A Loba e o caçador
4 Capítulo 3 - O encontro
A chuva havia cessado, mas a floresta continuava respirando.
Cada folha pingava lentamente, como se o tempo tivesse parado para ouvir o som do vento.
Jacob estava parado no limite da clareira, o manto escuro colado ao corpo, a besta pendendo de uma das mãos.
Sentia o ar denso, carregado de algo que não sabia nomear.
Era como eletricidade… ou como o prelúdio de um sonho.
Ele a sentiu antes de vê-la.
Um calor suave, uma presença firme, como se a própria floresta tivesse alma.
Quando Renesmee surgiu entre as árvores, o mundo pareceu se recolher.
Os cabelos úmidos desciam pelas costas, os olhos dourados refletiam fragmentos de luar.
Ela caminhava descalça, e mesmo assim cada passo era silencioso, preciso, quase felino.
Jacob ergueu a arma.
Mas o olhar dela o desarmou antes mesmo que pudesse puxar o gatilho.
— Você não aprendeu, não é? — disse ela, com a voz suave, quase provocante. — Atirar em mim não vai te salvar.
Ele respirou fundo.
— E o que você pretende fazer? Me matar?
Renesmee deu um passo à frente, e o coração dele reagiu — um batimento seco, forte, rápido demais.
— Se eu quisesse te matar, caçador, já teria feito isso.
Os olhos dela o prenderam.
Jacob sentiu o chão sumir por um instante. Havia uma familiaridade naquele olhar, algo que o atraía e o aterrorizava ao mesmo tempo.
Ele pensou em tudo o que lhe ensinaram — monstros, perigo, maldição — e, mesmo assim, não conseguiu dar um passo atrás.
— Por que não foge? — ela perguntou, se aproximando mais. — É isso que humanos fazem quando têm medo.
— E quem disse que eu tenho medo? — retrucou, firme.
Renesmee sorriu de leve. Um sorriso breve, enigmático, bonito demais para pertencer a um inimigo.
— Então o que é isso que eu sinto em você? — sussurrou. — É medo… ou é algo pior?
Jacob engoliu seco.
Ele podia sentir o calor dela, o perfume da pele, algo entre terra molhada e jasmim, algo real demais para ser ignorado.
E, por um instante, a floresta inteira pareceu girar em torno daquele espaço pequeno entre eles.
Um uivo ecoou distante — um som que partia da matilha dela.
Renesmee desviou o olhar, tensa.
— Eles estão vindo. Se te encontrarem aqui, você morre.
— Então me mate você — respondeu Jacob, impulsivo, quase sem perceber as palavras. — Pelo menos saberei o motivo.
Ela o encarou, surpresa, e pela primeira vez vacilou.
A respiração dela falhou.
O coração dele, também.
Renesmee deu um passo à frente, tão perto que Jacob pôde ver o reflexo de si mesmo em seus olhos dourados.
— Você é um idiota — murmurou. — Mas algo em mim… não consegue te odiar.
Ela ergueu a mão, hesitante, e tocou o rosto dele.
Foi um toque leve, breve, mas suficiente para acender algo.
O corpo dele reagiu como se tivesse sido marcado por fogo.
E o olhar dela se suavizou, por um instante.
Mas o momento foi interrompido.
Um rosnado soou na mata — alto, furioso. Leah.
Renesmee se afastou rapidamente, o olhar voltando a endurecer.
— Vá embora, Jacob. Agora.
— E se eu não for?
Ela parou, virou o rosto apenas o suficiente para que ele visse o brilho prateado percorrer seus olhos.
— Então não terei escolha.
E antes que ele pudesse responder, ela desapareceu na escuridão — um vulto de luz e sombra, deixando atrás de si o perfume de chuva e o som distante dos lobos chamando.
Jacob ficou ali, sozinho, com o coração disparado e a mente em ruínas.
A arma pesava nas mãos, mas o que pesava de verdade era a dúvida.
“Ela devia ser meu alvo.
Mas tudo o que eu queria… era vê-la de novo.”
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