A sensação que tinha era que um trator tinha passado por cima dela. Cristiane ficou de quatro ainda meio zonza. Tudo doía e por conta disso, não estranhou as gotas de sangue que pingaram no chão, mas nem teve tempo de limpar o rosto. O templo estava bastante danificado por conta das intervenções de Hell e Einlin. Com as bases comprometidas, a construção começou a ruir, jogando-a no chão.

– Ah!!!! — gritou enquanto era arrastada.

Segurou numa fenda e nem ousou olhar para baixo. A montanha emitiu um novo estralo. Saga acordou ficando de joelhos no chão, respirava com dificuldade e suava frio. Depois de um tempo, deu um sorriso sarcástico. O cavaleiro levantou, mesmo com o local ameaçando cair. Ele olhou para trás caminhando até a beirada.

– Olha só quem está aqui. — disse.

Cris olhou imediatamente para cima.

– Saga. — sorriu.

O cavaleiro agachou e pegou a brasileira pelo braço.

– Nós encontramos novamente Cristiane.

A brasileira arregalou os olhos, não era possível que era...

– Ares... — notou a expressão.

– Em que situação você está... — olhou para frente. — alias todo o santuário. Essa deusa não está de brincadeira. — a fitou.

Cris ficou em silêncio. Pior hora não tinha para ele aparecer.

– Que situação o Saga te deixou, está tão machucada.

– Deixe o Saga em paz.

– Já deixei. Está preso aqui. — apontou para a cabeça. — e agora posso terminar o que comecei em Gêmeos. Dessa altura sua morte é certa e o melhor, todos vão pensar que foi acidente.

– Por que quer tanto me matar?

– Você me atrapalha. Saga ficou um pouco mais vigilante desde o coma. Aproveitava as fases depressivas dele para manifestar, mas agora... com você fora do caminho terei livre acesso e penso em me aliar a essa tal de Hell. Ela vai destruir tudo.

A montanha emitiu um som, com parte dela comprometida, ela tombou mais quarenta graus, fazendo com que o templo acompanhasse o movimento. Saga foi impulsionado para frente e só não caiu pois segurou na beirada, Cris por sua vez, no momento que a montanha inclinou conseguiu segurar na mão do cavaleiro. Seria questão de tempo Star Hill ceder. Para piorar, o chão começou a rachar movendo a área onde os dois estavam e fazendo dezenas de pedras rolaram, atingindo a mão de Saga. O cavaleiro já estava machucado por conta da batalha e com o ferimento da mão dificilmente conseguiria subir segurando a brasileira.

– Terei que te soltar Cristiane, não consigo erguer nós dois e não quero morrer. — a fitou. — não agora que posso realizar minha ambição. Hell vai matar Atena.

– Me solta. — disse, se continuasse daquele jeito os dois morreriam.

– Acho que não entendi. — sorriu. — quer que eu a solte?

– Se for para salvar Saga sim. — não sabia o porquê, mas via em torno dele um brilho dourado se misturar com um negro. O negro chegava a sobressair.

– Ainda não entendo essa consideração que tem por ele. Um fraco. "Não se atreva Ares! Ainda está ai? Não a solte! Por que não? A vida dela não me interessa. Se solta-la eu acabo com você! Como? Estou te dominando! Se ousar mata-la eu acabarei com você! Não há nada que possa fazer! Eu tenho o domino do seu corpo e nada me faria mais feliz do que mata-la na sua frente. — gargalhou. — não se atreva!" Cale a boca Saga! — gritou.

– Saga....

– Seu cavaleiro, está desesperado aqui. Suplicou para poupar sua vida, mas eu não perderia a chance de acabar com o último empecilho para que a mente de Saga surte de vez. Nem aqueles remédios poderão me deter.

Cris segurou o choro, imaginava o quanto Saga estaria sofrendo e como Shion lhe disse, o grego estava perdendo para o seu outro lado, não poderia deixar isso acontecer. Fitou a face dele... só tinha uma solução... Houve um estrondo, a rachadura no solo abriu ainda mais, balançaram tão forte que Saga quase se soltou.

Templo...

– Atena. — Shion correu para fora do templo assim que sentiu o cosmo de Aiolos. — Atena.

– Ela está muito fraca Shion. — disse Shaka.

– Levem-na para dentro. E o Saga?

– Estava atrás de nós... — Mu voltou a atenção para a montanha.

Star Hill...

– Me solte...

– Quanta consideração, prefere morrer para salvá-lo. Diga-me o que viu nesse traste? — aquilo o incomodava, desde o momento que escutara a confissão na porta do templo horas antes. — Todas as mulheres que passaram pela vida dele, ou tinham interesse ou medo e você? Qual seu interesse nele? – por que se incomodava tanto por ela gostar do idiota. — "Pare Ares! Deixe... ela quer morrer. Seu estúpido vai mata-la! Será um peso a menos para você Saga. Não pode me tirar isso! Não ela! Vejo que gosta mesmo dela.... um trouxa. Ares por favor, não a solte! Você também a quer. Eu? Não seja ridículo! No máximo uma transa. Gosta dela, eu sinto, esta se apaixonando por ela. Não seja ridículo! Sentimentos são para os fracos!

Surpreendendo-os o templo ruiu ainda mais, fazendo-os ficar dependurados, entretanto o local onde ele segurava não aguentaria o peso dos dois por muito tempo. E ela tinha consciência disso, mas estava apavorada.

– “Eu não quero morrer...mas...” Saga...

– Cris... — o olhar foi de Saga, mas a expressão logo endureceu. – Adeus. — Ares sorriu.

Tudo que ela sentiu foi uma enorme pressão puxa-la para baixo. O tempo parou...

"Cristiane...?!!?"– Ares deu um sorriso sarcástico, que aos poucos foi morrendo. — "Cristiane!!!"– a mente de Saga gritava desesperado, tentava se mexer, mas seu corpo não o obedecia. — "Ares seu maldito! Como pode soltá-la?? Você também gosta dela!"– os olhos arregalaram.

O tempo voltou a correr.... Saga viu o corpo caindo em queda livre, não pensou duas vezes soltando-se, havia recuperado o controle. Pelo tempo da queda, dificilmente a alcançaria....Não, isso ele não permitiria, ela não ia morrer.

O restante da montanha cedeu.

– SAGA! — gritou Aiolos.

Os que tinham condição de andar, entre cavaleiros e meninas, apenas viram a quantidade de poeira ser levantada. Star Hill não existia mais...

– Saga... – murmurou Shura.

– Consegue ficar de pé? – indagou Mu a Ester.

Consigo.

Mu levou um susto. Escutara a voz de Ester?

– Depois eu explico, vá atrás da Cristiane.

– Sim... — estava pasmo. — Giovanni.

O canceriano aproximou, completamente pasmo pelo sumiço de Star Hill.

– Precisamos achar Saga e Cristiane.

E assim foi feito. Os demais voltaram para dentro do templo. O clima era péssimo e estavam perdidos por causa da situação.

Shion tomou a frente.

