A Lenda de Sanguinus
1 O Cavaleiro e os Três Deuses
Christopher. Não. Eu já não me chamo assim faz muito tempo.
No passado eu tinha uma vida medíocre como um cavaleiro, mas mesmo assim eu pude dar um pouco de dignidade aos meus filhos e esposa. Mariah era uma camponesa simples e descobriu que não conseguiria viver em meio a nobreza, mas nem por isso deixei de amar aquela linda mulher de cabelos negros e cacheados. Por viver no campo fui motivo de piada para meu rei e outros nobres, e chamado de Ruína da Família Denkysoth. Eles até poderiam ter razão, mas sei que meu falecido pai iria me perdoar, pois ele acreditava que o amor verdadeiro era maior do que o dever imposto ao homem.
Com ela formei uma grande família com quatro filhos homens de idades próximas. Lucian foi o primogênito, aquele que era idêntico a mim, com cabelos e olhos negros e ar sagaz desde criança. Todos os irmãos dele eram assim, mas só ele tinha a sagacidade.
Greynny nasceu um ano depois e herdou os cabelos levemente acinzentados do avô paterno. Era bruto e robusto desde o primeiro dia de vida.
Derek era um ano e meio mais jovem que Greynny e era o que crescia mais rápido. Calado na maioria do tempo, mas eu sabia que ele possuía algo mais.
E quando se passou quatro anos depois do nascimento de Derek, Daruk foi nossa quarta alegria. Era o mais curioso deles, e o que mais herdou as qualidades da mãe.
Então eu já não era mais o último da linhagem dos Denkysoth e por isso tinha que reerguer a minha maneira o nome de minha família. Não havia nos domínios do reino de Valphen um outro cavaleiro tão dedicado e heroico como eu. Na invasão ousada dos elfos negros da deusa Lolth, usando o subterrâneo para chegar ao centro do reino, resolvi usar uma estratégia similar e peguei o inimigo desprevenido pela retaguarda. Eram apenas eu e vinte homens do campo resgatando o nosso rei, matando o líder inimigo e bloqueando o retorno dos elfos que ainda não haviam regressado de Valphen e exterminados. Com essas coisas eu estava assegurando o futuro de meus filhos, honrando meu pai e fazendo o melhor por Mariah.
Minha amada foi feliz até o dia em que aquela batalha nos alcançou, e os deuses a tiraram de mim. Era um dia que deixamos as crianças sob a responsabilidade de Lucian, e partimos para aproveitar a juventude que ainda nos restava.
A manhã estava linda, mas em pouco tempo tudo mudou. Primeiro o céu se estilhaçou como vidro, enquanto trovões estremeciam até mesmo as montanhas. Mariah e eu só pensávamos em voltar para nossos filhos e aquele caos repentino nos fez voltar com toda a pressa do mundo para socorrer cada um deles. Não havia mais casa. Um raio atingiu o nosso lar minutos antes de chegarmos, e nenhum sinal de vida restava lá. Consolar minha amada esposa era o que podia fazer, porém o que veio depois me fez perder toda a esperança. Do céu partido veio uma gigantesca espada negra que rasgou o solo e mudou a geografia do reino de Valphen. Acordei em meio ao caos e morte. Nenhum sinal de vida, e do abismo em minha frente o vento trouxe um trapo ensanguentado do vestido de minha mulher.
- Não! Por que arrancaram tudo de mim! Mariah!
Vaguei como um morto-vivo em meio a vegetação morta e rios quase secos. Sabia se tratar de uma batalha de deuses, mas só haviam três deles além do Criador capazes de causar tanta destruição em minutos.
Havia um portal, um tipo de fissura alta que pulsava sons de batalha e gritos de uma voz singular:
-Irmãos...essa batalha...é uma loucura!
Ao ouvir aquela voz poderosa, porém agonizante eu soube do que se tratava e resolvi passar pela fissura.
O outro lado estava um caos pior do que o meu mundo. Eu flutuava em um espaço sem chão, onde detritos de diversos tamanhos vagavam em meio a chamas e energia. Era o Crepúsculo dos Deuses, o dia do início do fim que por séculos trazia terror aos covardes e fracos de espírito, e aquilo me tirou tudo que possuía de mais precioso.
Eu fui surpreendido ao ver três seres gigantescos e uma roda de metal avermelhado, reunidos em uma plataforma de pedra flutuante. Reconheci os três deuses dos mitos antigos, nascidos depois da despedida do Criador. Luminen era o que estava ao chão e ferido. O deus era radiante e alvo, com seus longos cabelos que pareciam fios de prata reluzentes. Flutuei até próximo a ele e pude ver melhor os outros dois que estavam medindo forças com suas lâminas que partiam o tecido da criação. Nocturnos era simétricamente o oposto de Luminen, porém mais velho e com uma barba espessa. Já Urian parecia inumano, pois apenas possuía contornos humanoides, mas não tinha traços marcantes e nenhuma outra característica física de um ser humano, de forma que era totalmente diferente de seus irmãos caçulas.
