A Lenda de Luttern
9 Capítulo 9 - Luzes do Destino
Notas iniciais
Era a primeira noite inteira que Avy dormia desde que chegou em Verídion. Era insano como tudo estava acontecendo rápido. A garota ainda não havia estado em uma aula em sala se quer e já tinha a primeira missão fora do castelo.
Ela e Becky acordaram juntas, por volta das 6h da manhã. Os primeiros raios do sol atravessavam a janela e refletiam bem na cara da menina, então não foi muito difícil despertar.
Já Becky era extremamente lenta no início do dia. Enquanto Avy já arrumava a mochila com garrafas d’água, uma blusa extra e curativos, a amiga do gelo estava sentada na cama encarando o nada, dormindo de olhos abertos.
— Ahm... Alô?! Becky? Becky!
A garota balançou a cabeça, piscando rapidamente os olhos.
— O que vai levar na sua mochila? – perguntou Avy.
— Eu vou... – Becky continuava a encarar o nada — Tô com fome.
Avy suspirou.
— Acorda Becky – Disse ela, balançando a amiga – É hoje! Temos que buscar o cristal de Verídion!
— Cristal... – Becky olhou para Avy – O cristal!
Becky acordou e começou a arrumar uma mochila preta com botões de viagem de vários países, o que fez Avy se perguntar se ela costumava viajar bastante enquanto morava no Canadá.
Avy arrumou seu cabelo com o semi-preso que sempre fazia. separando duas mechas nas laterais do cabelo, e as juntando em uma trança na parte de trás da cabeça, deixando as medeixas castanhas avermelhadas soltas com suas formas indefinidas, nem lisas, nem enroladas. Diferente do cabelo castanho escuro de Becky, contrastando com o olho azul e sua mecha branca, de um liso escorrido que deixava a franja sempre caindo sobre o rosto.
Elas atravessaram o corredor aberto, não haviam alunos acordados para fora dos quartos ainda, depois de chegarem a torre principal, desceram as escadarias e encontraram Matt, Andy, Violet e Sr.Hart na base das escadas largas do salão de entrada. O diretor segurava um mapa velho com alguns rasgos enquanto apontava o dedo e falava com os alunos.
— O primeiro objetivo é chegar ao portal de Windstein — explicou ele — Com o cristal Verídion teríamos uma passagem direta, mas sem ele teremos que chegar até a gruta das colinas do norte, fonte do rio Shelstter — o diretor mostrou no mapa, uma linha azul destacada mostrava o rio, o rio que rodeava o castelo, correndo abaixo da ponte era um de seus muitos afluentes. Na fonte de Shellstter, havia uma representação da gruta, logo atrás do desenho de colunas, e na gruta, um ponto destacado marcava: Windstein, p.1. Observando mais o mapa, via-se outros portais para a dimensão do ar, todos marcados com p's. Além de outros vários portais para as outras dimensões. Era basicamente um mapa para portais naturais — Daí para frente apenas Violet sabe como chegar ao casarão.
Matt fez careta.
— Pelo o que eu saiba, as colinas do norte são distantes daqui para irmos andando. Demoraríamos bem mais que um dia inteiro.
— De fato — falou Hart, passando a mão sobre o cabelo ralo — por isso vocês pegarão o trem abandonado — ele apontou no mapa, próximo ao castelo, que ficava bem no centro da dimensão, via-se um ponto destacado marcado: Estação Verídion, linha 1. Seus trilhos percorriam uma área que ia do centro ao norte do mapa.
— Espera aí — disse Avy, apertando os olhos — Como vamos andar em um trem abandonado?
— Achei que a estação da linha um havia sido desativada há séculos — completou Andy.
Sr.Hart riu.
— E fora — ele retirou 6 passagens douradas do bolso e entregou-as a Violet — mas isso não quer dizer que não há um jeito de utilizá-la. Usem isso e o trem funcionará.
Violet apertou os olhos.
— Essas passagens são raríssimas.
— Eu sei — respondeu o diretor — por isso devem cuidar bem delas e garantir que farão bom uso.
A garota assentiu.
— Acho que já temos tudo — ouviu-se Matt dizer, depois de checar bem as mochilas que levavam.
Eles se despediram e iam em direção a porta para começarem.
— Espera! — Kin chegou correndo — eu vou com vocês. Precisamos resgatar Noah.
— Bem, acho que não há problema em vir conosco — falou Andy, e um sorriso formou-se no menino do fogo.
Meredith apareceu, vindo correndo dos corredores do fundo.
— Que bom — disse ela, fatigante — consegui chegar a tempo... Kin e Becky, sinto muito mas vou precisar de vocês aqui.
— Por que? — perguntou Kin, um tanto decepcionado.
