A Linha e o Linho

1 Capítulo Único


“Era uma vez uma camponesa que vivia em um bosque muito distante. Ela era muito solitária e sonhava viver um grande amor.

Porém, o bosque em que ela vivia era muito afastado do mundo. Lá, a camponesa jamais seria encontrada.

Entretanto, ela não estava disposta a abrir mão desse sonho. Ela queria se apaixonar, amar...

Então um dia ela resolveu que começaria a bordar.

Não era uma arte que a camponesa dominava, mas ela foi aprendendo aos poucos. Assim, quando a jovem percebeu que seus bordados eram agora não mais esboços de uma iniciante, e sim a obra-prima de uma artista, ela concluiu: “Agora, eu começo a bordar a minha vida”.

Em seus primeiros trabalhos, ela começou a bordar a figura de um céu azul, muito bonito. Durante muito tempo, ela ficou se esmerando nessa tarefa. Céu azul. Céu resplandecente e azul.

A jovem camponesa era muito obstinada. Não bordava outra coisa que não fosse um bonito céu azul, até o momento em que ela sentisse que o céu estava perfeito, como ela idealizava, do jeito que tinha de ser.

Quando concluiu o céu, ela começou a bordar pássaros que pudessem povoar esse céu.

Novamente, ela foi perfeccionista. Não bastava que fossem simplesmente pássaros. Eles precisavam voar, verdadeiramente. Tinham de ser tão perfeitos, feitos de linhas coloridas, que ela conseguiria acreditar neles.

Quando prontos, a jovem compreendeu que os pássaros precisavam de moradia. Seus dedos agora muito ágeis deslizavam rápido pelo pano; a linha verde atravessava as fronteiras e desenhava árvores.

As árvores foram difíceis. Eram muito tortuosas, embora ela não desejasse que fossem assim. Contudo, a linha bordava o pano de linho independente de sua vontade. E assim as árvores lhe pregavam peças, sendo-lhe aquilo que ela não buscava, mas de que não conseguia escapar.

Finalmente, quando aprendeu a controlar a rebeldia das árvores, depois de um número razoável de tentativas, a camponesa concluiu que era hora de bordar flores. Ah, como ela gostava de flores! Eram perfumadas, bonitas, enfeitavam o cenário! O céu azul se completava com a presença das flores! Os pássaros rodopiavam mais felizes em meio a elas! Até mesmo as árvores, inclusive as tortuosas, embeleciam-se com esses mimos da natureza!

Talvez a pressa com que ela começou a bordar as flores tenha sido o problema. Justo ela, que até então tinha sido paciente, cometia esse grave erro agora. Demorou tanto para encontrar o céu azul perfeito, levou o tempo necessário para preenchê-lo de pássaros, gastou uma soma considerável de horas, minutos e segundos para desentortar árvores...

Mas as flores foram mesmo sua perdição. E, por causa disso, ela feriu o dedo não poucas vezes. Às vezes, com sua agulha; em outras, nos espinhos ferinos das rosas...

Nas primeiras vezes em que se machucou, concluiu que havia sido azar. Não iria se desanimar só porque algumas flores não saíam de acordo com o esperado. A camponesa era persistente e continuou a bordar flores.

Essa tarefa, no entanto, era muito cansativa. A jovem cansou e fez anoitecer sobre o bordado. Ela precisava repousar.

O repouso, todavia, não foi o bastante. Quando tomou seu bordado em mãos, outra vez, a camponesa não tinha mais ânimo para fazer as flores. Aliás, sem que compreendesse realmente por que motivo agia assim, seus dedos levaram a agulha a trançar, com uma linha azul muito escura, as gotas cada vez mais pesadas de uma tempestade sobre o linho do bordado.

Uma tormenta como aquela destrói flores. Foi exatamente o que aconteceu.

Ou melhor... a forte chuva foi capaz de destruir algumas flores, mas não todas. Houve aquelas que se mostraram mais resistentes. Sobreviveram.

Diante desse fato, a camponesa sorriu. Ela finalmente sentia que poderia ser feliz com suas flores. Foi quando o sol brilhou muito amarelo naquele céu azul.

E assim, a camponesa foi feliz para sempre...”

— Era mais ou menos assim a história que a mamãe me contava, papai. Ela lhe soa familiar?

— Sim. Bastante familiar.