Mesmo eu sendo minúsculo fui notado por Luminen, sendo telepaticamente comunicado da situação enquanto eu era atraído para perto.
Havia três deuses. Dois eram reverenciados como senhores da noite e do vazio, desde o início das eras. Nocturnos e Urian eram tidos como os primordiais, e como tal eram responsáveis pelo fluir da Roda do Destino, uma das poucas heranças do Criador. Urian ficou louco ao se imaginar o único com o direito de manipular o poderoso artefato e travou uma batalha contra seu irmão. Para poupar os deuses menores e outras formas de vida, Luminen interviu ao isolar o conflito dos seus dois irmãos primordiais.
Isso durou séculos mortais, mas no fim o mundo humano foi vítima e eu perdi tudo.
Mesmo com tudo explicado, estranhei quando Luminen propôs algo que me deixou imóvel na palma de sua mão direita; acabar com a guerra.
- Beber o sangue de um deus lhe trará a pior das destruições possíveis, mas fazer isso com a benção de um primordial e força de vontade pode lhe trazer de volta a vida. (foram as dicas que recebi de forma direita, enquanto os outros dois ainda trocavam golpes)
Mesmo parecendo loucura eu corri em direção daquele sangue dourado espalhado pelo chão. Havia pequenos riachos dourados que vertiam pelo chão, então eu não tive dificuldade em saber aonde ir, mas ao mergulhar em um desses "rios", fui pisoteado por Urian.
Eu não sabia se a dor vinha do fato de ser esmagado, ou se era por causa do gosto doce e tóxico do sangue divino. Só sei que senti cada parte do meu ser sendo desfeita e refeita em um ciclo que parecia não ter fim.
Eu só tinha uma chance de vingar meus filhos e esposa, e não me importava a morte de meu mundo. Eu queria apenas vingança.
Foi como um raio de ódio que saí dos destroços e cresci ao mesmo nível dos rivais. Os cabelos negros viraram platinados, e meus olhos eram mais negros que a noite agora. Eu sentia o poder fluir em mim, mas sentia que precisava de mais e com urgência, então eu mordi o pescoço de Urian que ainda não tinha me visto e sugei o máximo de sangue possível. Nocturnos resolveu nos transpassar ao mesmo tempo com a sua lâmina negra, me fazendo urrar de dor de forma bestial enquanto Urian não tinha forças para esboçar mais que um pequeno som engasgado. Eu me lembrei da minha casa reduzida a chamas e sabia que um daqueles malditos egoístas estavam por trás disso, e foi o bastante para eu recuperar o poder que bastava para por um fim em tudo.
Eu utilizei do sangue inimigo para me libertar e partir Urian em dois. Minha foice de sangue sólido e rubro pode matar um deus. Nem mesmo deuses do além poderiam se atrever a atacar e ameaçar de morte um primordial, mas eu pude e com satisfação pisei em sua carcaça cinza.
- Você é o próximo Nocturnos. Tua lâmina ceifou a vida da minha esposa! Tua batalha me levou meus filhos! Teu irmão louco já era, mas é você que sentirá a pior parte!
O primordial recuou por instinto, mas tentou rapidamente se por como superior.
- Não sei que monstro é você, mas nem demônios como Vampir poderiam realizar tal feito. Mas matar meu irmão pelas costas não significa que pode me fazer o mesmo mal pela frente!
De fato foi difícil, mas eu tinha ódio e fúria de sobra. Quando o deus me atacou com toda a escuridão eu pude apenas me proteger com o sangue do deus morto. Fui esmagado pelo poder da escuridão de todo o universo, mas eu só conseguia rir. Eu havia bebido o sangue dos três seres divinos e como consequência eu tinha resistência aos poderes da Luz, das Trevas e do Vazio.
- Era para você estar morto! Eu sou o senhor da escuridão e você é apenas um monstro!
- Também acho que meu lugar é entre os mortos, mas que vingaria minha família? Travei por pouco tempo a divindade, usando meus talentos vampíricos, e comecei retalhando Nocturnos com presas e garras sedentas de sangue divino logo depois. Mas graças ao que havia me tornado, sabia que tudo era por pouco tempo e que eles estariam recuperados em breve, então tive que ser decisivo e acabar com tudo. Eu usei tudo que tinha para usar a Roda do Destino e me livrar dos primordiais. Eu tinha o poder de recriar o futuro, mas não passado e apenas desejava um mundo livre da intervenção divina que zombavam de nós mortais. Em meio ao meu esforço eu vi Luminen sorrir, como um sinal de aprovação e dever cumprido.
Tudo ficou branco e estranho, mas ainda pude ouvir o agradecimento de Luminen no fim. Não era o fim. Eu estava de volta ao devastado reino Valphen, no coração de Midger e tinha muito o que fazer. Mesmo sem vestígios de poder divino, eu estava longe de ser humano, eu agora era Sanguinus.
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