A Letra U

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Estou parada, eu sei. Ando sem inspiração pra nada. Nunca aconteceu comigo. Uma bosta. Mas eu me recupero. Obrigada a todos.

Era um dia como qualquer outro. Eu fui a escola, como sempre ia. Não falei praticamente com ninguém da minha sala, ou ao menos, nada que realmente fosse importante para minha vida. E era isso... Ou ao menos, deveria ser.

Na hora do intervalo, saímos da classe e foi nesse momento que tudo pareceu ter mudado pra mim. Ou ao menos, naquele momento específico, minha vida parece ter parado no tempo e logo depois voltado a funcionar (ou talvez, nunca mais fosse acontecer isso, não sei). O que aconteceu foi que a vi...

Nossa escola era em formato de “U”, e minha sala se encontrava em uma das pontas desse “U”, logo, todo o outro lado (na verdade tudo praticamente) podia ser visto claramente por mim, ali, no segundo piso (apesar de que a outra ponta era vista diretamente de frente), e ali ela estava, logo do outro lado.

Seus cabelos eram ondulados, compridos e avermelhados. Fortemente vermelhos, era o que mais chamava atenção. Não pareciam naturais... Ao menos, ninguém teria cabelos tão vermelhos assim, mas mesmo assim, era muito, muito, muito bela. Sem dúvida alguma. Seu rosto mostrava uma perfeição “porcelânica” que mesmo a distância em que me encontrava dava para facilmente notar. Seus olhos pareciam dois pontos negros àquela distância, sua pele era alva, ela usava o mesmo uniforme que eu e seus cabelos... Eles brilhavam com o Sol da manhã. Fiquei cega. Cega por sua beleza.

E durante ao menos uns 10 minutos, não... 15 precisamente, o tempo do intervalo para comer, eu fiquei ali, encarando-a, enquanto ela parecia olhar pra algum ponto perdido no meio do pátio lá embaixo, onde alunos e alunas emaranhavam-se indo comer ou apenas matar aula (ou tempo, ou os dois, geralmente).

O sinal tocou e eu não tive escolhas. Entrei em minha sala de aula e continuei assistindo as aulas até o fim. Assim que o sinal de saída tocou, saí com pressa... Óbvios seriam os motivos, queria vê-la de novo. Parei no mesmo lugar, debruçando-me sobre o parapeito do segundo piso, daonde dava pra enxergar tudo perfeitamente, e fiquei a observar o outro lado do “U”, esperando enxergar seus cabelos super avermelhados.

Eram muitos, muitos alunos saindo daquela sala longíqua, ainda sim, tinha esperança de ver aquele rastro de fogo em meio a tantas cabeças castanhas alvoroçadas.

Mas não... Nada consegui ver. Fui mórbida para a casa naquele dia.

Dias depois, em um intervalo, como os outros, novamente, me encontrei no parapeito. Fiquei ali durante uns 5 minutos. Desembrulhei do papel laminado um sanduíche natural que minha mãe havia preparado para mim, pois, não podia com as comidas gordurosas da cantina, e comecei a degustá-lo. Minha boca se encontrava seca. Pensei em descer pra comprar um guaraná, ou então talvez, tomar um pouco de água do bebedouro que ficava logo ali, mas... Eu não conseguia. Aquela força suprema se encontrava em mim, me segurando naquele lugar. Eu precisava... Eu sentia... Eu queria muito vê-la.

E quando enxerguei aqueles cabelos avermelhados do outro lado da letra arredondada, eu percebi que todos os meus esforços de engolir aquele sanduíche à seco valeram a pena. E não deu outra, assim como na outra situação, ela simplesmente debruçou-se no parapeito, com seus dois braços debruçando-se sobre o mesmo, e pôs-se mais uma vez a observar as pessoas lá embaixo, enquanto eu a observava. Era tão linda... Seus cabelos voando com o vento mais forte daquele dia. O sanduíche nem mais me incomodava.

Agora o que me incomodou foram meus pensamentos e divagações.

O que tanto ela fazia ali, enquanto eu a observava? Será que fazia o mesmo que eu? Será que também observava alguém, porém, lá embaixo com todos os outros ,andando pra lá e pra cá?

