A Lenda de Pand'Or
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Era uma noite chuvosa. Todos os habitantes de Al'Talan estavam em suas residências. À noite era comum que os Al'Talanianos conversassem nas ruas assim como as crianças que brincavam e se divertiam, coisa que não pôde ser possível dessa vez devido à chuva.
Alguns moradores aproveitaram até para dormir mais cedo, inclusive a família de Zaryu. Estavam todos dormindo, menos Zaryu, que estava arrumando sua bolsa para viver sua primeira aventura.
No meio de suas coisas, ele achou a pintura de uma bela Al'Talaniana. Seu nome era Aviil, tinha a mesma idade de Zaryu. Sua pele não era totalmente azul como a de Zaryu, era clara e tinha lindos olhos dourados. Havia um marca de nascença fina e escura que vinha de seu pescoço até a metade de sua bochecha direita, dividindo a marca em duas pontas. Seu cabelo escuro não era muito longo mas também não era curto. A baixinha tinha personalidade forte, cheia de marra e de ousadia que espantava os outros mas Zaryu sabia que no fundo ela tinha um lado dócil e sensível. Foi o primeiro amor de Zaryu porém ele nunca pôde se declarar à amada, Aviil teve que se mudar com seus pais para outra cidade de Al'Talan e Zaryu nunca mais a viu.
A imagem trouxe boas recordações, até ser interrompida com três batidas na parede de Zaryu:
—Posso entrar? – perguntou o pai de Zaryu
Zaryu rapidamente guardou a imagem de Aviil, ela havia partido há alguns anos então os pais de Zaryu achavam que o jovem já nem se lembrava mais da amada.
—Oi, pai. O que está fazendo acordado, você deveria descansar.
—Engraçado, sabe que eu ia dizer a mesma coisa?
Zaryu sorriu timidamente, finalizou sua bolsa, arrumou o resto e se despediu de seu velho pai. Apagou as velas que iluminavam seu quarto e sentou-se em sua cama pronto para dormir, mas antes quis ir até a janela se despedir do céu. Zaryu acreditava que era melhor fazer orações de coração do que rezar ao Criador com versos “decorados”, como fazem os outros seres do mundo. Zaryu via o Criador como um “grande amigo” então conversava com o céu imaginando que o Criador estava lá e fazia suas preces de um jeito informal, como uma prosa entre amigos. Após ouvir a chuva cair pela última vez, sentir o cheiro de grama molhada e conversar com o Criador, Zaryu deitou-se em sua cama e pôs-se a dormir.
Zaryu tem um sonho. Nesse sonho um homem misterioso o encara em um lugar que não parecia ter espaço-tempo. Zaryu enxergava o homem de relance: se ele focasse nas pernas, as pernas embaçavam e a parte superior ficava nítida. Se Zaryu focasse na parte superior, a mesma embaçava e suas pernas ficavam nítidas. Era impossível revelar a face daquele ser.
Então ele reparou que não era apenas isso que estava ao seu redor, ao olhar para a esquerda, o jovem percebeu que havia um mapa desenhado em um tecido antigo e sujo. Era o mapa do mundo mas só havia um continente. Ele, curioso, se aproximou para verificar. Nesse único continente havia símbolos referentes à água, terra, fogo e ar. Abaixo do continente havia um outro continente de largura enorme porém não havia nada escrito ou desenhado nele. À oeste e leste do mapa haviam um olho e uma cobra, respectivamente. Zaryu estranhava todas essas informações até que reparou em um título no mapa. Estava escrito: Pand'Or.
—Pand'or?! — Espantou-se Zaryu.
Ao repetir as palavras escritas no mapa, tudo se apagou. De repente, Zaryu estava de frente para o homem misterioso novamente, era como se o sonho tivesse reiniciado. Ele olhou para a esquerda e o mapa havia sumido, restou apenas escuridão. Então ele olhou para a direita e havia um aglomerado de jovens reunidos. E no meio desse jovens, Zaryu se reconheceu.
—Aquele... Aquele sou eu?!
