A Linha Tênue Entre Nós
7 Capítulo 6 – Efeito Colateral
Emily Prentiss sempre soube separar. Trabalho de vida pessoal, razão de emoção, desejo de necessidade. Era assim que sobrevivia. Era assim que se mantinha firme em meio ao caos que a BAU enfrentava todos os dias.
Mas naquela manhã, ao encarar o espelho da pousada, percebeu algo diferente. Não era apenas o rosto cansado que a incomodava, nem as olheiras que denunciavam a falta de sono. Era a sensação física, real, ainda latejando nos lábios.
O beijo.
Ela o sentia como uma marca invisível. Um lembrete insistente de que havia cruzado uma linha que sempre jurara não atravessar.
Sacudiu a cabeça, como se pudesse expulsar a lembrança, e foi para o briefing.
Na sala principal, mapas cobriam as mesas, linhas e círculos formando o quebra-cabeça que todos tentavam decifrar. Hotch falava, JJ anotava, Rossi observava. Emily estava ali, como sempre — firme, profissional. Mas por dentro, o peso era outro.
Ela se posicionou ao lado de Reid quase por reflexo, e isso bastou para sentir a corrente elétrica voltar a percorrer seu corpo. Não era preciso contato; bastava a proximidade. O cheiro discreto do perfume dele, o som de sua respiração calma demais, o brilho intenso nos olhos quando falava de símbolos.
Emily mal percebeu que Hotch a chamava até que a voz dele cortou sua distração:
— Emily? Sua leitura da progressão.
Ela piscou, puxando ar, forçando a compostura.
— Ele escolhe locais carregados de simbolismo. Quer que o ritual seja visto como maior do que os crimes em si. — A voz saiu firme, mas por dentro ela estava quebrada.
No moinho abandonado, a luta ficou ainda mais cruel.
As paredes exibiam símbolos queimados, e Reid se inclinou para estudá-los. Emily deveria estar concentrada nos traços, nos padrões, mas não conseguia. Tudo o que via era a lembrança da noite anterior, da boca dele contra a sua, da pergunta que ecoava: e depois do caso?
Ela se obrigou a olhar para frente, a prender os olhos no trabalho, a afastar os pensamentos. Mas cada gesto parecia sabotagem. O coração disparava com facilidade absurda, as mãos tremiam quando tocavam o mapa, e até a lanterna parecia pesar mais do que devia.
Emily respirou fundo, tentando se ancorar no que conhecia: disciplina, controle, lógica. Mas nada disso bastava. Não havia regra que apagasse o que já tinha acontecido.
De volta à pousada, a equipe se dispersou para cruzar informações. Emily se isolou em um canto com relatórios, mas as letras se embaralhavam diante dela. Queria focar, mas o corpo ainda lembrava — lembrava o calor, lembrava o gosto.
No espelho do banheiro, mais tarde, encarou a si mesma e pensou: Resistir a ele está me consumindo mais do que o próprio caso.
Era isso o verdadeiro efeito colateral: não o cansaço, não a pressão, não o peso do ritual do assassino. Mas a chama que Reid havia acendido dentro dela, impossível de apagar.
E pela primeira vez em muito tempo, Emily não tinha certeza se era forte o suficiente para vencer a própria vontade.
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