A Loba e o caçador

32 Capítulo 31 - O preço da luz


O sol da manhã filtrava-se pelas janelas quebradas da casa, tocando os móveis com uma luz morna e quase triste. O cheiro de madeira queimada e ferro ainda pairava no ar — lembrança da batalha que quase lhes custara tudo.

Renesmee estava deitada na cama de seu antigo quarto, a pele pálida e o suor frio escorrendo pela têmpora. O corpo ainda tremia por dentro, como se o lobo quisesse sair, mas não pudesse. O instinto chamava, o sangue gritava, mas a força que antes a movia agora parecia distante — uma fera adormecida e contida por algo mais forte.

Jacob estava ao lado dela, com a mão firme sobre a dela. Observava cada movimento, cada respiração, o olhar cheio de ternura e preocupação. Havia ferimentos em seus braços e um corte profundo no ombro, mas ele não se importava. Tudo o que importava era ela.

— Você precisa descansar — disse, em voz baixa, alisando os cabelos dela.

— Não consigo — sussurrou Renesmee, com os olhos marejados. — Sinto… como se houvesse uma energia diferente dentro de mim. Como se eu estivesse mudando por dentro.

Ele respirou fundo. — Você está. E não está sozinha, Ness.

Carlisle entrou no quarto, com Caren logo atrás, segurando um tablet com registros e anotações. O semblante de ambos era grave, embora tentassem manter a calma.

— Renesmee… — começou Carlisle, sentando-se na beira da cama. — Eu e Caren fizemos alguns exames. O bebê está crescendo rápido. Rápido demais.

Renesmee o olhou, confusa. — O que isso significa?

Caren se adiantou, sua voz suave, mas tensa. — Significa que sua gestação não vai durar nove meses. Se continuar nesse ritmo, teremos… seis, talvez menos, até a formação completa.

O silêncio pesou no ar. Jacob sentiu o chão sumir por um instante.

— Seis meses? Isso é… impossível.

— Não impossível — corrigiu Carlisle. — Apenas inédito. O corpo dela está reagindo à energia híbrida. E isso a está enfraquecendo.

Renesmee tentou se sentar, mas o peso do próprio corpo a obrigou a recostar-se novamente. — Então é por isso que não consigo mais me transformar… o bebê… ele está drenando minha energia lupina.

Carlisle assentiu. — É provável. A criatura dentro de você carrega o sangue de duas naturezas opostas. Ela está… equilibrando o que você é. E isso a torna vulnerável.

Jacob apertou a mão dela com mais força. — O que podemos fazer?

— Descanso. Proteção. E evitar qualquer transformação. — respondeu Caren. — Se tentar mudar novamente, seu corpo pode não resistir.

Renesmee fechou os olhos. As lágrimas vieram silenciosas. A loba dentro dela rugia, aprisionada. Pela primeira vez, ela se sentia frágil.

Jacob se inclinou e encostou a testa na dela. — Ei… olha pra mim. — Sua voz tremia, mas o olhar era firme. — Você é forte. Sempre foi. Eu estou aqui. E esse bebê vai nascer, Ness. Vai nascer e vai viver.

Ela sorriu entre as lágrimas. — Você fala com tanta certeza…

— Porque eu prefiro morrer tentando te proteger do que viver sem você. — Ele sussurrou, e ela fechou os olhos, deixando o calor das palavras acalmá-la.

Lá fora, o vento trouxe o cheiro da floresta molhada. Mas havia outro aroma misturado: pólvora e fumaça.

Edward apareceu na porta. — Estão se reunindo novamente. A Ordem não desistiu.

Jacob levantou-se devagar. — Eles voltam mais cedo do que esperávamos.

— E agora, com motivos ainda piores — completou Edward, encarando-o com seriedade. — Embry e Leah estão espalhando que o bebê é uma aberração.

Jacob sentiu o sangue ferver. — Queimarei o mundo se tocarem nela.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, o acampamento da Ordem fervia em vozes baixas e intenções sombrias. Leah estava em sua forma humana, os olhos fixos no fogo da fogueira. Embry caminhava de um lado para o outro, impaciente.

— Ela está vulnerável — disse Leah. — Não consegue mais se transformar. E está grávida. Essa é a hora de acabar com ela.

Embry assentiu, a mandíbula trincada. — E o bebê?

— O bebê é o erro que precisamos eliminar. — respondeu Leah, fria. — Se nascer, será uma ameaça para todos nós.

Seth estava sentado um pouco mais afastado, fingindo afiar uma lâmina. A cada palavra, o peso do arrependimento crescia dentro dele.

— E se… — começou ele, hesitante — e se esperássemos? Talvez ela não resista à gestação.

Leah se virou, o olhar cortante. — Eu não espero, Seth. Já esperei demais. Ela tirou de mim o respeito da matilha e de Jacob. Eu mesma cuidarei disso.

Seth engoliu em seco e assentiu, fingindo concordar.

Mas quando a noite caiu, ele se levantou em silêncio e seguiu pela trilha contrária. O coração batia rápido. As sombras o observavam, o som dos galhos quebrando o acompanhava.

“Ele precisa saber”, pensou. “Antes que seja tarde.”

De volta à casa, Jacob observava Renesmee dormir. As chamas da lareira tremeluziam, desenhando sombras suaves sobre a pele dela. Ele tocou o ventre dela com delicadeza, sentindo o calor pulsante.

— Você é meu milagre e meu caos — murmurou. — Mas eu juro, Ness… ninguém vai te tirar de mim.

Do lado de fora, entre as árvores, uma figura se movia rapidamente, respirando com dificuldade. Era Seth — ferido, ofegante, com o sangue marcando o rosto.

Ele alcançou a porta, bateu com força, e antes de desmaiar conseguiu dizer:

— Leah… Embry… vão… matar o bebê.

O silêncio que seguiu foi de puro terror. Jacob o segurou antes que caísse completamente e olhou para Edward, que já estava de pé, pronto para agir.

Renesmee acordou assustada, o olhar confuso.

— Jake… o que aconteceu?

Ele olhou para ela, o semblante carregado de fúria e dor.

— A guerra começou de novo, Ness. E desta vez… é pessoal