Olhei pra baixo, procurei pelos pontos que percorriam pra lá e pra cá naquele vasto pátio, e fiquei a me perguntar... Qual deles que seus olhos negros perseguiam. Olhei cada um deles, pelo menos assim acreditava, olhei para ela novamente, olhei para eles... Uma angústia percorreu meu corpo. Uma tristeza. Uma solidão. Um ciúme.

Veja só que coisa ridícula... Ter ciúme do amor platônico de meu amor platônico. Eu a desejava pra mim, ela mal sabia que eu existia. Ela desejava ele... Ou talvez ela, e ele... Ou ela, mal sabia também de sua existência. Como o mundo era cruel. Provavelmente acontecia esse tipo de coisa a todo mundo que amava sem ser correspondido. Não, talvez fosse muito pior vê-la beijando ou abraçando alguém.

E se estivesse a esperar o namorado ou namorada. Se o mesmo descesse para falar com amigos, os quais ela não gostasse, e por isso, se mantivesse afastada? Ou então, se o mesmo ou a mesma tivesse ido buscar um lanche pros dois, ou pras duas, na cantina do colégio, para comerem em sala? Não, senão ela não iria embora dali só no horário em que o intervalo terminasse. Mas se assim fosse, o que ela fazia nos dias em que não estava ali, no parapeito, observando como eu? Acho que estou viajando demais, enlouquecendo. Por estar fazendo loucuras como essa, de observar alguém que eu mal conheço do parapeito, começo a imaginar que ela possa estar fazendo coisas tão sem sentido quanto. Preciso parar com isso.

Parei de divagar, quando ouvi o som do sinal batendo. Me arrependi um pouco por ter dedicado tanto o meu tempo a ter ciúmes e dúvidas, ao invés de simplesmente admirar sua beleza e seus cabelos avermelhados. Me senti como se realmente tivesse perdido alguma coisa importante, senti um leve vazio. Arrumei minhas coisas e fui embora para a casa.

Em casa, gastava agora boa parte do tempo fazendo rabiscos dela no caderno. Todos os rabiscos eu fazia com caneta preta ou lápis, mas acabava usando minha caneta vermelha pra rabiscar o seu cabelo colorido. Sentia que aqueles desenhos me deixavam mais próxima dela.

E mais um dia lá na escola, e mais um dia de amor platônico. Dessa vez, inusitado. No meio da aula, uma professora me ordenou que eu fosse buscar um livro pra ela na biblioteca. E assim eu fui. A aula estava chata, tediosa mesmo... E eu sinceramente, não via mais motivos pra ficar me interessando por isso. Era uma das melhores alunas, e com folga, não costumava estudar pra nada, mas sempre tirava notas boas. Não via muito motivo praquilo tudo e não conseguia compreender também os alunos que não conseguiam fazer o mesmo, e tratavam tudo como um bicho de sete cabeças. Em compensação, era uma das alunas mais caladas da classe, e por algumas vezes, algum outro aluno descerebrado me tirava como judas. Mas isso não era mais uma coisa tão incômoda pra mim. Apenas compreendia que pessoas com mente pequena costumam ter essa atitude de ter que depreciar os alheios pra se sentirem alguma coisa na vida. Portanto... Continuava apenas me corroendo pelo meu amor não-correspondido e desejando que isso me preenchesse de alguma forma, e continuasse me motivando para acordar todas as manhãs.

Porém, naquele dia, me surpreendi com uma coisa totalmente diferente – como eu já disse. Saindo pelo corredor para buscar tal livro pra tal professora, a vi sair da classe ao mesmo tempo. Ao seu lado, havia mais uma garota. De primeira, gelei, e pensamentos rapidíssimos correram minha cabeça... Será que tal garota era sua namorada? Sua amada? A pessoa a quem ela ficava vigiando sempre? Mas logo que a garota dera vários passos pra longe da menina de cabelos em chamas, e com uma distância abusiva de olhares ou contatos e familiaridades, concluí que não... As duas deviam ser colegas de classe totalmente à parte, uma da outra. E logo, suspirei de alívio. Mas logo a seguir, meu sangue voltou a gelar, mas por um bom motivo...

