A Loba e o caçador

39 Capítulo 38 – O Último Guardião



O vento cessou.

A floresta pareceu prender a respiração.

A figura encapuzada permaneceu imóvel, segurando a lança negra como se seu peso fosse insignificante. Ao seu redor, a própria escuridão parecia ganhar forma.

Aiyana deu um passo à frente.

Seu rosto, até então firme, perdeu a cor.

— Eu achei que você tivesse morrido.

Uma risada baixa atravessou a clareira.

— Durante muito tempo... eu também pensei isso.

Lentamente, o estranho retirou o capuz.

Os cabelos grisalhos caíam sobre os ombros. O rosto carregava marcas profundas do tempo e de inúmeras batalhas. Uma cicatriz fechava completamente o olho esquerdo.

O direito, porém...

Brilhava em um dourado intenso.

Renesmee levou a mão ao peito.

Aquele olhar lhe era estranhamente familiar.

Como se já o tivesse visto em algum sonho.

— Quem é você? — perguntou, quase num sussurro.

Aiyana respondeu antes que o homem pudesse falar.

— Ele se chamava Kael.

O homem sorriu.

— Ainda me chamam assim.

Carlisle observava cada detalhe.

Não reconhecia aquele nome em nenhum livro, nenhuma lenda, nenhum relato sobre vampiros ou lobos.

Edward concentrou-se.

Nada.

A mente de Kael era um vazio absoluto.

Era como tentar ouvir pensamentos de uma montanha.

Bella percebeu a tensão do marido.

— Edward?

— Eu não consigo entrar na mente dele.

Kael sorriu de lado.

— Nunca conseguiu.

Edward ergueu os olhos, surpreso.

— Nós já nos conhecemos?

— Não.

Kael caminhou alguns passos à frente.

— Mas eu conheço muito bem o dom que você possui.

Jacob imediatamente colocou-se diante de Renesmee.

Seu ombro ainda sangrava sob a camisa rasgada, mas ele parecia nem sentir a dor.

Com um movimento firme, retirou da bainha a espada da antiga Ordem da Luz.

A lâmina refletiu a luz da lua.

Por um instante, Jacob encarou a arma.

Durante toda a sua vida, ela havia servido para caçar criaturas como Renesmee.

Agora...

Era a única coisa entre ela e o perigo.

Ele firmou os pés no chão.

— Se pretende chegar perto dela...

Sua voz saiu firme.

— Vai ter que passar por mim.

Kael inclinou levemente a cabeça.

Não havia desprezo em seu olhar.

Havia curiosidade.

— Um caçador protegendo uma loba.

Respirou lentamente.

— O destino realmente aprecia ironias.

Renesmee aproximou-se de Jacob.

Segurou delicadamente sua mão livre.

Ele percebeu que ela tremia.

Não de medo.

De algo muito mais profundo.

Seu lobo interior estava inquieto.

Ela conseguia senti-lo.

Como se reconhecesse Kael.

Como se uma memória antiga despertasse dentro dela.

Aiyana fechou os olhos por um instante.

— Não faça isso.

Kael desviou o olhar para ela.

— Eles precisam conhecer a verdade.

— Ainda não.

— Já passou da hora.

Carlisle deu um passo à frente.

— Que verdade?

Kael fincou lentamente a lança negra no chão.

A terra estremeceu.

Raízes antigas romperam o solo.

Pedras cobertas de musgo começaram a surgir ao redor da clareira, formando um grande círculo.

Símbolos ancestrais apareceram gravados nelas.

Nenhum dos Cullen reconheceu aquela escrita.

Mas Renesmee...

Reconheceu.

Sem saber como.

Ela levou a mão à cabeça.

Imagens começaram a surgir.

Uma floresta diferente.

Lobos enormes.

Seres de olhos dourados caminhando ao lado de vampiros.

Nenhum deles lutava.

Todos protegiam alguma coisa.

Ela cambaleou.

Jacob a segurou imediatamente.

— Ness!

Ela respirava com dificuldade.

— Eu... eu conheço esse lugar...

— Não — respondeu Kael. — Você se lembra dele.

Edward observava Renesmee com preocupação.

— Do que ele está falando?

Kael olhou para todos.

— Muito antes de existirem alcateias.

Muito antes dos vampiros se espalharem pelo mundo.

Existia uma única ordem.

Os Guardiões do Equilíbrio.

Humanos, lobos e vampiros protegiam juntos o coração da floresta.

Não havia guerra.

Não havia caça.

Apenas equilíbrio.

Bella franziu a testa.

— Então por que tudo acabou?

O rosto de Kael endureceu.

— Porque nós falhamos.

Aiyana abaixou a cabeça.

— A ambição destruiu nossa união.

— Não apenas a ambição — corrigiu Kael. — O medo.

Ele voltou a olhar para Renesmee.

— Quando surgiu a primeira criança capaz de carregar o sangue de mais de um povo, os Guardiões se dividiram.

Alguns acreditavam que ela salvaria o mundo.

Outros tinham certeza de que ela o destruiria.

Renesmee apertou a mão de Jacob.

Instintivamente.

Como se precisasse confirmar que ele estava ali.

— Está falando do meu filho...

Kael assentiu.

— Sim.

O silêncio tomou conta da clareira.

Até os caçadores restantes pareciam incapazes de interromper aquele momento.

Jacob respirou fundo.

— O que você quer com ele?

Kael respondeu sem hesitar.

— Quero impedir uma nova guerra.

— Levando meu filho?

— Salvando-o.

Jacob deu um passo à frente.

— Você não vai encostar nele.

A espada permaneceu firme em sua mão.

Kael sustentou seu olhar.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então Aiyana rompeu o silêncio.

— Kael... conte toda a verdade.

Ele fechou os olhos.

Como quem carregava um peso antigo demais.

Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.

Mais triste.

— A criança não é apenas herdeira da profecia.

Ela...

Fez uma pausa.

Olhou diretamente para Renesmee.

— É a única capaz de abrir ou selar o Véu.

Carlisle franziu a testa.

— Que Véu?

Antes que Kael respondesse, Alice levou as mãos à cabeça.

Seu corpo enrijeceu.

Jasper correu para ampará-la.

— Alice!

Ela respirava com dificuldade.

Os olhos fixos em um ponto invisível.

Edward segurou seu rosto.

— O que você está vendo?

Alice começou a chorar.

— As visões voltaram...

Todos voltaram a atenção para ela.

Sua voz saiu trêmula.

— Existem dois futuros.

Em um deles...

Ela olhou para Renesmee.

— Seu filho nasce.

E a paz finalmente chega.

Renesmee sorriu discretamente, mas o sorriso desapareceu quando Alice continuou.

— No outro...

Ela encarou Jacob.

Depois voltou os olhos para Renesmee.

As lágrimas escorriam livremente.

— Para que a criança sobreviva... um de vocês terá que fazer um sacrifício do qual não poderá voltar.

E, pela primeira vez desde que tudo começara, Jacob sentiu que havia um inimigo contra o qual nenhuma espada seria suficiente.

Notas finais
O que estão achando?