– Shura, Aioria e Miro, assim que Mu chegar vão até a enfermaria e traga todos os itens de cuidados. Vamos montar uma enfermaria na biblioteca. Pode ajuda-los Heluane?

– Claro.

– Com o santuário sitiado, não há como trazer o doutor Nikolai e sua equipe. Shaka, Dohko, Aiolos e Kamus, vamos arrastar as prateleiras e colocar camas.

– Está certo.

– Vamos levar Atena para o quarto. – disse o mestre bastante preocupado com ela, pois não sentia o cosmo.

A deusa nos braços de Aiolos foi despertando aos poucos.

– Atena. – Shion aproximou.

– Shi-on...

– Como a senhorita está? – Aioria aproximou.

– Melhor. E as meninas? E os demais? Rodrigo?? Cadê o Rodrigo??

– Estão recebendo cuidados, Atena.

– Eu quero vê-los. – voltou a atenção para Aiolos. – me leve até lá.

O grego obedeceu. Quando Atena viu o estado do salão do trono e as meninas machucadas sentiu um aperto no peito.

– Me coloque no chão.

Atena ensaiou alguns passos cambaleantes, pois sentia-se muito fraca. Viu Afrodite muito machucado.

– Gustavv... — caminhou até ele.

– Atena... fico feliz que a senhorita esteja bem.

Saori notou alguém deitado atrás dele... conhecia aquelas roupas.

– Rodrigo??? — ajoelhou ao lado dele. — Rodrigo?? O que aconteceu?

– Fomos atacados por um dos guerreiros de Hell. — disse Dite. — tentei protege-los ao máximo. Rodrigo só está inconsciente.

A deusa acariciou o rosto dele. Olhou para trás, Kanon, Shion, Deba, Marin, Fernando e as demais, todos estavam feridos. Rodrigo, Isabel e Sheila desmaiados. Saga e Cristiane desaparecidos... Uma deusa que não protegeu seus protegidos.

Os pensamentos de Atena foram interrompidos. Seu corpo arrepiou todo. Os cavaleiros assumiram suas posições.

– Muralha de Cristal!

Com o restante de suas forças, Shion criou uma proteção para todos, pois a parede lateral foi destruída. Era Hell e seus quatro guerreiros.

– Vim agradecer a ajuda Atena. — a deusa sorriu.

– Vai pagar caro por tudo que fez! — Aioria cerrou o punho.

– Ora... — notou os demais dourados. — eles não estavam aqui mais cedo. Sou Hell e esses são meus guerreiros Ragnarok. Einlin, Andrasta, Alfarr e Seren. Cumprimentem meninos. — olhou divertida para seus guerreiros.

– Sua ordinária... — Miro deu um passo.

– Só queria me despedir, talvez eu volte quando o selo abrir. Adeus.

Os cinco foram envolvidos por uma luz negra. Todos os vidros do salão foram espatifados.

– Volte aqui! — berrou Dohko, querendo ir atrás.

– Dohko, por favor. — pediu a deusa.

– Mas Atena, temos que ir atrás!

Ela não respondeu. Com as meninas feridas e alguns dourados machucados, tinham que ser racionais.

O.o.O.o.O

Mu e Mask apareceram na base da montanha. Procuravam pelos dois, encontrando-os em meio aos escombros. A mineira estava em cima do geminiano.

– Cristiane! — Mask a ergueu. — Cris. — tocou no pescoço, tinha pulsação.

– Saga está muito ferido. Vamos leva-los.

O.o.O.o.O

A pergunta que todos se faziam, o que seria deles?

– Shion... — a voz da deusa saiu baixa. — providenciou cuidados médicos?

– Sim.

Saori buscou por Heluane.

– Pode nos ajudar? Por favor.

– Sim. — nem precisava do pedido da deusa.

– Bom... — levantou, mas quase foi ao chão.

– Atena!

– Estou bem. — firmou-se numa coluna.

Aiolos sentiu-se culpado, se tivesse avisado Shion, nada daquilo teria acontecido.

– Atena, mestre Shion. — ajoelhou, levando o rosto ao chão. — me perdoem. Eu deveria ter dito.

– Dito o que Aiolos? — indagou Shion.

– Na noite de ontem, fui até Star Hill e tive uma visão.

– Que visão?

– Vi as constelações se apagando e... — não tinha coragem de encara-los. — algumas imagens. As meninas, Aldebaran e Shura machucados e a senhorita chorando.

No recinto todos ficaram em silêncio, a espera das palavras de Atena e Shion.

– Se tivesse relatado, nada disso teria acontecido. Me perdoem.

– Não tem que se sentir culpado Aiolos. — a voz do mestre preencheu o ambiente. — Não tem nem dois dias que foi empossado. Não tive tempo de ensina-lo a interpretar as visões. Eu fico é satisfeito.

O sagitariano o olhou imediatamente, assim como os demais.

– Para fazer tais revelações a poucas horas da posse, mostra que Star Hill te reconhece plenamente como meu sucessor e o considera apto para exercer a atividade de interpretação das estrelas. Star Hill te aprovou completamente.

Aiolos ficou surpreso com as palavras.

– Por ainda ser inexperiente, — foi a vez de Atena. — é que fiz de Dohko seu auxiliar. Ele tem experiência e poderia instruí-lo tão bem quanto Shion. Sei que essa parceria dará bons frutos.

O libriano sentiu-se envergonhado. Foi o primeiro a acusar Aiolos, sem tentar entender que ele era jovem e que não tinha ainda noção de nada.

– Não se sinta culpado cavaleiro. — a voz de Atena saiu firme — Levante-se. Não pecou em seu dever para comigo.

– Obrigado. — foi como se tirassem uma pedra de cima dele.

Dohko saiu de perto de Jules e foi até o grego.

– Me desculpe.

– Tudo bem Dohko. — estendeu-lhe a mão. — conto com sua ajuda.

– Estarei sempre ao seu lado.

A passos lentos Atena caminhou até o grego, que fez questão de ajoelhar diante dela. Ela repetiu o gesto.

– Aiolos... — tocou gentilmente o rosto dele. O grego lembrou-se de fatos passados de quando Atena era um bebê: durante a fuga, quando parou para descansar a mãozinha delicada tocou o rosto dele e foi aquele gesto que o deu forças para seguir adiante. — você tem me protegido desde sempre... se estou viva é graças a você. Sei que as vezes se sente inferior aos demais, mas isso não é verdade. Você é um cavaleiro valoroso e espero sempre contar com sua força.

– Serei sempre leal. — sorriu. — sempre.

Passado os primeiros sustos, seguindo as determinações de Shion, a biblioteca transformou-se numa grande enfermaria. Para aumentar o conforto, usaram também os escritórios de Shion e de Atena. Marin auxiliaria Heluane nos cuidados dos feridos. As meninas que estavam menos machucadas também ajudaram. Apenas Dite se isolou até que seu ferimento fosse contido. Mu e Mask voltaram trazendo Saga e Cristiane. Atena foi levada para seu quarto, juntamente com Rodrigo.

