A Loba e o caçador

2 Capítulo 1 - O caçador da Ordem


A floresta de Forks nunca dormia.

Mesmo quando o mundo parecia silenciado pela chuva, algo respirava entre as árvores — algo antigo, selvagem e vivo.


Jacob Black conhecia aquele som.

O farfalhar de passos leves sobre folhas molhadas, o estalar de um galho que não devia ter quebrado, o arrepio na nuca antes de ver qualquer coisa.

Era o instinto. E o instinto nunca errava.


A lua estava coberta por nuvens densas quando ele se agachou, tocando o chão encharcado. O sangue era recente — metálico, espesso, humano.


— Três corpos em uma semana… — murmurou, analisando as marcas no barro. — E o Conselho ainda chama isso de ataque animal?


Um trovão cortou o céu. Jacob ergueu o capuz, os olhos âmbar refletindo o brilho do relâmpago. Ele ajustou a besta prateada presa ao braço e seguiu o rastro com a precisão de quem viveu a vida inteira caçando monstros.


Monstros como ela.

A Ordem da Luz o havia criado desde que perdera o pai. Eles lhe ensinaram a empunhar uma arma antes mesmo de aprender a sorrir.

Caçar era sua fé.

Obedecer era seu destino.


Mas, naquela noite, algo no ar parecia… errado. O cheiro era diferente. Não o fedor azedo dos vampiros, nem o odor forte dos lobos comuns.

Era algo híbrido. Selvagem e doce ao mesmo tempo.


Jacob se moveu em silêncio, mas a floresta parecia observá-lo de volta. Cada folha, cada gota de chuva — tudo vibrava com uma presença invisível.


E então, ele a viu.


Por um breve segundo, uma silhueta feminina surgiu entre as árvores. Alta, cabelos escuros grudados pela chuva, olhos dourados faiscando na penumbra.

Ela não parecia fugir. Parecia… estudá-lo.


O coração de Jacob bateu mais rápido, sem razão aparente.

Ele ergueu a besta. Quando piscou, ela já havia desaparecido.


— Então é verdade… — sussurrou. — A loba existe.

Horas depois, o abrigo improvisado cheirava a madeira úmida e metal. Jacob limpava a lâmina enquanto observava o mapa sobre a mesa: símbolos de ataques, coordenadas, nomes de vítimas.

Do lado, a pulseira de couro da Ordem parecia queimá-lo — lembrança constante de quem ele era.


Um estalo no chão.

Instinto.


Jacob ergueu a arma e girou para trás, mirando a escuridão.


— Mostre-se!


Silêncio.

Até que uma voz suave, mas firme, ecoou entre as sombras.


— Se atirar, vai se arrepender.


O som da voz era diferente de tudo que ele já ouvira. Nem humana, nem bestial. Algo entre os dois.


Jacob respirou fundo.

— A Loba da Floresta.


Um passo. Outro.

E ela apareceu.

Renesmee emergiu da penumbra como uma miragem viva — pele pálida sob a luz da tocha, cabelos longos colados ao rosto, olhar dourado fixo nele. Usava um manto negro e trazia uma calma perigosa, a serenidade de quem sabe que domina a situação.


— Você está no meu território, caçador — disse ela, com um sorriso breve. — E caçadores não costumam sair vivos daqui.


Jacob manteve a arma apontada, mas não disparou.

Havia algo em seus olhos que o impedia. Algo antigo, profundo, quase familiar.


— Então é você... — murmurou. — O monstro que mata humanos.


Ela arqueou uma sobrancelha.

— Monstro? — deu um passo à frente. — E o que exatamente te faz diferente de mim?


A pergunta ficou suspensa no ar.

A tocha tremulava. O vento rugia lá fora.

Mas Jacob não respondeu.


Porque, naquele instante, sob o olhar daquela mulher-loba, algo dentro dele — algo que sempre acreditara estar morto — começou a despertar.