A Lenda da Raposa de Higanbana
49 48: Promessas a cumprir.
Notas iniciais
Anko escapuliu das garras do estúpido irmão quando diminuiu para sua menor forma, correu por entre as pernas dele e, ao afastar-se, virou-se cuspindo uma bola de fogo verde escuro direto em seu traseiro.
—Ai! Seu moleque! — o idiota gritou correndo para sentar-se na neve e apagar as chamas.
—Há! Otário! — tripudiou antes de voltar á forma humana e sair voando dali.
Ele era muito mais rápido que ambos, então nenhum deles tinha a mínima chance de conseguir capturá-lo.
Que par de ot…!
Sem olhar por onde voava, Anko chocou-se contra algo macio e antes que pudesse ver o que era, foi repentinamente feito cativo por um par de braços que parecia disposto a apertá-lo até partir sua espinha em duas, enquanto ele era asfixiado contra uma almofada.
Mas aquele cheiro, Anko poderia reconhecê-lo em qualquer lugar…
—Oh meu raio de sol! — Furin chorou o apertando.
Merda, ele estava sonhando?!
Quando foi que caiu no sono?!
Anko arregalou os olhos e debateu-se, tentando afastar-se — e conseguir respirar — mas sua mãe ainda era muito mais forte que ele, fosse física ou mentalmente, por isso, não importa o quanto tentasse lutar, não poderia se soltar ou tampouco acordar, até que ela permitisse!
Apesar de ser tão instável e dispersa, mesmo antes, quando Furin tinha por hábito deixar seus filhotes para trás e desaparecer durante dias — ou semanas — em vilarejos e cidades humanas para brincar entre eles, ela nunca deixava seus preciosos filhotes realmente desamparados: eles sempre eram deixados bem protegidos dentro de territórios mágicos isolados, vigiados de perto e servidos pelos pequenos criados de sua linda mãe, com água e comida à disposição, e os raios de sua mãe bem guardados em seus corações, para protegê-los e avisá-la de qualquer perigo e… para que eles nunca estivessem realmente sozinhos, mesmo quando o pai os deixava para procurar por ela, o selo dos sonhos.
Assim Furin podia encontrar e alcançar o filhote marcado onde quer que ele esteja.
Para isso bastava que ela e seu filhote estivessem dormindo.
Furin segurou o rosto do filho apertando suas bochechas macias até que ele tivesse a expressão semelhante à de um peixe.
—Essa linda e dedicada mãe estava tão preocupada com seu querido, pequeno e precioso bebê!— exclamou desesperadamente distribuindo beijos por todo seu rosto.
—Mãe…! Para! — Anko debateu-se ainda tentando afastar-se com uma mão, enquanto a outra mão esfregava insistentemente atrás da orelha direita.
Estava queimando! Queimando!
Furin finalmente parou de beijá-lo.
—Oh meu precioso e tão querido raio de sol. — ainda amassando suas bochechas ela o forçou a olhá-la — Por que evitou sua linda mãe assim? Não sabe o quanto te amo e como fiquei preocupada? — Anko já havia presenciado sua mãe esmagar abóboras entre as mãos como se fossem cerejas e, naquele instante, sentiu como se sua cabeça estivesse prestes a se tornar uma dessas abóboras — E você está agora mesmo tentando fugir novamente de sua querida mãe?!
Furin perguntou surpresa, deixando de apertar as bochechas do filhote e agarrando-lhe o pulso para afastar-lhe a mão da orelha e impedi-lo de continuar tentando esfregar o selo feito ali.
Anko estalou a língua virando o rosto.
—E se eu estiver?
Furin o soltou repentinamente, olhando-o de forma chocada logo antes de cobrir o rosto dom as mãos e cair de joelhos curvando-se sobre si mesma.
—Oh filhote cruel e insensível! — chorou lamentando-se — Não sabe o suplicio que passei preocupada!
Anko hesitou por um momento, anos de experiência já haviam lhe mostrado que raios eram muito dolorosos, e quando sua mãe ficava instável daquele jeito era apenas uma questão de (pouco) tempo até os raios começarem a ser disparados e o melhor era procurar o abrigo mais distante possível o quanto antes, mas, embora estivesse com um pé atrás pronto para correr, ele ficou onde estava.
—Mamãe. — chamou-a, tendo todo o cuidado de não se aproximar — Eu encontrei meus irmãos.
E, instável como só a raposa negra podia ser, logo as lágrimas pelo filhote distante e insensível secaram e um sorriso iluminou seus lábios pelas notícias dos filhotes prateados perdidos.
—Oh meu raio de sol! — Furin saltou com os braços estendidos para capturá-lo — Você estava tão preocupado com o sofrimento de sua delicada e desampara mãe que foi pessoalmente buscar aqueles filhotes desgarrados?! — Anko pôde sentir sues pés deixando o chão quando a mãe o agarrou por debaixo das axilas e o ergueu aproximando seu rosto do dela, tornando impossível que ele pudesse desviar os olhos de seu olhar fixo e instável — Mas meu querido e precioso raio de sol, em sua ânsia por acalentar sua tão doce e dedicada mãe, acabou cometendo um erro crasso: eu fiquei desolada com o afastamento de seus queridos irmãos, mas ambos são adultos, eles podem se cuidar sozinhos, entretanto… precioso e querido raio de sol, você é só um filhotinho, e se desapareces assim sozinho em um mundo estranho e hostil, ainda que seja para procurar por seus irmãos desgarrados, tem ideia do quanto eu me consumo em preocupação? — a cauda da mãe enrolou-se ao calcanhar esquerdo do filhote, e subiu por sua panturrilha, enquanto a eletricidade estalava no ar em torno deles — Porque é claro que tudo se trata de um pequeno erro de julgamento de um filhote preocupado com sua linda mãe, certo? — ela apoiou a testa à dele, envolvendo-o em seus braços e, mesmo contra sua vontade, Anko sentiu-se encolher e regressar a sua forma diminuta — Pois eu jamais poderia imaginar que um de meus queridos bebês me magoaria tão intencionalmente… já que ferir sua linda e delicada mãe seria como ferir a si mesmo também. — preso na armadilha de amor dos braços da mãe, Anko tinha todos os seus pelos eriçados, mas não porque estivesse assustado com o que aconteceria caso desse a resposta errada! De jeito nenhum! Era a energia estática que lhe eriçava os pelos, só isso! — Afinal, todos os meus filhotes sabem… que a dor que causam à sua linda mãe, é a dor que eles também sofrerão quando… — Ela deteve-se erguendo a cabeça de repente, e a eletricidade estalou no ar com ainda mais força. — Quem é? — silvou abraçando o filhote protetoramente — Esse espaço é só meu e de meu querido bebê, como ousa invadir?! Eu ordeno-te que saia agora!
