Romeo se vê em um cenário escuro e vazio. Ele não se lembra de como chegou ali, mas ali está ele. E apesar de não existir nada para sustentar seus pés, ele consegue dar passos sólidos e firmes, não que ele saiba para onde está indo. A imagem a sua frente começa a ficar tremula e tomar forma, então, seus passos começam a amaçar um gramado molhado de orvalho e ele tem de parar bruscamente para não esbarrar em uma estátua de anjo. Agora existe estatuas de anjos, cruzes enfincadas no chão e capelas, pois o cenário se transformou em um cemitério.

O céu está nublado e alguns corvos voam grasnando, quase como se quisessem avisar que estão por perto. Isso tudo deixa toda paisagem muito mais obscura, mas também muito mais bonita, pelo menos na visão de Romeo. Ele passeia pelo cemitério buscando entender o porquê de estar ali, mas cada segundo faz parecer que ele apenas quer estar ali, ou tem de estar ali.

De repente ele escuta o som de rocha se partindo e vira-se para encontrar uma estátua de anjo com a mão esquerda no peito e a outra estendida. Uma rachadura percorre da testa da estátua até as suas costas, onde Romeo já não pode vê-la correndo. O som emitido pela rachadura torna-se mais alto, então, ele percebe que todas estatuas, túmulos, capelas, cruzes e tudo que é feito de cimento ou mármore dentro do cemitério está se partindo. Mas o som desaparece, as rachaduras pararam de correr, e até os corvos param de grasnar.

O cemitério está em completo silêncio, mas Romeo continua desconfiado. Ele sabe que algo irá acontecer.

E acontece.

Tudo que está circulado pelas teias de rachaduras explode. Uma mistura de pedras, poeira, metal e vidro voa em todas direções, inclusive na de Romeo. Instintivamente, ele cobre os olhos com seu braço e se joga no chão rapidamente, mas em questões de segundo se vê em uma nova realidade. Em sua cama.

Romeo acorda ofegante e com a camisa molhada de suor. Não é a primeira vez que tem pesadelos assim. Na verdade, ele não consegue nem se lembrar de quando começou a ter esse tipo de sonho. Suspirando, ele levanta seu corpo, senta-se em sua cama e tem um arrepio quando sente a madeira fria em seu pé descalço.

Deslizando sua mão da testa ao seu rosto, ele tenta afastar as imagens de seu pesadelo, mas ao invés de removê-las de sua mente, ele apenas se lembra de outros pesadelos que teve. Como quando sonhou que logo após seus pais, que ele nem consegue se lembrar de seus rostos, deixarem-no no quarto com um beijo de boa noite, uma mulher com um véu aparece de trás da porta e de suas costas surge enormes asas negras soltando muitas penas. As únicas coisas que seus pesadelos têm em comum são que sempre aparece de alguma forma um ser alado, Romeo não tem certeza de que se trata de um anjo, mas o ser sempre está lá.

Depois de alguns minutos olhando vidrado para a lua e as estrelas através da janela, ele deita-se novamente e custa a voltar a dormir e quando dorme, para seu alivio, não tem mais nenhum pesadelo.

Na manhã seguinte Romeo chega mais cedo no colégio, apenas para que possa terminar de ler um livro que está quase acabando. Apesar de morar apenas com seu irmão e ele ficar fora a manhã toda, e parte da tarde, Romeo prefere o vazio de sua escola ao invés do vazio de sua casa que é muito mais triste. Apenas quinze minutos depois, ele termina seu livro e fica mais quinze minutos sem fazer nada esperando os outros começarem a chegar.

O primeiro a chegar é Marcus, o melhor amigo de Romeo. Antes de dizer qualquer coisa, ele cumprimenta Romeo com um jogo de olhar, balançar de cabeça e um sorriso.

— Cara você está horrível — diz Marcus torcendo o nariz.

— Obrigado — ironiza Romeo — Eu estou tendo pesadelos terríveis e não estou conseguindo dormir direito.

— Ah, é? — Marcus toma um lugar ao lado de Romeo e não pode parecer menos desinteressado — Que tipo de pesadelo?

— Do tipo que faz você pensar que o universo está tentando lhe passar uma mensagem e você não está conseguindo captá-la — responde Romeo, mesmo percebendo o desinteresse do amigo.

Marcus o encara por alguns demorados segundos com aquele olhar de julgamento e solta:

— Cara, não viaja — ele debocha — Eu tenho certeza de que se o universo quisesse te passar uma mensagem, a mensagem seria que você tem de assistir menos pornô gay.

