A Loba e o caçador

52 Capítulo 51 – O rugido sob as raízes



O rugido voltou.

Mais forte.

Mais profundo.

Não parecia vir da floresta.

Nem do céu.

Vinha debaixo da própria Árvore da Vida.

As raízes estremeceram.

A terra rachou em vários pontos do Santuário.

Renesmee levou a mão ao ventre.

A criança se agitou novamente.

Mais intensa do que nunca.

A Guardiã empalideceu.

— Ele acordou...

Kael deu um passo à frente.

— Isso não deveria acontecer antes da abertura completa do Véu.

Malach finalmente sorriu.

Um sorriso tranquilo.

Como alguém que esperava aquele momento havia muitos anos.

— Mas aconteceu.

Gregor virou-se para ele.

— O que você fez?

Malach não respondeu imediatamente.

Observava o eclipse.

As sombras cresciam rapidamente sobre o vale.

Era um eclipse diferente.

A luz desaparecia em ondas.

Como se algo estivesse devorando o próprio céu.

Edward fechou os olhos.

Tentou ouvir os pensamentos de Malach.

Encontrou apenas uma imagem.

Uma porta.

Enorme.

Feita de pedra negra.

E milhares de olhos observando do outro lado.

Edward abriu os olhos abruptamente.

— Existe alguma coisa atrás do Véu.

A Guardiã respondeu sem hesitar.

— Sempre existiu.

Bella sentiu um arrepio.

— Então todas as histórias eram verdadeiras...

— Não.

A Guardiã balançou a cabeça.

— Eram apenas fragmentos.

Jacob apertou a espada.

— O que está tentando sair?

Kael respirou fundo.

Como quem carregava um segredo pesado demais.

— Não é uma criatura.

É o primeiro erro cometido pelo mundo.

Todos o encararam.

Leah arqueou uma sobrancelha.

Até ela parecia curiosa.

Kael continuou.

— Antes dos homens...

Antes dos vampiros...

Antes dos lobos...

Existia apenas equilíbrio.

Mas alguém desejou poder.

Dividiu a essência da vida.

Foi assim que nasceram todas as espécies.

Renesmee ouviu atentamente.

— E esse... erro?

A Guardiã respondeu.

— Aquilo que restou da divisão.

Uma consciência feita apenas de fome.

Silêncio.

Carlisle compreendeu primeiro.

— Ele não pertence a nenhuma espécie.

— Exatamente.

A Guardiã assentiu.

— Por isso pode destruir todas.

Outro rugido fez o chão tremer.

Desta vez, uma enorme raiz rompeu a superfície.

Não estava viva.

Estava escurecida.

Como se estivesse apodrecendo.

Onde a raiz tocava o solo...

As flores morriam.

As folhas secavam.

A própria vida desaparecia.

Esme levou a mão à boca.

— Isso está contaminando a Árvore...

— Está consumindo sua força.

Respondeu Kael.

Malach deu alguns passos à frente.

— Finalmente.

Jacob o encarou.

— Você quer libertar essa coisa?

Malach riu.

Uma risada baixa.

Sem qualquer traço de loucura.

Apenas convicção.

— Libertar?

Não.

Quero terminar o que começou há milhares de anos.

Edward estreitou os olhos.

— Você acredita que ele vai reconstruir o mundo.

— Não.

Malach respondeu.

— Ele vai limpá-lo.

Leah cruzou os braços.

— E depois?

— Depois nascerá um mundo sem monstros.

Renesmee avançou.

Os olhos dourados brilhavam.

— Você também é um monstro para eles.

Malach a encarou.

Pela primeira vez...

Seu olhar vacilou.

Apenas por um segundo.

— Eu sei.

Foi uma resposta tão sincera que ninguém esperava.

— Foi exatamente por isso que escolhi esse caminho.

Jacob percebeu algo.

Malach não lutava por ódio.

Lutava por desespero.

Como alguém que havia perdido toda esperança na convivência entre humanos e criaturas.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa...

Leah caminhou lentamente até Malach.

— Está demorando.

Ele olhou para ela.

— O selo ainda resiste.

Leah sorriu.

Então levantou a mão direita.

Entre seus dedos havia um pequeno cristal negro.

Kael empalideceu.

— A Pedra do Eclipse...

A Guardiã deu um grito.

— Não!

Leah lançou o cristal contra a base da Árvore.

No instante em que a pedra tocou as raízes...

Uma explosão de sombras atravessou todo o vale.

O impacto lançou lobos, vampiros e caçadores ao chão.

Jacob segurou Renesmee antes que ela caísse.

Bella protegeu Esme.

Emmett arrancou uma árvore inteira para impedir que um rochedo atingisse Alice.

Quando a poeira baixou...

Havia uma enorme fissura diante da Árvore da Vida.

Dela saía uma névoa negra.

Fria.

Pesada.

Silenciosa.

Nenhum pássaro cantava.

Nenhum inseto se movia.

Até o vento parecia ter desaparecido.

Então...

Uma voz ecoou da escuridão.

Não era alta.

Nem ameaçadora.

Era calma.

Antiga.

— Depois de tanto tempo...

Finalmente encontrei minha filha.

Renesmee congelou.

A voz...

Chamava por ela.

E, sem que pudesse controlar o próprio corpo, deu um passo em direção à fenda.

Depois outro.

Jacob segurou seu braço.

— Ness!

Ela tentou resistir.

Mas seus olhos começaram a adquirir um brilho prateado.

A Guardiã ficou horrorizada.

— Não olhem para a escuridão!

É assim que ele chama aqueles que carregam o sangue da Primeira Alfa!

Renesmee apertou a cabeça com as duas mãos.

A voz continuava.

Cada vez mais próxima.

— Venha...

Você sempre pertenceu a mim...

Jacob a abraçou com força.

— Escuta a minha voz!

Ela tremia.

Lutava contra alguma coisa invisível.

Lágrimas escorriam por seu rosto.

— Eu... não consigo...

Então aconteceu algo inesperado.

Uma pequena luz dourada brilhou sob sua mão.

Exatamente onde repousava sobre o ventre.

O bebê.

A criança respondeu ao chamado das trevas...

Com uma luz ainda mais intensa.

A escuridão recuou.

Pela primeira vez...

A voz ancestral demonstrou surpresa.

— Impossível...

O silêncio caiu novamente sobre o vale.

E, do interior da fenda, dois enormes olhos dourados se abriram na escuridão.