Ela sentou-se sobressaltada e quase bateu a cabeça na cama de cima do beliche, com a respiração irregular e o coração acelerado, na penumbra sentiu seus olhos pinicando com lágrimas mal contidas.
Havia sonhado novamente? Há meses que não sonhava coisa alguma e, embora não conseguisse se lembrar de nada, ela sabia que esse sonho devia ter sido dos mais terríveis, pois mesmo que o sonho houvesse se esvaído tão logo recuperara a consciência, os sentimentos que ele provocara ainda perduravam.
Levando as mãos ao peito, Aoi curvou-se para frente, tentando recuperar o fôlego.
Ela sentia muita falta de alguém, queria desesperadamente encontrá-lo, abraçá-lo e protegê-lo e nunca mais deixá-lo afastar-se…! Mas ao mesmo tempo estava terrivelmente assustada com a possibilidade de ser encontrada novamente, sentia-se sufocada até!
Mas quem é que lhe fazia tanta falta? Quem é que temia que a encontrasse?
Não se lembrava de nada disso, todos esses pequenos detalhes haviam se esvaído juntamente com o sonho esquecido.
Aos poucos a garota foi recuperando o fôlego e seu coração acalmando-se tão logo aquelas emoções tão repentinas e ilógicas iam se desvanecendo, bocejando, Aoi voltou a deitar-se e lentamente enfiou a mão debaixo do travesseiro, procurando ali por seu amuleto.
Parece que Baku vinha realizando um bom trabalho, devorando todos os seus pesadelos, mas, mesmo se Aoi não conseguia se lembrar deles, parece que ainda lhe restavam alguns…
Por três vezes ela repetiu “dou o meu sonho para o bom Baku comer” e talvez na manhã seguinte ela já nem se lembrasse dessas emoções ou de tê-las sentido no meio da noite.
Mas, se por um lado, aquela jovem humana mergulhava tranquilamente em um sono sem sonhos, não muito longe dali um filhote de raposa debatia-se finalmente escapando de um sonho asfixiante.
Livre!
Anko abriu os olhos inspirando o ar… não, não! Estava preso ainda!
Debatendo-se, suas patinhas se afundaram em paredes quentes e macias, atrapalhando-o de conseguir qualquer suporte, mas finalmente ele conseguiu escalar até que sua cabeça encontrasse a saída e ele finalmente conseguisse emergir, sentindo o ar frio da noite e buscando, desesperadamente, por lufadas de ar.
—Irmã! Como pôde guardar esse fedelho imundo aí?! — a reclamação ultrajada de seu estúpido irmão foi a primeira coisa que escutou.
—To-chan. — a voz calma e gentil de sua perigosa irmã soou acima da cabeça de Anko, mas, mais do que isso ela ressoava o cercando por todos os lados — Zu-chan está completamente limpo agora e eu não podia deixar o bebê sozinho dormindo ao relento por aí, não se lembra que era assim que nossa mãe sempre nos carregava quando éramos pequenos demais para enxergar e explorarmos o mundo por nós mesmos? Especialmente você, ela o levou junto ao peito por muito mais tempo do que a mim… afinal To-chan era tão lindo e pequenino…
Ele havia sido guardado no decote da irmã, da mesma forma que sua mãe sempre fazia também!
—Você podia só tê-lo deixado aos cuidados dos criados, como mamãe fazia conosco.
—Está nevando, To-chan!
—E nunca entendi porque aquela senhora simplesmente não nos atava junto ao peito ou às costas, como uma mãe normal. — o estúpido irmão comentou.
—Para nos manter seguros e ocultos desse mundo tão hostil. — sua irmã explicou paciente.
Abrindo os olhos, Anko percebeu que já era tarde da noite e rangeu os dentes, por quanto tempo aquele estúpido o tinha apagado?! O filhote lutou para conseguir uma posição favorável para saltar do decote da irmã diretamente para a cara daquele otário, já com as garras em riste para arrancar os olhos dele…!
Quando algo foi enfiado bruscamente em sua boca.
—Seja como for, aí estão seus malditos marshmallows, fedelho. — Gintsune afirmou enfiando um doce depois do outro na boca de Anko — Então agora deixe Yukari em paz e não volte a…!
Mas de repente Momiji esquivou-se dele, dando-lhe as costas e tirando Anko de seu alcance.
—To-chan, tenha mais cuidado com o bebê! — censurou-o delicadamente, cruzando os braços sobre o decote para proteger o filhote mais novo, sem nem sequer dar-se conta que ele não podia respirar com tantos marshmallows na boca, antes de dizer mais seriamente: — É muito enervante que aquela mulher vulgar seja a causa de meus queridos irmãozinhos não poderem se dar bem.
Sorrindo de lado, Gintsune aproximou-se por trás, pegou uma mecha do cabelo da irmã e beijou-lhe a ponta.
—Está tudo bem querida irmã, Yukari não é, nem de longe, a razão para eu não poder me dar bem com esse fedelho… — afirmou delicadamente… antes de fechar a mão em punho com um sorriso irado — A razão é que ele é simplesmente detestável.
Finalmente Anko conseguiu engolir toda a massa doce e branca que lhe obstruía a traqueia e puxar o ar com todas as forças que lhe restavam, para em fim protestar:
—Parem de me tratar como um bebê! E você é que é insuportável seu otário mimado filhinho de mamãe…!
Ele foi calado quando subitamente a mão da irmã fechou-se em torno de seu corpo e o apertou de forma implacável até que pontos negros dançassem na visão de Anko e ele caísse de lado, completamente zonzo.
—Cuidado com a maneira como se refere ao meu auspicioso príncipe, Zu-chan, pois ele teve a delicadeza de lhe trazer os doces pelos quais você tanto ansiava. — delicadamente ela enfiou outro marshmallow na boca de Anko — Por isso o certo a se dizer agora é “obrigado, aniki”.
Anko mastigou quieto e carrancudo, mas nem em sonhos que ele diria aquilo àquele otário prepotente!
—E tem mais uma coisa, irmã. — abaixo deles, Gintsune em sua forma animal dava voltas em torno das pernas da irmã, se esfregando a elas como um gato, enquanto ela se dirigia ao banco mais próximo para sentar-se — Yukari nunca tentou enganar esse pivetinho aí, ela é certinha demais para tentar enganar alguém, mas não tinha como encontrar o fedelho por si própria então esperou, sempre com os marshmallows a mão, que fique claro, até que ele fosse buscar os doces.— era importante deixar as coisas às claras para evitar que sua linda irmã nutrisse ainda mais ressentimentos contra Yukari e fosse atrás dela mais tarde.— E quanto a você fedelho, como foi a conversa com nossa mãe?
