Notas iniciais
Esta será a terceira e última parte do conto, espero que gostem! Desde já, boa leitura!

O tempo passou, as pessoas continuaram a visitar o santuário, mas apenas um altar vazio os recebia e muitos começaram a se questionar sobre a proteção. “Será que o guardião nos abandonou?” “Ainda há guardião?” “Ele realmente existiu?”. A data e o evento catastrófico anunciados por Igor não acontecera e a vila inteira relaxou, passando a ter cada vez menos seguidores do espírito do Guará Negro.

O período de estiagem nos anos que se seguiu após a profecia estava mais severo que o normal, chegando ao seu quarto ano seguido e castigando toda a região. Pela primeira vez, a área dita encantada, no cume do monte, estava secando e a fonte estava quase vazia.

Muitas áreas de pastagens haviam praticamente desaparecido, deixando apenas rastros de folhas secas voando entre as pedras reluzentes e a terra sem vida.

Os reservatórios de água se encontravam em seus últimos suspiros, com grandes rachões e pequenas poças de lama onde apenas os peixes e outros animais aquáticos mais resistentes lutavam por suas vidas. Restava unicamente um pequeno lago não muito distante da vila, um oásis para humanos, animais domésticos – galinhas, patos, gado, suínos, ovinos e caprinos – e animais selvagens em um momento de trégua.

Havia pouca comida nas matas do Monte Fonseca também, obrigando aos que ainda resistiam a se aproximarem cada vez mais da vila em busca de alimento.

Mas o pior ainda estava por vir e abalar toda a fé dos habitantes daquele local e de diversas outras vilas de onde se podia avistar o monte. Naquele dia, um dos maiores incêndios que já atingiu a região fora visto por quilômetros.

Era por volta de meio-dia quando a queima da vegetação de um dos campos de lavoura perdeu o controle e começou a se espalhar pela vegetação seca nas redondezas. Um dos moradores próximos logo chegou à residência de Igor para chamar seu avô, que o seguiu de prontidão. Eles precisariam de toda a ajuda possível.

Correndo para o quintal, seus olhos arregalados eram o espelho de um grande desastre, imensas chamas já devastavam boa parte do monte e continuavam a subir em direção ao Santuário.

— Vovó, eu também vou, o guardião... – o garoto fora interrompido.

— Não, meu filho, é muito perigoso e você é uma criança ainda. Já perdemos seus pais em um ataque do povo do Leste, não posso arriscar perder você. – A senhora o abraçou forte enquanto os cães da família latiam freneticamente, sobretudo o Barão.

Um grupo de pessoas logo fora mobilizado na tentativa de conter o incêndio. Entretanto, fogo, vegetação seca e vento é um casamento mais que perfeito, nada podia conter aquele desastre, que seguia devastando tudo pela frente no Fonseca.

Ao final da tarde, das residências mais próximas do monte se podia ouvir o barulho de diversos animais em agonia na floresta em chamas, cachorros agitados, latindo e uivando sem parar, assim como galinhas, porcos e gados continuavam eufóricos em seus chiqueiros e currais.

As arvores próximas aos açudes rachados estavam cobertas por diferentes espécies de aves, macacos e saguis em um coral tenebroso como a pedir socorro. Grande parte do Monte já havia sido queimada naquele momento, muito da fauna e flora havia sumido em meio as cinzas e o que restava às pessoas era apenas se agarrar a sua fé no guardião e demais espíritos que protegiam o Santuário, orando para que aquele fogo acabasse e não destruísse o restinho da história de seu povo.

No fundo do quintal, separado por cercas de madeira, o menino observava um casal de jaguatiricas correndo com seus dois filhotes na boca. Mesmo com as patas fortemente queimadas, eles seguiam tentando ir para o mais longe possível. Sobre sua cabeça, um enorme bando de pássaros voava em círculo, até que ele ouviu novamente um “nos ajude!”.

Correndo o mais rápido que podia para fora dali, ao virar-se, ele avistou as chamas tocarem a zona encantada. Fortes dores de cabeça o atingiram, fazendo-o titubear. Igor continuou seu percurso na direção da faixa de selva se apoiando no que podia, mas um novo estrondo chamou sua atenção novamente, a queda da lendária árvore, fazendo-o tremer.

Aquela que esteve ali durante séculos, sendo o abrigo de muitos animais e portal de entrada do Santuário, havia sucumbido perante a força das chamas e ele não podia fazer nada. Uma forte dor atingiu suas pernas e braços desta vez, impedindo-o de se locomover e o fazendo desmaiar em seguida.

O Barão, livre das correntes naquele momento para que fugisse caso o fogo se aproximasse demais das casas, o viu e o puxou pela roupa até onde podia. Parte do fogo havia atravessado o riacho, que estava seco e sem barreiras, aproximando-se dali também.

O animal apenas deitou-se ao seu lado, grunhindo, como se quisesse seguir em frente, mas sem poder ir, enquanto o garoto continuava inconsciente.

Cercada por aquelas imensas labaredas, estava lá, a zona encantada, um ponto de vegetação verde, que nunca secava e que era sempre frio por mais quente que fosse o dia.

Já era noite e as chamas iluminavam todo o monte. Embora Igor tivesse se desconectado do mundo físico, em seus sonhos, ele estava agora próximo ao Santuário, onde avistou o grande Guará Negro deitado, com as pernas presas embaixo de parte dos galhos da árvore centenária e com um corte sobre a testa, por onde descia um fio de sangue.

Ele logo correu para ajuda-lo, mas fora mordido no ombro. A dor, embora intensa, não o impediu de ajudar o guardião. Colocado sobre as costas, o garoto o carregou como podia até a fonte sobre o altar. O local ainda estava intacto, mas não duraria tanto tempo sem o seu protetor.

