A Loba e o caçador

24 Capítulo 23 - Sombras e cicatrizes


A casa dos Cullens estava mergulhada em um silêncio denso, cortado apenas pelo som do vento lá fora, deslizando pelas copas das árvores como um sussurro antigo. O cheiro de sangue seco e de terra ainda impregnava o ar — lembranças da batalha que, embora vencida, deixara mais marcas do que qualquer ferimento visível.


Renesmee estava deitada sobre o sofá da ampla sala de vidro, o corpo envolto em cobertores. A ferida no ombro latejava, mas a dor que mais a consumia era a que não sangrava: a de ter enfrentado seres que, um dia, haviam sido parte da vida de Jacob.

Ela ainda via, atrás das pálpebras, os rostos de Sam e Quil, o olhar de espanto e raiva antes de caírem. E Leah… a loba de olhos âmbar, o rugido que ecoava dentro dela como um espelho distorcido.

Renesmee apertou os punhos, sentindo a pele tremer com o instinto reprimido. A loba dentro dela queria sair, uivar, correr, fugir da culpa.


Jacob, mesmo ferido, não a deixava sozinha. Sentado no chão, ao lado do sofá, com o braço enfaixado e o rosto ainda marcado por arranhões, ele segurava a mão dela entre as suas.

— Ei… — murmurou, a voz rouca. — Eles fariam o mesmo. Você só sobreviveu.

Renesmee virou o rosto para ele, os olhos marejados.

— Sobreviver não deveria doer assim, Jake.

— Dói porque você sente. E isso te torna diferente deles.


Foi então que uma voz suave cortou o ar.

— Ou talvez te torne ainda mais forte.

Caren surgiu no vão da porta. A prima de Renesmee tinha os cabelos longos e negros como obsidiana e olhos acinzentados, que pareciam captar mais do que viam. Seu dom — perceber e harmonizar a energia vital de quem a cercava — se manifestava numa leveza quase palpável.

Ela atravessou a sala devagar, pousando a mão sobre a testa da prima.

— Você está queimando, Ness… mas não é febre — murmurou. — É o lobo em você, em conflito com o humano.


Renesmee tentou sorrir, mas seus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu quase matei um amigo do Jake, Caren…

Caren a interrompeu com um toque de ternura.

— Você salvou quem ama. É o instinto de quem protege, não o de quem destrói.


Jacob ergueu o olhar para Caren, exausto, mas grato.

— Obrigado por vir.

— Eu viria de qualquer forma — respondeu ela, séria. — Somos família. E ela precisa de todos nós.


O som de passos leves anunciou Bella e Edward, seguidos por Alice e Jasper.

Carlisle vinha logo atrás, carregando uma pequena maleta médica.

— A ferida está fechando bem — disse o patriarca, examinando Renesmee. — Mas há uma energia instável nela. Algo selvagem.

— A loba — completou Caren, sem hesitar. — Ela está mais forte do que nunca. A batalha despertou algo.


Edward se manteve em silêncio, mas seus olhos refletiam o turbilhão que lia nos pensamentos de todos. Bella, de braços cruzados, fitava Jacob com cautela — uma mãe avaliando o risco de um homem que, por natureza, caçava o que ela era.

Mas, quando o viu segurar a mão da filha com tanta devoção, seu semblante suavizou.

— Ele não vai deixá-la sozinha, Edward — murmurou Bella. — E, sinceramente, talvez seja isso que a mantenha viva.

A noite foi passando, o vento diminuindo, e a sala foi se tornando um abrigo.

Caren permaneceu ao lado de Renesmee, seus dedos percorrendo o ar sobre o corpo da prima, como se desenhassem fios invisíveis de calma. Aos poucos, o tremor nas mãos de Renesmee cessou.

Jacob, com a cabeça recostada no braço do sofá, ainda a segurava.


Quando todos já haviam subido, restaram apenas os dois — e Caren, silenciosa, observando.

Renesmee o olhou por longos segundos.

— Você devia descansar, Jake.

Ele sorriu, cansado.

— Só depois de ter certeza de que você vai dormir.

Ela hesitou, então se aproximou, repousando a cabeça no ombro dele.

— Obrigada… por ficar.

— Não é um favor, Ness. É o que eu quero.


Caren, com um leve sorriso, apagou as luzes, deixando apenas a claridade pálida da lua atravessando o vidro.

Antes de se retirar, murmurou:

— O amor é o melhor antídoto para qualquer ferida. Mesmo as que não cicatrizam.


E ali, sob o brilho prateado, Renesmee adormeceu — o corpo marcado, mas o coração sustentado pela presença de quem, mesmo ferido, não recuava.

Jacob a observou até o fim, o rosto sereno, e soube, com uma certeza que o assustava, que não haveria mais volta.