A Little Piece of Hell
13 Próximos - Parte I
Notas iniciais
(POV Melanie)
Ainda estava escuro e o sol dava indícios preguiçosos de que iria aparecer. Eu já estava acordada, em parte por não ter conseguido dormir muito durante a madrugada. Minha cabeça estava confusa e cheia de dúvidas.
Não podia ignorar tudo que havia acontecido no dia anterior, mas também não podia esquecer os meus sentimentos por Noan. Talvez fosse a hora de tentar algo novo, afinal, ele não estava mais aqui. E confesso que o Dixon mais novo estava mexendo comigo, me cativando e me conquistando aos poucos. Mas ainda assim, eu tinha medo. Devíamos nos conhecer melhor, já que os dois sentem qualquer coisa um pelo o outro. E foi exatamente isso que combinamos de fazer, noite passada.
Quem sabe não fosse como nos filmes em que os dois recomeçam do "oi" e de repente tudo vira um mar de rosas. Mas infelizmente isso não aconteceria. Acho que o melhor a fazer é não me preocupar com nada disso e esperar para ver o que nos espera.
Saí da minha cela e fui até o pátio, me arrependendo imediatamente de não ter vestido algo mais quente. Caminhei até a torre sem a menor pressa, apesar do frio. Parei ao encarar a escada.
Maggie e Glenn estavam fazendo a vigília nesse horário, mas era bem provável que estivessem dormindo após uma noite cheia de carícias. Abri um sorriso ao imaginar como era bom para eles terem um ao outro como apoio em meio a esse grande pesadelo.
Os walkers estavam quietos. Maggie e Beth haviam comentado algo sobre eles ficarem mais lentos durante o frio. Fiquei encarando cada um deles, me perguntando se eram felizes com suas vidas antes desse desastre acontecer. Quantas oportunidades perdidas, quantas vitórias adquiridas... Será que se soubessem que tudo isso estava para chegar eles teriam feito escolhas diferentes? Diriam "eu te amo" para as pessoas importantes? Se importariam mais, viveriam mais? Não dava mais para saber... Estavam perdidas.
Senti uma mão quente segurar meu ombro fortemente, fazendo com que eu me virasse assustada e dando de cara com Carol.
– Está toda pensativa hoje — ela disse, parecendo irritada. — Será que tem algo a ver com o que aconteceu entre você e Daryl na sua cela?
Carol se aproximava mais a cada passo que eu dava para trás.
– Eu não sei do que está falando... — falei rapidamente.
– Ah, não se faça de burra! — disse um pouco mais agressiva. — Eu sei muito bem o que você está tentando fazer!
Carol dizia enquanto apontava o dedo em meu rosto. Ela não podia estar falando do beijo... Como ela soube?
– Eu vi tudo ontem à noite — continuou ela, como se soubesse o que eu estava pensando. — Como você se atreve a fazer isso? Eu sabia que você não era uma boa pessoa. Desde que meus olhos bateram em você, eu sabia que você não prestava para nada! Mas não sabia que você era capaz de uma coisa dessas, sua vadia!
– Eu não sei do que está falando! — eu disse, empurrando seu dedo que ainda estava apontado para mim. — E mesmo se soubesse, não entendo o motivo que você tem para vir me abordando desse modo e...
– Você é estúpida? — perguntou, me interrompendo. — Daryl não é qualquer garotinho para você ficar em cima. Ele é um homem! E eu não vou deixar que uma criança como você o tire de mim!
Subitamente me lembre do que Maggie havia dito sobre Carol gostar dele. Tentei contornar a situação para que não houvesse brigas e desentendimentos entre nós.
– Carol, não estou querendo tirar ninguém de você! Eu só estou tentando me dar bem com todos do grupo.
– Sei. Sei muito bem que é o seu sentido de "se dar bem com todos". Pode tirar as garras do meu homem! Já levaram a minha filha de mim e não vai ser uma garotinha como você que vai levar o homem que eu amo!
Ela já estava sem controle e gritando em meu ouvido.
– Carol! — falei, já irritada com suas acusações e suas ofensas. — O Daryl não é seu! Ele não é de ninguém! Ele tem a própria vida e não precisa de alguém para tomar decisões por ele. Só aceita que o que você sente não é recíproco... Ele não sente o mesmo por você. Seja amiga dele! A amiga que você tem sido considerada por ele durante todo esse tempo.