O.o.O.o.O

Mu deitou o brasileiro ao lado de Atena.

– Tem certeza que está bem Atena? — indagou.

– Tenho Mu. Pode ir, se eu precisar de algo te chamo.

– Está bem.

O cavaleiro retirou-se. Atena aconchegou-se perto do baiano.

– Rodrigo. — chamou perto do ouvido. — Rodrigo.

O brasileiro mexeu os dedos, despertando. No principio não identificou onde estava....

– Atena..?

– Como se sente?

– O que aconteceu? — ergueu o corpo. — como parei aqui?!!

– Os inimigos foram embora.

– E você?!! E as meninas?!!

– Estamos bem. Não quer que a Heluane te examine? — fitou os machucados.

– Estou bem... — acariciou o rosto dela. — o que Hell fez a você?

– Ela roubou boa parte do meu cosmo... — abaixou o rosto. — é uma guerra...

– Vem cá... — a envolveu em seus braços. — procure descansar, depois pensaremos em algo. Precisa recuperar suas forças.

– Fica aqui comigo? — o abraçou mais forte.

– Fico. Agora descanse.

O.o.O.o.O

No escritório de Shion foi instalado três camas. Paula, Shion e Aldebaran foram condicionados a elas. Ester, Mu, Juliana e Marin sob as ordens de Heluane cuidavam de todos. Mabel, menos ferida, estava num sofá.

Marin terminava de enfaixar o braço da brasileira.

– Está apertado?

– Não Marin, está ótimo. Estou liberada?

– Está. — sorriu. — vá cuidar do seu touro. — sabia que a pressa dela era para cuidar de Aldebaran e ele realmente precisava de cuidados. — vou ver como anda os outros.

Juliana cuidava de Paula e Mu de Shion.

Bel pegou os utensílios, colocando-os numa mesa ao lado da cama de Deba. Ele ainda estava inconsciente. Seus braços e pernas estavam feridos, mas segundo Heluane, aparentemente não estavam quebrados.

Precisa de ajuda?– o som metálico do tablet de Ester soou.

– Preciso. — a fitou. — não consegue mais falar e ouvir?

– Não...

Mu que cuidava de Shion, ouvia em silêncio. O mestre pediu para Mu, chama-la.

– Não sei se feitiço seria a palavra correta. — disse Shion ao ter a atenção dela. — sentiu algo diferente quando ela estava aqui?

Sim. Eu a escutei dizer algumas palavras estranhas e desde então pude ouvir e falar, mas depois que entrei no templo, parou.

– Será que também nos afetou? — indagou Paula. — eu vi seu cosmo. — olhou para Shion.

– Viu?? — indagaram os dois arianos.

– Se era cosmo não sei, mas vi uma energia dourada circundando-o, assim como uma negra vindo daquele cara.

– Também vi a mesma coisa de Atena e da Hell. — disse Juliana. — cheguei a sentir. A de Atena me sentia protegida, a de Hell medo.

Os arianos trocaram olhares. Mu elevou seu cosmo. Shion via a energia dourada ao redor dele.

– Está vendo alguma coisa no Mu? — indagou a elas.

Bel, Ester, Paula e Juliana olharam para Mu, não vendo nada, a não ser alguns fios lilases tremulando como se o vento batesse neles.

– Eu não vejo nada. — disse Bel.

Será que o efeito se perdeu?

– Isso é muito estranho... — murmurou o grande mestre.

– Terminei. — disse Juliana.

– Obrigada Ju. — Paula sentia-se melhor.

– Vou ver se Helu precisa de ajuda.

O.o.O.o.O

Três camas estavam no escritório de Atena. Nelas estavam Saga, Kanon e Suellen. Para o cuidado deles foram designados, Shaka, Gabrielle e Aioria.

Com Saga não tinham muito que fazer. Shaka cuidara dos ferimentos dele, principalmente os das costas, mas o grego estava num sono profundo.

– Tudo o que eu podia fazer, já fiz. — disse o indiano.

Kanon fitou o irmão. O que tinha acontecido em Star Hill?

– Sente-se melhor Kanon?

– Sim, Aioria. Su, fez um bom trabalho. — olhou para a namorada que recebia cuidados de Gabe.

– E a perna? — notou um inchaço no tornozelo.

– Não é nada. Estou pronto para outra. — fitou Saga. — o que me preocupa é ele.

– O guerreiro que lutou com ele tinha um cosmo poderoso. — disse o indiano. — a luta deve ter sido dura.

– O que acontecerá agora?

– Assim que Atena recuperar-se, ela deve fazer uma reunião conosco. — Shaka recolhia os utensílios. — temos que traçar um contra ataque.

– Vocês vão lutar? — indagou Gabe preocupada.

– Não podemos deixar que Hell conquiste o que quer Gabe. — disse Aioria. — aposto que ela não mostrou todo o seu poder.

– Não? — Suellen temeu pelo marina.

– Não Suellen. — Shaka caminhou até a janela. — não sabemos a força dela e nem dos seus guerreiros. Nem sabemos se existe mais.

– Precisam de ajuda? — Juliana abriu a porta.

– Está tudo sobre o controle Ju. — disse Gabe.

– Pode olhar se fiz certo os curativos de Saga? — Shaka encontrou nessa forma, um jeito de ficar perto dela.

– Claro.

O.o.O.o.O

Haviam cinco camas na biblioteca. Cristiane, Isabel, Sheila, Julia e Marcela. Julia recebia os últimos cuidados de Shura, assim como Marcela recebia de Miro. Jules um pouco melhor recebia os cuidados de Dohko no sofá. Kamus cuidava de Isa e Helu e Fernando de Sheila, o estado mais grave. Aiolos estava num canto e no outro Mask e Dite.

– Curativos prontos. — disse Dohko. — está tudo bem mesmo?

– Estou... — sentia-se um pouco cansada.

– Me deixe ver. — tocou na testa dela. — está com febre. Tome o remédio e depois descanse.

– Não vou recusar mesmo. — sorriu.

Marcela estava em silêncio, observando Miro terminar com uma faixa. Sentia-se zonza, mas achou que era por causa dos remédios.

– Depois que terminar, me leve para o quarto?

– Já?? — fingiu ficar chocado.

– Idiota... estou cansada, quero dormir.

– Estou brincando. — acariciou o rosto dela. — levo sim.

Kamus limpava o rosto de Isabel, para sua alegria, a paulista acordou.

– Como se sente? — acariciou o rosto.

– Melhor.

– Espero que não tenha medo de injeção. — disse Heluane aproximando. — vai te ajudar a se recuperar mais rápido.

– É um mal necessário. — Isa sentou-se com a ajuda de Kamus. Não durou mais que segundos. — vou ganhar alta?

– Daqui a meia hora Kamus pode te levar.

– Obrigado Heluane. — o francês agradeceu.

– As ordens. Com licença.

– Eu queria te levar para a minha casa, mas diante de tudo acho melhor ficar aqui mesmo. Estará mais protegida.

– Você que sabe.

