A Linhagem

1 Capítulo I - Entardecer com os Hull


Notas iniciais
Boa leitura! c:

I — Entardecer com os Hull ♕

Lauren era bem nova quando o rei Maxon faleceu, devido a alguns problemas em dois de seus órgãos nobres. Pouco foi comentado pela imprensa sobre o motivo do óbito. Ele era muito novo ainda, e o país inteiro entrou numa profunda depressão. Isso era tudo o que a mente de três anos de Lauren conseguiu captar.

A rainha America não abdicou. Manteve-se forte, mesmo com uma crise econômica pelo país. Já tinha uma neta de seis anos, Colette. Quatro anos após a morte do marido, já tinha mais um neto, Cole.

Agora, com o país recuperado da crise, America viu finalmente uma boa oportunidade para renunciar e ao mesmo tempo animar o país. A neta, Colette, atingira a maioridade, e a jovem mesmo sugeriu uma Seleção. A princesa Eadlyn agora reinaria com o príncipe consorte Kile, e talvez a ideia de uma nova rainha fizesse maravilhas à nação.

No dia trinta de novembro, Eadlyn foi coroada a rainha. E embora não tivesse importância para as outras famílias de Illéa, era o aniversário de 15 anos da filha única de Dominic e Peyton Green, Lauren.

○○○

O céu estava alaranjado. Logo escureceria, mas Lauren não jantaria em casa. Ficaria deitada na grama, observando o pôr do sol enquanto o senhor Hull tentava fazer uma fogueira. A senhora Hull insistia para que seu filho Teddy e Lauren levantassem, para estender uma toalha xadrez. Era o típico final de sábado.

Finalmente os jovens cederam e a senhora Hull preparou o piquenique, que seria próximo à casa de Teddy. Havia um grande pão feito pela mãe do menino, uma penca de uvas e um pote cheio de marshmallows, além de várias lanternas decorativas de chão — presente da mãe de Lauren. Mas ainda faltava algo.

— Acorde! — Lauren se certificou que a senhora Hull não estava olhando e deu um tapa fraco na cabeça de Teddy, que arrumara um lugar para se deitar e fingia dormir (mesmo que estivesse rindo).

— Ai! — exclamou baixinho o menino, se levantando e esfregando a mão na cabeça.

— Vamos pegar os lanches. Deixei minha mochila perto de Fawn e Noble.

— Espero que eles tenham comido a mochila.

Lauren deu um soquinho no braço de Teddy, enquanto eles caminhavam até a árvore onde deixaram os cavalos. Lauren voltou a examinar o céu, e percebeu que em questão de um curtíssimo tempo o tom alaranjado deu lugar ao roxo.

— Ainda não consigo acreditar que a rainha abdicou — comentou Teddy, enquanto fechava o zíper do casaco. Não costumava fazer muito frio no inverno de Tammins, mas o vento estava cortante naquele dia.

— Na verdade, ela não é mais rainha, ? A princesa Eadlyn que é. — A garota abraçava a si mesmo, tremendo de frio. Sua jaqueta ficara na mochila, e o suéter turquesa que usava não a esquentava.

— Tsc, tsc, Eadlyn não é mais princesa — corrigiu Teddy.

Ficaram alguns minutos sem nada dizer. Quando finalmente acharam os cavalos, amarrados à uma árvore, foi que Teddy murmurou, com um tom tristonho:

— Eles não comeram sua mochila.

— Bem que podiam comer sua cabeça.

— Ah, é? — debochou o menino. Subiu em Noble e o acariciou. Depois de algum tempo, continuou. — Quem chegar por último vai ter a cabeça como jantar da Fawn e do Noble!

— Ei! — bradou Lauren, tentando acompanhar Teddy e seu cavalo, que galopava furiosamente.

Quando finalmente alcançaram o casebre dos Hull, a pequena fogueira já estava acesa, a senhora Hull enfurecida com os jovens por terem demorado e o senhor Hull, sonolento, beliscava umas uvas, sentado num toco de madeira. Pareceu só se tocar que os adolescentes tinham chegado quando Lauren o chamou pela quarta vez:

— Tio! — Mesmo que o senhor Hull não fosse seu tio, Lauren o apelidara assim.

— Hm?!

— O senhor não vai tocar nada para gente?

— Ah, ah sim… — murmurava ele enquanto esfregava os olhos e tentava se levantar.

O senhor Hull voltou com um violão muito antigo e empoeirado. Não era Cinco, mas conseguia tocar uma coisinha ou outra. Entoavam cantigas de Tammins. Riam, comiam os lanches de pasta de amendoim e geleia que a mãe de Lauren, Peyton, preparara.

Os Hull eram Sete. Graças à família de Lauren, eles tinham uma vida melhor e trabalhavam na fazenda de café administrada por Peyton e Dominic. Graças à família deles, Lauren era feliz. Era muita generosidade deles a convidarem todo sábado para fazer um piquenique com os maravilhosos pães da senhora Hull.

Ela estava feliz, e aparentemente eles também.

Lauren chegou em casa tarde, mas não era problema. Seus pais ainda estavam jantando. Tia Lola, que morava com eles, a convidou para assistir o teatrinho de fantoches de seus trigêmeos, Anna, Alan e Aidam, todos de seis anos.

Após o teatro (que falava sobre a história de um menininho que estava visitando o avô e acabou se metendo em uma confusão com uma loba má), Lauren se jogou na cama. Enrolada em cobertores, pegou seu estojo de canetas e seu caderninho de teorias. Ficou um bom tempo olhando para a janela escancarada. Fazia frio, mas gostava que ela ficasse assim, aberta. Possivelmente pegaria um resfriado, mas em compensação estava com montes de cobertores de lã.

Olhando para a imensa propriedade que conhecia tão bem, percebeu que gostaria de sair dali. Era o seu lugar, sua cabeça dizia. Mas ao mesmo tempo Lauren pertencia a outro, a um outro ambiente. Que não sabia qual. Ainda.

Precisaria abandonar uma série de coisas. Daqui a alguns anos, talvez. Talvez nunca. Por enquanto, aquilo era impossível.

Nenhuma caneta assinalou uma conclusão naquela página.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Deixe um comentário c:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.