— Que bom! O senhor pode me dizer então em que livro estaria esse conto? Eu queria muito lê-lo...

— Por que acha que essa história veio de um livro, minha filha?

— Ora, porque tem todo um formato de conto fantástico, e... – a moça ponderou um pouco, mas terminou por decidir que o melhor seria revelar o fato que a levara até ali. Sim, era verdade; ela havia ido visitar seu pai, mas também estava em busca do livro que contivesse essa história – Está bem. Eu vou ser sincera, papai. Eu preciso desse livro porque só a minha memória não é o bastante. Eu queria ter essa história em mãos, concreta. Em forma de papel, livro, para que eu pudesse pegar, tocar...

O velho homem abriu um sorriso bondoso e paternal para a filha. Olhou então pela janela da varanda. Fazia um dia muito bonito. O céu estava muito azul.

A jovem, que parecia olhar para dentro de si mesma, não prestou maior atenção às feições do pai. Ela parecia bastante angustiada:

— Na verdade, se eu pudesse encontrar esse livro, acho que a primeira coisa que eu faria seria abraçá-lo...

— Abraçar um livro? Por quê? – indagou o pai, com a voz tranquila, voltando a observar a inquietação visível da filha.

— Porque... seria como eu estivesse abraçando a mamãe. Eu sinto tantas saudades dela, papai... E esse conto é uma das maiores lembranças que eu tenho dela. Desde que eu me entendo por gente, a mamãe me contava essa história. Eu adorava ouvi-la, pedia sempre que ela me contasse uma e outra vez, sempre antes de dormir. Esse conto me trazia bons sonhos. É engraçado; acho que nem era a história em si que me atraía nesse conto. O que me levava a gostar tanto de ouvi-la pela boca da mamãe era o fato de essa narrativa sempre trazer um bonito sorriso a ela. Mamãe gostava dessa história e ficava muito feliz de contá-la para mim. E eu gostava disso...

O pai não disse nada. Permaneceu sorrindo. Ele prestava atenção ao que a filha dizia, mas também parecia perder-se em memórias guardadas dentro de si mesmo.

— Se eu achasse esse livro, seria como encontrar um pedacinho dela que ficou por aqui. E eu queria muito isso, papai. Eu ando sentindo mais falta da mamãe do que nunca.

— O que houve, minha filha? Aconteceu algo?

A garota hesitou. Não era bem um assunto que pretendia tratar com o pai. Amava-o muito, sabia que ele era compreensivo, gentil e cuidadoso com ela, mas adoraria poder ouvir as palavras da mãe nesse momento. Sentia falta da mãe. Sentia falta do sorriso que ela lhe ofertava e que fazia parecer que tudo ficaria bem.

Era o mesmo sorriso que sempre iluminava o rosto de sua mãe quando contava essa história.

— Eu procurei em bibliotecas, perguntei a conhecidos, naveguei na internet em busca de informações a respeito... Ninguém parece conhecer esse conto! – respondeu a moça, desviando-se habilmente da pergunta do pai — Então, resolvi vir perguntar a você. O senhor sabe tudo sobre a mamãe. Certamente, deve saber de onde ela tirou essa história.

— E eu realmente sei. Mas essa história não veio de um livro, minha querida.

— Não? Mas então... Essa história foi inventada por ela?

— Mais ou menos...

— Ah, puxa... – a jovem demonstrou-se muito entristecida com essa revelação.

— Não é bem uma invenção. – o pai voltou a falar, olhando novamente para aquele céu tão azul – Você sabe o significado dessa história?

— Bom, eu... Imaginei que fosse um bonito conto, apenas...

— É a história de como sua mãe enxergava a vida. O céu azul era a vida dela, uma vida que ela optou por fazer azul. Sua mãe nunca foi pessoa de esperar que a vida acontecesse. Não; sua mãe fazia a vida acontecer. E ela quis que a vida tivesse esse cenário azul, tranquilo, calmo. Afinal, como ela sempre dizia, é preciso, antes de mais nada, estar de bem consigo mesmo. E ela estava.

— E... o que eram os pássaros?

— Os pássaros são os momentos alegres que serviam para salpicar a vida de felicidade. O céu azul é bonito, mas precisa de cor, de alegria. Sua mãe sempre buscou vivenciar os bons momentos com intensidade. Ela ia em busca dos pássaros. Cada momento ao lado dela era sempre incrível, porque ela sabia valorizar a alegria como poucos.