Afrodite procurou se manter o mais afastado possível, para que seu sangue não tocasse em ninguém. Quando tirou a ombreira, viu o estrago do ferimento provocado por Seren.

– Isso não é bom... — Mask observou.

– Já disse para ficar longe de mim.

– Não sou fresco. Precisamos cuidar disso.

– É perigoso Giovanni. Pode deixar que cuido sozinho.

– Cuida nada. — Helu apareceu na frente dele. — deixe-me ver isso.

– Meu sangue...

– Estou protegida. — mostrou as luvas.

– Quer que eu o segure? — disse Mask debochado.

– Não seria má ideia. — Helu sorriu.

– Já estou quieto. — Dite mostrou o ferimento.

Com habilidade, a brasileira limpou o ferimento e fez um curativo. Mask a fitava de forma admirada.

– Como faz essas coisas tão rapidamente?

– Prática. Com o tempo faz até de olhos fechados. Pronto Dite.

– Obrigado.

– Só esse que não estava tratado?

– Sim.

– Se precisar me chama.

Helu foi atender a próxima pessoa. Mask acompanhava seus passos.

– Quando vai admitir que gosta dela? — Dite disse baixinho com um sorriso maldoso no rosto.

– Eu não gosto dela. — respondeu sem tirar o olhar da brasileira.

– Ah não? Então é o que?

– Admiração. Ela é muito competente nas coisas que faz. E determinada, perseverante, corajosa... — Mask foi tecendo vários elogios a ela, deixando Dite surpreso.

– Se isso não é gostar, não sou mais Afrodite.

– Só é admiração. — deu um pedala nele.

– Admiração... sei...

Fernando tratava dos ferimentos de Sheila, a amiga estava em péssimo estado. Olhou para a mão direita dela. Tentou puxar a faixa, mas a mão parecia endurecida.

– Está bem, não vou pegar. — sorriu.

– Precisa de ajuda? — Helu aproximou.

– Está tranquilo.

Helu tocou no ombro do mineiro, indo para a próxima cama. Cris dormia profundamente, não tinha tantos ferimentos, mas esses somavam-se aos feitos por Ares. A fluminense tocou a testa dela, fazendo uma careta. Pegou dentro do jaleco improvisado o termômetro. Ela estava com trinta e oito graus.

– "Monitorar essa febre."

Na cama ao lado, Sheila mexeu-se, passando a balbuciar algumas palavras.

– Helu. — Fernando a chamou.

A garota aproximou.

– Finalmente.

– Aiolos... Aiolos... — murmurava baixinho.

– Aiolos! — chamou Helu. — a Sheila está acordando.

O grego correu até a cama.

– Sheila.

A paulista abriu os olhos vagarosamente. Demorou algum tempo até fixar o olhar.

– Aiolos...

– Como se sente? — acariciava os cabelos castanhos.

– Muito mal. — sorriu. — tome, isso é seu. Aquele idiota queria ficar com ela, mas eu não deixei.

– Acredita que ela o enfrentou? — disse Julia.

– Sua louca... — aproximou seu rosto do dela, colando as testas. — é uma simples faixa.

– É a faixa do meu Rambo... — disse baixinho apenas para ele ouvir.

– Louca... — deu um sorriso.

No escritório do patriarca, Shion e Paula já tinham ganhado "alta". Bel cuidava de Deba, quando percebeu os olhos azuis se mostrarem.

– Deba.

– Oi... — a voz saiu baixa. — você está bem?

– Estou e você? — pegou na mão dele. — como se sente?

– Atropelado por um touro. — sorriu. — Como estão todos?

– Bem na medida do possível Aldebaran. — disse Shion.

– Atena?

– Está bem. Descansa agora em seu aposento. Recupere-se rápido pois Atena deve nos convocar mais tarde.

– Sim senhor.

Dois andares a cima, Marin terminava com os curativos de Rodrigo enquanto a deusa dormia.

– Tome conta de Atena, Rodrigo.

– Pode deixar, não vou sair de perto dela.

– Ela vai precisar de muito apoio.

– O santuário realmente está em guerra.

– Sim e pelo que percebi, não será fácil.

O.o.O.o.O

Da varanda do seu quarto, Adrian observava o mar. Depois do roubo do tridente, recolhera-se em uma das suas residências que ficava próximo a Shounion. Estava preocupado. Há horas Atena não lhe dava noticias. Não conseguiu comunicação nem pelo cosmo, nem pelas vias telefônicas.

– Senhor Poseidon. — Sorento ajoelhou a frente dele.

– E então?

– Tentei entrar no santuário, mas algo me bloqueou. Creio que Atena tenha fechado a comunicação.

– Ou alguém fechou...- murmurou preocupado.

– O inimigo se mostrou?

– Talvez. Vamos tentar mais tarde. Enquanto isso dispense todos. Não quero ninguém além de você e eu nessa casa. Aqui pode ser tornar perigoso.

– Sim senhor.

O.o.O.o.O

Perséfone velava pelo sono do imperador do inferno. A barreira que tinha feito em torno dele parecia separa-lo da realidade. Calmamente a deusa caminhou até a entrada, fitando o céu avermelhado. Há horas tentava uma comunicação com Atena, mas sem sucesso. O que teria acontecido? Ela havia lhe dito que a deixaria informada, mas estava sem informação. Olhou para trás vendo o local onde Hades dormia. Não queria deixa-lo, mas talvez uma ida ao Olimpo poderia ser esclarecedora.

O.o.O.o.O

Hilda olhava a neve cair pela janela. Já tinha algum tempo que os cavaleiros de Atena haviam ido embora e desde então não tinha noticias.

– Hilda. — Freya abriu a porta.

– Conseguiu? — a norueguesa a fitou.

– Nada... liguei para outros lugares a comunicação está funcionando mas para Atena...

– Ela deve ter fechado a comunicação... — caminhou em direção a sua mesa. — se ao menos tivéssemos algum guerreiro deus, poderíamos manda-lo para lá.

– Acha que aconteceu alguma coisa? — Freya ficou preocupada.

– Espero que não. — olhou pela janela a estátua de Odin. — espero que não.

O.o.O.o.O

Os cinco guerreiros de Hell estavam reunidos num canto do salão em profundo silêncio. A deusa, com o livro em mãos, recitava antigos cânticos. Havia usado o cosmo de Atena para acelerar o processo, mas descobriu que com o uso de armas mais simples, o selo levava certo tempo para abrir e ainda por cima faltava seu tridente.

– Não tenho pressa. — sorriu olhando para as armas. — os humanos terão mais algumas horas de vida. Alfarr e Kalisha?

– Ainda não chegaram senhora. — Andrasta apressou-se em dizer.

– Estão dispensados. Me chamem quando os dois chegarem.

– Sim.

Hell de posse do livro recolheu-se.

– Eu pensei que com o cosmo de Atena, as coisas aconteceriam mais depressa.

– Vejo que entendimento não é o seu forte, Andrasta. — disse Erda, caminhando para a varanda.

– O que quer dizer? — cerrou o punho.

– Que não faz ideia dos planos de Hell. — disse Einlin acompanhando a guerreira.

