A Lua e a Rua
1 "Moon Over Bourbon Street" - Sting.
Noite.
A lua desponta magnífica.
Deixo minha casa e, assim que a vejo no céu, eu a saúdo.
A lua. Minha eterna companheira.
Ela é como eu. Pálida, caminha pela escuridão, noite após noite. Ela brilha, mas não tem luz própria. Apenas reflete o brilho alheio. Sua luz não vem de dentro para fora; mas sim, de fora para dentro.
Exatamente como acontece comigo.
A noite e as trevas são minhas conhecidas. Caminho por entre elas com a segurança e a confiança que poucos possuem. Sinto-me em casa quando me vejo envolto por elas. Entretanto, não é a escuridão que eu procuro quando deixo meu leito, sempre que desperto deste sono sem fim.
Estou cansado das trevas.
Eu busco por luz.
A luz, no entanto, não foi feita para mim. Um dia, talvez, tenha sido. Um dia, já muito distante... Tão distante que quase consigo me esquecer da sensação.
Calor. O abraço da luz, envolver-me em claridade...
Queria sentir, mergulhar nessa sensação.
Mas é impossível.
Eu não sentia mais falta. O tempo passa e consegue levar, a cada densa badalada, um pouco do que somos até que resta apenas alguém desconhecido de quem se foi algum dia.
Eu me contentava com a artificialidade.
As luzes da rua Bourbon eram o bastante; elas conseguiam sempre me saciar.
Mesmo sendo frias, elas eram suficientes.
As luzes da rua Bourbon não são capazes de acalentar. Mas eu não buscava por isso.
Eu tinha sede. Era movido por instintos. Não esperava por mais. Não ansiava mais.
Até aquele dia, aquele maldito dia.
Ela apareceu como uma visão etérea, inefável. Tão delicada, caminhava sobre a calçada daquela rua como se pousasse suavemente em pequenas nuvens.
Ela tinha brilho. Luz própria.
Minha escuridão foi absorvida inteiramente por aquela luz. Não consegui escapar; meus olhos não puderam fugir daquela imagem, que me pareceu um sonho.
Porém, não era um sonho.
Não poderia ser. Eu não sou mais capaz de sonhar.
Ela era um ser de luz. E, como ser diáfano, não me poderia ser real.
E, de fato, ela não era. Não para mim.
Foi em uma noite como tantas outras. Eu saí de casa. A sede rugia dentro do meu ser.
Sede de vida, literalmente.
A rua Bourbon é agitada, sempre cheia de vida. Mas não era esse o tipo de vida que eu buscava.
Encostado à parede de um clube noturno, observava a movimentação.
É meu ponto estratégico. De lá, sou capaz de ver a todos, mas acabo sendo visto por poucos, e apenas quando desejo me mostrar.
As trevas são minhas amigas.
Eu tinha um alvo típico. Não costumava mudar... Em primeiro lugar, porque daria muito trabalho. E, em segundo... Porque, no fundo, eu sempre gostei desse alvo específico.
Mulheres.
Mulheres jovens.
Frágeis, doces. Quanto mais doces, melhor.
Jovens, cheias de esperança, cheias de sonhos, cheias de expectativas.
Cheias de vida.
Vida que eu sentia pulsar em mim, uma vez mais, quando estava com elas.
Era apenas por uma noite. Não precisava de mais do que isso.
Minha sede de vida é saciada muito rápido. Não, eu não me ocupo de preliminares. O tempo também carregou isso de mim. Paciência, curiosamente, não é algo que eu tenha guardado. Não me falta tempo para qualquer coisa, isso é uma verdade. Contudo, falta-me o prazer. E, sem prazer, não me interessa demorar-me naquilo que passou a ter somente uma finalidade prática, objetiva, meramente instintiva.
Era horrível. No fundo, eu sabia. Eu estava me perdendo de mim mesmo. Estava me transformando em algo terrível.
O que ainda me diferenciava de um animal irracional?