Anko que a essa altura já havia abandonado o decote da irmã e saltado sobre suas pernas para fuçar dentro do pacote de marshmallows, ergueu a cabeça de repente.
—O que?!
Gintsune sentou-se junto aos pés da irmã, repousando a cabeça no banco de pedra e fechando os olhos para aproveitar o carinho que ela lhe fazia entre as orelhas, enquanto a outra mão dela jazia repousada sobre as costas do filhote negro, talvez de forma afetuosa ou apenas se certificando que ele não tentasse escapar ao primeiro descuido.
—Não tente negar, é óbvio que ela veio vê-lo, não é? Não tente nos enganar dizendo que ela não veio. — Gintsune abriu os olhos preguiçosamente — Você é o filhotinho em cueiros dela, que escapou de seu abraço maternal e protetor e evitou qualquer forma de contato durante um mês… surpresa é ela tê-lo deixado ir em meras dezesseis horas.
Ele havia dormido por dezesseis horas inteiras! Anko se eriçou por inteiro.
—Ela veio. — Ele admitiu por entre dentes, mas os irmãos permaneceram o olhando atentamente em silêncio, a espera de mais detalhes, e o filhote lambeu os lábios adocicados antes de continuar: — Ela não estava tão histérica quanto se poderia pensar… — Parou. Era muito desconcertante admitir que a mãe parecia-se muito mais preocupada em agarrá-lo do que em perguntar sobre seus tão amados irmãos mais velhos. — Ela me parabenizou por ter a iniciativa de ir procurar vocês, filhotes desnaturados e insensíveis que a abandonaram.
Momiji limitou-se a arquear uma sobrancelha ao ouvir aquilo, mas Gintsune riu com escárnio descarado.
—E sem dúvida ela também prometeu recompensá-lo por tal ato heroico. — zombou.
Anko rosnou e a mão de sua irmã fez um pouco mais de pressão em suas costas, como se quisesse lembrá-lo suavemente que, se tentasse arrancar o nariz de seu irmão a mordidas, ela antes o esmagaria. Então se limitou a dizer:
—Alguma coisa invadiu o sonho e ela acabou se distraindo e me deixando esc… — tossiu como se houvesse se engasgado com um marshmallow — Me deixando ir.
Os irmãos o olharam em silêncio, Gintsune inclusive ergueu a cabeça, olhando-o com mais atenção enquanto Anko se ocupava de comer mais marshmallows, porque ele não estava nervoso com a possibilidade de sua falta de sinceridade ter sido farejada por ambos, de jeito nenhum, e sua cauda chicoteando de um lado para o outro não significava nada!
Momiji arqueou a sobrancelha, mas, felizmente, suas preocupações eram outras:
—Como assim alguma coisa invadiu o sonho? Que tipo de coisa?
Anko engoliu.
—Algum parasita qualquer, eles são muito burros, guiados só pelo apetite geralmente, e o cheiro da magia de sonhos da mamãe deve exalar como um banquete.
—Mas a invasão veio deste lado ou de lá? — a orelha direita de Gintsune moveu-se brevemente.
—E como vou saber? — Anko girou os olhos — Que me importa afinal?
Encolheu os ombros e voltou a comer, os marshmallows estavam quase no fim agora, aquilo lhe dera a chance que precisava para despertar e não pretendia voltar a dormir tão cedo.
—Isso também já aconteceu comigo umas duas ou três vezes… é claro que os pobres ignorantes logo souberam as consequências de chatear minha mãe, quando o velho encontrou seus hospedeiros e os exterminou. — Gintsune relembrou, enquanto Momiji concordava pensativa, como se também tivesse alguma história similar a respeito da própria infância.
De qualquer forma, a invasão provavelmente fora pelo lado de lá e, nesse caso, não restava muito tempo ao imbecil desavisado… afinal quais as chances de a invasão ter vindo pelo lado de cá? E, como o fedelho havia dito: que importava? Não era problema dele.
—Oi! O que são todos aqueles morros ali? — o fedelho fungou se afastando do pacote, agora vazio, de marshmallows — Eles cheiram a metal…
—Ah, é o playground. — Gintsune respondeu— Mas os brinquedos foram cobertos pela neve, hoje nevou o dia inteiro…
Sem dar atenção a ele, Anko saltou do banco de pedra… e sumiu como um passe de mágica.
A camada estava bem mais profunda do que ele havia imaginado.
Gintsune caiu para trás e rolou de tanto rir.
—To-chan, o bebê…!
Momiji assustou-se se inclinando com a mão estendida para resgatar o filhote negro, mas antes que pudesse alcançá-lo, Anko emergiu em forma humana, sacudindo a neve da cabeça.
—Não ria de mim seu estúpido com cabeça de nabo!
O filhote pegou um bocado de neve e jogou contra o irmão, mas Gintsune estava rindo tanto que sequer sentiu.
—To-chan, não chateie o bebê. — Momiji comentou, delicadamente puxando o tubo de bambu de dentro da manga e abrindo-o — Limpem a neve dos brinquedos.
—Pare de me tratar feito bebê! — Anko reclamou levantando-se.
É claro que ele não era um bebê e muito menos tinha interesse em brinquedos de bebê, mas… podia ser interessante estudar como as patéticas criaturas daquele mundo faziam para distrair suas proles, todo conhecimento podia ser útil no futuro.
E também, ele ainda estava devendo uma bela lição àqueles traidores.
Gintsune pulou para o banco de pedra, ocupando o lugar onde antes Anko estivera junto a irmã, deitando-se com a cabeça em seu colo e varrendo a embalagem vazia de marshmallows para longe.
—Sabe de uma coisa, irmã? — perguntou preguiçosamente, novamente sentindo os dedos da irmã acariciando lhe o topo da cabeça entre as orelhas — Quando tinham a nossa idade, nossos pais já tinham dois filhotes adultos.
—Eu estive selada pelos últimos dois séculos. — Momiji deu um sorrisinho enquanto assistia o filhote negro perseguir os criados por entre os brinquedos cobertos de neve. — Qual a sua desculpa?
—Hum… Benevolência divina talvez?
Gintsune deu uma risadinha, fazendo sua irmã sorrir divertida por um momento, até erguer o olhar, novamente séria e semicerrar os olhos.
—Creio que nunca deixarei de me surpreender com a habilidade de nossa mãe, e este shikigami certamente pode ser considerado uma de suas obras primas, não é mesmo? Embora não seja muito veloz, ele continua a nos encontrar onde quer que estejamos e, independente do quão bem eu possa tecer minha trama, continua a adentrar e sair de meus domínios como se não fosse nada.