Romeo revira os olhos e finge voltar a atenção para o seu livro já terminado. As vezes o jeito como seus amigos nunca o leva a sério, faz com que ele se irrite, mas nunca o bastante para ter de falar sobre isso.

Mais alguns alunos chegam. Charles, um garoto que na quinta série podia comer qualquer coisa, mesmo que não fosse comestível. Agora ele é um dos garotos que mais faz sucesso com as garotas. Logo depois chega Evan e Collin. Evan, o garoto que desde pequeno demonstrava tendências a cometer maldades, mas que piorou muito desde que encontrou seu parceiro de crime, Collin.

Alguns minutos depois chega Carol, junto de suas inseparáveis amigas: Millena e Roberta. E mais alguns outros que Romeo não dá a mínima ou não lembra seus nomes.

A última a chegar, atrasada como sempre, até mesmo depois do professor, é Sophia, a amiga de Romeo e Marcus. Ela é o tipo de pessoa que fala as coisas erradas nas horas inoportunas, mas sempre sincera. Por outro lado, ela é a pessoa mais gentil que Romeo conhece, mesmo que ao mesmo tempo seja a mais antipática.

Graças a ela, quando Romeo mais precisava de alguém, ela apresentou seu amigo Marcus. Mas faz muito tempo que ela deixou de ser a cola que une o grupo.

Ela passa por Romeo e Marcus e os cumprimenta discretamente, pois o professor está prestes a iniciar a aula.

— Agora que temos certeza de que ninguém mais chegará, já que Sophia sempre é a última — o professor olha de canto para ela — Nós podemos começar a aula.

Antes que pudesse se focar no que o professor está dizendo, Romeo teve sua atenção tomada pelo lado de fora da janela. Lá, o céu está cinzento e pesado, e faz Romeo se lembrar de seu pesadelo que tivera naquela madrugada. Porém no lugar de um cemitério sombrio e aterrorizante, ele vê apenas o pátio cimentado do colégio.

Quando ele volta sua atenção para o céu, um ponto negro surge de entre as nuvens e começa a ganhar tamanho. Romeo fica boquiaberto quando uma pena negra pousa ao lado de sua janela.

Ele não quer chamar atenção de toda a sala, mas com certeza pensa em pegar a pena quando a aula acabar e mostrar a Marcus, provando assim que seu sonho se tratava mesmo de um aviso. Romeo não entende o porquê de querer tanto que Marcus acredite que seu sonho teve um significado, mas ele simplesmente quer tentar fazê-lo acreditar. Talvez seja porque esteja cansado de seus amigos não o levarem a sério. Essa é a recompensa por ele sempre estar dizendo bobagens.

Cada minuto de aula parece uma eternidade. Quando o sinal finalmente toca, Romeo não se contém, e deixa de se preocupar com discrições, abrindo a janela bruscamente, chamando a atenção de todos na sala. Por sorte, os alunos estão mais interessados em ir para a próxima aula do que prestar atenção nas loucuras de Romeo. Todos saem da sala, deixando somente Romeo, Marcus e Sophia.

Seus olhos arregaladamente curiosos, murcham quando percebe que a pena não está mais do outro lado da janela. Nem em lugar nenhum.

— O que foi? — pergunta Marcus.

— Uma pena negra havia pousado aqui na janela, mas ela não está mais aqui.

— Uma pena? — pergunta Sophia com uma expressão que deixa claro que ela não está entendendo nada.

— Romeo está tendo sonhos com anjos e cismou que são mensagens do universo — o tom de Marcus não poderia ser mais debochado. Ele volta a sua atenção a Romeo — Mas mesmo que uma pena estivesse aí, não provaria nada.

— É verdade — diz Sophia concordando com Marcus — Uma pena é apenas uma pena e um sonho é apenas um sonho. É você e seu subconsciente interagindo.

Sophia é tão literal e cientifica. E Romeo odeia isso. Nada é verdade à ela enquanto não for provado.

— Viu? — começa Marcus — Agora podemos parar de agir como esse tipo de louco e voltar a ser loucos normais?

Romeo suspira e começa a pensar no que os amigos acabaram de dizer.

— Me desculpem, vocês não poderiam estar mais certos.

Romeo dá um sorriso apagado para os amigos. Mas apesar do sorriso apagado, ele realmente começa a pensar em como foi estupido de deixar pesadelos mexerem tanto com sua cabeça. Talvez ele só esteja comendo algo pesado antes de dormir ou assistindo muitos filmes de ficção cientifica.

— É que esses pesadelos estão me deixando louco e eu não posso fazer nada a respeito — Romeo leva as mãos ao rosto.

— É claro que pode — diz Sophia afastando a mão dele do rosto — Você pode deixar pra lá.