Antes mesmo que eu terminasse de falar a última palavra, Carol puxou meus braços, girando-os em seguida e segurando-os contra as minhas costas. Tão rápida quando antes, ela me empurrou contra a grade e apertou meu corpo contra a única coisa que nos separava dos errantes.
– Seria uma pena se um acidente acontecesse com a doce e pobre Melanie.
– Carol... — eu pedia enquanto os errantes se aproximavam.
– Estava com tanta pena das pessoas que achou que poderia ter uma chance de trazê-las de volta.
– Carol! — gritei ao ver os errantes mais perto.
– Achou que poderia restar alguma humanidade neles. Mas infelizmente acabou sendo mordida fatalmente ao chegar perto demais da grade...
– CAROL!
Senti as mãos geladas em meus ombros e em meu rosto, com uma força inacreditável. Eu tentava desesperadamente soltar meus braços até ser largada após quase levar uma mordida de um deles. Andei para trás de costas até estar bem longe da grade e caí sentada. Como ela poderia saber que eu sentia pena daquelas almas?
– Não brinque comigo garotinha — ela disse seriamente. — Fique longe dele!
Antes que eu conseguisse dizer algo, Carol foi embora rapidamente a longos passos. Minha respiração estava acelerada e meu peito palpitava fortemente. Olhei para todos os lados para ver se havia alguém ali. Ao me certificar de que tudo estava bem e que ninguém havia presenciado aquilo entrei no bloco da celas. O sol já raiava, iluminando o dia como se nada estivesse diferente.
No refeitório, Rick, Carl e Hershel estavam sentados à mesa enquanto Michonne e Beth procuravam algo para comer.
– O que está acontecendo aqui? — perguntei. — Acordaram bem cedo, não?
– Olha só quem está falando! — disse Beth rindo.
– Você deveria estar descansando — Hershel falou, me repreendendo. — Mais tarde quero ver como está esse tornozelo manco.
Concordei com a cabeça e me sentei à mesa junto com eles.
– Vamos sair daqui a pouco — Rick disse, respondendo minha primeira pergunta. — Carl, Michonne e eu.
– Não é perigoso? — perguntei lembrando-me do ataque dias atrás.
– Precisamos ir! — Carl pronunciou. — Estamos sem comida e Judith precisa de fórmula. Além disso, temos que conseguir munição e mais armas.
– Entendo... — falei um pouco distante.
– Não se preocupe — Michonne falou ao ficar do meu lado. — Vou cuidar deles!
– Obrigada!
Pouco tempo depois Rick, Carl e Michonne saíram para conseguir suprimentos e coisas para a pequena Judith. Prometi que ajudaria Beth a cuidar da pequena e não via a hora que pegá-la em meus braços.
Hershel deu uma olhada em meu tornozelo machucado e chegamos à conclusão de que seria melhor enfaixá-lo, assim eu me recuperaria mais rápido. Ele imobilizou o tornozelo e foi atrás das filhas, Maggie e Beth.
Carol estava lavando as roupas e decidi que ir ajudá-la poderia fazê-la ficar menos agressiva e talvez até explicar melhor toda essa situação. Saí do bloco das celas e fui até o pátio onde ela estava.
– Quer ajuda? — perguntei.
– Não venha querer bancar a boa samaritana para cima de mim. Não quero sua ajuda.
Antes que eu desse as costas para ela, minhas roupas voaram em minha direção.
– Lave sua própria roupa. Não vai receber nada de bom vindo de mim.
Ela continuou lavando a roupa de todos normalmente, como se nada tivesse acontecido e até mesmo dando a impressão de que estava feliz com tudo isso.
Peguei um balde e fui lavar minhas roupas do lado oposto de onde estava Carol. Eu não imaginava que ela fosse fazer qualquer coisa do tipo, mesmo depois da ameaça de hoje mais cedo. Tentei não pensar nisso. Sentei no chão e comecei a lavar.
Quando estava pegando uma blusa de frio, a última peça de roupa para lavar, Daryl se aproximou por trás. Meu coração se alegrou, mas meu olhar foi dirigido para a direção onde Carol estava. Ela me fuzilava.
– Porque a Carol não está lavando as suas roupas?
– Eu não quero dar trabalho para ninguém — falei escondendo a verdade.