— Isso é verdade. A mamãe era capaz de transformar tudo em momentos marcantes e muito felizes. Quando ela penteava meus cabelos, arrumando-me para ir à escola, nós cantávamos. Quando ela resolvia preparar um bolo à tarde, mamãe me chamava para fazermos juntas, sujando toda a cozinha, que o senhor nos ajudava a limpar depois, lembra, papai? – a garota riu, saudosa – Era tão divertido! E eu adorava quando ela me levava para comprar livros! Mamãe me fazia acreditar que livrarias eram lugares mágicos e que ali, sempre que entrávamos, um livro se apaixonava por mim e eu precisava encontrá-lo para podermos levá-lo para casa... Comprar um simples livro tornava-se uma caça ao tesouro...!

— Sim, essa era a sua mãe. Uma mulher incrível... – o homem suspirou – E uma pessoa que nunca teve medo de enfrentar as dificuldades da vida. Sabe o que são as árvores do bordado? Problemas que surgem ao longo da vida. Nossas alegrias, às vezes, ocultam-se em problemas que precisamos aprender a controlar. Sabe, minha filha... Esse foi um grande ensinamento que sua mãe me passou. Nós não devemos desejar que os problemas não existam em nossas vidas. Eles são importantes, pois nos ajudam a aprender. Ajudam-nos a crescer. Inclusive, muitas vezes, as maiores alegrias nascem desses problemas que aprendemos a resolver.

— Entendi... – a jovem tomou um ar pensativo – Assim como os pássaros moram nas árvores... As alegrias podem residir em problemas com os quais aprendemos a lidar.

— Exatamente. – o pai sorriu, satisfeito – Você não se lembra? Sua mãe, naquela época em que seu cabelo começou a embaraçar muito, sofria para pentear seus cabelos, porque você chorava sempre que ela tentava. Aí ela começou a cantar... você cantava junto com ela... Isso relaxava as duas. O bolo, bem... Sua mãe nunca foi muito boa na cozinha, mas ela gostava de tentar e, com você, esse momento se tornava uma grande diversão, porque era como se as duas estivessem aprendendo juntas. Já a caça aos tesouros... Você não se lembra de que, no início da sua alfabetização, uma coleguinha lhe bateu com um livrinho e, a partir daí, você se recusava a pegar em qualquer livro? Sua professora estava já impaciente e a saída que sua mãe inventou foi ótima. Deu tão certo que, mesmo depois de passado o seu trauma, você gostava de ir às livrarias para que mais livros se apaixonassem por você...

— Eu me lembrava de ver a mamãe fazendo essas coisas, mas não sabia que os motivos tinham sido esses...

— Pois é, minha filha. Sua mãe transformava problemas em momentos tão bonitos e divertidos, que a lembrança que ficou foi da alegria, e não do problema inicial... E ela fazia isso com tudo que a rodeava. Sua mãe parecia ter descoberto o segredo da vida, afinal, ela era feliz. Mas a felicidade dela não era plena. Um coração tão bonito como o da sua mãe ansiava por se apaixonar... viver um grande amor.

— Como a camponesa da história?

— Sim. Por isso, ela abriu seu coração. Ela quis deixar as portas abertas para o amor entrar.

Nesse momento, a jovem se calou, introspectiva. O pai então prosseguiu:

— As flores do bordado são os amores que ela passou a sentir. Sua mãe enxergava o mundo como um lugar muito bonito e o amor, para ela, seria a essência de tudo. Se até os problemas e as adversidades da vida poderiam ser transformados em momentos lindos a serem vividos, então o amor deveria ser a prioridade em sua vida. Ela se entregou a esse sentimento sem reservas. Em virtude disso, ela se magoou. Houve amores que passaram pela sua vida e que deixaram apenas mágoa e tristeza. Isso a deixou muito machucada. Machucada e um pouco desacreditada da vida. É compreensível...

— Foi quando o bordado dela anoiteceu?

— Sim. A descrença dela no amor fez com que a escuridão se apossasse um pouco da vida da sua mãe.

— Escuridão é dor... – disse a jovem, parecendo falar mais consigo mesma.

