A Loba e o caçador

68 Capítulo 67 – O Herdeiro da Aurora



O sorriso do bebê durou apenas um instante.


Mas foi suficiente.


O vale inteiro estremeceu.


As criaturas do Abismo recuaram como se tivessem sido queimadas pela simples presença daquela criança.


Bella o segurava contra o peito, emocionada, enquanto Carlisle verificava Renesmee.


— Ela perdeu muito sangue... — murmurou ele.


Jacob caiu de joelhos ao lado dela.


— Nessie...


Ela sorriu, exausta.


— Ele está bem?


Jacob olhou para o pequeno menino.


Nunca imaginou que uma criatura tão frágil pudesse carregar uma força capaz de silenciar uma guerra.


— Está perfeito.


Renesmee fechou os olhos por um segundo, aliviada.


Então um vento gelado atravessou o vale.


As luzes douradas dos antigos Guardiões começaram a desaparecer.


Uma após outra.


Aylin ergueu a cabeça.


Seu semblante, antes sereno, tornou-se preocupado.


— Não...


Kael percebeu imediatamente.


— O que houve?


Ela olhou para o bebê.


— O selo não foi destruído.


Todos ficaram em silêncio.


Edward franziu a testa.


— Como assim?


A Primeira Alfa aproximou-se lentamente.


O menino havia parado de chorar.


Observava tudo em absoluto silêncio.


Como se compreendesse cada palavra.


— O Abismo não queria impedir este nascimento...


Ela respirou fundo.


— Queria sobreviver a ele.


Jacob sentiu um arrepio percorrer a espinha.


— Explique.


Aylin pousou delicadamente a mão sobre a pequena testa do bebê.


Uma luz prateada surgiu.


E, por um breve segundo...


Uma sombra negra apareceu sob a pele da criança.


Bella deu um passo para trás.


— O que foi isso?


Aylin retirou a mão imediatamente.


Seu olhar estava cheio de tristeza.


— Uma marca.


Renesmee empalideceu.


— Não...


— Quando o Eclipse alcançou o auge, o Abismo percebeu que não poderia vencer.


Então fez a única coisa que ainda era capaz.


Escondeu uma parte de si dentro daquele que nasceu para destruí-lo.


O silêncio tornou-se insuportável.


Jacob apertou os punhos.


— Tire isso dele.


— Se eu pudesse...


Ela balançou a cabeça.


— A marca faz parte da alma dele agora.


Edward respirou lentamente.


Conseguia ouvir o coração do menino.


Batimentos perfeitos.


Calmos.


Mas havia outro ritmo.


Muito mais antigo.


Muito mais profundo.


Como um eco escondido.


O bebê abriu os olhos prateados.


Olhou diretamente para Edward.


Depois...


Sorriu.


E o segundo coração desapareceu.


Como se jamais tivesse existido.


Edward permaneceu imóvel.


— Ele... ele controlou a própria energia.


Carlisle nunca havia visto nada parecido.


— Um recém-nascido não poderia fazer isso.


— Um recém-nascido comum, não — respondeu Gregor.


As nuvens começaram finalmente a se dissipar.


O sol voltou a iluminar o vale.


As criaturas do Abismo transformaram-se em poeira escura, levadas pelo vento.


A guerra havia terminado.


Pela primeira vez em séculos...


O silêncio significava paz.


Leah caminhou até Jacob.


Sorriu cansada.


— Acho que sobrevivemos.


Ele riu.


Um riso leve.


O primeiro em muitos meses.


Sam observava o horizonte.


— Então acabou...


Mas Seth não parecia convencido.


— Não.


Todos olharam para ele.


O jovem lobo apontava para o céu.


Muito acima das montanhas.


Uma única nuvem negra permanecia imóvel.


Pequena.


Quase imperceptível.


Aylin acompanhou seu olhar.


E compreendeu.


— Não é o Abismo...


Kael estreitou os olhos.


— Então o que é?


A voz da Primeira Alfa saiu quase como um sussurro.


— Alguém o observava.


Antes que qualquer um pudesse perguntar mais alguma coisa...


A nuvem desapareceu.


Como se jamais tivesse existido.


Naquela noite, o vale inteiro estava iluminado por fogueiras.


Lobos e vampiros, que durante séculos se enxergaram como inimigos, dividiam alimento, histórias e o alívio de ainda estarem vivos.


Emmett ria alto enquanto disputava uma queda de braço com Quil.


Rosalie, mesmo tentando parecer indiferente, não escondia o carinho ao observar o bebê adormecido.


Alice girava ao redor da criança.


— Ele vai aprontar muito.


— Como sabe? — perguntou Bella.


Alice sorriu.


— Porque todas as vezes que tento ver o futuro dele... ele muda de ideia antes que a visão termine.


Todos riram.


Jacob permanecia sentado ao lado de Renesmee.


Ela descansava com a cabeça apoiada em seu ombro.


O menino dormia entre os dois.


— Já escolhemos um nome? — perguntou Bella.


Renesmee sorriu.


Olhou para Jacob.


— Quero que seja uma escolha nossa.


Ele passou os dedos delicadamente pela pequena mão do filho.


Depois falou baixinho.


— Orion.


Renesmee repetiu o nome.


— Orion...


O bebê abriu um dos olhos.


Como se aprovasse.


Ela sorriu.


— Orion Black Cullen.


Bella enxugou discretamente uma lágrima.


Edward colocou a mão no ombro de Jacob.


— Bem-vindo à família.


Jacob respondeu apenas com um aceno.


Não precisava de palavras.


Naquele instante, tudo o que sempre procurara estava ali.


Sua companheira.


Seu filho.


Sua família.


Mas, bem distante dali, além das montanhas onde nem mesmo os antigos Guardiões ousavam entrar...


Uma figura encapuzada observava o brilho do vale.


Seus olhos eram dourados.


Antigos.


E carregavam um estranho reconhecimento.


Ela sorriu lentamente.


— Então você finalmente nasceu...


Orion.


E, pela primeira vez desde o início da guerra, surgiu uma ameaça que não pertencia nem aos lobos, nem aos vampiros, nem ao Abismo.


Uma ameaça muito mais antiga.


E que conhecia o verdadeiro destino da criança do eclipse.