Erguendo a cabeça e cruzando as patas dianteiras, Gintsune também semicerrou os olhos ao avistar a figura parada sinistramente sob a luz oscilante de um poste a pouco mais de seis metros deles e estalou a língua com desgosto, sempre que eles ficavam parados por mais de uma hora no mesmo lugar, a criatura os encontrava.
—Será que não tem um mecanismo para desligá-lo? Ou então podíamos simplesmente queimá-lo? Particularmente essa ideia me e muito mais atrativa.
—Oh To-chan, às vezes você é exatamente como nosso pai. — Momiji sorriu balançando a cabeça de leve.
As garras de Gintsune rasparam a pedra por um momento.
—O fedelho não disse muita coisa sobre a mãe… mas você conversou com o velho também, certo?
—Se puder se referir aquilo como “conversar”…
—E o que ele disse? — perguntou receoso.
—Praticamente nada. — Momiji balançou a cabeça levemente, mas hesitou por um momento antes de contar o restante: — Mas sua raiva parece proporcional ao sofrimento e desespero de nossa mãe, então desconfio que o bebê não nos contou realmente toda a verdade sobre seu encontro com nossa mãe…
—Pequeno fedelho traiçoeiro. — Gintsune resmungou, mesmo que também já suspeitasse da mesma coisa.
—E é por isso que Mokujin ainda nos segue continuamente: ele não parará até que entremos em contato com a mãe.
—Já tentamos isso. — Gintsune girou os olhos — Mas que culpa nós temos se a senhora está completamente fora do ar? Não é como se tivéssemos selos dos sonhos também…
—To-chan, ele mencionou algo sobre esfolar aos três caso mamãe continue a chorar também. — Momiji completou, calando-o instantaneamente — Nos foi ordenado retorno imediato também.
De repente, as palavras do deus da miséria, já há muito esquecidas e propositalmente enterradas nos confins de sua mente, retornaram para assombrar Gintsune:
“Eu o devolverei ao mundo humano, assim como deseja amigo, mas como dessa forma ainda me restará um favor a ser devolvido, deixe-me pagá-lo de outra forma: se acaso algum dia quiser retornar ao se mundo, por que não busca Inari? Duvido que ela possa ignorar as súplicas de uma de suas raposas…”
Gintsune engoliu em seco.
—Mas não há… — sua voz falhou, e ele fixou o olhar no buraco na neve logo abaixo deles, deixado pelo mergulho do fedelho — Não há maneira de regressar, irmã.
—Mokujin pode ter uma maneira. — a irmã o avisou, ainda com o olhar fixo no shikigami à distância — Ela o enviou como mais do que um meio para nos contatar, To-chan, e voltar ou não, não é uma escolha… há mais uma coisa que descobri, enquanto você estava na escola com aquela mulher…
Mas as palavras seguintes de sua linda irmã transformaram a cabeça de Gintsune em um imenso vazio.
Enquanto isso, nos brinquedos semicongelados, Anko comemorava sua vitória sobre os criados capturados e embolados entre si, sem conseguir escapar do nó que o cruel filhote lhes dera.
—Tentem se soltar disso agora seus traidores otários! — riu chutando a bola de raposas tubo, que gritaram desesperadas — Vocês foram capturados na armadilha, imbecis!
Sim, capturados, Gintsune lançou um olhar irritado ao shikigami parado sob a luz do poste, aquele mero pedaço de madeira definitivamente havia ido longe demais.
Levantando-se e saltando para a neve, Gintsune começou a afastar-se, Mokujin só podia mesmo estar muito ansioso para virar lenha.
Ah sim, e Gintsune faria uma bela e grande fogueira com ele, e quem sabe até assasse alguns marshmallows nela, para entupir aquele fedelho guloso, assim todos sairiam satisfeitos.
Será que Yukari ainda tinha mais marshmallows…?
O pensamento ocorreu-lhe tão repentinamente que Yukari deixou a receita de lado e foi procurá-los no armário, não era provável que o irmãozinho de Gintsune voltasse para exigir mais doces, mesmo porque se ele realmente pudesse vir até ela exigir qualquer coisa, ele teria vindo cobrar… ela parou franzindo o cenho, mas por que de repente havia pensado em marshmallows…?
—Gintsune! — silvou girando e já colocando as mãos nos quadris, acusadoramente, e apanhando Gintsune em flagrante, congelado com os olhos arregalados e uma mão esticada em direção á vasilha que ela abandonara sobre a bancada, com o dedo a centímetros da massa grossa e doce ali dentro — Eu não acredito! Você invadiu minha mente para distrair-me e bisbilhotar o que estou fazendo?!
Ainda com olhos arregalados, Gintsune afastou-se da bancada erguendo as mãos.
—Eu não invadi sua mente! — jurou — Eu apenas sussurrei em seu ouvido, queria surpreendê-la, fazer uma travessura inocente, mas você estava tão concentrada que achou que o pensamento foi seu!
Yukari ainda franziu o cenho e olhou-o desconfiadamente por mais alguns momentos, porém logo foi desarmada pelo sorriso de canto que Gintsune deu e suspirou fechando os olhos e massageando as têmporas com as pontas dos dedos.
—O que está fazendo aqui há essa hora?
Sentiu as mãos de Gintsune em seus quadris e, quando deu por si, estava imprensada entre ele e os armários.
—Eu podia te perguntar a mesma coisa. — murmurou junto ao seu pescoço — Fui ao seu quarto primeiro, porque achei que já estaria dormindo, mas o que está fazendo aqui…?
Quando ele a beijou ali, a reação de Yukari foi imediata, perdendo todas as forças nas pernas e se agarrando aos braços dele para manter-se de pé.
—Agora… não é uma boa hora.
Conseguiu dizer, embora não tenha feito a menor tentativa de afastá-lo e agido de forma bem receptiva quando ele beijou-lhe na boca, passando as mãos em torno de sua nuca e inclinando a cabeça para trás.
Ele a abraçou apertado contra si e mordiscou-lhe a ponta da orelha.
—Ah… eu não quero ter que deixá-la nunca. — murmurou sofregamente — Talvez eu a leve comigo.
Yukari franziu o cenho, será que Gintsune tinha alguma inclinação especial por sequestrá-la de casa em meio a noites frias só para comer junto com ele? Suspirou com as pontas dos dedos brincando com a gola alta da camisa dele, e inclinou a cabeça até apoiar a testa em seu peito.
—Hoje não, eu… — deteve-se um instante, afastando-o um pouco de si e remoendo o que poderia dizer — Estou um pouco ocupada aqui.
Gintsune deitou a cabeça em seu outro ombro.
—E amanhã também estará muito ocupada?
Ele sorriu ouvindo como a proximidade de ambos fazia o coração dela acelerar.