Nos primeiros anos, eu sentia um imenso prazer. Prazer e culpa. Mesclavam-se, equilibravam-se. Era inebriante. O desejo, o domínio, a sensação de posse.
Era como se eu possuísse o dom da vida e da morte.
Nos tempos antigos, eu me demorava ao máximo com uma única mulher. Passava a noite inteira apenas com uma só. Queria sorver de sua vida até não poder mais. A mulher sempre ria, divertia-se. Brindava sua juventude comigo. Eu sabia cativar. Sabia dar prazer, sabia como fazê-la querer estar comigo, sabia como fazê-la dizer que me queria para a eternidade.
E para a eternidade todas elas ficaram comigo.
Sim, a culpa existia. Persistia. Contudo, nunca era o bastante para me fazer parar.
Aliás, eu não poderia parar, nem mesmo que quisesse.
Ou poderia...?
Não importa. O fato é que nunca mudei. Predador, meu faro sempre aguçado me levava a um número cada vez maior de presas por noite.
Uma só já não era o bastante. O prazer de dominar, de decidir, de ter uma vida tão singela em minhas mãos... Isso não poderia mais ocorrer somente uma vez a cada noite. Não era suficiente.
A sede crescia. O vazio aumentava.
Não havia mais tempo a perder com risos, galanteios. O charme ainda se fazia necessário porque era a isca. Eu rondava, seduzia. Precisava atraí-las. No entanto, uma vez encantadas por mim, eu abandonava o cavalheirismo, os modos afetados, o sorriso de canto. A partir de então, eu me tornava fera, nada mais que isso.
O prazer tinha morrido. E eu já tinha desistido de buscar vida, qualquer que fosse ela.
Até a noite em que eu a vi pela primeira vez.
Maldita noite!
Abençoada noite...
Ela estava vestida de azul. Azul como aqueles olhos, tão doces, tão meigos. Olhos que transmitiam pureza, olhos que falavam sobre a ingenuidade de uma vida ainda em seu início.
Jovem, frágil.
Feita de sonhos.
Delicada, suave, parecia pronta para se desfazer em nuvens.
E eu, que nunca mais conseguira adormecer profundamente, que não era mais capaz de sentir o repouso dar a meu corpo aquilo de que eu mais precisava... Eu me vi, subitamente, dono de uma sensação tão distinta, tão nova e, ao mesmo tempo, tão antiga...
Meu coração bateu mais forte.
Eu ainda tinha um coração?
Algo dentro de mim mexeu comigo; de dentro para fora.
Havia tempo, muito tempo, que eu não sabia despertar o que fosse dentro de mim.
Qualquer tipo de sensação, mesmo que apenas falsa, ilusória e corriqueira, eu arrancava de fora, do mundo que me cercava, na procura insana por trazer algo para dentro de mim.
Na busca desesperada por sentir; sentir o que fosse, simplesmente sentir.
Dentro de mim só havia vazio.
Mas, súbito assim... não mais.
O que era; isso eu ainda não sabia. Mas algo começava a despontar em algum recôndito do meu ser. Parecia uma centelha que começava a queimar.
Calor. Eu já havia me esquecido. Mas a sensação regressava. Aos poucos.
E então eu descobri que nunca tinha me esquecido de fato.
O sentimento esteve sempre ali, apenas adormecido.
Ela era a causadora.
Não sei como chamar o que passava a sentir.
Sei tão somente que precisava vê-la. O desejo era diferente. Eu não queria tomar a vida dela para mim. Queria apenas... vê-la. Estar na sua presença.
Aquele brilho ofuscava. Havia muita luz em torno dela. A noite parecia voltar a ser dia, pela sua simples presença.
Eu tinha me esquecido de como era o dia.
Afinal, minha vida agora era feita apenas de noite. Eu não era mais talhado para a manhã. Não fazia parte de mim. A luz se tornara minha inimiga.
Inimiga, porém tão almejada...
Ela era a luz que eu buscava, sem saber que a procurava. Ela era o sentido que preenchia o vazio que eu sentia, mas nunca compreendia. Ela era a vida que passou a existir na minha tão presente morte.
