A Lenda dos Guerreiros de Centurian

26 Capítulo 26 - O Templo Perdido


Os dragões voavam velozes cortando o céu noturno em direção as montanhas de Xangid. Eólia torcia para que Rubian se aproximasse logo de seu campo de visão, ela segurava o corpo febril de Hugo junto de si enquanto lembrava dos últimos acontecimentos em Topáz.

- O corte não foi profundo, mas seu caso é grave. O veneno está tomando conta de seu corpo lentamente. Infelizmente, o antídoto que tínhamos foi danificado com a trepidação e a única erva que o produz existe apenas nas montanhas de Rubian. Não há tempo para ir e voltar, ele é resistente e, portanto, aconselho que o leve junto.

- Princesa Eólia... – o substituto de Fawkes entrava clamando por sua atenção — o povo espera por suas palavras...

- Cuidem dele por mim! – ela limpava as lágrimas que surgiram como contas de orvalho – partiremos assim que eu retornar.

Ela saiu para a multidão, o povo de Tópaz a aguardava, eles a aplaudiam e ovacionavam exultantes: “Dragonnis! Dragonnis!”. Eólia olhava para todos eles, para todos os tipos de rostos, de idosos, de jovens, de crianças, de homens e de mulheres. O silêncio se fez após ela levantar a mão e sua voz foi ouvida.

- Povo de Tópaz! Sou Eólia, neta do Rei Lan Dragonnis, muitos de vocês foram fiéis e lutaram com ele enquanto Zahfir subia aos céus levando suas esposas, filhos e filhas... Outros não tiveram a sorte de se refugiar, mas com certeza todos nós perdemos entes queridos nessa guerra... Por muito tempo a Rainha Lyan resistiu aos avanços das trevas, mas Zahfir foi tomada e amaldiçoada...

O murmúrio crescia a volta, mas novamente ela pediu silêncio.

- Nem tudo está perdido... A Senhora da Luz evocou os Guerreiros de Centurian, ontem impedimos o retorno do Castelo de Cristal porque significaria trazer desgraça a todos... Zahfir retornará, ainda veremos todos nossos familiares sãos e salvos e então, não seremos mais um povo pela metade, mas o Reino de Lan por inteiro... Por isso peço que não se deixem levar pelo medo, a esperança em seus corações é a força que necessitaremos sentir para lutarmos contra a escuridão. Que os Ventos Eólios protejam a todos até a volta!

Era seu desejo quando Eólia ergueu sua espada refletindo uma luz intensa e de todas as direções às brisas trouxeram frescor aos desertos enquanto seu povo sentia a esperança renovada.

Mais tarde enquanto seu dragão carregava a ambos ela sussurrava no ouvido de Lantis palavras de conforto, amor e carinho com medo de que ele caísse num sono sem retorno.

- Agüente firme, por favor... Amor? Está me ouvindo.

- Okay... do... çura...

- Lantis! – ela o abraçou com infinita ternura – Íris quanto mais?

- Estamos sobrevoando as Montanhas de Neve, mas não gosto da fumaça ao nosso redor...

Os dragões sobrevoaram a aldeia dos Essthis e seguiram diretamente para o Templo Perdido. Um velho eremita os aguardava diante do portal.

- Quem vem lá? – a desconfiança bem notável na forma agressiva de falar.

- Thor de Vandreis – ele desceu do dragão e se curvou diante do Essthi.

- Filho de Aelfis e Tylanna!

- Sim, avô! Precisamos de vossa ajuda!

Serena e Eólia tentavam manter Hugo de pé, porém ele perdeu a consciência novamente e elas se curvaram para deitá-lo no chão.

- Não temos muito tempo, senhor! A vida deste homem depende de sua boa vontade. – Thor mostrou a sua gema.

- Guerreiros de Centurian? Isto quer dizer que a Senhora da Luz... – o eremita balançou a cabeça e parecia lamentar – Tragam-no... Ele deve beber o antídoto imediatamente ou morrerá...

Alguns dias depois, já restabelecido, Hugo estava sentado observando o céu estrelado quando sentiu a presença do eremita ao seu lado, ele lhe devia a vida e desocupou seu lugar para que o ancião sesentasse.

