A Lenda do Clã dos Pokémons Lasanha
17 Ganância
Emanuele caminhava pelas ruas com pensamento distante. Era final de tarde, porém não se notava, pois as nuvens não davam passagem para os raios do sol e a chuva caía fina. Seus pés pararam perto de uma pequena ponte, na periferia da cidade.
Katie não saía de sua cabeça, desde cedo que aquela garota estava em seus pensamentos. Por que? Era a pergunta sem resposta. Aquela loirinha não era uma pessoa comum e para a ninfa isso era um fato incontestável.
A chuva leve e gelada lavava seu rosto, as trovoadas e relâmpagos não a incomodavam.
Ema. Era o nome que ficava latejando em sua mente. Katie a chamou desse jeito o que lhe trouxe más recordações. Por que tinha que se lembrar daquilo? Por que aquilo havia acontecido? Queria tanto ter essas respostas, queria mais que tudo. Sentia saudades de casa, da sua verdadeira casa.
Não que a humana com a qual ela vinha vivendo fosse ruim, longe disso, porém não era a mesma coisa. Sentia saudade dos campos e dos bosques. Sentia saudades de sua mãe e das outras ninfas. O que mais lhe doía era a falta de sua irmã Ema.
Se aquela mulher não tivesse aparecido, se ela não tivesse a usado para fazer aquilo, nada disso teria acontecido. Ela ainda teria sua irmã. Agora era tarde, nunca mais a veria, e tudo por que? Por causa de um sentimento imundo que lhe foi imposto. Do que adiantava ter o título de “Ninfa Celeste” quando jamais poderia ver quem mais amava e ter sido banida do vale das ninfas? Nada, não valia nada.
Seria possível Katie saber sobre Ema? Depois de uma rápida reflexão a resposta era óbvia. Era impossível ela saber. Aqueles acontecimentos terríveis haviam sido há 75 anos, não haveria como outros saberem. 75 longos anos.
Um brilho vermelho entre as árvore chamou sua atenção. Seus pés a levaram lentamente até a fonte da luz.
— O que faz aqui? – perguntou uma voz a seu lado.
Seu corpo se enrijeceu e se virou brutalmente para o lado, em posição de defesa. Seus olhos pousaram sobre os fios loiros molhados que balançavam conforme o vento. Tentou formular uma desculpa qualquer para dizer, por mais esfarrapada que pudesse ser. Mas primeiro, pra que tinha que se explicar? Aquilo era um local público! Mas algo na voz da outra despertou seus sentidos, servindo como alerta.
— Bom, não importa na verdade – falou Katie antes que Manu arrumasse uma resposta. – Eu precisava falar com você em particular mesmo, agora parece uma boa hora.
Katie deu dois passos para frente o que fez Emanuele recuar um pouco. A loira notou e parou de avançar.
— Gostaria que você parasse de se meter nos meus planos.
Manu não entendeu, mas a outra parecia estar falando sério.
— Que planos? – indagou.
— Se não sabe não preciso contar – deu de ombros. – Não que fosse fazer diferença já que estou deixando a cidade.
— Como assim? – perguntou a ninfa incrédula enquanto a outra ia em direção ao brilho vermelho. – Todos gostam de você, pra que ir embora?
Katie ignorou as perguntas da outra passou a mão no galho de uma árvore, retirando um anel com uma pedra vermelha. A joia era a fonte do brilho. Após botar o objeto no dedo, se virou.
— É, eles gostam, porém já consegui o que queria. Não tenho mais motivo para ficar aqui.
Seus punhos se fecharam com força.
— O que você é?
Um sorriso passou pelos lábios de Katie.
— Do que adiantará saber, irmãzinha de Ema?
A simples menção do nome de sua irmã fez o sangue em suas veias ferver. Não sabia como, mas ela sabia. E se ela sabia disso talvez soubesse o paradeiro daquela mulher. Não estava mais ligando para o que a loira tinha vindo fazer na cidade e muito menos queria saber, desde que conseguisse o que queria estava ótimo, nunca havia gostado dessa garota mesmo.
Com um simples movimento os galhos das árvores próximas se enrolaram no corpo de Katie impedindo seus movimentos.
— Então você deve conhece-la. Vamos fazer um trato: você me diz onde ela está que prometo não te matar.
Katie não respondeu, apenas fez uma cara de indiferença antes de falar.
— Não pode culpar ela por isso – riu seco. – Foram as suas mão que tiraram a vida de Ema.
— Cala a boca! – gritou Emanuele fazendo um galho se enrolar no pescoço da garota, sufocando-a. Quando achou que a outra não iria suportar soltou-a.
Katie tossiu algumas vezes antes de levantar o rosto, com um sorriso.
— Antes você me perguntou quem eu era. Vou responder sua pergunta, sou Katie da Ganância. Agora, quanto ao trato – os galhos que a enroscaram começaram a virar pó lentamente, libertando seu corpo – eu a deixarei viver se não interferir mais.
Manu pulou para trás ganhando distância.
— Até parece que os deixarei fazer o que quiserem. Meus amigos e eu vamos impedi-los.
— Que ótimo – falou dando um pulo. – Parece uma aposta e já que estou sendo bem generosa hoje lhe darei uma informação útil: parece que minha parceira gostou dos seus amigos, tanto que já começou a brincar com eles.
— Brincando com eles? Está falando da...
— Não, não é ela. Estou falando de Karen da Luxúria, parece que ela se interessou em Matheus e Victor. Fazia tempo que ela não ficava tão animada com a ideia de lutar com alguém, eles devem ser muito fortes.
Emanuele ficou em silêncio absorvendo a informação. Katie estava com ela e a tal Karen com Victor e Matheus, será que estavam atrás dela e seus amigos? Não, devia ser outra coisa, afinal ela ainda estava viva e Katie mesma disse ter alcançado seu objetivo. Seria alguma coisa relacionada ao anel? Era difícil dizer. Também era provável que não fossem só os três, talvez algum deles tenha se aproximado de César ou Cecília.
Ergueu a cabeça a fim de encarar Katie, mas o corpo dela estava se transformando em pó e se misturando ao vento. A última coisa que viu de seu rosto foi aquele sorrisinho convencido dela.
Foi apenas aí que se deu conta do que deveria ter feito. Devia ter perguntado aonde ela iria agora ou quando e onde eles se reuniriam novamente. Qual era o objetivo deles afinal?
“Ema, me perdoe, dessa vez com certeza vou vingar você”, esse foi seu último pensamento antes de se virar e sair do meio das árvores.
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