A Loba e o caçador
22 Capítulo 21 - Entre o instinto e a traição
A noite era um espelho quebrado — fragmentos de sombra e luz se espalhavam entre as árvores, e o vento trazia o cheiro da chuva que se aproximava.
Renesmee caminhava sozinha, o olhar atento, o coração acelerado.
Desde o último confronto com Leah, sentia o ar mais pesado, como se a floresta guardasse algo prestes a se revelar.
Um galho estalou atrás dela.
— Você veio sozinha? — a voz grave de Jake rompeu o silêncio.
Renesmee girou devagar, encontrando o olhar firme e desconfiado do caçador.
— Eu precisava pensar — respondeu.
Ele deu alguns passos, as botas afundando na terra úmida. — E pensar sozinha nunca é bom.
Ela suspirou. — Eu não estou sozinha, Jake. A floresta me ouve. E Leah está tramando alguma coisa.
Jake parou diante dela, o rosto iluminado pelo luar filtrado entre as copas. — E o que você vai fazer?
— Esperar. E quando ela errar, eu vou estar lá.
O silêncio caiu entre os dois, pesado e carregado de tensão.
Jacob a observava de perto, o peito subindo e descendo com dificuldade, como se algo nele lutasse para permanecer contido.
— Você ainda desconfia de mim, Ness? — perguntou ele, mais baixo.
Ela ergueu os olhos. — Eu não sei se devo confiar no caçador ou no homem.
Jake sorriu, de um jeito breve e amargo. — Talvez os dois queiram a mesma coisa.
— E o que seria isso? — provocou, dando um passo à frente.
Ele não respondeu com palavras. Apenas levantou a mão e tocou o rosto dela, os dedos frios roçando a pele quente.
A distância entre eles desapareceu, e o primeiro beijo veio carregado de dúvida, medo e desejo.
Mas antes que pudessem se perder ali, um estalo seco cortou o ar.
Os dois se separaram instantaneamente.
Renesmee arregalou os olhos — o instinto tomou o controle.
O som repetiu-se, mais próximo.
Ela deu um passo atrás, o corpo tremendo, os músculos contraindo.
Jake a olhava sem entender… até que o ar ao redor pareceu mudar.
O rugido que veio a seguir não era humano.
A pele de Renesmee se arrepiou, os olhos brilharam dourados — e então o corpo dela começou a se transformar.
O som dos ossos se ajustando ecoou como trovões abafados.
A roupa rasgou em faixas, a carne se expandiu, e em poucos segundos, diante do olhar atônito de Jake, a loba tomou forma.
A pelagem — de um ruivo profundo, quase dourado ao reflexo da lua — reluzia como fogo vivo sob a noite.
Os olhos, agora selvagens e ainda assim familiares, se fixaram nele.
Jacob deu um passo atrás, atônito e fascinado, sentimento que se repetia todas as vezes que acontecia.
Havia força, beleza e algo inegavelmente humano naquela criatura.
Ela rosnou baixo, os ouvidos em alerta, e desapareceu na mata antes que ele pudesse reagir.
O som dos galhos quebrando preencheu o silêncio.
Jacob sacou a arma e correu, o coração disparado.
Foi então que um vulto surgiu na frente dele — Seth, com o uniforme da Ordem rasgado, o rosto coberto de suor e sangue.
— Jake! Pare! É uma armadilha! — gritou.
Renesmee voltou a aparecer entre as árvores, ainda em forma de loba, o pelo eriçado, os dentes à mostra.
Seth levantou as mãos, tentando se explicar.
— Sou eu! Leah entregou vocês! A Ordem vem atrás dela... e de você também!
Jake ficou imóvel.
Renesmee soltou um rosnado baixo, circulando o caçador como se medisse a verdade no cheiro dele.
Seth engoliu em seco. — Eles querem capturar a loba. Usá-la como isca pra atrair os Cullens.
Foi o bastante.
Renesmee saltou à frente e, num brilho dourado, começou a voltar à forma humana.
O som da transformação reversa era quase inaudível, mas o ar pareceu vibrar com a mudança.
O corpo dela encolheu, a pelagem se dissolveu em pele, e quando o silêncio retornou…
Renesmee estava ali — nua, ajoelhada sobre a terra úmida, o cabelo desgrenhado caindo pelos ombros, o corpo ofegante e coberto de respingos de chuva.
Jake desviou o olhar num reflexo, tirando o casaco e ajoelhando-se ao lado dela.
Ele a envolveu rapidamente com o tecido, os braços protegendo-a do frio e, sem perceber, também do olhar de Seth.
— Olhe pra outro lado — rosnou ele, a voz rouca, possessiva.
Seth virou-se de imediato, sem ousar responder.
Renesmee respirava com dificuldade, os olhos dourados ainda faiscando.
— Eu estou bem — murmurou, tentando se afastar, mas Jake a manteve junto a ele, os dedos ainda trêmulos sobre o ombro dela.
— Não está. — Ele a fitou, sério, o rosto muito próximo. — Nunca mais faz isso sem me avisar.
Ela ergueu o olhar, o rosto encostado no peito dele.
— Você vai me proteger de mim mesma agora, Jake?
Ele hesitou. — Se for preciso… sim.
O vento soprou entre as árvores, e a tensão parecia pulsar entre eles.
Renesmee abaixou o rosto, o coração disparado.
— Então me protege — sussurrou. — Mas primeiro, me ajuda a acabar com quem nos quer mortos.
Jake assentiu lentamente. — Sempre.
Ao longe, o som de passos ecoou — pesado, sincronizado.
A Ordem estava chegando.
Renesmee se levantou, envolta no casaco dele, o olhar decidido.
— Então é guerra. E Leah vai pagar por isso.
Jake a observou de pé, os cabelos ruivos colados ao corpo pela chuva, o rosto iluminado por relâmpagos.
Ela era força e ferida, fogo e ferocidade — e, ainda assim, a coisa mais humana que ele já havia visto.
Ele se aproximou, sem dizer nada, e juntos olharam para a floresta em chamas sob a primeira luz da lua cheia.
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