– Não seria trabalho. Ela sempre lava as roupas e, além disso, você está machucada — ele disse apontando para o tornozelo enfaixado.
– Não tem problema, já estou acabando.
– Deixe que eu faça isso.
Daryl se abaixou, colocando sua besta em meu colo e pegando a blusa da minha mão. Puxou o balde para mais perto e começou a lavar delicadamente. Ele segurava o tecido de maneira suave e esfregava devagar.
– Tive que aprender a fazer tudo sozinho — ele comentou ao perceber que eu estava admirada. — Ou eu fazia ou então ficava sem.
– Seus pais trabalhavam fora o dia inteiro? — perguntei ingênua demais.
– Não... — hesitou. — Minha mãe morreu quando eu era garoto e meu pai não estava nem aí para Merle e eu. Mesmo sendo o irmão mais velho, Merle não fazia nada, sempre fugia. Então sobrava para mim.
– Oh... Desculpe, eu não sabia...
– Tudo bem — respondeu. — Aqui está sua roupa.
– Obrigada!
Peguei a roupa de sua mão e me levantei com a ajuda de Daryl. Por um momento coloquei todo o meu peso sobre minha perna direita e imediatamente vacilei. Daryl me segurou, puxando-me para si e segurando-me pela cintura.
Minhas mãos estavam em seus fortes braços e meus olhos fixos nos dele. Seu rosto estava próximo ao meu e minhas bochechas coraram. Eu podia sentir sua respiração calma apesar da velocidade com que agiu para não me deixar cair. Seus lábios estavam entreabertos e tive uma súbita vontade de beijá-lo.
Me afastei rapidamente mas sem largar seus braços. Soltei um riso constrangido.
– Tem que melhorar logo — ele disse, soltando minha cintura. — Como vai se defender desse jeito se nem consegue ficar em pé direito?
Ouvi uma risada contida vindo dele e não pude deixar de sorrir.
– Na verdade nem me defenderia direito — confessei. — É uma vergonha, eu sei... Mas é que nunca precisei disso antes.
Larguei seus braços, lembrando de Carol e olhando na direção em que estava, mas não a vi.
– Eu posso te ensinar algumas coisas — ele disse, fazendo parecer que não era grande coisa. Mas para mim era.
– Sério?! — perguntei sem conseguir conter minha ansiedade.
– Claro... — ele respondeu. — Nada que seja perigoso para você. E vamos devagar! Não quero sobrecarregar você Mel... — ele parou de falar, talvez se lembrando de quando disse para não me chamar assim. — Desculpe Melanie, não vai se repetir...
Ele gaguejou um pouco, tentando não atrapalhar a si mesmo no meio da frase.
– Tudo bem Daryl — falei, abraçando-o em seguida. — Pode me chamar do que você quiser.
Após dizer isso a ele, senti seus braços em volta do meu corpo.
(POV Daryl)
Meu dia até que estava sendo bom. Eu e Melanie — Mel, como agora eu podia chamá-la — estávamos nos dando muito bem. Ela me contava mais sobre sua antiga vida e eu respondia suas perguntas sobre mim.
Estávamos indo para a floresta que ficava na frente da prisão. Eu havia entregado a ela duas facas e uma pistola, caso algo acontecesse lá fora. Apesar da ameaça dos walkers, nós tínhamos uma ainda maior com a qual lidar: O Governador. E eu tenho certeza de que ele estaria sedento pelo sangue de Melanie.
– Não me sinto muito à vontade com uma arma... — ela reclamava baixinho. — Aqui nem há tantos errantes.
– Realmente — concordei, decidindo não comentar sobre o Governador. — Mas pode ser que encontremos alguma horda por aqui. Nunca se sabe.
– Você tem razão — ela disse, sorrindo. — Mas e então... Até agora você não me falou nada sobre o que viemos fazer aqui fora.
– Vou te ensinar a manusear uma faca e essa pistola aí — falei apontando a pistola com a cabeça.
– Tudo bem — ela disse, dando pulinhos que geralmente os lutadores de boxe dão ao se aquecer no ringue antes de uma luta. — Estou pronta!
Eu não conseguir me conter e soltei uma gargalhada, sendo acompanhando por sua risada gostosa.
– Não aqui — falei ainda rindo. — Um pouco mais a frente há uma pequena casa. Fico abrigado lá quando saio para caçar por muito tempo.