—O-o que tem a…? — ela desviou o olhar virando o rosto para o lado oposto, então Gintsune quis provocá-la um pouco lhe beijando o pescoço, e riu com o som esganiçado que ela soltou em resposta: — G-Gintsune!
—Que foi? — murmurou roucamente ainda a beijando ao longo do pescoço e demorando-se um pouco mais em alguns pontos, não fazia mal, é claro, afinal ela tinha o amuleto consigo, sentiu-a estremecer quando lhe mordiscou de leve o lóbulo da orelha antes de sussurrar-lhe: — Se eu pudesse escolher… eu diria que amanhã ficaria muito surpreso em ganhar morangos cobertos de chocolate. — riu ladinamente, a abraçando um pouco mais — O chocolate você já tem bem ali, e os morangos estão justo…
Ela o deteve chutando-o na canela, mas o ato só o fez rir um pouco mais.
—Afinal por que eu te daria algo amanhã?! — reclamou afobada com as mãos espalmadas no tórax dele, agora sim fazendo algum esforço para afastá-lo.
—E então… — Gintsune afastou-se, dando-lhe espaço e erguendo a cabeça quando Yukari já estava sem fôlego, mas manteve os braços em volta dela, entrelaçando os dedos na parte baixa de suas costas — O que você estava fazendo ali?
E indicou novamente a tigela, já esquecida a essa altura, com um movimento de cabeça.
Uma onda de rubor subiu pelo pescoço de Yukari.
—Você tem que ir embora! Agora! — exclamou empurrando-o agitada.
—O que? — Gintsune piscou confuso, cambaleando para trás — Por quê? Eu acabei de ch…
—E você não devia ter vindo, hoje, eu estou ocupada! Muito ocupada — ela o interrompeu, fazendo-o girar e guiando-o/empurrando-o para fora da cozinha — Mas venha amanhã!
—Mas eu…
Gintsune tentou argumentar, indo aos tropeços pelo corredor, porém Yukari não lhe deu tempo:
—Venha depois da escola, vou ficar chateada se não vier, mas só depois da escola, entendeu? — segurando-o pelo braço com uma mão, ela esticou a outra para abrir a porta da frente — E não apareça na minha escola também. — virou-se com o cenho franzido — Eu vou saber ented…?!
Foi surpreendida quando Gintsune de repente inclinou-se e a beijou rapidamente.
—Eu já entendi. — sorriu de lado passando as costas da mão pela lateral de seu rosto Então eu volto amanhã para saborear meus morangos com cobertura de chocolate.
Ele baixou o olhar sugestivamente.
Yukari encarou-o com olhos arregalados, abrindo e fechando a boca sem emitir som algum durante vários segundos, antes de conseguir reagir novamente, contornando-o e empurrando-o para fora completamente escandalizada:
—Não vai ter morango algum seu cretino, então só vai embora de uma vez!
—Está bem querida, já entendi, eu finjo surpresa. — ele jogou a cabeça para trás, piscando-lhe.
Yukari deu um gritinho estrangulado e fechou a porta com um solavanco, fazendo-o rir.
—Como pode? — ele respirou fundo, jogando a cabeça para trás e cobrindo o rosto com ambas as mãos, ficando ali parado por alguns segundos, antes de espiar as estrelas por entre os dedos separados e resmungar — Como pode ser tão encantadora?
Mas se Yukari queria fazer-lhe uma surpresa, ele não estragaria as coisas para ela, podia esperar até o dia seguinte para vir vê-la. Assentiu se afastando em direção à pousada de onde podia ouvir o som das máquinas de lavar em plena atividade, e ele precisava de um lugar tranquilo para pensar em como quebraria aquela maldita barreira em torno da cidade.
Primeiro podia começar tentando queimar aquele boneco desgraçado e torcendo para que isso desse certo, ou que os deuses tivessem piedade, porque, embora ela estivesse agindo como se estivesse perfeitamente bem até agora, Gintsune não queria nem imaginar no que poderia fazer se sua linda e querida irmã precisasse ficar ainda mais tempo confinada, depois de tudo o que já passara!
*.*.*.*
Embora o mar já houvesse ficado para trás há vários quilômetros, e a coluna de fumaça erguendo-se do rochedo marítimo sequer continuasse à vista, o odor de sangue e sal seguia profundamente impregnado em suas roupas, pele e cabelos e inclusive debaixo das unhas.
O cheiro de sangue não o incomodava, esse já lhe era quase tão familiar quanto o doce odor de sua amada esposa, no entanto o sal… fazia suas roupas se tornarem ainda mais endurecidas e manchadas, deixava sua pele pegajosa e fazia seu couro cabeludo coçar.
Lambeu com curiosidade a parte de trás da mão esquerda, apenas para virar a cabeça de lado e cuspir irritado um momento mais tarde, emitindo um rosnado mal contido, estava irritado, pois já fazia tanto tempo que não se encontrava com os daquela laia que a essa altura já havia se esquecido completamente de como monges — fossem humanos ou não — podiam ser resiliente.
Até o fim, nenhum deles lhe contou onde possivelmente poderia encontrar um novo templo.
—Sua morte será rápida. — havia dito a cada um, antes da incineração — Pois mesmo se não me ajudou ao menos não me fez perder tempo tentando dar-me direções tolas e errôneas.
De uma forma ou de outra, agora ele estava a esmo novamente em sua caçada.
Tirando de dentro da yukata escura o kiseru, Tamaki passou também um polegar por detrás da tira de couro em volta de seu pescoço e o puxou diante do rosto até que as sete pérolas reluzissem ao luar.
A terceira já havia começado a escurecer ou não? Semicerrou os olhos rosnando ao tragar o cachimbo. Apenas com a luz do luar era difícil dizer, afinal quando aquelas sete malditas pérolas iriam escurecer de uma vez para que ele pudesse rever sua amada? Já estava demorando demais, e ele nunca antes havia passado tanto tempo longe de Furin sem sequer poder sentir sua presença junto a si… se ao menos as pérolas pudessem ligá-lo a ela, como as máscaras faziam…!
Mas Furin podia ser bastante cruel em sua mágoa.
Então seria muito mais rápido reunir todos os ingredientes de uma vez, exalou a fumaça com impaciência.
O luar era mau sinal, se podia ver a lua, significava que não havia nenhuma grande concentração de youkais por perto, e isso podia dificultar sua busca, voltou a tragar o cachimbo, pois duvidava que fosse simplesmente tropeçar em outro monge que estivesse, por acaso, peregrinando solitariamente pela noite…
O som distante de água correndo o deteve por um momento, e Tamaki baixou o kiseru prestando mais atenção aos seus arredores, a floresta que o cercava parecia simplesmente vazia e escura desprovida de qualquer tipo de vida — o que não era uma grande novidade, há muito já se acostumara que apenas o mero aproximar de sua presença era capaz de silenciar o canto dos pássaros e até mesmo apagar os minobi—, mas se havia água corrente por perto, então talvez houvesse grupos vivendo às suas margens.