- Devo-lhe a vida, guardião!

- Esse é meu destino! Você trouxe Falcão Sagrado para casa, quando ninguém mais faria, portanto, o meu débito é maior e não poderia deixar de ajudá-lo mesmo que não fosse um dos Guerreiros.

Os outros guerreiros se aproximaram e se sentaram todos no chão em volta do Guardião da Vida e assim, finalmente ele se pronunciou:

- Nós, os Essthis somos considerados seres eternos devido a nossa longevidade, mas nós também perecemos neste mundo... Existem duas formas para isso, a maneira honrada é vivendo plenamente o ciclo até que a chama da vida se apague ou morrer de forma vil como o jovem essthi que teve suas asas rasgadas. Para nosso povo não há nada mais sagrado que isto – ele abriu as asas de tonalidade dourada – e devemos zelar por ele. Você o sepultou devolvendo a Dhoual, a dignidade do grande guerreiro que foi. Sua atitude não teve preço Hugo Lantis, o exterminador. Sim... Eu sei quem você é Guerreiro do Fogo.

- Azabael, eu roubei a pedra de Dhoual. Não sou um guerreiro de verdade! Devolverei a gema ao senhor – abriu a palma de sua mão reluzindo como uma pequena chama.

- Impossível! Não poderia tocá-la mesmo que quisesse. Só os escolhidos podem possuí-la. E você já atingiu o maior estágio de evolução, só os guerreiros com capacidade total conseguem incorporar a gema.

- Ainda não possuo a confiança de meu dragão.

- Deve ser porque está em dúvida quanto a sua condição de guerreiro. Existe uma Antiga Lenda em forma de versos que vou lhes contar, ouçam bem:

O caos reinava,

Em eterna luta,

O bem e o mal em labuta.

Regia sol e lua,

Cansados da continua guerra,

Luz e trevas se recolheram a terra,

Mortais se tornaram,

Os sentimentos fluíram,

E juntos o amor descobriram.

Lágrimas da Luz afloraram,

Raios das Trevas caíram,

E duas gemas surgiram.

O diamante reluzente,

E a ônix onipresente,

De um desejo latente.

O ancião terminava de recitar o poema, ouvia-se apenas o ruído da noite enquanto os guerreiros ruminavam os pensamentos tentando assimilar o que lhes era passado.

- Por muito tempo houve paz e as gemas foram repassadas de geração em geração para almas que se compreendiam perfeitamente em suas diferenças até o Rei Lan, ele deveria ter abençoado a escolha de sua sucessora, mas a senhora da luz temeu contar que seu amor era um simples Guardião Real chamado Morphilus Zagard.

- Como sabe disso? – Eólia queria saber mais, porém tinha medo de perguntar.

- Este templo serviu de abrigo aos dois jovens apaixonados e eles selaram sua união aqui, fui testemunha da felicidade de ambos antes dessa guerra insana começar, não sei o que pode ter ocorrido aos dois... Apenas ouvi dizer que Lan morreu durante o ataque dos Goblins e depois senti duas forças antagônicas lutando.

- Meu avô foi contra esse casamento?

- Lan jamais seria contra absolutamente nada que a Jovem Lyan lhe pedisse, seu medo sempre foi infundado, ele teria dado a benção desde que tivesse a certeza de que sua filha seria feliz.

- Senhor, eu gostaria de saber mais sobre as gemas.

- Meu caro neto. As duas gemas juntas abrem caminho para realizar apenas um desejo e por isso as almas fortes precisam querer a mesma coisa. Quando o contrário acontece, os Guerreiros de Centurian são evocados para dar destino ao desejo.

- Teremos que escolher entre os dois desejos? Em vez de escolher podemos mudar esse desejo?

- Ah! Pequena Sereia... Chegou num ponto muito importante, se há divergências entre duas pessoas, que dirá unir o desejo de quatro? Sinceramente não tenho essa resposta... Espero que voltem para me contar.

- Voltaremos!

O ancião sorriu ao ouvir a voz sincronizada dos guerreiros.

- Tenham uma boa noite! Só preciso que você fique mais um pouco, Thor.