— Eu lamento, mas são alunos únicos aqui. Kin, você é o único de Firety que restou, e Becky, precisaremos de pelo menos um aluno de Glacidale, de preferência que seja boa em química como você... Sem vocês não será possível criar a barreira de proteção contra Silverstrow e as criaturas...
Becky parecia um pouco decepcionada, aliás ela sempre fora a mais animada para missões, mas não exitou em ficar para ajudar Meredith.
— Certo — disse ela — se for realmente necessário. — ela virou-se para os amigos que estavam prestes a sair — vão ficar bem?
— Entraremos em contato se precisarmos de algo — falou Matt.
— Tragam Noah de volta por mim — pediu Kin, depois ele e Becky voltaram com Meredith.
Meredith era a professora de química do castelo. Na verdade, nem ela, nem o diretor tinham poderes. Os pais de sr.Hart possuíam, mas o filho quebrou essa genética por algum motivo. Em compensação, o homem era um cérebro e ótimo em planejar ataques e defesas. Já Meredith era incrível com as misturas químicas que criava. Ela não precisava de poder nenhum para ser forte, apenas um bom cérebro e uma tabela periódica decorada de trás para frente.
Não era preciso muito para perceber que Kin e Noah deviam ser mais do que amigos.
Becky não gostava de confessar, mas química sempre foi sua matéria preferida, e em sala de aula ela conseguia superar até mesmo Matt, que era sempre o melhor aluno da turma.
—-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Eles já haviam andado por meia hora, adentrando cada vez mais na floresta de pinheiros. O ar em Verídion era diferente do de Nova York, era... Puro.
No momento eles passavam por uma das paisagens mais bonitas da dimensão: Uma chapada que dava vista a enorme e inacabável floresta, o nevoeiro dividindo espaço com as árvores lá embaixo, enquanto os primeiros raios de sol o atravessavam dando um efeito incrível.
No meio das árvores via-se pequenos pontos de luz alaranjados.
— Vaga-lumes? — indagou Avy, enquanto continuava a andar, infelizmente não tinham muito tempo para admirar a paisagem.
— Vaga-lumes de manhã?! Fala sério — zombou Violet, que is à frente com o mapa nas mãos — São gloomies.
— Gloomies? — repetiu ela, sem entender.
— Não são exatamente vaga-lumes — informou Matt — eles brilham durante todo o dia, e são uma espécie de borboleta. Se está os achando bonitos pela manhã, devia vê-los à noite, quando ganham um brilho prateado.
— Deve ser incrível — ela respondeu.
— Existem muitas coisas incríveis em Verídion — comentou Andy — é realmente uma pena que estejamos o tempo todo preocupados e ocupados demais para perceber isso... Podem me chamar de sem noção, mas essa chapada que estamos atravessando agora deve ser o meu lugar favorito no mundo todo.
— É, dá para perceber — falou Violet, encostando nele e sorrindo — você vem aqui pelo menos umas três vezes por semana.
— Não há motivo para procurar longe quando o ideal está a 30 minutos de você.
Eles continuaram a andar, saíram da área da chapada e entraram novamente na floresta. Enquanto isso, o clima estranhamente ia fechando, ouvia-se trovões e o céu tornava-se cada vez mais escuro.
— Isso é estranho — falou Matt.
— Deve ser a consequência do roubo do cristal de Windstein, a dimensão do ar e consequentemente das tempestades — falou Andy, olhando para o céu escuro.
— Querem saber de uma notícia ruim? — perguntou Violet.
— E nós temos escolha? — questionou Matt.
— Não trouxemos guarda-chuva.
Enquanto eles conversavam, mal haviam percebido que Avy ficara para trás, em algum lugar.
— Ahm... gente... — ela gritou de algum lugar não tão distante do grupo — é normal ter casas por aqui?!
Eles se entreolharam, confusos, depois voltaram atrás dela.
Avy estava na frente de um casarão de madeira velho. Muito parecido com a casa em que a carta estava guardada.
Aquilo era ligeiramente anormal. Não havia casas como aquelas em Verídion. Sim, havia habitantes, tal como fadas e ninfas, mas estas se escondiam entre plantas e rios, e os outros moradores viviam em vilas, muito distantes dali. Aquele era um lugar próximo ao castelo e a chapada, que Andy costumava sempre ir, e nunca havia visto aquela casa.
— Isso nunca esteve aqui — Disse Violet.
— Devemos entrar e checar o que pode ser? — perguntou Avy, examinando a estranha construção.
Matt balançou a cabeça negativamente.
— Nosso tempo é curto. E o clima está piorando... Acredito que se nos apressarmos conseguimos chegar à estação a tempo.
— Ele tem razão — concluiu Violet, e voltou ao caminho que cursavam.
