A Linha Tênue Entre Nós
4 Capítulo 3 – Perto Demais
A sala improvisada no quartel-general da polícia local era pequena, abafada, e iluminada por lâmpadas frias que lançavam sombras duras nas paredes descascadas. Uma mesa comprida fora coberta com mapas da cidade, fotografias ampliadas das vítimas e impressões borradas dos símbolos encontrados. O ambiente exalava café requentado e papel úmido, o cheiro típico de uma base montada às pressas.
Hotch, Rossi e JJ haviam saído para conversar com o xerife e alinhar declarações para a imprensa. Restavam apenas Emily e Reid, mergulhados em um silêncio tenso que parecia vibrar junto com a chuva que tamborilava nas janelas.
Emily folheava um relatório, mas os dedos batiam contra a mesa com impaciência. Finalmente, fechou a pasta com força, o estalo ecoando pelo espaço.
— Você está se perdendo em contos de fadas, Reid. — A voz dela saiu firme, quase dura. — Símbolos, deuses esquecidos, mitologias obscuras… tudo isso pode até impressionar numa sala de aula, mas não vai nos levar ao assassino.
Reid ergueu os olhos do caderno onde fazia anotações frenéticas. O brilho nos olhos dele era tão agudo quanto a resposta.
— Não são contos de fadas, Emily. — Ele apoiou as mãos na mesa, inclinando-se para frente. — São padrões. O assassino está deixando um rastro simbólico, uma sequência lógica. E se ignorarmos isso, vamos perder a chance de antecipar o próximo movimento.
Emily cruzou os braços, postura defensiva, mas o olhar firme.
— Padrões não matam pessoas, Reid. Pessoas matam pessoas. Enquanto você mergulha nesses enigmas, alguém lá fora está escolhendo a próxima vítima.
A intensidade na voz dela fez Reid dar um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— E se eu tiver razão? — A voz dele estava mais baixa, mas cada palavra carregava uma força contida. — E se esses símbolos não forem distrações, mas o mapa que aponta exatamente quem será o próximo?
Emily piscou, irritada, mas sem recuar. O ar entre eles parecia mais quente, como se a proximidade fosse combustível para o atrito. Ela respondeu, a voz controlada, mas levemente trêmula de raiva:
— Você é brilhante, Reid. Ninguém aqui duvida disso. Mas às vezes esquece que estamos lidando com carne e osso, não com pergaminhos empoeirados.
Reid a encarou, o maxilar tenso, e então deixou escapar em tom quase ferido:
— E você esquece que entender a mente do assassino é a nossa melhor chance de impedir que alguém morra.
O silêncio que seguiu foi mais intenso do que qualquer grito. Eles estavam a centímetros de distância, respirando mais rápido, como se cada um desafiasse o outro a recuar primeiro.
Emily sentiu a pulsação acelerar, irritada consigo mesma pela fraqueza involuntária. A postura ereta de Reid, o olhar obstinado, a forma como ele parecia acreditar em cada palavra como se sua vida dependesse disso… Era sufocante e fascinante ao mesmo tempo.
Ela tentou manter o controle com ironia.
— Você é insuportável quando tem tanta certeza.
Reid deu um meio sorriso quase imperceptível, inclinando-se um pouco mais.
— E você é insuportável quando não admite que pode estar errada.
O mundo pareceu se dissolver. Não havia mais mapas, nem fotos, nem casos. Apenas a linha tênue entre repulsa e desejo que os prendia. Emily percebeu que não estava respirando direito, e Reid pareceu notar isso, o olhar dele descendo por um instante para os lábios dela antes de voltar aos olhos.
Os rostos se inclinaram, devagar, como se ambos resistissem ao inevitável. A tensão se tornou palpável, quase elétrica, o tipo de energia que poderia explodir em qualquer direção.
E então — a porta se abriu com violência.
JJ entrou ofegante, segurando o celular contra a orelha, sem sequer notar o que interrompia.
— Temos outra vítima! — anunciou, séria, a respiração curta pela pressa. — Precisamos ir agora.
Emily e Reid se afastaram como se tivessem sido atingidos por uma corrente fria. Emily virou-se rapidamente para a mesa, fingindo reorganizar os papéis. Reid ajeitou o paletó e passou a mão pelos cabelos, tentando parecer focado.
JJ não percebeu nada; já estava repassando informações ao resto da equipe.
— É um adolescente. Encontraram o corpo num parque da cidade. A cena é recente.
Hotch e Rossi surgiram logo atrás, e o ambiente foi tomado pelo som de ordens, passos apressados e armas sendo verificadas.
Mas entre Emily e Reid, o silêncio era outro. Carregado, denso, como se algo tivesse sido quebrado ou, talvez, apenas adiado.
Quando Emily passou pela porta, ainda sentia a pele arrepiada pela proximidade de instantes antes. Reid ficou um segundo a mais na sala, tentando reorganizar o turbilhão em sua mente.
Perto demais.
E ambos sabiam disso.
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