– É seguro lá? — perguntou um pouco preocupada. — Vamos ficar por quanto tempo?
– Calma. Lá é bem seguro e já tem todos os mantimentos de que vamos precisar. Além disso — acrescentei ao olhar seu rosto delicado. — Eu te protegerei até mesmo depois que for melhor do que eu.
Vi um lindo sorriso iluminar o seu rosto.
– Confio em você — disse olhando para mim.
– Também confio em você Mel — falei com sinceridade. — Mas por enquanto não confio em você para me proteger.
Nós rimos e continuamos a caminhar. O tempo estava maluco. De manhã estava frio de matar. Agora que o sol estava a pico, estava quente de matar. Por isso eu disse para que trouxesse roupas quentes e outras mais suaves.
Após andarmos por mais ou menos uma hora, chegamos numa casa pequena e amarela. Em volta dela havia uma pequena cerca branca que batia no meu joelho. Passamos por ela e entramos na casa.
Por dentro ela era ainda mais simples. A única divisória com porta era a do banheiro. Tudo era uma coisa só, cozinha, sala e quarto. A cama era de solteiro e eu a deixaria para Melanie, caso ela quisesse dormir ali por essa noite. Na casa não tinha sofá e como eu já sabia disso, trouxe um cobertor para colocar sobre o chão. Assim os dois ficariam confortáveis.
– É tão pequena! — disse Melanie olhando em volta. — É perfeita!
– É sim... Pequena e perfeita! — eu disse me referindo não à casa, mas sim à própria Melanie.
Nos acomodamos e esperamos o sol ficar um pouco menos intenso, pois poderia fazer mal à pele dela. Enquanto esperávamos, contamos algumas histórias engraçadas de nosso passado.
–... e então a pedra que ele jogou, bateu na minha cabeça e eu desmaiei na hora — eu dizia, contendo o riso. — Merle me contava que eu caí da margem, direto no lago, e ele saiu correndo. Esqueceu da nossa briga idiota e entrou no lago para não deixar que eu me afogasse.
– Mas ele não tinha medo desse lago? — ela perguntou realmente interessada no que eu dizia.
– Sim. Ele deixou isso de lado também.
Ela riu, mas logo se tornou séria.
– Parece que há algo mal resolvido entre vocês...
Encarei seu rosto sereno, mas preocupado, até com uma certa curiosidade. Desviei o olhar de suas esmeraldas e fixei-o na janela. Eu não sabia se devia contar para ela tudo o que aconteceu entre Merle e eu. Também não queria relembrar tudo aquilo novamente. Mas ao pensar que Melanie não me escondia nada e sempre me contava sobre ela e sua vida, decidi que eu devia me abrir com ela. Se eu quisesse que aquilo desse certo, eu deveria tratá-la como se já fosse uma parte de mim.
E era.
– A vida nunca foi fácil para nós — contei. — Nossa mãe vivia chapada e nosso pai era um bêbado que nos agredia sempre que tinha vontade. Um dia, após anos da morte da nossa mãe, Merle simplesmente foi embora, me deixando só com meu pai. Eu não podia deixar tudo para trás como ele fez. Eu ainda precisava de alguém para sobreviver, e Merle não poderia cuidar de mim.
"Mas meu pai não aceitou nenhum pouco sobre meu irmão ter partido e começou a descontar todo seu ódio em mim. Ele já não ficava mais sóbrio e vivia aos berros pela casa. Pegava a primeira coisa que visse pela frente e a usava como arma. Tudo o que eu via ele fazer com Merle estava acontecendo comigo.
"Ás vezes ele pegava varas e me amarrava para que eu não fugisse enquanto ele as usava para me chicotear. Outras vezes usava meu corpo para apagar os cigarros que fumava.
"Até o dia em que eu resolvi aprender a caçar e a me defender. Pouco tempo depois disso eu não precisava mais dele... e nem de ninguém. Fui embora e acabei indo morar com Merle.Nunca entendi porque ele me deixou. Ele era o único que me defendia daquele monstro, mesmo dizendo que tinha vergonha de mim. Mesmo o tendo perdoado, nunca me esqueci do que ele fez.
