A Loba. A Caça. A Caçadora
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Já passava muito desde que a escuridão cobriu o céu. A neve caia e repousava suavemente aos pés das árvores, o que tornava difícil o farejar das presas. Não que ainda houvesse muitas para serem caçadas ali. Mesmo se pegasse o rastro de alguma, o riacho que corria lentamente a alguns passos de onde estava os apagaria. Épocas difíceis para ser uma loba.
Desgarrada da matilha pela primeira vez em muito tempo, me aventurei em áreas proibidas pelos nossos. Os grandes pinheiros cobriam minha visão, mas eu sabia onde me encontrava e continuei o caminho por entre a vegetação. As esperanças de encontrar algo para comer eram pequenas, então eu fazia um favor a mim mesma ao não nutri-las. Quando atravessei a floresta dei de cara com um grande paredão de pedra. Tão alto quanto os pinheiros, ele era o limite de onde os nossos se permitiam ir. Dali para frente era território dos “sem-pelo”.
Os sem-pelo não eram inimigos que inspirassem medo à primeira vista. Eram frágeis, lentos, fracos e a grande maioria exalava medo ao encontrar um lobo pela frente. Mas como nós, eles também andavam em matilhas. Algumas delas eram pequenas, outras eram incontáveis e quantos mais eles fossem, mais perigoso era encontrar com eles.
Apesar de fracos, os números deles eram muito maiores do que os nossos e alguns deles carregavam longos galhos que nos feriam com um barulho ensurdecedor, outros carregavam pequenas pedras, o barulho delas era menor mas machucavam da mesma forma. Esses eram os mais perigosos, mesmo de longe eram capazes de nos matar e, apesar de ainda exalarem medo, não fugiam e às vezes chegavam até mesmo a nos caçar.
Dei a volta por entre as árvores e encontrei um caminho nas pedras para subir o paredão. A rocha era fria e úmida por conta da neve que caia, era difícil subir sem escorregar. O vento não amainava, e os pinheiros não ofereciam uma boa proteção, cair dali seria morte certa. Morrer ali ou de fome na floresta vazia não faria diferença, então continuei subindo.
Chegar ao topo do paredão foi talvez a única parte bonita daquele dia. Sem os altos pinheiros para atrapalhar a visão das luzes no céu era magnífica. A visão da maior me fez uivar e fiquei ali por algum tempo. Mesmo a vista das luzes dos sem-pelo era bonita dali de cima.
Era preciso coragem para descer até lá. Tudo o que eu queria era encontrar um deles sozinho o mais rápido possível e atacar ali mesmo, mas não aconteceu assim. A visão do território deles era assombrosa. Eles construíam tocas enormes empilhando árvores, estavam por todos os lados e em alguns locais eles usavam chamas. Atacar sem ser vista seria quase impossível.
Eu era pequena pra uma loba. Conseguia passar por um de nossos primos que se renderam a eles, e apesar de ser comparada a eles eu seria uma das grandes, consegui passarpor uma pequena matilha de sem-pelos sem ser notada. Um grupo daqueles não me servia, eu teria que achar um sozinho.
Vaguei assustada por entre eles, temendo que algum deles me atacasse, mas o máximo que acontecia era um de seus filhotes ficar mais assustado ao me ver e se esconder atrás dos maiores. Continuei por entre suas tocas até que eles começaram a entrar nelas. Se entrassem, teria desperdiçado minha chance e morreria de fome ali mesmo antes da luz voltar aos céus.
Achar um sozinho parecia impossível, até que um dos filhotes saiu carregando algo de dentro da toca. Contive-me com medo de ser a pedra de barulho deles, mas ele se dirigiu até uma pequena lagoa e pegou a água com o que carregava. Ali eu soube que não poderia perder a chance. Me aproximei devagar enquanto ele começava a retornar dando a volta por trás dele. Ele mal viu o ataque chegar.
