A Lista da Redenção

4 Lucas — Transbordando


Notas iniciais
Espero que gostem.

Digito com tanto nervosismo que erro três vezes a mesma palavra. Não conseguia entender o motivo de ser tão difícil de libertar isso de mim. Eu tinha tanto pra falar, tanto pra explicar, ainda mais com todas as nuances que o dia de hoje me proporcionou. Eu decidi que seria o momento certo para explicar, pelo menos para Sofia, que está cada vez mais jogando verde pra saber a verdade. Aqueles comentários não foram à toa, eu sei que ela suspeitou, e com razão. Não é justo não contar, mas eu sei que sou incapaz.

Mando e desligo a internet. Começo a sentir uma dor na barriga, mas sei que isso só se dava pelo incômodo que aquela situação me causava. Pequenas lágrimas escorreram levemente pelo meu rosto. Sento na minha cama e fico pensando o que fazer quando receber a resposta. Minha cabeça estava lotada, não parava de imaginar coisas, diálogos, possibilidades e sentimentos. Não é tão difícil falar com Sofia, mas dessa vez, admitir algo que me assombrou por tempos é sem dúvida a coisa mais desafiadora de se fazer. Ela entenderia e me ajudaria a superar tudo isso, mas como que eu conseguiria formar todas as palavras pra conseguir guiá-la para o problema que me atormenta? Mesmo ela sendo muito sensata, eu preciso pedir pela ajuda!

Me arrependo da mensagem. Eu sei que ela fica sem internet quando está na rua, por isso ligo a minha e vou apagar a conversa. Abro e vejo que ela visualizou e está digitando.

Oi, amigo

Pode falar, tá tudo bem?

Desligo a internet de novo e vou dormir, sei que ficarei acordado, mas essa é só mais uma das coisas que eu não consigo fazer no momento.

*

No dia seguinte me levanto cedo para mais um dia de aula, mas com a certeza que vou encarar Sofia e saber que devo uma resposta, uma explicação. Me arrumo com desânimo e tomo café antes de ir pra escola. Escovo os dentes e sigo. Sei que vou encontrar Pedro no caminho, pois há anos que isso acontece. Eu estava incomodado com o que estava acontecendo, mas de certa forma, quando encontrei com ele, tudo sumiu. Ele me fez pensar melhor sobre mim mesmo, mesmo que indiretamente, por isso, tive coragem de agir e, desastrosamente, tentei revelar para Sofia. Ontem, antes das meninas chegarem, foi realmente bom passar aquele momento com ele. Ficamos conversando sobre tudo e quando tocado no assunto da lista, ele me disse:

— Sei que você ficou meio nervoso com a lista, mas relaxa que vai dar tudo certo. Vamos deixar rolar, pra ver se realmente conseguimos. Podemos pular algum item se necessário, afinal, a gente escolhe. Mesmo que eu gostasse que fosse com todos os itens da lista. — finalizou rindo.

Fiquei amaciado com o que ele disse. Me senti com receio, ainda… mas agora era mais leve do que antes. Ele falava comigo de uma forma doce, com calma e sem hesitar, que eu o invejei por isso. Quando ficamos sozinhos na casa dele eu me pegava o encarando e fisgado pelo sua fala que não percebia minha pose em sua presença. Por segundos da conversa não me importava, mas aí veio a culpa e a necessidade de eliminar tudo que estava em mim. Eu estava no limite, até o topo de cores dentro do meu corpo que não aguentavam mais a vida em preto e branco. Escorria pelos meus poros; minha capacidade de armazenar o que havia trancado não estava mais suportando. Estava cheio. Estava lotado. Estava estourando. Estava transbordando…

— Bom dia, Lucas.

— Bom dia, Pedro.

— Como foi contar sobre aquilo?

— O QUE? — questiono exasperado sem a mínima noção de como ele soube daquilo. Como ele sabia que ia me abrir com Sofia?

— Ué, calma! É só sobre você pintar o cabelo. Lembra que você estava com dúvidas sobre seus pais? Então, achei que você conversou com eles.

— AHHHH, então, eu acabei que nem falei com eles, fui direto dormir. — digo com alívio.

— Tudo bem então, não sei porque ficou tão preocupado com isso tudo, mas vejo que a nossa conversa de ontem não adiantou de nada, continua nervoso com alguma coisa. — Pedro pontua rindo.

— Me desculpe, é que achei que você tava falando de outra coisa.

— E o que você pensou que fosse?

— Ah, nada, esqueça! É besteira. — droga.

— Hum, não sei se é, mas tudo bem, caso precise se abrir estou aqui. — diz Pedro com uma expressão zombeteira.

— Cale a boca, besta. — respondo rindo.

Chegando na escola já sinto um frio na barriga novamente, sei que devo explicações para Sofia, mas não sei o que farei. Ela já estaria no refeitório, como sempre fica antes do sinal tocar. O ônibus dela é o primeiro a chegar, por isso, ela passa um tempo lendo ou escutando música, ou ambos, antes que dê o horário. Sei que com Pedro e Alice por perto, ela não tocaria no assunto, mas mesmo assim é totalmente aterrorizante. Mas entramos, Pedro e eu, e seguimos até onde ela está sentada com o livro em mãos.

— Bom dia, flor do dia.

— Bom dia, Pedro, e… bom dia, Lucas.

— Bom dia… — respondo um pouco sem jeito.