Guardando o kiseru novamente, virou-se naquela direção.
…
Estava subindo à margem do rio há mais de uma hora, observando como as nuvens de miasma finalmente estavam começando a se acumular novamente, quando ouviu o som de um biwa tendo sua corda rompida, e logo depois madeira batendo em pedra apressadamente — como passos correndo — pouco mais de dois quilômetros antes de ele finalmente avistar a ponte.
Era uma ponte de pedra escura, larga e robusta, com duas grandes lanternas de pedra posicionadas sobre as balaústras dianteiras, mas estava, em grande parte, coberta de musgo, porém a parte mais estranha sobre a ponte era que estava feita apenas pela metade: ela erguia-se como um arco a partir da margem ocidental do rio, porém acabava parando abruptamente bem no meio do curso d’água, mas não como se houvesse desmoronado, era mais como… uma pintura que alguém não havia terminado.
Uma barreira.
—Ora, quem vem lá? Nessa escuridão quase o confundi com um Betobetosan… — uma voz ébria e arrastada o chamou, e Tamaki parou, vendo como uma pequena forma, quase tão cinzenta quanto a rocha da ponte, se movia por detrás de uma das grandes lanternas de pedra — Mas acontece que seus pés estão descalços, não é? Por favor, há alguma ajuda que poça me dar…? — a criatura riu arrastadamente, parecendo lutar para manter o equilíbrio e estendeu uma mão para apoiar-se na ponte ao lado — Foi muito estranho… muito… de repente todos os minobi se apagaram e meu amigo fugiu dizendo que quem vinha era a encarnação da morte… quem está aí? Venha para a luz para que eu te veja… um trocado, um pedaço de comida ou bebida, é tudo o que peço…
Mas quando sua mão escorregou no lodo da pedra, ele acabou caindo para trás e riu feito um idiota.
No entanto… o sujeito patético vestia-se tal qual um monge.
Seria possível? Ele realmente havia encontrado outro monge assim tão facilmente…?
Não, constatou com insatisfação ao seu aproximar, aquele era o tipo errado de monge: vestindo roupas puídas e desgastadas, e completamente molhado como se houvesse acabado de emergir daquele rio — ou da garrafa da bebida ao qual ele tanto fedia — e segurando em uma das mãos uma tigela simples e lascada de cerâmica, a criatura careca e de pele acinzentada e manchada em tons de azul e verde não se tratava de nenhum ichiren-bozu, mas apenas de um patético kosamebõ.
—Uma ajudinha, é tudo o que peço… — a criatura murmurava, lutando para conseguir sentar-se, em meio a sua embriaguez, bêbado demais para perceber o perigo — Pode ser um objeto qualquer ou comida se preferir… bebida… você tem bebida aí com você?
Tamaki estalou a língua com desgosto.
—Há outros monges nas redondezas? — quis saber — Algum Ichiren-bõzu?
—Há tempos não vejo um desses! — o Kosamebõ riu finalmente conseguindo levantar-se, de pé ele não ultrapassava a altura dos quadris de Tamaki — O que está havendo? A mocinha decidiu arrepender-se de seus pecados e buscar a redenção…?
A mocinha. Tamaki baixou os olhos para si mesmo e viu os próprios seios, há quanto tempo estava naquela forma…? Não importava.
—Se não sabe de nenhum ichiren-bozu, sabe onde youkais se reúnem aqui? Procuro também por mulheres de cabelos longos e cortantes: Hari onnas.
—Ah… então a beldade prateada está procurando beldades cortantes para pecar um pouco antes da redenção. — o monge bêbado cambaleou para frente e estendeu uma mão, agarrando a barra escura da yukata da raposa em busca de apoio para evitar cair, ele podia ter perdido o braço por aquilo, mas suas palavras seguintes o salvaram temporariamente: — Pois veio ao lugar certo!
Tamaki arqueou uma sobrancelha.
—Eu vim?
O velhote apontou com a tigela lascada para a meia ponte:
—Sim, é claro! — afirmou alegremente — O Mercado do Lodo é o melhor lugar para se encontrar tudo aquilo que procura, e se o que procura é diversão… — seu riso ébrio era muito enervante, mas suas informações podiam ter alguma utilidade então, por hora, a raposa prateada fechou os punhos e conteve-se — Então deve ir ao Lótus do Lodo, vai encontrar lá toda diversão com belas mulheres cortantes que desejar antes da sua redenção.
—Hari onnas? — quis certificar-se.
—Hari-onnas, Hone-onnas[1], Futakuchi-onnas[2] e muito mais, basta procurá-las no Lótus do Lodo e terá toda a diversão que quiser antes da sua redenção…! Oh…! — a criatura desequilibrou-se e caiu para frente quando Tamaki, já sem paciência com a tagarelice infinita, deu-lhe as costas e subiu na ponte começando a afastar-se a passos largos — Espere… preciso de ajuda… um pouco de comida, algumas moedas ou bebida talvez…!
Não hesitou ou diminuiu os passos mesmo quando se aproximou do “fim” da ponte, porém, ao invés de seus pés encontrarem o vazio, o caminho se estendeu como se sempre houvesse estado ali — porque estava — e viu-se descendo ilogicamente pelo mesmo lado da margem por qual havia subido.
No entanto tudo estava diferente, dessa vez as lanternas de pedra estavam acesas e ao invés de uma floresta fechada e silenciosa, se encontrava em uma barulhenta clareira inundada que se abria por quilômetros a sua volta, com água lhe batendo quase na altura das panturrilhas e apinhada com vários prédios e barracas de vários tamanhos e formas espremidos uns contra os outros, toda a clareira era iluminada por uma enorme rede de cordas que a atravessava de um lado a outra, amarradas entre os prédios com dezenas de lanternas coloridas penduradas a elas, enquanto diversos tipos de youkais chapinhavam pela água e lama, e tudo, dos prédios, às lanternas, estava coberto de musgo.
O Mercado do Lodo afinal.
Ele agarrou um dos tentáculos de um tako-nyudo[3] que passava por si.
—Onde encontro um lugar chamado Lótus do Lodo? — quis saber.
—Está procurando trabalho ou…? — A criatura polvo virou-se com um esgar mal-humorado, pouco antes de seus olhos encontrarem a face de Tamaki e sua pele colorirem-se em tons quadriculados de amarelo e azul, antes de ficar completamente branca. — P-p-por ali! É por ali!