E mais uma vez, tudo se apagou. E Zaryu estava de frente para o homem sem face outra vez. Com o sonho reiniciado mais uma vez, já era de se esperar que o lado direito estaria escuro como o lado esquerdo. Sem pensar muito, Zaryu virou-se para trás e deu de cara com um espelho. Ele se olhava e via que seu reflexo ia perdendo a cor tornando-se cinza e sua pele rachava como um vaso velho prestes a quebrar. Zaryu fechou os olhos com força para não enxergar aquela imagem horrível. Ele respirou fundo e olhou mais uma vez para o espelho que, dessa vez, refletia sua imagem normal. Então o reflexo de Zaryu o encarou e começou a mexer os lábios como se quisesse falar algo. Uma voz que alternava do mais grave ao mais agudo sem uma origem exata disse:
“Zaryu, carregue com você esse fardo. Essas lembranças que coloquei em sua mente são para que ninguém as tire de você, é o que te manterá vivo. Serão seus valores daqui pra frente, será o seu motivo para continuar lutando por seus objetivos. Por favor, carregue esse fardo até que seja passado para o verdadeiro... 'alvo'. Não deixe que ele morra, Zaryu”
A última palavra: “Zaryu” ficou ecoando na mente do jovem Al'Talaniano. A voz que antes não tinha uma forma definida, ia se transformando até chegar a voz do pai de Zaryu.
—Zaryu! – Nesse momento, o coitado estava se debatendo de susto no chão por ter sido acordado aos berros – Eu to lhe chamando há um minuto, devia estar sonhando com algo muito bom. Dinheiro?! Uma bela dama?! Pelo amor do Criador, levante-se ou vai se atrasar pra sua primeira missão! A MISSÃO DO REI!! Quanta falta de compromisso, quando eu tinha sua idade...–
—Tudo bem, pai – interrompeu Zaryu – Tudo bem! Olha, já estou de pé, vê?
Não precisa se preocupar, prometo não me atrasar.
(Na verdade, Zaryu só pensava em interromper o velho para não ter que ouvir mais reclamações e histórias de quando o Criador ainda estava criando o mundo, ou do tempo em que Leviatãs ainda dominavam os mares ou qualquer outra coisa do tempo em que seu pai ainda era jovem. Brincadeira, seu pai não era tão velho assim, né... Onde estava? Ah, sim! Vamos voltar à história.)
—Hum...
O pai de Zaryu o olhou com uma de suas sobrancelhas levantadas, Zaryu já conhecia aquele olhar e o que vinha a seguir.
—Vê se toma jeeeeito, rapaz!! – Ambos citaram a frase ao mesmo tempo.
Brincadeiras à parte, Zaryu se alimentou de algas e frutas, pegou sua bolsa e visitou seu quarto pela última vez, não por ser seu quarto, mas pelo que tinha nele: a pintura de Aviil. Ele deu mais uma olhada em sua imagem pois sabia que não voltaria tão cedo para casa, a viagem era longa. Ele beijou a tela da pintura e a guardou.
Seus pais o acompanharam até a porta, Zaryu beijou a testa de sua mãe e deu um abraço apertado em seu pai, o homem à quem mais respeitava e admirava. Prometeu à sua mãe que se alimentaria bem e a seu pai que honraria o sangue da família.
O pai de Zaryu o entregou uma espada e disse:
—Filho... Sei que não temos muito dinheiro para um escudo ou proteções mas te dou o bem mais precioso que tenho, a espada de seu avô que foi passada para mim e hoje repito o mesmo.
—Já eu espero que meu filhote não precise usar isso, nem para se defender nem para matar! Vou rezar muito para Zaryu ir e voltar rápido e em segurança – disse a mãe de Zaryu.
—Ô mulher medrosa! – respondeu o marido, que não resistiu em soltar uma gargalhada.