Tudo isso, sem que ela nem ao menos imaginasse o que se passava.
Todas as noites, ela passava por aquela calçada.
Eu notava sua agitação. Ela sorria, animada. Parecia querer conhecer aquele mundo.
Mas aquele mundo não poderia pertencer a ela, nem ela a ele.
Entretanto, apesar da notável curiosidade, ela nunca parava. Jamais entrou em algum dos clubes de jazz. Passava direto. Era parte de alguma trajetória rotineira que ela tinha de fazer, antes de ir para casa; nada mais que isso
Por um tempo, eu me detive analisando sua figura, ao longe. Pelas roupas finas, a jovem vinha de boa e tradicional família. Dinheiro não parecia ser problema para ela.
Por que ela caminhava por lá, naquele local, àquela hora?
O que ela procurava?
Porque, depois de um tempo, eu percebi que também ela buscava algo.
Provavelmente, nem ela sabia o quê.
Vagávamos assim, os dois, errantes, mas juntos, porém sem nunca nos encontrarmos.
Ela nunca ouviu meus passos.
Ela nunca viu minha sombra.
Eu jamais me aproximei o bastante.
Tinha medo. Fazia muito tempo que eu não era capaz de controlar meus instintos. E eu precisava me refrear. Eu não queria. Não com ela...
Todavia, embora nunca tivesse me visto, passei a desconfiar que ela me sentisse. De algum modo, ela parecia perceber minha presença. Eu a seguia pelas sombras, sempre me esquivando do doce e puro olhar. Fugindo e, ao mesmo tempo, buscando.
Seus passos leves não eram mais tão ligeiros. Ela hesitava. Nunca olhou para trás, mas seu andar revelava; ela estava à espreita, tanto quanto eu.
Por muitas vezes, após segui-la até sua casa, eu me coloquei abaixo de sua janela. Por incontáveis horas, senti desejos avassaladores, que quase não se puderam controlar.
Mas eu sempre me controlei. Com ela, simplesmente, eu aprendi a me controlar.
Recordo-me vagamente de quem um dia fui. Eu fui bom. Sim, eu fui. Não é uma fantasia criada por minha mente perturbada, a fim de buscar alívio e misericórdia.
Em um passado longínquo, eu fui um homem com bons sentimentos. Eu era puro. E sonhava.
Eu tive uma vida.
Como pude cair tanto?
Como pude me deixar aprisionar por esta vida?
Como cheguei até aqui, a esta condição tão miserável...?
Droga.
Não posso me perder em devaneios.
Eu já devia ter partido.
Recostado à parede da esquina, em frente à sua casa, eu me demorei mais que o costumeiro.
Sua luz me puxa, me atrai de modo tão irresistível, que eu me perco do que sou, do que devo ser.
E eu me esqueci de partir.
Então ela me viu.
Não sei exatamente quando, mas ela me viu.
Agora ela vem até mim.
Ela caminha devagar, temerosa.
Mas não interrompe a trajetória.
Eu abaixo o rosto, puxo a aba de meu chapéu para baixo.
Quero ocultar meus olhos.
Não quero que ela enxergue através deles.
Ela não pode conhecer meu lado ferino.
Seria devastador.
— Olá! – sua voz é tão terna e cálida como toda a sua presença.
O chapéu oculta meu rosto apenas parcialmente:
— Olá. – respondo secamente.
Ela parece sentir a aspereza da minha voz. Por que tão delicada? É possível feri-la tão facilmente. É possível destruir sua pureza e ingenuidade em um piscar de olhos. É possível acabar com tudo em menos de um segundo...
É isso que eu faço. Eu destruo. O que não sou, o que não posso ter, eu destruo. Despedaço. Destruo o que mais amo. Destruo porque amo. Até não restar mais nada.
Resquícios de mim. Partes de um profundo egoísmo que, quando eu era bom, sequer imaginava existir em mim assim tão forte. Mas é o que restou. É o que hoje sou.