Respondeu rapidamente, indicando a direção sacudindo três tentáculos de uma vez, e assim que Tamaki o soltou, o ser emitiu um grito estrangulado e fugiu correndo pela ponte.
Não era como se ele estivesse particularmente zangado — ainda —, mas supunha realmente que o cheiro de sangue e sal impregnado em si, seria especialmente mais tenebroso para as criaturas marinhas.
Conforme atravessava o mercado, viu vários youkais afastarem-se e abrirem caminho de forma receosa, barracas eram fechadas abruptamente e gritos suprimidos aqui e ali, a exceção de uma vendedora que anunciava carne de basan, peles de onikuma e nodeppõ no espeto, que lhe acenou como se o reconhecesse ao vê-lo passar:
—Não pense que não o reconheço, só porque está usando seios hoje, trouxe algo para mim de novo nessa trouxa? — perguntou-lhe animadamente — Alguma mulher lhe deu os cabelos como prova de amor novamente? Tenho roupas ainda mais belas que da última…
Sua voz foi morrendo aos poucos e o rosto empalideceu conforme Tamaki se aproximava e a mulher dava-se conta de seu terrível engano.
Ele parou diante dela pousando a mão sobre a trouxa de tecido que trazia amarrada junto ao quadril.
—Cabelos são o que procuro. — afirmou — Onde está o Lótus do Lodo?
—Virando ali à esquerda. — respondeu com voz chorosa — Eu… eu sinto muito, mas você é uma raposa e tem o rosto dele, pensei…
Tamaki a ignorou.
Não o surpreendia que seu filhote fosse conhecido por ali, além de Furin, ele sempre foi o mais sociável e menos mortal entre eles… e se havia diversão e bebida a disposição, ele não ser uma figura familiar em um lugar daqueles era o que teria surpreendido Tamaki.
O Lótus do Lodo certamente fazia jus ao seu nome, era um prédio largo de três andares que se erguia em meio a um lodaçal, com paredes cobertas de musgo e flores de lótus em pleno desabrochar apesar da hora da noite.
Uma ponte reta e larga de tábuas escorregadias com limo cortava o lodaçal até a entrada do prédio.
Tamaki tirou sues pés da água e, pela segunda vez naquela noite, atravessou uma ponte.
—Bem vinda querida, está uma bela noite, não é? — a sombra de uma mulher vestida em kimono sentada sobre os próprios calcanhares por detrás da porta de papel arroz o recebeu na entrada — Veio em busca de diversão ou de um teto, cama e comida? — ela ergueu uma mão, cobrindo a boca com a ponta da manga e inclinando a cabeça ligeiramente de lado, como se o visse através da porta, antes de dizer: — Você com certeza tem um belo material aí preciosa… mas o que mais? Nada aqui é de graça, entende? Não pode ter diversão se não tem nada para nós, e não pode ter uma cama e um teto se não estiver disposta a nos proporcionar diversão… claro que nada a impede de se divertir também.
O cheiro do lodo e das flores era forte demais ali, e havia também fumaça de tabaco impregnando tudo, Tamaki sequer conseguia se guiar pelo olfato e dizer se aquele lugar tinha realmente o que procurava ou sequer a que espécie pertencia a criatura detrás da porta.
Tudo o que sabia é que ela falava demais… e que com certeza não conseguia sentir o cheiro de sangue e sal impregnado nele e tampouco era boa lendo a energia alheia.
Contendo um rosnado impaciente, pousou a mão sobre a trouxa que trazia amarrada aos quadris.
—Busco por hari-onnas. — respondeu quase arrancando a porta de seus trilhos ao abri-la.
Lá dentro, um grande salão a meia luz iluminado por várias lanternas de papel, com paredes ornadas de pinturas que remetiam a vários prazeres e o ar pesado pela fumaça de vários cachimbos estava lotado com diversos youkais, machos e fêmeas, em vários estados de nudez.
E só então a raposa de se deu conta para que tipo de antro repugnante aquele kosamebõ o havia enviado, Tamaki nunca havia pisado em um lugar desses, mas se ali ele poderia encontrar o que procurava, então que seja.
—Então veio por diversão. — a mulher concluiu ainda atrás dele, mesmo quando Tamaki adentrou o salão. — Mas tem como retribuir-nos?
Porém quando ele virou-se, a mulher ainda era somente uma sombra na porta de papel arroz, uma kage-onna, por isso ele não conseguia sentir o cheiro dela.
—Onde estão as…?!
—Olá querida, você é linda. — uma voz ébria aproximou-se por detrás dele e mãos deslizaram por seus ombros, em direção ao seu decote — Você quer…?
—Deixe-a, Risa. — a mulher sombra comandou, deslizando pela porta ao levantar-se — Ela não está procurando por taka-onnas, ela quer…
—Ah não…! — a taka-onna engasgou-se soluçando.
Certamente para elas tudo ocorreu rápido demais para que compreendessem: de repente, como se queimada por fogo, a taka-onna tentou afastar-se saltando para trás e retirando suas mãos imundas de cima dele, mas Tamaki era mais veloz e, em um único movimento ele a puxou por sobre o ombro, derrubando-a no chão e arrancando-lhe o braço com a violência do agarre e jogando-o de lado feito o lixo inútil que era.
Os gritos conjuntos da mulher alta e da mulher sombra silenciaram o salão por um único segundo enquanto centenas de olhos voltavam-se estarrecidos para a cena, antes que a confusão e os gritos se instalassem.
Eu meio ao caos Tamaki pisou sobre seu estômago para mantê-la onde estava.
—Onde. Estão. As. Hari-onnas? — rosnou.
—Por favor, não! — a youkai implorou aos prantos, erguendo o único braço restante — Eu imploro…!
E então saltou sobre ele, esticando seu tronco como uma cobra de forma antinatural, mirando seus olhos, ou talvez a garganta, com presas e garras um milésimo de segundo antes de voltar a cair inerte no chão, agora sem a cabeça e realmente em chamas também.
Gritos se espalharam pelo salão, alguém tentou atacá-lo por trás vociferando xingamentos antes que Tamaki girasse atravessando-lhe um punho em chamas pela garganta.
—Eu quero… — começou pausadamente, dando seus primeiros passos, trazendo uma cabeça decepada em uma mão e um corpo em chamas na outra — as hari-onnas.
Labaredas roxas avermelhadas se espalharam furiosamente pelo salão, escalando as colunas e escadas até o segundo piso e erguendo-se rugindo até o teto.
Sua paciência havia se esgotado.
Ele não estava ali por diversão ou um teto e uma cama, seu único objetivo era a felicidade de sua amada e seu único lar era entre os braços dela.