O fogo estava a cada instante mais próximo dali e muitas vozes naquele momento imploravam por ajuda. A imagem dos pequenos saguis carregando punhados de terra sobre as mãos, três grandes onças pardas e tatus escavando para tentar impedir as chamas o tocou. Ele precisava fazer algo também.

Uma águia então desceu até o solo, pousando próximo deles. Ela o guiou no instante seguinte, sugerindo que o guardião fosse colocado na fonte. A água o curaria. E assim ele fez. O animal, observando os esforços do pequeno humano, lambeu o local da mordida de outrora, como se estivesse pedindo desculpas.

Igor, com as mãos sobre a água, notou um brilho subir por seus braços e logo entendeu do que se tratava, finamente compreendera as conexões, os sonhos e as vozes, ele era o Umalá que seu povo tanto aguardou e, como seu dever, precisava proteger aquele lugar com sua vida.

Contudo, antes que retirasse toda a roupa e deitasse dentro da fonte ao lado do guardião, seu avô surgiu, puxando-o para fora.

— Vovô? – Indagou surpreso.

— Então você finalmente descobriu?

— Sim... agora eu preciso... – ao dar um passo para água novamente, seu avô o impediu.

— Você não vai fazer isso... não agora, esse é o meu dever... eu falhei em muitos pontos como Umalá, escondi isso de todos e falhei com quem mais confiou em mim – disse olhando para o espírito bestial sobre a água. – Mas sinto que tudo mudará quando você assumir meu lugar... – Ele agachou-se e encarou o menino. – Eu esperei tanto por esse dia, o que alguém viria para me substituir... você cresceu muito, seus pais teriam orgulho de você, o novo Umalá... Quem diria... – Sorriu. As chamas derrubaram uma árvore em seguida, caindo próximo deles e fazendo os animais correrem. – Agora preciso ir. Cuide de nosso povo e de sua avó.

— Vovô? – Com os olhos trêmulos, ele se afastou e observou tudo.

O senhor entrou na fonte e deitou-se ao lado de seu espírito guardião. Ao levantar-se, uma luz azul envolvia todo o seu corpo, assim como seus olhos, que emitiam um brilho dourado. O animal então levantou-se e começou a caminhar em volta do homem, misturando às cinzas e à própria água, que envolveu todo o corpo daquele humano, formando uma espécie de manto sobre suas costas, braços e estendendo-se para parte de sua face. O Umalá havia unido forças com seu guardião e, após muitas décadas, finalmente retomado a força divina que deveria ter.

Ao erguer suas mãos para o céu, ondas de energia emanaram a partir de seu corpo. Uma forte luz fora vista no cume do monte naquele instante. As nuvens então começaram a se juntar sobre o Fonseca. A chuva logo começou a cair, apagando o incêndio e salvando o povo e animais daquela região.

— Seja um guardião melhor do que eu fui... – Ele então acordou. O Barão já não estava mais de seu lado, ele permanecia uivando em direção à luz, lá de fora, enquanto Igor estava em seu quarto e sua avó sentada próximo dele.

— Obrigada, grande guardião, muito obrigada... – Dizia a senhora em prantos, abraçando o garoto com força. – Ele não voltou do incêndio, meu filho... seu avô não voltou...

Aquela noite ficou gravada na mente de todos, em partes pelo incêndio destrutivo que sumiu rapidamente e em outras, pois foi a última vez que ouviram a voz do avô do garoto. Ele havia entrado nas chamas e nunca mais fora visto. Dias depois o Barão faleceu deitado sobre o bornó que seu dono sempre carregava nas noites de caça. Todos acreditavam que o homem morreu carbonizado, mas o garoto sabia o que tinha acontecido de verdade.

***

Alguns anos depois.

Uma nova peregrinação fora feita ao santuário. Muitas pessoas foram desta vez. Ao chegarem próximos ao túnel de entrada, o garoto observou o imenso tronco queimado, sem vida própria, mas que agora era ninho de uma ave e de seus 2 filhotes, ao lado dele, timidamente um pequeno broto da mesma espécie crescia. Ele então entendeu que, apesar de todo o caos, a vida sempre encontrava um jeito de voltar e renascer, como o mito da fênix.

Igor pediu que os outros fossem na frente, ele seguiria o caminho em breve, mas precisava de um momento ali, sozinho. O jovem meditou por alguns instantes até que se sentiu preparado novamente, seguindo em frente. Ao chegar no santuário, ele avistou uma estranha mulher de cabelos longos e pretos. Em seu ombro, uma águia repousava tranquilamente. Era a mesma de outrora. Ao seu lado e um pouco mais atrás, tocando as belas rosas que cresciam a margem da fonte, uma senhora de vestido florado também o esperava.

— Então você é o novo Umalá? Pensei que não o veria mais, meu velho amigo. – Disse a mulher sorridente. No instante seguinte, um pequeno guará negro aparecera atrás do garoto, lambendo sua perna e observando a mulher. Era seu recém adotado animal de estimação.

— Quem são vocês? – Indagou o jovem, curioso. Ao olhar em volta, apenas ele as notava ali.

— Mas que descuidada eu sou, prazer... – aproximou-se do ouvido do garoto e sussurrou suas palavras seguintes. – Sou a Umalá do Alto do Bem-te-vi e aquela gentil senhora é a Umauê do monte Mucunã... precisamos da sua ajuda.

Notas finais
Se curtiram, marquem como favorito, deixem um comentário com o que gostou, o que podia melhorar, enfim, é importante para mim, como autor, ter esse feedback. Caso queiram, o universo de Umalá também poderá ser expandido! Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!