Eu gostaria de poder dar um fim a isso. Ela é tudo o que me atrai, pois é tudo o que nunca mais poderei ser.
A simples presença dela me mortifica. Por que tão perfeitamente doce?
Ela nada diz. Ela só sente, tão suave é sua pessoa, que tudo ao seu redor vibra em harmonia com seu corpo pequeno e frágil. Eu sofro, sinto uma dor antes oculta e esquecida.
Ela sente junto comigo.
— Por quê? – ela finalmente pergunta.
Permaneço em silêncio, náufrago dos meus próprios devaneios.
Ela ousa. Leva a mão acetinada ao meu chapéu e, sem minha permissão, levanta sua aba o suficiente para olhar em meus olhos.
Profundamente.
Perdidamente.
Eu a interrogo, não apenas com meu olhar agora desvendado. Todo o meu corpo é um questionamento. O que ela está fazendo? Ela não devia. Não podia.
— Por que não? – a resposta dela é uma indagação. E eu compreendo.
—É impossível. – duas palavras nunca me pareceram tão absurdas, ainda que parecessem ser as únicas a existirem naquele momento.
Seus dedos finos deslizaram pela minha face. Senti-a tremer levemente; o contato gélido deve tê-la surpreendido.
Eu senti o seu calor. Entretanto, ela sentiu apenas o frio.
— A noite e o dia não foram feitos para se encontrarem. – digo enfim e desvencilho-me de seu toque. Afasto-me.
Ela não vem atrás. Talvez tenha sentido medo. Talvez tenha compreendido.
Não importa.
Havia acabado.
Eclipse.
Tudo não havia passado de um eclipse.
******
Moon Over Bourbon Street
There's a moon over Bourbon Street tonight
I see faces as they pass beneath the pale lamplight
I've no choice but to follow that call
The bright lights, the people, and the moon and all
I pray everyday to be strong
For I know what I do must be wrong
Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet
While there's a moon over Bourbon Street
It was many years ago that I became what I am
I was trapped in this life like an innocent lamb
Now I can never show my face at noon
And you'll only see me walking by the light of the moon
The brim of my hat hides the eye of a beast
I've the face of a sinner but the hands of a priest
Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet
While there's a moon over Bourbon Street
She walks everyday through the streets of New Orleans
She's innocent and young from a family of means
I have stood many times outside her window at night
To struggle with my instinct in the pale moonlight
How could I be this way when I pray to God above
I must love what I destroy and destroy the thing I love
Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet
While there's a moon over Bourbon Street
[TRADUÇÃO]:
Lua Sobre a Rua Bourbon
Há uma lua sobre a Bourbon Street hoje à noite
Eu vejo rostos que passam sob a luz do lampião pálido
Eu não tenho escolha a não ser seguir esse chamado
As luzes brilhantes, as pessoas, a lua e tudo
Eu rezo todo dia para ser forte
Pelo que sei o que faço deve ser errado
Oh você nunca verá minha sombra ou ouvir o som dos meus pés
Enquanto houver uma lua sobre a Bourbon Street
Foi há muito tempo atrás que tornei-me o que sou
Fui preso nesta vida como um cordeiro inocente
Agora não posso nunca mostrar meu rosto ao meio-dia
E você apenas me verá andando sob a luz da lua
A aba de meu chapéu esconde os olhos de uma fera
Tenho o rosto de um pecador mas as mãos de um padre
Oh você nunca verá minha sombra ou ouvir o som dos meus pés
Enquanto houver uma lua sobre a Bourbon Street
Ela caminha todo dia através das ruas de Nova Orleans
Ela é inocente e jovem, de uma família rica
Eu tenho parado muitas vezes fora de sua janela à noite
Lutando contra meu instinto na luz pálida da lua
Como fui ficar deste jeito, quando rezo a Deus do céu
Eu devo amar o que destruo e destruir o que amo
Oh você nunca verá minha sombra ou ouvir o som dos meus pés
Enquanto houver uma lua sobre a Bourbon Street
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