– Sei sim.

Seren e Aryeh reviraram os olhos.

A ampla varanda dava para um dos lagos que cercavam a fortaleza. Apesar de viver num mundo gelado, Hell gostava de conforto e isso era visto nos moveis daquele local.

– Sei que só falta o tridente para que ela se torne a soberana de todos.

– Há outras coisas também. — disse Seren. — conte para ele Erda, não estou com paciência. — acomodou-se no sofá.

– Preste atenção pois direi uma única vez. — a mulher o fitou impaciente. — o selo foi feito com armas de primordiais, o que significa que o selo reteu uma grande quantidade de energia. Uma força superior a todos os deuses que vieram depois. Portanto para abri-lo é necessário muito poder, o que não é o nosso caso. As cinco armas que restaram são de deuses descendentes de primordiais.

– Leva tempo o selo ser aberto por conta disso. — disse Einlin. — Hell pegou o cosmo de Atena para agilizar o processo, mas ainda não foi o suficiente. Assim que ela anexar seu tridente ao pentagrama a energia vai aumentar. Pelo fato dela está abrindo o selo por aqui, também trás retardações. O selo só pode ser aberto em Midgard.

– E esperar esse tempo em Midgard, pode atrair inimigos. — Aryeh trazia o olhar para a paisagem. — no momento certo Hell levará o pentagrama para Svalbard.

– Guardou tudo, ou tenho que desenhar? — Seren o fitou cinicamente.

– Eu trarei mais energia para Hell. — Andrasta levantou.

– Não precisa celta. — a voz de Seren saiu fria. — Hell já ordenou isso. Não é Aryeh?

– Sim.

O.o.O.o.O

Alfarr e Kalisha andavam pelo reino de Jotunheim. Seguindo as orientações de Hell o restante de seu tridente estava naquele local.

Conversam e o assunto era sobre os cavaleiros de Atena.

– Tão temidos pelos deuses gregos e não passam de fracos?

– Não direi sobre todos Kalisha. — disse Alfarr com os olhos fixos no caminho que seguiam. — O santuário estava sem a maioria, mas o que lutou contra Andrasta e contra mim são dignos de pena. Seren disse que seu adversário era até forte e Einlin disse que seu adversário tinha poder.

– Mal posso esperar para lutar.

– Juventude... — Alfarr sorriu. — tenha paciência amigo sua hora vai chegar. Como chegou para mim...

Milênios atrás

Local onde hoje se encontra o País de Gales

O corpo estava coberto por sangue, o olhar violeta jazia nos corpos ao chão, mas não era um fato que realmente importasse, não depois de tudo que viu e presenciou. Pegou o seu arco, amarrando-o nas costas. Era o fim de mais uma batalha contra os homens liderados por Wotan. Homens iguais a ele, mas que naquela altura do confronto não representavam nada. Toda aquela frieza, rendeu-lhe um bom posto entre as tropas lideradas pela filha de Loki. Se ser uma Valquíria era uma grande honra dado pelos asgardianos, ser reconhecido por Hell era igualmente importante. E depois de meses em seu exército, recebera aquele reconhecimento: era o líder dos arqueiros da tribo galês. Alfarr recolheu-se a sua tenda, precisava de um banho para tirar o liquido escarlate do corpo...

Meses antes...

Alfarr, era apenas o jovem guerreiro mais forte de sua tribo, nos confins, onde hoje se encontra o país de Gales. Por sua força e inteligência era o braço direito do líder da tribo e conseguinte casaria com a jovem mais linda, o qual tinha se apaixonado perdidamente.

As lutas entre gigantes e asgardianos eram apenas rumores naquelas terras distantes e a vida seguia pacata... até o dia ser encoberto pela escuridão. Alfarr caçava com alguns homens, nas montanhas e do alto dela viu a mancha negra encobrir sua vila. Correram em direção a tribo, contudo quando chegaram, não viram nada além de corpos desfalecidos ao chão.

– Alfarr... o que está havendo? — indagou um dos seus subordinados.

– Não faço ideia... tentem encontrar sobreviventes.

O grupo de cinco homens saiu entre as tendas, a procura de sobreviventes. Alfarr foi direto para a tenda que pertencia a seus pais e irmãos menores. Ficou em choque ao ver os corpos espalhados.

– Pai... mãe...

Não teve tempo de chorar por eles, pois ouviu um urro do lado de fora. Quando chegou no "pátio" onde as tendas ficavam ao redor, viu seus companheiros serem mortos.

– Não!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Curve-se perante mim mortal.

A resposta de Alfarr foi empunhar seu arco e disparar contra o ser, oculto pela escuridão, contudo as flechas voltaram, atingindo o braço e perna do homem. O ser aproximou-se dele.

– Isso é por ter levantado a mão contra mim.

– Por que matou todos?

– Não quiseram ficar ao lado de nós... asgardianos. — o ser mostrou seu rosto. — saiba que foi morto pelo deus Vidar.

Tudo que Alfarr sentiu foi uma dor aguda no peito...

... abriu os olhos lentamente. O corpo todo estava dormente, mas reparou no céu azul. Ergueu um pouco o rosto, percebendo que estava sendo levado numa carroça.

– Você é forte garoto.

Alfarr olhou para o lado deparando-se com um senhor.

– Onde me acharam? Quem é você? Onde estou? Para onde estão me levando?

– Estava quase morto caído nas terras de Gales. Parece que do seu vilarejo só restou você. Sou Jim. Estamos nos dirigindo para as terras do outro lado do mar. Vamos nos juntar ao exército da filha de Loki.

– Uma descendente dos gigantes?

– Sim. A única capaz de fazer frente aos malditos asgardianos. — o fitou.

O jovem ficou em silencio. Seu destino não era participar de uma guerra, mas diante dos atos dos deuses, decidiu naquele momento se juntar ao exército de Hell.

– Eu irei com vocês.

Alfarr foi levado para as terras de Loren, onde Hell comandava suas tropas. A partir daí ele se tornou servo fiel a deusa e todo o ódio que sentia pelos asgardianos acabou de transforma-lo numa pessoa fria.

... Alfarr terminou de se lavar. Prepararia algo para comer, quando dois homens entraram em sua tenda. Pelas roupas julgou se tratar de superiores.

– Você é o Galês arqueiro? — indagou um dos homens.

– Sim.

– Ajoelhe-se perante nós.

– Andrasta... — murmurou o outro.

– Ele é um subalterno Aryeh.

Alfarr analisou os dois. Aqueles nomes não lhe eram estranhos. O exército de Hell era muito grande, mas dois generais se destacavam e eram eles.

– O que dois generais fazem na minha humilde tenda?

Os dois ficaram surpresos.

– Se sabem quem somos, ajoelhe-se. — bradou Andrasta.

Alfarr estava prestes a obedecer quando um delicioso perfume preencheu o ambiente.

– Não há necessidade Andrasta.

Uma mulher se fez presente. Os olhos azuis pareciam o céu, e os cabelos prateados envoltos na capa preta emoldurava o rosto. Alfarr analisou a face. De certo era alguma princesa dos reinos aliados a Hell.

