Quando tiver que fazer uma difícil escolha em sua vida, não pense duas vezes. No final da situação você optará pela mais complicada. Encarar a realidade passou a ser necessidade na vida de Hellen; um desejo insaciável por conhecimento habitou dentro de si. Não esperou muito tempo até aceitar a oferta de Tony, conhecido por seus colegas graças à façanha de conseguir sempre o que precisou. A mãe da jovem talentosa teve proteção do governo e foi lhe dada uma nova identidade. A senhora Cross sabia que apesar da distancia, poderia se comunicar com Hellen uma vez a cada dia através de um comunicador particular, controlado pela ABIN.

Aquele poderoso prédio no centro da cidade, visto por todos como uma corporação internacional, tinha como finalidade agenciar pontos de espionagem nas mais variadas cidades do país. No último andar daquele arranha-céu, estava a sala principal; composta por mais de quarenta funcionários, incluindo os dez principais do tão sonhado programa COBEN.

O Programa COBEN foi idealizado pelo americano Jerry G. Foster, cujo objetivo principal é estabelecer cinco diretrizes fundamentais para a proteção de espionagem. O primeiro projeto do programa foi o tão aclamado Black Wall, desativado no primeiro teste por motivos de segurança. Antes que outros projetos pudessem ser apresentados, a instalação e todo seu complexo foram militarmente atacados e seus fundadores, assassinados. Com uma instalação revitalizada após décadas, o Programa COBEN irá reativar seu primeiro projeto (Black Wall) e reiniciar uma interminável coleta de dados do mundo da espionagem. Mas para que tudo aquilo pudesse criar asas, Hellen teria que se adaptar ao novo sistema de tecnologia imposta pela ABIN.

O colchão macio daquela cama feita de madeira maciça foi aceito por Hellen, que se sentiu muito confortável naquele novo quarto. Tinha uma vista incrível da cidade através da grande janela de vidro, que parecia mais uma parede; havia uma televisão de última geração, uma cômoda e um guarda-roupa com as melhores peças completavam o resto do quarto. Alguém bateu na porta duas vezes e girou a maçaneta. Tony mais uma vez veio ao encontro de sua menina de ouro. Perguntou se ela estava confortável, se precisava talvez, de mais alguma coisa. E Hellen só pediu que tivesse algumas horas de solidão.

– Se mudar de ideia, pode vir até a minha sala. Amanhã teremos um longo dia pela frente.

– Não se preocupe comigo, senhor Tony. Vou ficar bem sozinha.

Num velho galpão abandonado, no subúrbio dominado por pequenas redes do crime, o adolescente Eric Marshal treinava sua pontaria em papelões recortados na forma humana. Aquele jovem cheio de segredos passou boa parte da infância sendo treinado pelo tio veterano de guerra John C. Marshal, morto há um ano depois de colocar abaixo, ao lado do sobrinho, uma das gangues mais diabólicas da cidade. John deixou como herança quatro milhões de dólares numa conta no exterior, um arsenal de armas com munições para uma nova guerra mundial e uma mansão no bairro mais caro daquele estado.

Mesmo com todas as regalias, Eric nunca deixou de exercitar um só dia seus princípios, ética e claro, sua arte marcial. Ele poderia estar neste momento viajando ao redor do mundo num jato particular, ou num cruzeiro de luxo transando com as mulheres mais gostosas deste século; mas não… Estava focado em seu futuro. Não poderia jogar tudo o que ganhou fora. Assim como não conseguia, parar de pensar em Hellen.

Um novo dia radiou na grande cidade. Hellen acordou cedo e aguardou novas instruções, vindas rapidamente pelo próprio Tony, feliz em vê-la na sala das máquinas. O desafio daquela manhã, seria integrar os comandos cerebrais de Hellen com o programa Black Wall, desconectado da internet.

