A Linha Tênue Entre Nós
15 Capítulo 14 – Estruturas em Colapso
Reid sentiu o aviso antes mesmo de entendê-lo — um frio ancestral na nuca, um instinto que falava mais alto que a lógica. O silêncio no estacionamento subterrâneo era espesso, opressivo. Seus próprios passos ecoavam como intrusões num lugar que já não parecia seguro.
Ele parou.
O carro estava ali, intacto. Tudo parecia em ordem.
*Ordem demais.*
O movimento atrás dele foi um sussurro rápido. Depois, o impacto — seco, preciso, na têmpora. O mundo desmontou-se em riscos de luz, e o concreto subiu para encontrá-lo. Antes da escuridão, ele viu o reflexo trêmulo de uma chama no chão. E ouviu a voz, calma e letal:
— Ela vai vir.
***
No briefing, o rádio de JJ chiou.
— Reid não responde. Saiu há quinze minutos.
Emily levantou-se de um salto.
— Para onde?
— Foi ao carro.
O sangue gelou nas veias de Emily.
— Ele nunca faz isso sozinho à noite.
Hotch fitou-a, alerta.
— Emily…
Ela já estava em movimento.
— Câmeras do estacionamento? — jogou para Garcia, que já digitava freneticamente.
O rosto de Garcia perdeu a cor.
— Meu Deus.
A imagem surgiu: Reid andando. A sombra. O golpe. O corpo sendo arrastado para fora do quadro.
O silêncio na sala ficou pesado, cortante.
Algo se partiu dentro de Emily.
— Ele levou o Reid — disse, a voz perigosamente baixa.
Hotch aproximou-se.
— Protocolo, Emily. Perímetro, apoio.
Ela virou-se. Seus olhos estavam escuros, em chamas.
— Não. Ele quer *a mim*. Fora de posição. Emocional.
— É exatamente por isso que não pode ir sozinha.
A respiração de Emily acelerou.
— Elias me conhece. Sabe que o Reid é… — a voz falhou por uma fração de segundo — …sabe que eu não vou esperar.
Hotch segurou seu braço.
— Se fizer isso…
Ela soltou-se.
— Então me demite depois. Mas se eu ficar aqui enquanto ele machuca o Reid, nunca mais durmo em paz.
O silêncio que se seguiu foi carregado de consequências.
Hotch estudou seu rosto por um longo instante.
— Você tem dez minutos.
Ela já pegava a arma.
— Não vai precisar de mais.
***
Reid acordou com o cheiro de fumaça e cera, a cabeça latejando. Seus pulsos ardiam, amarrados. O ambiente era uma caverna de concreto, iluminada por um círculo amarelo de velas. Símbolos estranhos riscavam as paredes.
— Sabe onde está? — a voz era suave, didática.
Elias Calder emergiu das sombras.
— Um lugar de transição. Onde as escolhas se revelam.
Reid respirou fundo, combatendo a náusea.
— Você quer a Emily.
— Claro. Mas você… — Elias sorriu, um gesto fino — …você é a prova viva.
— Prova de quê?
— De que ela nunca foi só uma agente. Você é o apego. A falha humana dela.
Reid manteve o olhar firme.
— Ela vai te encontrar.
— Eu sei. — O sorriso alargou-se. — É por isso que *você* está aqui.
A porta explodiu.
A madeira estilhaçou-se, e o disparo de Emily ecoou como um trovão. Uma vela tombou. O círculo estava quebrado.
— FBI! Afaste-se dele!
Elias virou-se com uma calma perturbadora.
— Você veio.
Ela avançou, a arma uma extensão firme de seu braço.
— Solte-o. Agora.
— Quebrou o protocolo. Igual em Madrid.
— Cale a boca.
Elias ergueu as mãos lentamente, mas seus olhos voltaram-se para Reid.
— Viu? Eu disse. Você é a fraqueza que a torna previsível.
Emily não hesitou.
— E você subestimou até onde essa fraqueza me levaria.
O disparo não foi para matar. Atingiu a coxa de Elias, que caiu com um grito abafado. Emily correu até Reid, as mãos trêmulas trabalhando nas amarras.
— Olha pra mim. Você está comigo. Respira.
Reid ofegou.
— Você… veio.