– Qual o seu nome Galês?

– Alfarr, senhora.

– O que um Galês faz tão distante de suas terras?

– As circunstancias me trouxeram até aqui.

– Quais?

Alfarr ficou em silencio.

– Responda! — Andrasta tirou a espada da bainha.

– Chega Andrasta. — a mulher olhou fixamente nos olhos de Alfarr, descobrindo a verdade. — Vidar destruiu sua aldeia, desde então jurou lealdade a Hell.

– Co-mo...? — ficou surpreso.

– Sua força e coragem chegaram aos ouvidos da líder do exército e ela costuma premiar a fidelidade dedicada a ela. A partir de hoje será o general da tropa da ilha de Gales.

– Eu?

– Recolha seus pertences, seu lugar não é mais aqui. — deu a volta, dirigindo-se para a saída.

– Obrigado. — ainda estava surpreso. — diga a senhora Hell que serei o mais leal de todos. — ajoelhou.

– Ela sabe disso, não foi atoa...- virou-se para ele. — que ela em pessoa veio te nomear.

Arregalou os olhos, aquela mulher era a deusa Hell?

A partir daí, Alfarr se tornou um dos três grandes generais na guarnição mortal de Hell, travando batalhas terríveis contra os humanos favoráveis a Odin. Não abandonou sua lealdade, nem mesmo quando foi morto por uma Valquíria, horas antes de Odin banir Hell para as terras de Nilfeheim.

Andrasta pisava duro em direção ao seu quarto. Como detestava os demais guerreiros de Hell. Era para ele ser o único escolhido pela deusa, mas não, apareceram outros seis para atrapalhar seus planos. Ódio era muito, principalmente de Aryeh. Se pudesse, aniquilava com ele para sempre.

Entrou batendo a porta. Seu aposento era luxuoso e gozava de uma bela vista para Helheim.

– Droga! Eu que trarei a vitória para Hell. Eu!

Milênios atrás

Território onde hoje se encontra a Irlanda

A expressão não poderia ser a mais contente possível. Não havia sobrado ninguém da tropa inimiga. Com a espada em mãos banhada por sangue, Andrasta exibia um grande sorriso. A cada morte, seu objetivo de se tornar rei estava mais próximo. Logo teria terras, riquezas e glórias.

– Salve Hell! — gritou erguendo a espada.

Seus subordinados também ergueram suas armas, saudando a líder de todos. A medida que voltava para seu acampamento era felicitado por todos e aquilo o enchia de orgulho e soberba. Na sua tenda, jogou a espada longe, pegando uma grande taça de vinho.

– A mim! — brindou.

Meses antes...

Era o homem mais respeitado da tribo, atrás somente do patriarca, mas para ele aquilo era pouco. Queria mais, queria muito mais. Mas naquela ilha remota, esquecida pelos deuses, seus planos de conquista, não passariam de meros sonhos. E aquilo o desagradava-o. Sua sede de poder tinha que ser saciada, a qualquer custo.

– Andrasta. — um jovem loiro entrou afoito em uma tenda.

– Senhor Andrasta, Sil. — o fitou ferino. — senhor.

– Desculpe... — gaguejou. — é que trouxeram noticias das terras além mar.

– Devem ser no mínimo chatas. — encheu a taça de vinho. — mas fale.

– Os asgardianos entraram novamente em guerra contra os gigantes de Jotunheim.

– Nunca chegará até aqui. Nenhum dos lados tem interesse nesse lugar. — tomou uma boa dose de vinho.

– Ao contrário, já batem a porta de Gales. Há rumores que as aldeias vizinhas pensam em partir para o norte.

– Bobagem.

No primeiro momento Andrasta não deu muita importância, contudo viu nessa guerra uma grande oportunidade e dias depois não hesitou em sacrificar toda a vila, vendendo-os como escravos, para conseguir um lugar no exército de Wotan. Foi enviado para as terras de Ruten, onde as tropas principais do deus dos deuses estavam reunidas. Era apenas um soldado raso, mas não descansaria até chegar a Wotan...

– Muito bem Andrasta. — disse o comandante das tropas do deus. — com suas táticas, conseguiu desmantelar o exército inimigo.

– Não foi nada senhor. — estava ajoelhado. — tudo pelo nosso deus. — sorriu.

Andrasta sabia manipular muito bem e ninguém de sua guarnição imaginava que ele almejava o posto de seu superior. Em pouco tempo conseguiu o que tanto queria. Só não contava que a tropa o qual fazia parte seria completamente dizimada pelo exército liderado pela filha de Loki. Todos foram mortos e apenas ele levado a um representante de Hell na ilha. Apesar dos ferimentos, tinha que manter o raciocínio lógico para escapar com vida e para isso não teve problemas em jurar lealdade a Hell. Não foi muito difícil, pois sempre escolheria o lado do mais forte....

... Tomou todo o vinho e preparava-se para dormir, quando uma pessoa encapuzada entrou em sua tenda.

– Não tem noção do perigo. — rapidamente retirou uma faca da cintura.

– Vim ver se os rumores são verdadeiros. — uma voz feminina preencheu o ambiente.

– O premio por ter vencido é uma noite agradável? — deu um sorriso malicioso.

– Poderia até ser, mas não para um simples humano.

– Então a vadia se acha especial? — com agilidade, segurou a mulher pelo pescoço apontando a faca.

– Abaixe essa faca, celta. É uma luta desigual.

– Como se eu temesse uma mulher.

– Pois deveria.Trago boa noticias a você. Seu maior desejo é conquistar poder e glória não é?

Andrasta abaixou a faca, afastando da mulher, mas sem retirar os olhos verdes dela.

– O que quer?

– Seu conhecimento sobre o exército de Wotan chegou a ouvidos poderosos. E por isso receberá como gratificação um posto de comando das tropas ligadas diretamente a filha de Loki.

– Quem é você?

– Não acredita na proposta? — a mulher retirou o capuz, revelando os olhos azuis e os cabelos prateados que desciam em ondas.

– Eu acredito apenas na minha força.

– Não poderia esperar melhor resposta. Qual o seu nome?

– Andrasta.

– Andrasta... se realmente estiver disposto a jurar lealdade a Hell, seus sonhos de poder serão realizados no novo mundo que ela irá criar.

– Que garantias tenho?

– A mesma que Hell tem da sua lealdade.

Ele ficou em silencio por alguns segundos. Nunca tinha visto aquela mulher. De certo poderia ser acompanhante de algum dos grandes generais, ou uma reles escrava querendo brincar com ele. Aprendera naquele mundo a confiar apenas em si mesmo.

– Eu não espero menos de uma pessoa que vendeu a própria tribo.

Andrasta arregalou os olhos. Nunca havia contado isso a alguém, como ela sabia?

– Hell faz o convite apenas uma vez.

– Eu aceito, mas com uma condição.

– Qual?

– Quero conhecer a deusa Hell.

A mulher deu uma gargalhada.

– Só isso? Pensei que pediria algo mais difícil.