Aquilo causou uma sensação estranha em Avy. Ela sentiu como se algo a puxasse para dentro da casa, uma sensação louca de entrar e descobrir o que tinha lá dentro tentava a dominar. Enquanto os outros continuaram a andar, ela permaneceu um tempo encarando a construção. Havia algo a chamando ali. Seu sexto sentido, o mesmo que havia a alertado sobre não confiar em Rodrick, gritava novamente.
Luzes em um tom violeta surgiram, criando uma sequência que levava até a porta da tal casa.
Ela não conseguiria aguentar a tentação, e avançou para tocar na mesma luz...
— Avy! — Gritou Andy — vamos, ou vai acabar se perdendo.
O chamado a fez voltar a realidade. No mesmo instante as luzes desapareceram, o que fez ela indagar-se se estava ficando louca.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, vendo o seu estado de confusão.
Avy balançou a cabeça. Eles estavam sozinhos voltando ao percurso que Violet liderava.
— Eu não sei... Pensei ter viso luzes criando um caminho que levava a porta da casa... Acho que estou ficando louca.
Andy riu, mostrando seus dentes perfeitos e suas covihas na bochecha, se possível iluminando ainda mais os olhos azuis.
— Quem sabe é algo do destino.
— Acredita em destino — indagou Avy.
— É difícil dizer que algo é invenção quando se vive em um universo desses.
Eles riram, encontrando Matt, depois Violet.
Violet os viu juntos e lançou um olhar sombrio à Avy.
Depois Andy se afastou e Violet se aproximou, dando as mãos à ele.
Avy sentiu-se mal, embora odiasse o fato de se sentir assim por causa disso.
— Por que ficou lá atrás? — perguntou Matt, ajeitando os óculos. Ela o explicou sobre as luzes e a vontade tentadora de entrar.
— Pelo menos temos um lugar para nos protegermos caso venha a chover. — ela disse, depois de um tempo.
— Não vai chover — Matt respondeu.
Avy olhou para o céu escuro.
— Como pode ter certeza disso?
Matt riu.
— Não tenho. Mas estou tentando convencer a mim mesmo de que não vai chover.
— E está funcionando? — Avy perguntou, rindo.
Ouviu-se um trovão abalar a terra.
— Definitivamente não.
—--
De fato, começou a chover.
Não deu nem tempo de eles darem mais 10 passos. Começou com um chuvisco leve, depois fora engrossando, até juntar-se com ventos fortes que quase os arrastavam. O céu escureceu, de forma que o dia virara noite, e caía ao mínimo dez raios por segundo.
— Não dá, Violet — gritou Andy, tentando vencer o som da tempestade — vamos ter que voltar!
— Estamos chegando na estação! — ela respondeu.
— Há! Chegando?! — disse Matt, irônico — falta no mínimo meia hora para chegarmos! Deve ser incrível andar meia hora em poços sujos de lama sendo arrastado pela chuva e pelo vento, sendo atacados por raios, não esqueça!
— E deve ser divertido assistir Silverstrow destruir o mundo enquanto comemos pipoca e rimos numa casa velha! — insistiu Violet.
— Violet — tentou Andy — não vamos conseguir chegar à estação debaixo dessa chuva, vamos voltar e esperar a tempestade diminuir, tenho certeza de que não vai demo...
— Mas o que vocês ainda estão fazendo aí parados?! Tá chovendo, vamos, rápido! — gritou Avy.
Eles correram de volta para a casa velha, acendendo lanternas que haviam levado para iluminar o caminho escuro, fazendo barulho ao pisarem nas poças e desviando de galhos que voavam com o vento em suas direções.
A casa fazia o mesmo rinchado da casa da carta ao ser pisada.
Andy abriu a porta com um ruído, conferindo se todos haviam entrado na hora de fecha-la.
A casa era completamente escura e abandonada. Pelo feixe de luz da lanterna via-se teias de aranha espalhadas, e uma escada que levava a um segundo andar.
— Esse lugar precisa de uma limpeza — falou Matt, passando a mão nas paredes e sentindo a poeira que acumulara nos dedos — ATHIN!... Sou alérgico a poeira.
A casa cheirava a mofo misturado com ar de terra molhada do lado de fora. Ouvia-se os ruídos do vento e o som da chuva forte abafada, com trovões alternados.
Matt, geralmente o mais curioso do grupo, logo pegou a lanterna e começou a dar voltas pela casa, tentando entender o que ela fazia ali. Os outros logo fizeram o mesmo, indo em direções diferentes.
— Parece bem real para mim — disse Andy, passando as mãos nas paredes sujas, ao lado de Matt.
Eles estavam em uma sala vazia e escura, com um piso com falhas em que era preciso tomar cuidado onde pisar.
— Sim — concordou Matt — mas não é estranho ela...
— Pessoal!! — ouviu-se Avy gritar do andar de cima.