"Sempre fiz de tudo para não imitar essa sua escolha. Nunca o deixei para trás, nem mesmo quando era a coisa certa a fazer. E apesar de tudo, ele nunca se sentiu orgulhoso. Mesmo depois de fazer tudo o que ele queria que eu fizesse, imitar tudo o que ele fazia e ser igual a ele, continuei sendo o irmãozinho que não vale nada para ele..."
Finalmente olhei para Melanie. Seu rosto estava com uma expressão de choque, que logo desapareceu. Ela chegou mais perto e me abraçou, dando um beijo em meu rosto e dizendo:
– Não acho que ele saiba disso tudo que você passou depois que ele o deixou. E muito menos do que você sente em relação a ele. Talvez fosse bom para vocês dois conversarem e colocar isso a limpo.
– Por que está falando isso? — perguntei ao lembrar de como Merle agiu quando ela estava em Woodbury. — O Merle fez o inferno na sua vida, e você ainda está fazendo tudo isso? Por quê?
– Por que eu estou fazendo por você.
Pensei um pouco sobre isso e me lembrei de quando Merle e eu estávamos na floresta e acabou vendo minhas cicatrizes. Ele mesmo disse que não sabia o que nosso maldito pai fazia comigo.
– Talvez você tenha razão, nanica! — eu disse, bagunçando seu cabelo com uma das mãos enquanto eu me levantava. — Vou resolver isso quando voltarmos. Mas agora vamos — a peguei pela mão e a puxei para fora de casa. — Tenho que te dar uma aula.
Ela riu e foi andando na minha frente. Pensei que seria melhor ensiná-la longe da pequena casa, assim se algo acontecesse ainda teríamos como fugir e nos esconder nela. Melanie andava bem rápido para alguém com o tornozelo machucado. Senti um orgulho se formando, mas ainda assim eu me preocupava com ela. Uma preocupação que nunca senti com ninguém.
– Está sentindo dor? – perguntei andando um pouco mais rápido para ficar ao seu lado. – Seu tornozelo está doendo?
– Não, está tudo bem – ela disse, mas se pôs a andar mais devagar. – Se eu não colocar tanto peso nele, mal dá para sentir qualquer incômodo.
– Que bom! Isso quer dizer que eu não vou precisar pegar tão leve com você – falei brincando.
– Ah não! – ela exclamou, rindo. – Não ouse fazer isso Dixon. Senão terá volta!
– Tudo bem, tudo bem – eu disse rindo e levantando as mãos, me rendendo.
Ao achar que a distância estava boa, paramos e comecei a ajudá-la a manusear a faca. Melanie nem sabia como segurá-la direito, e eu nem queria imaginar como seria com a pistola. Depois de ensiná-la essa parte básica e superimportante, mostrei como acabar com um errante rápida e silenciosamente, e coloquei-a para treinar numa árvore que parecia com uma pessoa.
Deixei Melanie ali treinando e andei por perto, à procura de algum mordedor com o qual ela poderia treinar melhor. Mas quando dei por mim aquela teimosa estava caminhando ao meu lado, e achei melhor tê-la ao meu lado, onde eu poderia protegê-la. Andamos em silêncio até chegarmos no que parecia ser um galpão, na verdade mais que um. Avistei alguns walkers no local e puxei Melanie para se esconder atrás de um arbusto.
Havia quatro deles parados em pé e mais um se alimentando de algo... Ou alguém. Duas pessoas dariam conta deles numa boa. Mas Melanie ainda estava aprendendo, eu não podia arriscar. Não podia arriscar a vida dela.
– Fique aqui. Vou acabar com três dele e ficam dois para treinar. Se algo der errado corra para a prisão. Nem pare na casa, vá direto para a prisão.
– Daryl, treinamos com eles quando chegarmos na prisão! – ela sussurrava. – É muito perigoso aqui...
– Não precisa se preocupar – eu disse. – É rápido. Fique aqui.
Saí sem esperar uma resposta de Melanie. Atirei as flechas em dois dos errantes, mas quando me aproximei do terceiro, tropecei numa barra de ferro que jazia no chão. Minha besta se chocou contra a barra, fazendo um barulho alto e atraindo os outros errantes.
Tentei alcançar minha besta, mas o terceiro errante agarrou minha perna fazendo com que eu a jogasse para longe. Sem pensar duas vezes comecei a chutar o errante enquanto procurava uma maneira de me livrar daqueles filhos da puta. Olhei para o lado e vi Melanie correndo até mim e mais errantes aparecendo. Fiquei completamente desesperado.