– Você tem livre acesso a ela?

– Está diante dela. — a voz saiu firme.

Andrasta jurou sua lealdade, mesmo diante da morte. Só Hell poderia realizar seus planos e seguiria até Helheim.

– Provarei que a minha lealdade é tanta, que ela irá me recompensar ainda mais. — disse fitando os punhos. — no novo reino dela, eu serei o maior de todos os humanos.

Nos andares abaixo, Erda e Einlin tinham se retirado, restando Seren e Aryeh.

– Mesmo com o passar dos anos Andrasta continua o mesmo impulsivo. — disse Seren, olhando suas feridas.

– Einlin cuidou dos seus ferimentos?

– Sim, o veneno foi neutralizado.

– Andrasta tem uma combinação perigosa: ambição e impulsividade — Aryeh voltou ao assunto anterior e sem voltar a atenção para ele.

– Ele é novo. — Seren o fitou debochado.

– Assim como você, quando nos encontramos pela primeira vez.

– Sim... — Seren sorriu, lembrando-se daqueles dias...

Milênios atrás

Território onde hoje se encontra a Dinamarca

As mãos doíam por causa do peso carregado. Sempre sobrava para ele a tarefa de transportar através de carrinhos as pedras que seriam utilizadas para a construção de muros de contenção. Sua sorte era que estava entardecendo, o que facilitava o serviço.

Depois de descarregar, no local indicado, foi para a tenda destinada a todos os escravos. Sim, ele era um escravo do exército de Hell.

Recebeu a refeição da noite e tratou logo de procurar um local para dormir. Estava cansado e o serviço no dia seguinte continuaria ainda mais forte. Mas não tinha onde repousar, não lhe restando opção de ir descansar na mata. Aquela guarnição do exército, estava acampada na base de umas colinas.

Seren subiu por entre os arbustos atingindo o cume de um pequeno monte. De onde estava tinha uma linda vista do vale logo abaixo e do céu estrelado. Logo pegou no sono, lembrando-se do seu tempo de homem livre.

Meses antes...

Seren pertencia a uma pequena tribo que ficava no sul, onde é hoje a Dinamarca. Ele era órfão de pai e mãe e desde bebê foi criado pelo ferreiro da tribo que fabricava desde utensílios para o uso cotidiano até armas para guerras, como espadas, machados e lanças. Seren nunca quis se tornar um guerreiro, escolhendo a agricultura como profissão, mas por ser filho de um grande ferreiro, aprendeu a arte de forjar e empunhar uma escada. Seu pai sempre o incentivou, pois via que ele tinha grande habilidade no manejo das armas, mas Seren não quis.

Sua vida seguia tranquila até a guerra entre os gigantes e Asgard chegar a sua morada. Sua vila foi dizimada pelas tropas humanas lideradas por Vali filho de Odin. Apenas cinco homens sobreviveram ao massacre sendo transformados em escravos, Seren foi um deles. Andou de terras em terras até ir parar em Loren, região central onde hoje é a Suécia.

Dias atuais...

Foi despertado do sono, por sons estranhos. Tomando o cuidado para não ser visto, Seren embrenhou-se na mata, chegando do outro lado da colina. De lá avistou uma estranho movimento. Usando a cautela aproximou-se da movimentação percebendo que se tratava de parte do exército mortal de Wotan. Durante toda a noite, escutou as conversas e circulação de pessoas. Estava sendo realizado ali uma emboscada. Antes do dia clarear Seren voltou ao seu acampamento, cheio de dúvidas se contava ou não sobre o que viu. Era um escravo e certamente ninguém lhe daria ouvidos, já que a luz do dia o exército inimigo estava camuflado. Decidiu procurar seu superior.

– Tem certeza disso Seren? — o homem alisou a longa barba ruiva.

– Sim senhor. Se não fizermos nada, seremos pegos de surpresa. Em dois dias não restará nada de nós.

– Tomarei as providencias. — ele confiava nos julgamentos de Seren. — Não conte a ninguém sobre isso.

– Sim.

O superior de Seren procurou o mensageiro de Hell e soube por ele, que a própria deusa, estaria naquelas terras em poucas horas e nem imaginou que estaria diante dela.

Seren e ele estavam curvados no chão. A deusa estava sentada num trono improvisado tendo do lado direito três generais e do esquerdo dois.

– Qual é o seu nome?

– Sou Mir, senhora. — disse o superior.

– A informação que trouxe é confiável?

– Sim. Seren pode confirmar tudo.

Ela desviou a atenção para o rapaz, analisando-o atentamente. Seren por sua vez não ousou erguer o rosto.

– Levante-se. — disse imperativa.

Acanhado o dinamarquês levantou.

– Que posição ocupa Seren?

– Sou um misero escravo senhora. — a fitou rapidamente.

Andrasta deu um sorriso debochado.

– Se a informação for correta, os dois serão recompensados, mas se estiverem errados, tenham a certeza da morte.

– Sim senhora. — respondeu os dois.

A informação obtida por Seren fora verdadeira. O exército de Hell conseguiu surpreender o exército de Wotan, aniquilando-o completamente. Dias depois Mir e Seren foram levados para as imponentes terras de Loren.

– Estou satisfeita por não terem mentido.

– Agradecemos a confiança senhora. — Mir disse pelos dois.

– Como prova da minha gratidão, realizarei um pedido. O que deseja Mir?

– Se... for da vontade da senhora, gostaria de servi-la em minhas terras.

– Onde são?

– Ao norte daqui.

– Concedido. Será comandante das tropas de lá. Será transferido hoje ainda, pode ir.

Mir trocou um sorriso com Seren antes de partir, dizendo um obrigado. Seren sorriu. Ele desejava a liberdade, mas pensando friamente, não tinha mais para onde voltar. Sua vila tinha sido destruída. Fitou discretamente os generais que acompanhavam Hell. Olhou para a única mulher do grupo. Todos pareciam muito fortes, queria ser como um deles mas aquilo era utópico para um escravo. Teria que se contentar com sua liberdade.

– E você Seren o que deseja?

– Eu gostaria de servi-la. — ajoelhou, abaixando o rosto.

Hell deu um sorriso discreto e com a mesma discrição olhou para Aryeh ao seu lado. Ele desembainhou sua espada, jogando-a perto de Seren. O escravo levou um susto.

– Espero que seja bom na defesa. — disse Aryeh.

Quando Seren deu por si, a lamina da espada encaminhava para seu pescoço. Num reflexo rápido pegou a espada no chão, parando o ataque. Usando sua força, empurrou Aryeh. Os começaram uma batalha. Aryeh estava impressionado com as habilidades de Seren. Ele era um ótimo lutador.

– Já chega. — disse Hell, fazendo as espadas pararem no ar. — é o suficiente.

Aryeh recolheu sua espada voltando para seu posto.

– Tem boas habilidades para um simples escravo.

– Fui treinado desde pequeno, senhora. Também sei forjar.

– Sua informação me valeu uma grande vitória sobre Wotan e nada mais justo que tenha alguém leal ao meu lado. Será um dos meus generais.