Eles subiram as escadas, que davam em um corredor estreito com duas portas de cada lado. Avy e Violet estavam no quarto da segunda porta à esquerda.
As paredes deste cômodo estavam repletas de símbolos diferentes brilhando, a mesma simbologia que apenas Avy conseguia entender. E no meio, destacando-se de forma bem maior, nas letras tradicionais, estava:
O dia do retorno está próximo
Matt logo pegou um bloco de anotações que guardava no bolso e anotou a mensagem.
Aos poucos, os símbolos e a mensagem foram sumindo, até desaparecerem de vez.
— O que acham que isso pode significar? — perguntou Andy.
Violet balançou a cabeça, indo para perto dele, que colocou a mão em seu ombro.
— Não tem como dizer ao certo — disse ela — o retorno de Silverstrow? Ele já retornou.
— Então o retorno de alguma outra coisa que vamos descobrir — falou Matt. É um sinal, alguém está tentando nos avisar sobre algo.
Andy balançou a cabeça.
— Não tem como alguém ter escrito isso. Era escrito em luz.
— Não sei vocês — comentou Violet — mas eu acredito que existem muitos mistérios por aqui, muitos casos que ninguém nunca se deparou. Também acho errado dizer que os Silverstrows são as únicas pessoas com podres não pertencentes a nenhuma das grandes dimensões, se eles — ela se corrigiu — se nós existimos sem ter uma dimensão conhecida de origem, porque não existiria mais pessoas nesse mesmo caso? Resumindo, isso pode muito bem ter sido escrito com alguém com tal poder.
Eles assentiram.
— Avy — chamou Matt — você entende aquela simbologia, não entende? O que queria dizer?
Ela exitou em responder.
— Eu... Eu não fui capaz de compreender aqueles símbolos. Não deve ser a mesma escrita.
Ela não quis falar, mas ela entendia exatamente o que os símbolos diziam: O engano está sendo cometido.
E estava claro para ela o que isso significava. Ela não era a escolhida, Avy sentia isso. Jogar a responsabilidade de salvar o universo de uma maldição que ninguém fazia a mínima ideia do que podia ser era errado. Ela sempre sentiu isso. Avery sabia, que se fosse mesmo a escolhida, a sensação de que algo errado acontecendo não estaria presente nela.
Mas era diferente da sensação que sentia quando estava em Verídion, ela sentia que devia estar lá, mesmo não sendo pelo motivo que todos esperavam que fosse, isto é, a escolhida.
De qualquer forma ela sentia-se parte daquele universo, mas não de uma forma que ainda não conseguia explicar.
Avery contaria a verdade mais tarde, quando fosse o momento certo, e ela esperaria que acreditassem nela.
—--
As horas se passavam e a tempestade nem se quer havia diminuído. No momento, na sala ao lado, Violet traçava o mapa com uma caneta vermelha ao lado de Andy, que estava distraído ouvindo música com fones de ouvido. O que fazia Avy se perguntar de que tipo de música ele gostava.
Matt estava em algum lugar fazendo algo. Provavelmente lendo um das dezenas de livros que ele lê por mês.
Avy tirara um cochilo, e teve um sonho estranho.
Ela não estava no próprio sonho. O que se via era um castelo de gelo. Uma sombra negra subia as escadas cristalinas, até chegar em um corredor e entrar em uma sala com vários quadros de pinturas de reis e rainhas anteriores. A sombra se aproximou da obra de um rei grisalho com olhos esmeraldas, usando um grande manto branco. No pescoço usava um colar de cristais azuis reluzentes.
A sombra analisou-os bem, depois enterrou o braço no quadro, se é possível, entrando dentro dele, e retirou um cristal discreto e quase imperceptível da tela, o trazendo para o lado de fora. Neste mesmo instante alarmes começaram a tocar, junto de luzes azuis e brancas que piscavam incessantemente. A sombra logo desapareceu transformando-se em fumaça. Segundos depois, cavaleiros de armaduras com o símbolo do gelo, acompanhado de um G trabalhado chegaram em dezenas, com lanças de gelo. Mas era tarde demais, o cristal de Aquarius, escondido em uma pintura no reino de Glacidale, já havia sido roubado.
Avery acordou, sabendo que não havia sido simplesmente um sonho, mas sim uma visão, da mesma forma do sonho com Rodrick e as chamas. Ela levantou-se para avisar os outros, mas recuou quando percebeu algo estranho acontecendo.
Na sua frente, partindo dela, a mesma fileira de luzes no tom violeta apareceram. Elas seguiam para o segundo andar.
A garota tentou tocar a primeira para ter certeza de que era real.
Ela era fria e fazia cócegas, e sumiu depois de tocada.
Avy olhou em volta, vendo que ninguém a observava, ela seguiu as luzes.
Fale com o autor