Do nada, imprevisivelmente, a menina de cabelos avermelhados se debruçou de novo no parapeito como fazia em todos intervalos, porém... Agora não era um. Era um período de aula. E ficou lá, a olhar pro pátio como sempre.

Senti um forte impulso a me forçar... Forçar a ficar ali. Eu cerrava meu punho tentando me lembrar da ordem da professora, mas o amor que batia no meu peito parecia muito maior, e eu nem sabia o sentido daquilo tudo.

Não aguentei, debrucei-me também e voltei a lhe observar. Era linda. Tão linda. Muito linda. Parecia surreal existir alguém tão linda assim... Fiquei ali lhe olhando, praticamente derretendo. Foi então que vi... A tal garota que estava ao seu lado, ela havia descido, e não só isso, andava agora pelo pátio... Pelo pátio, antes vazio, o qual a ruiva observava atentamente, como uma coisa bíblica.

Morri por dentro.

Nos dias que se passaram, resolvi não ir a escola. Não importava o quanto minha mãe insistisse. Inventava desculpas, doenças que ela sabia serem inexistentes, dentre outras coisas... Não queria ir. Não queria ir. Mamãe sentou-se querendo conversar comigo, mas eu não queria falar sobre com ela – mas é óbvio. Por fim, ela própria tirou as conclusões que quis. Virou-se pra mim, dizendo que eu devia estar apaixonada – sério? – e que provavelmente tive uma decepção amorosa com algum garotinho da minha classe, por isso não queria estudar. Em parte... Ela estava errada. E na outra parte... Também. Não tinha tido tempo de ter uma decepção com a ruiva. Ela mal me conhecia. Eu mal devia existir pra ela. Talvez... Talvez ela fosse uma ilusão da minha mente, talvez, ela mal existisse pra mim, também.

Os dias se passaram, frequentes, contínuos... Até que eu havia desistido dessa bobagem de matar aula por causa do meu amor platônico pelo outro lado do “U”. Portanto, retornei à classe e as aulas.

E nada da ruiva surgir. No intervalo, resisti à ânsia de esperá-la surgir no parapeito. Peguei meu sanduíche laminado e desci para o pátio. Fiquei ali embaixo comendo, num canto não muito movimentado, como sempre fazia até então. Não a vi no pátio também. Em um momento, caí em tentação e olhei pro segundo piso... Ela não estava lá. Surpreendi-me por isso. Olhei ao redor, dessa vez, procurando a garota por quem sentia algo. Também não a encontrei. Pensamentos impuramente infelizes povoaram minha mente.

As duas podiam estar juntas, sozinhas, namorando na classe vazia. Felizes. As duas podiam estar felizes. Cerrei os dentes furiosa. Joguei o resto de sanduíche no lixo. Estava ficando doida. Precisava parar com isso. Mas não conseguia.

A loucura me venceu.

Corri até as escadas, subi o outro lado do “U”. Sim, o lado contrário ,das turmas contrárias, com uma pressa de furacão. E então, cheguei no segundo piso. Fui andando até a penúltima sala, a sala que eu sabia ser a sua. E qual não foi a surpresa da minha santa idiotice de encontrar... A porta da sala trancada, com as luzes de dentro da mesma apagadas. Mas é claro... Os coordenadores trancavam as salas em horários de intervalo para que os alunos não pudessem roubar ou destruir nada. Eu bem que ouvi falar que eles tomaram essas medidas exatamente por causa de casos de alunos roubando canetas e lapiseiras dos outros. Onde já se viu? Coisas extremamente baratas como canetas e lapiseiras...

Senti-me amuada.

