A Loba e o caçador
35 Capítulo 34 - Sussurros na Mata
A noite caiu pesada sobre a casa dos Cullen. De dentro, pelas grandes janelas de vidro, era possível ver apenas a escuridão espessa da floresta, como se o mundo além daquelas paredes tivesse desaparecido por completo. A casa, luminosa e silenciosa, parecia um abrigo precário diante do que se aproximava.
Renesmee dormia desde o início da noite, a respiração curta, o rosto mais pálido que o normal. Jacob não saía do lado dela nem por um segundo. Não importava quantas vezes Carlisle garantisse que ela precisava descansar, ou quantas vezes Esme pedisse para ele comer alguma coisa. Ele permanecia ali — firme, inquieto, vigilante.
Edward observava de longe, braços cruzados, a expressão dura. Ele tentava, pela centésima vez, ultrapassar a barreira confusa na mente de Leah, mas só encontrava um labirinto de sombras, imagens embaralhadas, pensamentos quebrados. Nada fazia sentido. E isso, justamente isso, era o que mais o deixava alerta.
Alice o encontrou no corredor.
— Nada ainda? — ela perguntou, mantendo a voz baixa.
— É como tentar ouvir alguém falando debaixo d’água — Edward respondeu. — Ou ela aprendeu a bloquear, ou tem outra coisa acontecendo.
Alice franziu levemente o rosto.
— Eu não gosto disso. A visão fica instável sempre que penso nela. Como se alguém estivesse mexendo nas peças.
Edward passou a mão no queixo, preocupado.
— Fique perto da Nessie. A instabilidade pode estar ligada ao bebê.
Alice assentiu, e os dois seguiram silenciosamente pelo corredor.
Na sala principal, Leah estava sentada no sofá, uma manta sobre os ombros que Esme havia trazido. Ela parecia cansada, vulnerável, com as mãos tremendo como se ainda estivesse abalada pelo que acontecera mais cedo.
Rosalie a observava como uma pantera pronta para saltar.
— Quer alguma coisa? — Esme ofereceu.
— Não — Leah disse, com a voz fraca. — Eu só… me sinto péssima por tudo que Embry fez. Por ter acreditado nele.
Rosalie bufou discretamente, mas não comentou.
Seth, sentado na poltrona ao lado, olhava para a irmã com preocupação genuína.
— Você está segura aqui — disse ele. — Ninguém vai te machucar.
Leah sorriu para o irmão, mas os olhos — por apenas um segundo — entregaram algo duro, algo afiado. Algo que ninguém ali percebeu.
Ninguém, exceto Edward, que surgiu na sala como uma sombra silenciosa.
— A casa inteira está protegida — ele avisou, olhando diretamente para Leah. — E continuará assim até sabermos exatamente onde Embry está.
Leah ergueu o rosto e deu um sorriso que era, tecnicamente, perfeito. Arrependido. Manso. Quase dócil.
— Eu agradeço, Edward. De verdade.
Ele não respondeu.
No quarto, Jacob acariciava a mão de Renesmee enquanto ela dormia. Seu peito subia e descia em ritmo lento, mas havia algo inquieto, um desconforto que ele não conseguia nomear.
Ela se remexeu, a testa franzindo. Jacob se aproximou.
— Ei — ele sussurrou. — Estou aqui.
Os olhos dela abriram devagar, cansados, mas atentos.
— Ainda é noite? — ela perguntou.
— Sim.
— Você não dormiu.
— Não posso.
Ela tentou sentar, mas o corpo falhou. Jacob a segurou antes que ela caísse para trás.
— Calma, calma…
— Estou ficando fraca — ela murmurou, sentindo a tontura voltar. — Não é normal.
— É a gestação acelerada — Jacob respondeu, tentando soar racional, mas a voz falhou no final. — Carlisle disse que isso pode acontecer.
— Pode… mas não assim.
Ela não disse em voz alta, mas Jacob sentiu: o medo dela tinha outro nome.
Embry.
— Ele não vai te tocar — Jacob disse, firme. — Juro.
Renesmee respirou fundo. E então, num impulso suave, puxou a mão dele até o peito, sobre o lugar onde o bebê crescia rápido demais.
— Por favor, Jake… não me deixa sozinha.
Ele a beijou na testa, nos cabelos, nos dedos. — Nunca.
No andar de baixo, Leah se levantou.
— Posso pegar um pouco de ar? — perguntou.
Esme hesitou. — Claro, mas fique na varanda. A floresta—
— Eu sei — Leah disse, com um leve tremor de vulnerabilidade. — Eu sei que está perigoso.
Seth a acompanhou até a porta.
— Quer que eu vá com você?
— Não — Leah sorriu. — Só preciso respirar um pouco. Estou… sobrecarregada.
Ele assentiu, inocente, acreditando cada palavra.
Leah saiu para o ar frio da noite. A porta se fechou atrás dela.
E o sorriso desapareceu.
Lentamente, ela desceu um degrau da varanda, encarando a escuridão da floresta.
— Ele está perto — ela murmurou, baixinho, apenas para si mesma. — Perfeito.
Um farfalhar discreto veio da mata. Leah não se moveu. O som era familiar.
Embry.
Ele observava oculto entre as árvores, o corpo tenso, olhos brilhando no escuro.
Leah sorriu — agora um sorriso real.
— Continue esperando — ela sussurrou, sem virar o rosto. — Logo, todo mundo vai acreditar que você fez tudo sozinho.
Embry rosnou baixo, quase imperceptível. Mas Leah continuou:
— Quando eu voltar para dentro, todos vão achar que eu só estou tentando ser útil… e, quando eu ganhar a confiança de Jacob novamente… tudo vai ser tão fácil.
Embry rosnou outra vez, irritado, impaciente. Leah sorriu mais ainda.
— Calma. Cada coisa no seu tempo. Só tenha certeza de atacar quando eu estiver lá dentro. O caos vai fazer o resto.
Ela virou as costas para a floresta e voltou para a varanda com um suspiro teatral.
E, antes de entrar, murmurou:
— Eles nunca vão ver chegando.
No quarto, Renesmee abriu os olhos novamente — subitamente, como se algo tivesse a despertado.
Jacob segurou sua mão.
— O que foi?
Ela engoliu em seco.
— Eu senti... algo. Como se alguém estivesse… esperando.
Jacob se levantou, olhar imediatamente alerta.
— Alguém está aqui.
No andar de baixo, Edward ergueu a cabeça, olhos se estreitando, ouvindo algo distante.
Lá fora, entre as árvores, um par de olhos dourados se acendeu.
E o ataque finalmente começou.
Fale com o autor