–Melanie... – eu gritava entre um chute e outro. – Não! Volte para a prisão!
Peguei a barra de ferro e cravei na cabeça do errante que agarrava minha perna, bem no momento em que mais um me alcançava. Levantei-me rapidamente e atravessei o olho do outro com a mesma barra.
Melanie chegou perto de outro mordedor e eu soltei a barra, esquecendo de todo o resto. Ela empurrou o errante, que caiu, e enfiou a faca com força no crânio do corpo apodrecido. Fiquei tão surpreso com sua atitude que não percebi que um deles estava indo atrás dela.
– Melanie, cuidado! – gritei, pronto para acabar com aquele desgraçado.
Eu estava sem flechas, sem a besta e sem nenhuma arma. Mas o medo de perder aquela garota foi tão grande que simplesmente não consegui pensar em pegar a barra de volta. Puxei o errante, caindo com seu corpo pesado em cima do meu. Eu tentava manter sua boca e suas mãos longe de mim.
– Daryl! – Melanie gritou. – Socorro!
Olhei para o lado e vi que ela se encontrava na mesma situação que eu. Uma errante estava em cima dela e a faca estava longe.
– A faca! – gritei ao lembrar de que minha faca também estava com ela. – Use a minha faca!
Tentei empurrar o errante para o lado e pegar a barra que estava jogada no chão, não muito longe. Ao finalmente conseguir, me arrastei até ela, onde mais um errante me alcançou. Os dois estavam em cima de mim novamente, quando consegui alcançar a maldita barra e a joguei com força contra a cabeça de um deles, deixando-a presa sem querer. O walker abriu sua boca bem perto do meu pescoço e pude sentir seus dentes contra minha pele. Um segundo depois eu estava coberto de sangue.
Eu havia sido mordido... Esse era o meu fim. Pelo menos matei todos os errantes por perto, assim Melanie poderia fugir. Mas ela também estava sendo atacada por um deles... Não estava? Abri meus olhos e vi o corpo do errante sobre o meu, imóvel.
– Daryl? – ouvi a voz de Melanie. – Você está bem? – ela parecia um pouco desesperada. – Por favor, me diga que não foi mordido!
– Eu fui – falei. Minha voz estava mais rouca que o normal. – Desculpe...
– Não! Você não pode virar um deles! – ela gritava ao se ajoelhar e tirar o errante de cima do meu corpo. – Daryl, onde foi mordido?
Olhei seus olhos verdes com grande intensidade. Observei as lágrimas caindo e aquilo me doeu muito mais do que ser mordido. Parando para pensar, a mordida não havia doído nem um pouco.
– Daryl, me diga aonde foi a mordida!
Tombei a cabeça mostrando o lado mordido. Eu até me esquecia de que aquela pequena era médica. Senti seus dedos finos e delicados escorregarem com urgência pelo meu pescoço. Aquilo era bom, mas eu me sentia muito cansado.
– Daryl... – ela chamou, mas não respondi. O sono estava tão bom. – Daryl,não há nada aqui. Não há mordida alguma!
– Porque me sinto tão cansado então? – perguntei lentamente enquanto ela me puxava para seu colo.
– Você teve um surto de adrenalina muito grande – ela disse chorosa e me abraçando. – Agora o seu corpo está exigindo descanso. Venha!
Me levantei devagar enquanto minha mente clareava. Olhei para Melanie que estava com o corpo coberto de sangue.
– Por que está chorando? – perguntei enquanto voltávamos para a pequena casa amarela.
– Pensei que fosse te perder.
Paramos de andar e nos encaramos. Ela olhava ora para meus olhos, ora para minha boca. Aproximei o meu rosto do dela, e Melanie não me impediu. Colei nossas testas e fechei meus olhos.
– Acho melhor irmos para a prisão – ela disse e se afastou em seguida. — Ainda tenho que ajudar Beth
– Talvez seja bom. Podem estar precisando de nós.
Apesar de todo meu desejo por ela, respeitei o seu próprio tempo. O imã ainda estava ali. Sempre estaria. Mas meu medo de perdê-la por completo, não tê-la por perto, ou até de magoá-la era maior do que qualquer atração que eu sentisse por Melanie.
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