Eu tenho uma vida boa demais pra não conseguir aproveitar ela direito.

(...)

Finalmente saindo do circo, quase onze horas da noite, depois de ter me arrumado todo e feito as coisas pendentes, percebo a neve cair em meu ombro. Olho para cima e vejo a majestosidade do céu congelando e caindo no meu rosto. O frio estava agradável. Não senti vontade de por qualquer tipo de guarda-chuva para me proteger da neve.

Um pouco escondida pela semelhança entre o branco do corpo e branco da neve, avisto uma pequena jovem conversando com um dos porteiros do circo.

— Por quêêê!? – a moça grita, triste. Eu caminho em direção a ela e consigo observar melhor seu perfil.

Uma mulher magra e extremamente baixinha, provavelmente entre 1.50 a 1.59, e que também não parece ter mais de 20 anos. Seu cabelo loiro absurdamente claro, quase branco, é curto e espalhado nas pontas – provavelmente mal penteado. E é notável duas mechas do cabelo escapando em seus olhos. Na sua cabeça redonda, os olhos são marcantes – largos e muito achatados; como se fossem olhos asiáticos, mas são ocidentais. As frágeis e vermelhas orelhas me dão dó por não estar cobertas neste frio. A fragilidade continua em seu nariz. Por outro lado, sua boca é enorme e corresponde a metade da cabeça, tão larga que não mostra bochecha quase nenhuma, apesar dela ter. É como se ela estivesse destinada a manter um sorriso na cara sempre. Pena que neste momento não pude presenciar isto.

Combinando com o cabelo, todas as peças do seu corpo seguem um padrão dourado: o cachecol, o casaco, a pequena saia, meia calça, luvas e botas. Era como se eu estivesse olhando pra ouro puro. Um lindo baú de ouro.

— Como assim os ingressos já acabaram? – a moça indagou, mordendo os lábios, tremendo – O show é só amanhã à noite!
— Desculpe senhora – o porteiro respondeu – não posso controlar o público.
— E-eu sei... eu entendo... é que... argh. – O olho dela começou a lacrimejar – eu me esforcei tanto pra isso... Eu juntei dinheiro por praticamente um mês pra conseguir pagar isto, e eu vim de tão longe pra cá... eu... eu realmente estava animada para esse espetáculo.

Depois disso, o porteiro ficou friamente calado. Ela se foi, com alguns resquícios de lagrimas em seus olhos. Mas andava tão devagar e com a corcunda tão torta que dava pra sentir a infelicidade da jovem de longe. Não era qualquer coisa, ela ficou tanto tempo esperando por isso e mesmo assim não aconteceu. Não sabia se ela andava com frequência devagar pela neve grudando nos pés dela ou por opção própria.

Se eu podia ajudar?
Ah...

Eu realmente não me importo com essas coisas mais, as pessoas se decepcionam constantemente, é parte da vida. Não existe felicidade se não existir tristeza. Ela vai superar.

A mulher brilhante estava atravessando a rua, olhando apenas para baixo constantemente, não acho que pensava em qualquer coisa além da decepção que tivera. Quando menos percebia, vindo da névoa escura, aparece um carro em direção à menina, que não está animada o suficiente pra notar o que estava acontecendo à sua volta.

Ah não.
Huff.

Eu fiz o clichê.

Instantemente, larguei minha mala e corri em direção à menina. Correndo como nunca corri antes, fui rápido o suficiente para poder segurá-la e cair com ela do outro lado da rua, quase sendo atropelado por questões de segundo. Senti a pressão do carro passando na minha nuca. Caímos duramente no chão enquanto eu estava abraçado com ela. Ela finalmente notou alguma coisa e viu o que estava acontecendo. O rosto da moça ficou mais pálido do que já era, seus olhos achatados expandiram um pouco e sua boca fazia curvas de medo. Ela tremia constantemente enquanto suspirava forte. Eu a perguntei então:

— Você está bem? – sem respostas.

Passou uns segundos e ela começou a me abraçar forte no chão e chorar, fazendo um sinal de sim com a cabeça.

A-ah. Uau. Estou mais confortável com esse momento do que devia.

Voluntariamente, eu saí do piso e levantei a jovem comigo. Ela havia se acalmado e o olhar dela está mais aconchegado do que antes. Fico feliz. Ela ficou um tempo sem falar nada. Acho que não sabia o que dizer. Eu tomei iniciativa a falar e contrariei meus pensamentos anteriores depois de ver de perto o rosto da menina.

— Você... quer ir pro circo, não quer? – seus olhos seguiram em direção à minha cara, em interesse.
— S-sim! – a voz ofegante e fofa dela finalmente se referiu a mim, com determinação.
— Tome. – Eu peguei algo do bolso e estendi minha mão em direção à garota brilhante.

Um cenário nublado, escuro e nevando. No meio do nada, onde não se avista ninguém nem coisa nenhuma, ao vento gelado machucando minha cara, um jovem de terno distende seu braço para entregar um papel a uma linda jovem do seu lado, antes assustada, mas que agora tem seus olhos cheios de brilho com a esperança que lhe dei. Em meio ao escuro, um poste que anteriormente estava apagado, se acendeu, iluminando o meio entre nós dois. Por algum motivo, esse cenário me pareceu um tanto confortável...

O rosto dela se abriu, a boca se divergiu de triste para alegre em instante. À medida que o sorriso dela aparecia, as bochechas cobriam seus olhos brilhantes e os deixavam menores ainda. A razão daquele sorriso provavelmente é que o que eu entregava pra ela era um ticket para o circo de amanhã à noite, um que eu comprara para alguns colegas, mas que preferi gastar com uma moça aleatória que conheci na rua.

Valeu a pena.

Eu nunca fiquei tão feliz com um rosto sorrindo. Ela me agradece e vai embora. Contrastando com a maneira que ia embora antes, agora andava entusiasmada. Olho a brilhante jovem contente até esvaecer na névoa

Sinto que fiz algo bom.

Huff.

Será que hoje... eu consigo dormir bem?

(...)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.