Ataquei direto na garganta, ele morreu sem fazer um único som, só se debatia enquanto seu sangue escorria pela minha boca e tocava a neve que cobria o chão. A carne era macia, a dos filhotes sempre era macia, e suculenta. Eu deveria ter arrastado ele para outro local para comer em segurança, mas a fome apertava e não consegui me segurar. Enquanto estraçalhava minha primeira presa em dias, me esqueci de onde estava. Só dei por mim quando a mãe do filhote veio atrás dele e gritou ao me ver devorar seu pequeno. Outro saiu de dentro da toca com um dos galhos de som na mão.
Larguei o filhote ali mesmo e corri. Seria difícil fugir sem ter onde me esconder mas tinha que tentar. Enquanto corria, escutava os rosnados do sem-pelo e outros saíam de suas tocas para se juntar a ele.
Consegui chegar ao morro onde ficava o paredão de pedra ainda com eles atrás de mim. Se eu conseguisse descer, escaparia entre as árvores. Ao pensar nisso, deixei-me aproveitar o gosto do sangue que ainda pingava na minha boca e me descuidei. Escutei um som alto. Cai.
O som havia ferido minha pata dianteira e desabei assim que pisei no chão com ela. O medo começou a tomar conta de mim mas ainda assim consegui me levantar e continuei minha fuga. Mas eu sabia que morreria ali. Eles me alcançariam a qualquer momento. Subi o morro e encarei o penhasco, achei que descer seria difícil. Não foi. Nem bem comecei a descer pelo caminho nas pedras úmidas e o vento soprou com violência. Sem uma pata não consegui me segurar. Cai. Não sei como sobrevivi a queda mas aquela altura, minha pata sangrando era o que menos doía. Mal conseguia me levantar.
Escutei o som dos sem-pelo se aproximando cada vez mais e mais. Assim que me encontrassem eu morreria. As pedras eram um caminho perigoso para eles também. Um deles caiu lá de cima também. Bateu sua cabeça antes de chegar ao chão e morreu enquanto terminava de cair não muito longe de onde eu estava. O cheiro do sangue dele me fazia lembrar do filhote que acabara de matar, do gosto que acabara de sentir e da fome que acabara de matar. Logo seria minha vez de morrer.
Fiquei surpresa ao vê-los se aproximar, eram apenas três deles. Quatro com aquele que morreu nas pedras. Se eu não tivesse me permitido ter esperanças de fugir, se continuasse focada, eu teria escapado.
Estava caída e quase imóvel, então eles se aproximaram muito de mim. Me cutucaram com seu galho e me chutaram com aquelas patas enormes. Eu não conseguia aguentar mais, cheguei a sentir o cheiro da minha matilha mas sabia que era imaginação, era apenas o que eu queria que acontecesse para me salvar. Eles chutaram, chutaram e chutaram e enquanto chutavam rosnavam e berravam para mim. De repente o silêncio veio. Não conseguia ver, mas sabia que eles estavam imóveis pois pararam de me chutar. O vento levou até mim os cheiros daquele momento, e eu conhecia muito bem, era o cheiro do medo. Os três estavam apavorados mas eu não sabia o motivo. Ouvi o barulho do galho e imaginei que iria morrer naquela hora. Ouvi o barulho mais 2, 3 vezes. Não era a mim que estavam tentando ferir.
Eles gritaram alguma coisa entre si, não os entendia. Ao fundo escutei um rosnado. Me forcei a abrir os olhos e movimentar meu corpo estatelado ao chão. Era a minha matilha. Eles haviam me seguido. Meus irmãos os cercavam, todos com fome e com raiva. Ouvi o barulho uma última vez e uma das minhas irmãs ganiu de dor. Os outros avançaram, os sem-pelos tentaram correr, mas eram apenas sem-pelo, frágeis, lentos e fracos. A neve branca iria ficar manchada com o sangue deles ali no sopé do paredão.
Meus irmãos me arrastaram de volta. Alguns levavam entre os dentes partes dos sem-pelo para se alimentarem mais tarde. Eles me disseram que não podiam deixar um de nós para trás, ainda mais a pequena caçadora que levou um banquete até eles.
Fiquei com a pata ruim o resto da vida, mas pela primeira vez na história da nossa matilha, uma lobinha era heroína.
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