— Tem razão.

— Além do que — ela volta a sua postura de vadia insensível — Eu não quero que você venha com esse papo estranho na minha festa que eu darei essa noite. Ou vai assustar os convidados.

Marcus e Romeo caem na gargalhada, mas o rosto alegre de Romeo logo se fecha quando ele percebe que havia se esquecido completamente sobre a festa que Sophia dará a noite. Ele não se sente nem um pouco no clima para festas e sabe que a reação de Sophia não é das melhores quando alguém tenta dar um bolo nela.

— Sophia... Eu...

— Não venha com “Sophia...Eu...” pra cima de mim — diz ela muito irritada — Se você não estiver lá a noite, eu vou ficar muito irritada. E você provavelmente vai arruinar minha noite.

Ultimato.

— Tudo bem — Romeo se dá por vencido. Sophia consegue ser muito convincente quando ela quer — Eu vou.

Romeo confere no seu relógio em seu pulso e ainda não passou nem das nove, ainda falta mais quatro aulas, mas ele não está mais afim de estudar. Ele espera Marcus e Sophia saírem, então, ele vai por outra direção com apenas uma alça de sua mochila no ombro. Romeo é um aluno excelente, suas notas são excelentes, seu comportamento é ótimo, mas quando ele não está afim de assistir uma aula, ou sente que não vai suportar mais falações, ele simplesmente desaparece.

Todas as vezes que ele caminha entre os cidadãos da cidade enquanto está matando aula, parece que todos conseguem ler em sua testa que ele não deveria estar ali. Mas isso nunca o impede. Ele caminha com as mãos no bolso de seu casaco que começa a incomodar por causa do calor. De manhã estava ventando muito, por isso ele teve de se agasalhar, mas agora, o sol já decidiu que é ela quem vai sobressair sobre os outros fenômenos da natureza.

Se Romeo vai passar quatro horas em uma festa que ele não quer estar, apenas para agradar uma amiga, então agora ele irá se distrair o máximo que puder. Ele entra em um parque da cidade e se joga na primeira sombra fresca que encontra, coloca seus fones de ouvido e desconecta-se do mundo. Do mundo real. Onde as coisas são chatas.

Vou esperar dar o horário de eu ir embora caso estivesse na sala de aula, então, eu vou pra casa, pensa Romeo.

Seus olhos ficam cada vez mais pesados e sua vista embaçada, então, ele adormece.

Quando acorda, Romeo está no meio do Caos. Pessoas estão gritando por toda parte, parece já estar de noite e caí uma chuva que quando bate no pescoço de Romeo arde.

— O que está acontecendo? — Romeo pergunta a si mesmo baixinho.

Os trovões ressoam e o relâmpago clareia todo parque. É quando uma silhueta desce das nuvens ao chão até sua imagem ficar clara aos olhos de Romeo. É um ser alado usando uma surrada camisa marrom, provavelmente de sujeira, e calças rasgadas.

Suas íris são tão brancas quanto o relâmpago que iluminou todo o parque e sua expressão é indiferente. Romeo não parece fazer parte de sua cegueira, pois é a única coisa que o anjo encara. A troca de olhares, morta pelo lado do alado e assustada pelo lado de Romeo, termina quando o anjo bate suas enormes assas levantando folhas e deitando a grama do gramado. Ele voa em direção de Romeo e o agarra. Nesse mesmo instante Romeo pula e acorda no mesmo gramado do parque.

Marcus está com uma perna dobrada e a outra ajoelhada no chão. Suas mãos estão nos dois ombros de Romeo enquanto ele o olha assustado.

— O que você está fazendo aqui? — Romeo pergunta.

— Sophia e eu te seguimos quando percebemos que você não tomou o mesmo caminho que a gente.

Sophia está ao lado dos dois, com o corpo inclinado para frente e as mãos escoradas nas pernas.

— Seu nariz — diz ela.

Romeo leva a mão ao nariz e encosta o indicador delicadamente e seu dedo volta a sua visão manchado de sangue.

— Você precisa ver um médico — diz Marcus se afastando.

Ele oferece a mão a Romeo e o ajuda a se levantar.

Novamente um trovão ressoa no céu, mas dessa vez é real. Confusos, eles olham para o lado. O sol que estava até agora pouco brilhando, abriu espaço para um tempo fechado e cinzento.

De repente o céu começa a ser pintado por negro, chamando a atenção de todas as famílias, esportistas, amigos que estão no parque. Uma chuva está se iniciando. Uma chuva de pena negras cobre o parque.

— Não — diz Romeo com convicção — Eu preciso de ajuda paranormal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.