Zaryu sorriu e sabia que sentiria saudades dos hilários diálogos de seus pais. Ele se despediu mais uma vez e olhou para o céu, fazendo sua prece ao Criador. Ao terminar sua conversa com a entidade, Zaryu teve a impressão de já ter conversado com ele mas não conseguia se lembrar de nada. Ignorando essa sensação, ele finalmente começou a jornada.
Era um dia ensolarado, não parecia que havia chovido no dia anterior. Zaryu caminhou para o porto de Al'Talan, onde foi ordenado a ir pelo servo naquele dia após a luta na arena. Zaryu, como todo cidadão Al'Talaniano, poderia simplesmente mergulhar em um dos rios e seguir até o porto em minutos, se não fosse suas coisas que não poderia molhar.
Após uma longa caminhada, Zaryu finalmente chegou ao porto. Era movimentado, pois ali era onde os continentes vizinhos compravam peixes. Alguns Al'Talanianos também comem peixes mas só em casos extremos de fome. Já os estrangeiros procuravam os peixes de Al'Talan pela qualidade superior à de outros continentes, além de alguns continentes que não possuem certos tipos de alimentos, sendo obrigados a comprar com seus vizinhos.
No meio de toda essa bagunça, Zaryu avistou o servo a alguns metros de distância. Ele caminhava para o local marcado para o encontro, sendo assim, Zaryu resolveu não perder tempo e para lá também seguiu seu caminho.
Chegando lá, enquanto Zaryu portava uma mochila cheia de itens e comidas, o servo tinha apenas uma pena e tinta e um papel em mãos para que Zaryu assinasse.
—Você está atrasado, Zaryu – o servo resolveu implicar.
—Do que você está falando?
—Estou aqui há meia hora esperando.
Zaryu o olhou com uma expressão que valia mais que mil palavras.
—Ah, é mesmo? Interessante pois eu estava bem ali há alguns metros daqui e o vi chegar aqui há uns dois minutos antes de mim. Seu relógio mental está regulado? — ironizou Zaryu.
—Eu... só estava brincando. Achei que éramos amigos, não precisava falar assim comigo – o servo abaixou a cabeça como uma falsa vítima – mas enfim, pronto para embarcar no navio que o levará à La'Hill?
Zaryu então olhou para o lado e viu um gigantesco navio de ferro. Havia uma grande quantidade de trabalhadores limpando diversas áreas, provavelmente preparando para a próxima embarcação. Na lateral estava escrito O Indestrutível bem em cima dos canhões.
—Impressionado, Zaryu? — perguntou o servo – realmente, esse navio é uma beleza! Felizmente ou infelizmente, ele é exclusivo para assuntos do rei, só pessoas importantes embarcam nesse navio. E é por isso que o seu navio é aquele ali.
O navio para qual o servo apontou fez Zaryu ir da fortuna ao azar em milésimos de segundo. O navio de Zaryu era feito de madeira, alguns metros menores do que O Indestrutível, mas incomparavelmente menor no quesito altura. A tripulação era pequena e havia rede com peixes espalhado pelo navio. Parecia o tipo de navio “topo tudo por dinheiro”, transportava pessoas e objetos para o comércio em uma viagem só. A tripulação bebia e cantava, a cor de suas peles eram claras e, a julgar pela aparência, não pareciam ter habilidades com os elementos da natureza. Na lateral do navio estava escrito com a tinta falha: O Melhor. O navio tinha apenas 5 canhões, enquanto O Indestrutível tinha 20 canhões.
O semblante de Zaryu, mais uma vez, valia mais do que mil palavras.
—Você precisa assinar aqui para provar que aceitou e iniciou a missão, jovem.
Zaryu não se preocupou em fazer uma assinatura bonita, o azar de seu navio o desanimou.
—Pronto, agora sim. Questões burocráticas, sabe como é. Isso é tudo, boa viagem, jovem.
O servo retirou-se. Zaryu olhou para o navio de ferro e em seguida olhou para o navio de madeira.
—Vai ser divertido, eles disseram – resmungou Zaryu – Vai ser uma aventura boa, eles disseram... Boa viagem, ele disse.
Frustrado, Zaryu embarcou no O Melhor.
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