A Linha Tênue Entre Nós
2 Capítulo 1 – A Chama
O vento cortava as ruas vazias da pequena cidade de Ravenbrook, o tipo de lugar onde nada parecia acontecer — até aquela noite. As sirenes piscavam em vermelho e azul contra as paredes gastas de um galpão abandonado, iluminando silhuetas tensas de policiais locais.
Dentro, o ar cheirava a ferrugem, poeira e algo mais metálico: sangue fresco.
A vítima jazia no centro do espaço, cuidadosamente posicionada. Os braços estavam abertos, como em uma oferenda. Em volta do corpo, símbolos pintados em vermelho formavam um círculo irregular. Não eram letras comuns, mas traços curvos e pontiagudos que lembravam runas esquecidas, misturando ecos de culturas antigas.
— Nunca vi nada assim… — murmurou o xerife, puxando a gola do casaco para se proteger do frio.
A câmera imaginária se aproximaria da vela solitária ao lado da vítima, a chama tremulando, insistente, como se desafiasse o silêncio pesado do galpão.
Foi ali que o caso ganhou seu nome:
O Culto da Chama.
A sala de briefing estava iluminada apenas pelo projetor. Imagens do crime apareciam na tela, fazendo alguns membros da equipe trocarem olhares graves.
Aaron Hotchner, com sua expressão séria habitual, quebrou o silêncio:
— Temos uma nova vítima em Ravenbrook. O corpo foi encontrado em um galpão, cercado por símbolos estranhos. O detalhe mais marcante foi uma vela deixada acesa ao lado do cadáver.
JJ acrescentou, folheando o dossiê:
— A imprensa já está chamando de “ritual satânico”. Precisamos controlar a narrativa antes que cause pânico.
Emily Prentiss apoiou o cotovelo na mesa, estudando as fotos projetadas.
— Parece encenação. Mas alguém gastou muito tempo escolhendo cada detalhe.
Na outra ponta, Spencer Reid se inclinou para frente, os olhos brilhando com curiosidade quase febril.
— Esses símbolos não são aleatórios. Tenho a impressão de que remetem a uma tradição muito mais antiga… algo que não se encaixa no que normalmente chamariam de “satânico”.
Prentiss ergueu uma sobrancelha, cética.
— Você acha que estamos lidando com um ritual genuíno?
Reid piscou, como se a pergunta fosse simples demais.
— Não genuíno, mas inspirado. Assassinos assim costumam se alimentar do simbolismo. Pode ser sumério, nórdico… ou até mais obscuro. Vou precisar de mais tempo para cruzar referências.
Hotch fechou a pasta e encerrou:
— Preparem-se. Partimos em duas horas.
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O jato da BAU sobrevoava a noite silenciosa. No interior, a equipe revisava o dossiê enquanto o som constante das turbinas preenchia o espaço.
Garcia, em videoconferência pelo monitor da cabine, falava animada, apesar do peso do caso:
— Então, meus amores, fiz uma varredura rápida: nada conecta a vítima a cultos conhecidos ou grupos de ocultismo online. Ele era professor de história local, respeitado, vida tranquila, zero antecedentes criminais.
Rossi cruzou os braços, pensativo.
— Um professor de história. Não é coincidência, dado o que vimos nas paredes.
Reid, já com uma pilha de anotações em mãos, não resistiu:
— Os símbolos parecem uma mistura de runas do Elder Futhark com elementos sumérios. É improvável que alguém sem acesso a fontes especializadas conseguisse recriar isso com tanta precisão.
Emily, do outro lado da mesa, suspirou discretamente.
— Ou talvez seja alguém com acesso à internet e muito tempo livre. Às vezes, é só isso, Reid.
Ele levantou os olhos, ofendido pela simplicidade da observação.
— Não é tão simples assim. Há nuances que indicam intenção — a disposição em círculo, os pontos cardeais marcados. Ele não apenas copiou símbolos; ele os entendeu.
Hotch interrompeu antes que a tensão escalasse.
— O que importa agora é que temos um assassino organizado, ritualista, e possivelmente obcecado por uma mitologia que poucos conhecem. Isso nos dá um perfil inicial: alguém com inteligência acima da média e uma necessidade de controle.
JJ completou:
— E alguém que quer ser notado. A vela acesa é um convite. Ele está chamando atenção.
O silêncio se espalhou por alguns segundos. Todos sabiam o que isso significava: não seria o último corpo.
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