Os olhos azuis de Seren arregalaram.

– Eu?

– Sim. Andrasta é o general da Irlanda, Aryeh da Islândia, Alfarr de Gales, Erda da Noruega , Einlin da Finlândia e você da Dinamarca.

Seren foi o ultimo guerreiro de Hell a morrer na batalha, e como servidor foi fiel até o fim.

– Foi uma grande honra. — disse.

– Hell sabe recompensar quem é fiel a ela. — disse Aryeh levantando.

Sentada numa confortável cadeira de veludo escarlate, Hell lia o livro. Nele, além dos ensinamentos de como abrir o selo, dizia também sobre o acordo feito pelos deuses pela partilha do planeta. Escutou duas batidas a porta.

– Entre. – disse sem ter o trabalho de virar.

Aryeh abriu a porta devagar, demorando o olhar na deusa. Os ossos do lado esquerdo estavam a mostra.

– Alfarr e Kalisha? – indagou, as íris azuis continuaram nas páginas amareladas.

– Não chegaram. – o guerreiro caminhou até ela parando ao seu lado.

– Chame Kalisha e mande Seren. Eu preciso dele aqui.

– Alguma missão?

– Preciso de uma fonte extra de cosmo. Farei uma visitinha, quero que Kalisha me acompanhe.

– Eu não sirvo?

Hell o fitou sorrindo.

– Kalisha está reclamando que está sem ação. Na próxima levo você.

O.o.O.o.O

Kamus deitou Isa com cuidado em sua cama. O quarto estava vazio, pois Suellen estava com Kanon e Cristiane na enfermaria.

– Está se sentindo melhor?

– Estou. Só um pouco cansada. Foram muitas emoções... — fitou o elmo de Aquário que deixava o rosto do francês ainda mais belo.

O cavaleiro tocou o rosto dela, acariciando-o lentamente. Teve medo de perdê-la.

– Kamus... não sei como te dizer, mas... o colar que me deu... quebrou...

– Como? — indagou baixo.

– O tal guerreiro disse que o cisne amenizou o impacto do ataque.

– Eu havia colocado um pouco do meu cosmo nele. Ainda bem que foi o suficiente para protegê-la... não sei o que faria se...

– Já passou. — depositou o dedo sobre os lábios dele. — estamos bem agora.

O aquariano a beijou demoradamente.

– Farei outro, para que fique protegida.

– Obrigada.

– Você tem algum problema com lugares fechados?

– Não... por que...?

– O templo não é mais seguro, alias todo o santuário está sem proteção, exceto um lugar.

– Qual?

– O subsolo de Câncer. É o local mais seguro daqui. Estou pensando seriamente em te levar para lá.

– Mas a Helu disse que tem cabeças lá... de jeito nenhum!

– É para sua segurança. Não duvido que os outros também tenham a mesma ideia.

– Teme outro ataque?

– Ainda não temos informações dessa deusa. Tudo é possível. — levantou, passando a andar pelo quarto. — isso é grave.

– Vai derrota-la.

– Não se trata apenas disso Isa. — a fitou. — esse ataque nos mostrou o quanto estamos vulneráveis. Somado a isso...

– Diga. — ficou preocupada, Kamus trazia a expressão mais séria do que o normal.

– Vocês... quase morreram num simples ataque... estávamos acostumados a nossa vida de batalhas e guerras, aí vocês chegaram... — voltou a sentar perto dela. — e nos deram uma nova forma de ver o mundo... Não estamos preparados para perdê-las... seria um golpe tão duro que não duvido que perderíamos a guerra.

– Se sente assim? — pegou nas mãos frias.

– Sinto...

– Nós vamos sair dessa. Hell será derrotada e tudo voltará ao normal, tenho certeza.

O.o.O.o.O

Juliana havia examinado os curativos feitos por Shaka, logo em seguida foi para a biblioteca ver se Heluane precisava de algo. Não demorou muito tempo para Shaka sair a sua procura.

A encontrou na biblioteca. Discretamente a chamou.

– Pode vir comigo?

– Sim.

Ele pegou na mão dela, levando-a para o templo que ficava ao lado da fonte.

– Sente-se aqui.

Obedeceu.

– Está tudo bem mesmo? — acariciou o rosto oriental.

– Está. — sorriu. — por sorte você chegou...

– Ele não encostou em você? — o indiano abriu os olhos.

– Não. Isso me protegeu. — tirou o terço de contas. — obrigada.

– Fique com ele. — recolocou. — ficarei mais tranquilo sabendo que está com ele.

Ju o fitou, teve muito medo de não vê-lo novamente. Surpreendendo-o ela o abraçou.

– Tive medo.

– Não vou deixar que nada te aconteça. — a abraçou bem forte. — vou te proteger.

– Essa deusa...ela é forte, vi uma aura negra ao redor.

– Viu? — a soltou fitando-a com surpresa.

– Sim. Dela, de Atena e depois de vocês. Mas agora não vejo e nem sinto nada.

– Você viu o cosmo?

– Acho que sim. É uma luz que fica ao redor da pessoa?

– Basicamente. — ficou preocupado. — você é uma pessoa normal, não deveria ver.

– Ester e Cristiane também viram. As outras também.

– Deve ser por causa da barreira, ou algum outro evento. — voltou a abraça-la. — não precisa se preocupar. — alisava os fios negros.

– O que vai ser de nós Shaka? — segurou com força as costas dele. — vocês vão atrás dela?

– Temos que para-la Ju... não podemos deixa-la destruir o mundo.

– Tenho medo... se algo te acontecer...

– Escuta. — segurou o rosto dela entre as mãos. — não vai acontecer, pois vai me prometer que iremos a Índia juntos.

– Índia? — indagou surpresa.

– Sim. — sorriu. — eu quero encontrar a Kajra e te apresentar a ela. — deu um largo sorriso.

– Está falando sério? — não teve como não sorrir diante dos dentes alvos.

– Estou... Shun pode ficar tomando conta de Virgem, enquanto viajamos. Nós vamos vencer essa guerra e viajarmos juntos. Eu prometo. — esticou o dedo mindinho.

Juliana fitou o gesto sem entender.

– Não é assim que sela uma promessa no Brasil? — indagou ressabiado. — Ricardo me ensinou assim...

A brasileira sorriu.

– É sim Shaka. — juntou o seu mindinho no dele. — é uma promessa. Nós vamos para a Índia.

O cavaleiro sorriu. Agarrou-se a essa promessa para alimentar a esperança que tudo daria certo, pois no fundo...

Notas finais
*Vidar: é um dos filhos de Odin, deus associado à vingança. *Vali: é o deus da natureza, filho de Odin e Rind. *Loren e Ruten: nome de locais inventados para a fic, mas situa-se na região central da Suécia. * As histórias dos guerreiros de Hell serão contadas aos poucos e não estão na sequencia que eles foram encontrados pela deusa. A título de entendimento a ordem que a Hell achou seus guerreiros foi: Aryeh, Andrasta, Alfarr, Erda, Einlin, Seren e Kalisha.