— Então, ansiosos para sábado? Eu estou e pretendo levar algo pra gente tomar… se estiver tudo bem, é claro.

— Eu não vejo a hora! E você não pode levar Sofia, você deve! — diz Pedro com brilho nos olhos.

— Olá, pessoal. — diz Alice chegando atrás de nós.

— Oi, estamos falando sobre sábado e eu vou levar alguma coisa pra gente tomar, o que vocês preferem?

— Olha, por mim pode levar qualquer coisa, mas assim, sem querer exigir, só que eu prefiro vinho. — responde Alice um pouco brincalhona colocando sua mecha de cabelo atrás da orelha.

— Verdade, uma garrafa de vinho seria uma boa. O que vocês acham meninos?

— Obviamente que amamos a ideia. — digo.

— Sim, então tá certo. Só precisamos ver qual cor cada um vai pintar. — diz Pedro.

— Isso podemos ver sábado mesmo, pois acho que já deu o horário da aula, vamos Lucas. — diz Sofia guardando seu livro na mochila.

— Okay, então até depois gente!

Quando estávamos quase saindo do refeitório, Sofia questiona.

— E então, o que você tinha pra me contar?

— Ah, nada não, deixa pra lá. — digo com uma enorme vontade de sair correndo e me esconder em algum lugar da escola até o fim das aulas.

— Hum, você vai me contar, eu sei que não foi nada. Mas agora vamos sentar logo que a professora já tá chegando.

Eu estava encurralado, não haveria como escapar da verdade. Eu desejei que isso somente ocorresse no futuro, na formatura, talvez… assim, não lidaria com isso agora, mas não há jeito. Escolhi me abrir, criaria coragem e acabaria com isso de uma vez por todas, no sábado...

*

Passei a semana escapando dos questionamentos de Sofia. Ela me perguntou todo dia, mas depois de um tempo, consegui desviar com brincadeiras; isso me ajudava a preparar o terreno para conseguir contar tudo sem muita pressão. Mas enfim chegou sábado, e eu tive a conversa com minha mãe para concluir o primeiro item da lista, pintar os cabelos. Ela não ficou muito de agrado, mas já não tinha muito controle das minhas ações.

— Olha, faça o que você quiser, mas não vai ser eu que vai ficar com o cabelo horroroso na foto de formatura no final do ano. — concluiu com expressão de reprovação.

Depois da enxurrada de ânimo que minha mãe me deu, pensei positivo sobre hoje; e será um dia alegre, importante e libertador.

Pego minha mochila com tudo que preciso para ir pra casa de Pedro; além de completar o item, vou dormir lá. Alice e Sofia também irão, então, não seria tão estranho. Me despeço de minha mãe e sigo pela rua. Meu corpo estava intercalando entre medo e entusiasmo, mas no final sabia que seria o momento de tudo ficar bem de uma vez. Estive lotado de cores, era hora de deixar com que isso saísse de dentro para fora.

Chego na casa de Pedro e cumprimento todos. Conversamos um pouco, nos animamos para finalmente começarmos o primeiro da lista. Alice comprara 4 cores de tinta e teríamos que nos decidir quais ficariam com cada um. Observei sobre a mesa os frascos com as cores: azul, vermelho, verde e rosa.

— Tá, como vai ser a escolha? E vocês vão pintar o cabelo todo mesmo? — disse Alice animada. — É que não temos muito descolorante, acredito que dê para pintar todo o cabelo dos meninos, mas o nosso, que temos mais, não vai dar…

— Bom, podemos fazer algumas mechas então, por enquanto. — diz Sofia.

— Acho que vai ser injusto com Alice, ela queria pintar o cabelo todo. — diz Pedro. — Se não der, acho que o Lucas vai preferir pintar uma mecha mesmo, enquanto Alice eu pintamos inteiro. Se der, Sofia pode pintar também, mas vamos testando pra ver se dá a quantidade.

— Por mim pode ser. — diz Sofia.

— Obrigado, Pedro! Queria muito pintar meu cabelo mesmo. — agradece Alice.

— Não tem problema, eu quero pintar meu cabelo inteiro, se não tiver problemas, né. — digo pegando um pouco de vinho. — Agora estou de boa com isso.

— Olha só… — diz Sofia, assim como todos, com cara de espanto. — Gostei de ver, então qual cor você escolhe.

— Não sei ainda.

— Bom então alguém já se decidiu? — diz Pedro.

— Eu quero azul. — diz Alice.

— E você Sofia, qual você escolhe?

— Deixe eu pensar, acho que escolho vermelho mesmo.

— Fico com verde. — diz Pedro. — Então, Lucas fica com a cor rosa.

— Então, rosa será. — concluo com alívio e certa animação.

Minhas cores transbordavam, agora sairiam de verdade; e eu não podia mais guardar comigo. Estava prestes a exibir as minhas cores internas para que todos conseguissem ver como sou por dentro. Rosa pode ser uma cor que assusta as pessoas, tanto pela carga que ela traz sobre os gêneros. Mas meu medo do que as pessoas iriam achar não estava mais preso em mim, ela seria perfeita para o que eu estava prestes a fazer. Me abrir verdadeiramente para Sofia. Finalmente exibiria quem eu realmente era. Todos iríamos nos redimir naquela noite, mas eu sentia aquele item como meu, pelo menos enquanto não chegava no principal.

Beijar alguém do mesmo sexo.

Notas finais
E aí? O que acharam? Vou tentar postar todo domingo um capítulo novo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.