— E dor se converte em lágrimas. As lágrimas foram a tempestade. Uma tormenta que deixou o céu nublado, espantou os pássaros...

— ... E destruiu as flores.

— Sim, mas não todas. Apenas aquelas que não estavam destinadas a florir no cenário daquele bordado. Foi assim que a sua mãe descobriu que, na vida, nem todos os amores têm de ser. Sabe, minha filha... Não há problema em amar. O amor é sempre bom, sempre há de deixar sua vida mais bonita, colorida, perfumada. Entretanto, nem todos os amores nascem para durar. E é preciso aprender a lidar com eles. Sua mãe logo viu a semelhança das flores com as árvores. Era necessário saber ter cautela e saber cultivar essas flores da forma certa, para que elas crescessem de modo que não machucassem. No cenário da vida dela, a chuva passou e ajudou a descobrir quais eram as flores que mereciam maiores cuidados. Quando ela descobriu que o amor que vem para ficar é aquele que sobrevive às tempestades, ela se entregou em definitivo.

— Ela se entregou para você. Você fez o sol brilhar na vida dela. – a garota abriu um sorriso de contentamento.

O pai não respondeu. Voltou a apreciar, com um sorriso singelo, a bela manhã que fazia naquele dia.

— Eu queria que essa história estivesse registrada em algum lugar. Agora, mais do que nunca, eu queria que isso fosse mais concreto... Essa história é a mamãe. Eu gostaria de tê-la sempre comigo...

Ao ouvir essas palavras, o pai voltou o olhar saudoso para a filha. Levantou-se da cadeira em que estava e fez um gesto para que a jovem o seguisse.

Foram ao quintal da casa, e o pai parou junto ao varal, onde se secavam toalhas de mesa e de banho, colchas de cama e lençóis...

— Sabe por que sua mãe criou uma história que a representasse por meio de bordados?

— Por que ela adorava bordar. – a filha respondeu, passeando pelos lençóis de linho e notando os bordados que sua mãe sempre fazia ali, deixando sua marca em cada uma daquelas peças penduradas, estendidas ao sol.

— Sim... E assim ela sempre pôde deixar um pedacinho dela em muito do que nós temos até hoje nesta casa. Eu mantenho essas toalhas e lençóis por causa disso. Tem um pouco dela em cada uma dessas peças...

A garota abraçou-se a um lençol, já seco devido ao sol, que esvoaçava perto dela.

— No entanto, por mais que essas peças me tragam lembranças da sua mãe, a mais bonita recordação que eu tenho dela está entranhada em mim. – o pai complementou, colocando a mão sobre o peito – Sua mãe bordou a vida dela na minha. Vivemos um amor tão forte, que eu sinto em cada centímetro do meu corpo o traçado da nossa história. Está bordado em mim, na minha vida, desde o nascimento da nossa paixão, até as loucuras que fizemos juntos... Desde as brigas mais ferrenhas, aos momentos de grande calmaria. Está tudo aqui. Tudo. E o mesmo vale para você, minha querida. Você não precisa de algo concreto para sentir sua mãe mais próxima. Ela também bordou na sua vida a linha dela. E esse bordado é inerente à sua existência. Ela está em você, porque a vida dela está entrelaçada à sua.

O pai não precisou dizer mais nada. A filha compreendia. No fundo, ela já sabia, mas tinha precisado ouvir para tomar consciência. A mãe existia nela. Uma das mais ternas lembranças, a história da camponesa, era inclusive o maior ensinamento de que precisava agora.

Os primeiros amores eram devastadores, a filha sabia. Conhecia. Sentia. Sofria. Os sentimentos não calavam, ela não sabia como lidar. Tinha medo de não ser feliz.

Mas a mãe, bordada em linha tão íntima, dizia-lhe com a voz em sussurro, como o vento que deslizava por seus cabelos, que a felicidade não se espera; ela se faz.

A filha dava-se conta de que a mãe ensinara-lhe o caminho, desde sempre. Em meio a um maravilhoso cenário de céu azul, pássaros coloridos, árvores e flores, a garota enxergava uma trilha. Sua mãe ensinava. Ela aprendia.

A vida, afinal, existia para ser vivida, e não temida.

E a filha viveria.

Haveria um sol também para ela...

Brilharia.

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A Linha e o Linho (Gilberto Gil)

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!