– Nosso objetivo será simples. – disse Tony – Há um banco de dados ativo com tamanho máximo de 200 megabytes dentro do Black Wall. Você precisa ativar qualquer informação composta neste banco de dados e dizer o que sua mente está recebendo. É como se você soubesse de alguma coisa sem nunca ter visto, tocado, cheirado ou simplesmente, escutado.

– Uma verdadeira conexão neural, correto? – perguntou Hellen.

– Exatamente. – afirmou Tony.

Um dos assistentes presente acionou a conexão principal, da qual colocou em sintonia Hellen com a Black Wall.

– Eu me sinto um pouco tonta; esses fios incomodam minha cabeça.

– Não se preocupe com isso, você vai conseguir se adaptar. – confirmou Tony.

Sentada naquela poltrona confortável, Hellen fechou os olhos e tentou aliviar sua mente. Ouviu vozes que não estavam presentes na sala, sentiu o cheiro de elementos que somente ao ar livre poderia sentir, viu cenas de vidas onde nenhuma delas era a sua e quando menos deu conta, estava integrada com o sistema.

– Hellen… Pode me ouvir? – perguntou Tony, sendo ignorado através do silencio.

– Senhor Tony… — disse uma assistente preocupada – Acho que ela dormiu.

O hacker entrou em desespero. Pediu para desconectarem Hellen do aparelho e o mesmo foi feito. Mas algo surpreendente os cercou naquele momento: Biologia e mecânica se mantiveram conectadas.

– Ela está entrando em convulsão! – alertou Tony, segurando a cabeça de Hellen, pois a mesma, se debateu muito forte.

A preocupada assistente, ligeiramente esperta, aplicou uma dose certeira de adrenalina no braço da garota, fazendo-a recuperar sua consciência e vomitar o café da manhã devido ao choque pós-traumático sofrido por seu cérebro.

– A levem para a sala de emergência. Quero um relatório agora! – alertou Tony nervoso, vendo seus assistentes agirem com eficácia e agilidade.

Mesmo com o passar do susto ocorrido naquela manhã, Tony já esperava por aquilo. A última pessoa a ter acesso ao Black Wall foi o pai de Hellen, mas nas sessões feitas em laboratório, nunca ocorreu problema nenhum; os erros que existiam estava no momento em que o programa se conectava com a Internet, e esse fator, agregado à sede por conhecimento do senhor Cross, causou danos cerebrais fortes, inclusive, psíquicos a ele. Ao solicitar que fosse retirado do programa, os membros do projeto COBEN, deduziram que ele havia descoberto uma informação sigilosa, e não querendo correr nenhum risco, simularam um acidente de carro em plena luz do dia, resultando no falecimento do enigmático agente.

Lembrando-se vagamente do que havia ocorrido, Hellen pediu, ainda confusa, que continuassem com os testes; mas Tony negou o mesmo sem hesitar. Não poderia perder os talentos daquela garota. Se Hellen conseguisse trafegar livremente pela internet e quebrar qualquer firewall somente com suas habilidades mentais, derrubaria qualquer governo, inclusive, poderia reiniciar a civilização humana.

O velho hacker se manteve pensativo enquanto observou as movimentadas ruas e seus variados modelos de carro, todos parecendo formiga vistos do andar em que estava. Por um breve segundo, uma memória profunda veio à tona. Um laboratório aparentemente secreto estava sob ataque militar. Todos procuravam uma saída, enquanto outros, destruíam os próprios arquivos. Somente um homem em meio aquele caos, preocupou-se em colocar o capacete neural; e ele conseguiu. Adquiriu naquele único segundo milagroso, uma potencial gama de informações, todas bloqueadas devido à chuva de balas que atingiram a grande máquina. Mesmo conseguindo escapar do ataque, hoje, firme na terceira idade, Tony não aceitaria morrer sem saber o que há em seu cérebro. Mesmo que para isso, ele tivesse que usar Hellen, assim como, usou seu pai uma vez…