Comecei a descer as escadas... E então, enfim, tive uma surpresa chocante. Era ela. Ela e todos os alunos de sua classe. A droga do sinal havia tocado, e eu, tão perdida em pensamentos, nem havia ouvido. Eles passaram como um tufão por mim e por ela... Mas eu juro que eu vi o tempo parar, e as pessoas virarem névoa ao nosso redor, e a única coisa que eu enxergava eram seus olhos. E eles não eram negros, eram castanhos. E suas sobrancelhas eram escuras. Sua pele era clara e ela possuía sardas na altura do nariz e das bochechas. Seus cabelos eram ainda mais vermelhos, chamativos e lindos de perto. Ondulados, quase lisos, quase enrolados, meio-a-meio. Mas lindos, esvoaçantes... Selvagens. Ela tinha um ar extremamente sexy, mesmo que sua expressão fosse de puro desinteresse por tudo. Pelos alunos. Pelo corredor do colégio. Pelas aulas. Pelo intervalo. Por mim.

O tempo parou. Ela passou por mim, como se passa por qualquer um. Nossos olhos e almas se cruzaram. Eu a vi, mas ela não me viu. E logo atrás de si, eu enxerguei... A garota que passou pelo pátio naquele momento. Provando mais e mais que as duas possuíam sim, alguma coisa.

Voltei pra sala de aula e fiquei tentando realmente encaixar na minha mente se todos aqueles sentimentos que eu nutria por ela podiam fazer ser lógico o fato de que... Apesar de estar plenamente consciente de que ela tinha algum envolvimento amoroso com tal garota esquisita – a qual eu mal reparava a face direito, eu sentia-me plenamente feliz, satisfeita e preenchida, apenas pelo fato de, pela primeira vez, tê-la visto tão de perto. Será que eu era tão masoquista assim? Não era possível...

Suspirei.

Talvez eu realmente precisava me livrar desses sentimentos sem sentido.

Fui para a casa e me forcei a parar de pensar.

Dias depois, repetia a mesma receita. Saía rápido, assim que o sinal tocava, e me isolava na biblioteca da escola. A biblioteca, terra de poucos, quase nenhum. No máximo um ou dois leitores, e um grupinho esquisito de quatro ou cinco alunos que sentava-se em uma mesa lá no cantinho, e ficavam jogando dados e falando coisas estranhas e medievais. E foi ali que eu passei dias e dias.

A tristeza me consumia, me corrompia, me afundava, me isolava... Me tornava um pequeno pedaço de nada. As coisas não tinham mais sentido. Nada. Me levantava da cama como quem tivesse pesada, acorrentada na mesma, como se eu tivesse deixado minha alma lá, antes de sair. Sei, parece tudo dramático, e é mesmo. Sufocar um amor, quase que sem motivos – já que o mesmo mal começou, mal pôde ser saciado – é quase tão ruim quanto... Não sei, não faço ideia, mas é por aí. Mamãe continuava com sua maldita teoria do garoto que me deu um fora, ou talvez, que me traiu, ou talvez, que mal sabia do meu amor por ele – e essa era a melhor teoria que ela tinha inventado de todas, exceto talvez, pelo fato do meu garoto ser uma linda garota de cabelos de fogo. Não que eu me importasse com isso. Não que minha mãe se importasse também – talvez sim. Mas me incomodava o fato d’eu estar tentando esquecer o objeto do meu afeto, e minha própria mãe, estar me lembrando do mesmo, todo santo dia. E então, eu assistia minhas aulas naquele colégio. Todo ele me lembrava ela, obvia e infeliz e cruelmente. Daí, eu saía para os intervalos, desejando ter continuado na classe. Daí eu fugia para a biblioteca. Daí eu retornava a classe. Daí isso se tornava um ciclo sem fim. Um ciclo sem fim. Um ciclo com um fim.

Um dia, surpreendentemente, assim como o resto. Assim como a garota no parapeito. Assim como o tempo parando e as pessoas dissolvendo na névoa. Assim como o amor platônico sufocado. Uma figura de cabelos castanho-claros, olhos castanho-escuros, estatura alta, esguia, morena que pega mesmo Sol e uniforme como o meu, surgiu em minha frente, em minha mesa – da biblioteca, olhando pra mim e falando comigo. E me fez questionar o porquê d’eu não gostar muito de usar violência. Sim, era ela. A menina a qual a menina a qual eu dedicava meu amor dedicava seus afetos (se você não viu sentido na frase, sinto muito).

E ela disse...

“Ei, você é Julia? Meu nome é Marina! Minha amiga Gabriela gostou de você!”

FIM.

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