Ela puxou-o para um abraço rápido, desesperado — uma concessão de um segundo — antes de se recompor.
— Sempre.
Ao longe, as sirenes começaram a uivar.
Elias, caído, riu entre dentes.
— Não acabou. Agora você escolheu.
Emily virou-se, e sua expressão era de granito.
— Escolhi salvar quem eu amo.
E soube, naquele instante, que uma linha havia sido cruzada. Não havia retorno.
***
Elias não gritava. Mesmo sangrando, um sorriso incurável permanecia em seus lábios.
— Fique em silêncio — ordenou Emily, a arma ainda apontada.
Ele riu, um som rouco e cansado.
— Acha que isso é uma vitória?
Hotch entrou com a equipe. JJ correu para Reid. Rossi manteve a mira. Tudo parecia controlado.
Parecia.
Enquanto o algemavam, Elias inclinou-se para Emily. Sua voz, fraca, cortou o ar:
— Você não era o objetivo final. Nunca foi.
Ela congelou.
— Cale a boca.
— Eu era apenas a faísca. Para tirar você do eixo.
Reid, envolto no cobertor térmico, sentiu um frio na espinha.
— Do que ele está falando?
Elias olhou para Reid com algo que se parecia com pena.
— Acha que eu teria acesso a tudo sozinho? Recursos, câmeras cegas, informações internas?
O coração de Emily pareceu parar.
— Quem mais? — exigiu Hotch.
— Alguém que odeia você há muito mais tempo.
A ambulância levou Elias, mas suas palavras permaneceram.
Horas depois, Garcia quebrou o silêncio.
— Pessoal… isto não foi obra de um homem só.
Todos se voltaram para seus monitores.
— Os servidores, os canais… não são dele. Alguém limpou os rastros em tempo real. Muito antes do sequestro.
Rossi aproximou-se.
— Nível?
— Alto. — Garcia engoliu em seco. — Nível interno.
O ar ficou pesado.
— Ele disse que eu não era o final — murmurou Emily.
Garcia digitou freneticamente.
— E estava certo.
Uma nova janela surgiu. Uma pasta sem nome. Apenas um símbolo: uma chama atravessada por uma lâmina.
— Já vi isto. Em arquivos de inteligência. Operações encobertas desmanteladas. Agentes desacreditados. Vidas destruídas.
— Um operador fantasma? — perguntou Reid.
— Não — corrigiu Rossi. — Um *arquiteto*.
Hotch respirou fundo.
— Alguém que não mata com um tiro. Alguém que arrasa tudo ao redor primeiro.
A tela mudou. Uma lista surgiu. Nomes. Casos. Operações. Todas com um ponto em comum.
Emily Prentiss.
— Não… — sussurrou ela.
— Ele escolhe sobreviventes — disse Garcia, a voz embargada. — Agentes que seguem em frente. E então… tira tudo.
Reid foi para o lado dela.
— Isto não é vingança. É obsessão.
O rádio de Hotch chiou.
— Situação de mídia. Vazou um dossiê antigo. Alegações contra a Agente Prentiss em Praga. Falha operacional. Abandono de informante.
O chão parecia desaparecer sob os pés de Emily.
— São mentiras — disse Reid, firme.
— A veracidade não importa agora — respondeu Hotch, sombrio. — Só importa que pareça verdade.
Foi então que o celular de Emily vibrou. Número bloqueado.
A tela acendeu com uma linha:
**“A chama se apaga quando seu oxigênio acaba. E o seu está acabando.”**
Um silêncio gelado desceu sobre a sala. A mensagem não era uma ameaça; era um diagnóstico. Um prognóstico. Reid leu e seu aperto na mão dela se tornou mais forte, uma âncora.
— O oxigênio somos nós — ele disse, desafiador. — Esta equipe. A verdade.
Mas Emily via além das palavras. A “chama” era ela. O “oxigênio”, tudo que a sustentava: reputação, lealdade, credibilidade. Alguém estava selando a câmara ao seu redor.
— Ele não quer me matar — disse, a voz rouca pela compreensão amarga. — Quer que eu sobreviva. Sem nada.
E em algum lugar, nas sombras entre os dados e as mentiras, o verdadeiro inimigo observava. Paciente.
O jogo começara. E o primeiro movimento para demolir suas estruturas — uma a uma — já estava em andamento.
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