A Lenda dos Guerreiros de Centurian

2 Capítulo 2 - Zahfir e a Rainha da Luz


O Reino de Lan se movimentava majestosamente no céu, as torres de cristais do castelo reluziam entre as nuvens e era uma imagem etérea de esperança para os habitantes terrestres de Centurian. Zahfir prosperava a cada dia, governada sabiamente pela rainha Lyan Dragonnis, detentora dos poderes da Luz e do Cetro da Esperança.

Em seu trono, enquanto esperava pela chegada de seu bem mais precioso, a rainha sentia o peso do destino que escolhera para si, uma tristeza infinita se apoderava de seu ser ao pressentir o quanto ele estava próximo de conseguir sua vitória.

A porta do grande salão se abriu e uma lufada de vento soprou com a entrada de Eólia, acompanhada pelas crianças do vilarejo, os rostos alegres daquelas crianças dissiparam as últimas dúvidas sobre o que deveria ser feito e uma nova determinação estampou-se em sua face.

- Majestade! – cumprimentou-a comportando-se qual uma lady – Nós estivemos nos divertindo tanto que não pude me despedir dessas criaturas adoráveis.

As crianças soltaram risinhos de contentamento enquanto cumprimentavam a rainha educadamente como a jovem princesa lhes ensinara.

- Eu diria mais precisamente que se divertiam subindo em minha árvore predileta e centenária... – a rainha sorriu ao ver os olhos cheios de culpa estampados nos rostinhos travessos e disse menos severa. — Tanto exercício necessita de algo comestível para repor as energias dessas crianças em crescimento – o Cetro em sua mão brilhou – Roddy preciso de você.

Quase imediatamente a porta do grande salão se abriu novamente e uma senhora rechonchuda, de rosto generoso surgiu.

- Crianças! Acompanhem Roddy até a cozinha. Ela lhes servirá quitutes de derreter na boca – disse adivinhando as intenções da rainha e em tom de brincadeira acrescentou – Por favor, deixem algumas dessas delícias para mim.

As crianças acenaram em despedida enquanto acompanhavam uma Roddy atrapalhada com tantas cabeças pensantes e corpos saltitantes em seu encalço. Quando elas sumiram atrás da porta, Eólia subiu os degraus que a aproximavam de sua mãe e ajoelhou-se pousando a cabeça em seu colo.

A rainha olhou para filha como se estivesse realmente vendo-a pela primeira vez. Ela havia se tornado uma bela jovem, os cabelos cor de ébano e lisos emolduravam-lhe o rosto, os olhos eram expressivos e extremamente azuis como as do pai. Somente os mais atentos perceberiam a sombra momentânea nos olhos da rainha, porém não havia mais ninguém ali e Lyan deixou a dor lhe dilacerar o peito ao lembrar que carregaria a culpa por pai e filha jamais terem se conhecido.

- Pressinto que o poder das trevas está crescendo e a sua sombra nos alcançará – disse com a voz embargada e tocando os cabelos sedosos de sua filha. – É chegado o momento.

- Não! – protestou em sussurro, temendo o que estava por vir – Isso vai enfraquecê-la e nosso povo precisa de você.

- Por isso decidi usar nossa última esperança – levantou o rosto de sua filha para olhar bem dentro de seus olhos – Eu não tenho escolha, mas tenho fé que você, Eólia, seja um deles.

- O Senhor das Trevas virá para Zahfir e...– levantou mais o queixo agora em desafio – é meu dever lutar ao lado de meu povo.

- Ele virá de qualquer jeito e... eu já não posso mais detê-lo – disse carregada de tristeza – Eu preciso que você os encontre antes de Morphilus ou tudo terá sido em vão. Prometa-me que partirá assim que os guerreiros forem convocados.

- Está bem... – suspirou ao ver os olhos suplicantes de sua mãe — prometo.

Mãe e filha se abraçaram, pois esta poderia ser a última vez que se viam. As duas desceram a escadaria para se posicionarem no centro do grande salão. A Rainha da Luz iniciou uma cantilena antiga e a cada verso proferido o Cetro da Esperança brilhava mais:

Um ser procura outro ser...

E por isso a alma busca seu igual.

Para um desejo não pode haver dois caminhos,

E do desencontro nasce o caos.

Separados por um abismo,

Assim será entre eles, Treva e Luz.

Da alma aprisionada nasce o mal,

Da alma entristecida vem à esperança.

Uma força mágica surgiu e o Cetro flutuou sobre suas cabeças e se extinguiu, deixando apenas a grande gema de diamante.

- Minha alma por um último desejo, Guerreiros da Luz, eu vos invoco! – Lyan pronunciou, mas antes de desfalecer enfraquecida pela troca, ainda viu a pedra se partir em quatro pedaços luminosos, formando quatro gemas menores dos quais três desapareceram imediatamente a procura de seus guerreiros.

Eólia, sentiu-se atraída pela tonalidade lilás, o impulso de tocar aquele objeto no ar era irresistível e ao atender esse desejo, a gema deslizou para dentro de sua mão. Ela sentiu um calor se espalhar por todo seu corpo e suas vestes simples se transformaram em trajes de guerreira. Em sua mão sentia o poder mágico que lhe era conferido, a pedra tomou a forma de uma arma e ao sentir o contato frio do cabo despertou do transe.

- Mãe! – agachou-se para ampará-la, tomando a mão da rainha entre as suas. – Está tão fria...

- Vá... antes que seja tarde... – Lyan despertou com o toque suave e disse com dificuldade – Ele... já percebeu... meu enfraquecimento...

- Não quero ir deixando-a assim... – temia por sua mãe e suplicou-lhe – por favor...

– Eu ficarei... bem — a rainha havia utilizado quase toda sua energia vital, mas ainda assim, com o corpo cansado sentou-se altiva e disse firme – Zahfir estará segura enquanto ainda viver e ordenou – Vá agora, Eólia!

Ela hesitou por um breve momento, mas a razão lhe dizia que necessitava partir. Por mais que abominasse a idéia de deixar sua mãe e seu povo, mas ela sabia que fora escolhida para trazer esperança para todos os povos de Centurian. Eólia deixou-se beijar em sua fronte, agora era a rainha e não a mãe que se despedia dela, então dissipando as dúvidas e os temores interiores, ela partiu sem olhar para trás.

Notas finais
Adoro essa possibilidade de castelos pairando no ar. rsrsrsrs