Largando os restos carbonizados a fera avançou correndo, ele abaixou-se para esquivar-se do gigantesco punho verde de um oni que tentou acertá-lo e então ergueu ambas as mãos para agarrar-lhe os chifres e usá-los como apoio ao erguer-se e acertar-lhe o nariz com um joelho, para logo depois chutar-lhe o peito desnudo com a planta do outro pé, impulsionando-se em um salto mortal para trás e levando consigo os chifres da criatura.
—Maldita! — o monstro urrou curvando-se com as mãos cobrindo o rosto ensanguentado. — Eu vou te rasgar e arrancar suas tripas…!
Uma mulher de longos cabelos negros correu pelo corredor em chamas do segundo andar, gritando enquanto tentava apagar o fogo em suas roupas, Tamaki voou até ela e puxou-a pelos cabelos derrubando-a de costas.
—O que você é? — mas assim que perguntou soube imediatamente, pela textura dos fios envoltos em seu punho, que ela não era o que ele procurava.
—Futakushi-onna! — ela gritou angustiada. — Piedade!
E quando começou a rolar no chão, tentando apagar o fogo — mas tudo o que estava conseguindo era enredar-se nos cabelos, tão desesperada que era incapaz de controlá-los como parte de si, e espalhar ainda mais as chamas —, ele pôde ver a grande boca abrindo-se na parte de trás do crânio dela e gritando em agonia, então a soltou e deixou-a ir… não que ela fosse conseguir sobreviver ou se levantar novamente.
Pedaços do teto começaram a despencar, cedendo sobre a fúria das chamas, Tamaki podia ouvir também janelas sendo quebradas: reles vermes tentando escapar.
A raposa dividiu-se em cinco partes de si mesmo, para caçar todos: quatro partes se espalharam pelo lodaçal afora e a quinta permaneceu lá dentro, no inferno de chamas roxas.
Lá fora, uma pequena criatura havia saltado por entre as chamas e se esgueirado pelas portas caídas, e agora corria e deslizava com tamancos de madeira por sobre a ponte molhada, levando consigo um biwa, Tamaki reconheceu o som daqueles tamancos quando, usando sua forma animal, saltou sobre a criatura.
—Não me mate! — ele suplicou remexendo-se como uma barata sob sua pata e uma das cordas do instrumento se rompeu. — Deixe-me ir shinigami, eu imploro!
—Seu amigo na ponte de pedra me disse que haveria hari-onnas aqui. — rosnou afundando as garras nas costas da criatura, em volta deles outras três partes suas caçavam outros tantos que tentavam escapar chafurdando pelo lodaçal, mas nenhum deles era o que procurava então os deixava ir, e só estripava e desmembrava aqueles que tentavam atacá-lo — Onde elas estão?
—Aquele velho tolo o mandou! Ele nos matou! — balbuciou desesperado — Eu o amaldiçoo! Eu…
Tamaki fincou as garras em suas costas.
—Onde estão as hari-o…?!
E então ele as encontrou, duas delas simultaneamente.
A primeira tentou escapar pelos fundos, nadando pelo lodaçal, até que a fera prateada saltou sobre sua jugular, e derrubou-a na água.
Os dois se engalfinharam e submergiram espirrando água e lodo, fios de cabelo se ergueram e enroscaram uns aos outros tomando a consistência de arame e o atacando, centenas de vergalhos que perfuraram o corpo da raposa prateada e, quando um deles quase lhe arrancou o olho esquerdo, Tamaki sorriu com suas mandíbulas ensanguentadas, arrancando um grande naco de carne do pescoço dela.
A segunda ainda estava dentro do antro, encurralada em um dos quartos, e um som metálico soou quando um pente de ferro, jade e madrepérola caiu quando ela soltou os cabelos e o atacou assim que Tamaki cruzou o umbral em chamas, e as mechas farpadas perfuraram sua mão e coxa direita, e o ombro esquerdo.
Tamaki arrancou a mecha que perfurava o ombro com a mão livre e a segurou, cortando essa palma no processo também e vendo como o próprio sangue manchava os fios, ele podia incendiá-la a partir dali, como um pavio, mas sua amada precisava dos cabelos intactos.
Essa parte sua também sorriu. Madeixas forjadas como lâminas.
Uma de suas partes encontrou ainda mais uma terceira, tentando escapar por um buraco no telhado, de forma que ele trazia três cabeças decepadas por sobre o ombro quando voltou a reunir-se em um só e abandonou o que agora eram apenas restos de escombros flamejantes do que outrora fora um antro asqueroso e começou a atravessar de volta o, agora muito mais vazio Mercado do Lodo — a exceção de uma sombra familiar que se esgueirava o observando em silêncio e provavelmente esperando para ter certeza do momento em que ele teria partido definitivamente.
Furin não havia dado uma quantidade exata sobre nenhum dos ingredientes — a exceção das orações proscritas —, mas Tamaki achava que era melhor sobrar do que faltar.
—Preciso de uma faca de trinchar, provavelmente.
Comentou consigo mesmo, olhando a volta, pois as cabeças não lhe eram úteis para nada, tudo o que ele queria eram seus escalpos, e infelizmente ele não trazia nenhuma consigo, mas não havia uma alma viva a volta, de forma que precisaria buscar por uma em outro lugar.
Assim, os primeiros raios de sol já se infiltravam pelas copas das árvores quando Tamaki reapareceu na meia ponte em arco, agora de volta à forma masculina — embora ele não soubesse dizer quando havia voltado a ela — com as roupas rasgadas em vários pontos e os cabelos levemente mais repicados de um lado, além do odor do sal que antes se misturava ao cheiro do sangue — este muito mais acentuado, inclusive misturado ao seu próprio sangue, evidentemente — sobrepujado pelo leve aroma de flores e lodo.
No final da ponte o kosamebõ apoiou-se com uma das mãos à coluna sobre a qual se apoiava uma das lanternas de pedra, enquanto com a outra lhe estendia a tigela de pedinte.
—Ajude-me, por favor. — pediu sem parecer reconhecê-lo em sua nova forma — Um pouco de comida ou algumas moedas são tudo o que… — ele deteve-se, só então reparando nas cabeças decepadas que a raposa vinha arrastando pelos cabelos — Mas o que…? — os olhos arregalaram-se e ele recuou trêmulo quando a raposa desviou-se de seu caminho e começou a vir em sua direção — Não… por favor, juro que não quis incomodar, eu só queria um pouco…
Ele caiu sentado quando Tamaki deixou um pente de madrepérola e jade cair tilintando em sua tigela ao passar por ele.
—Suas informações foram úteis. — declarou ao velho trêmulo — Tem certeza de que não sabe da localização de nem um ichiren-bozu?
Emudecida, a criatura limitou-se a balançar a cabeça, então Tamaki deixou-o ali, afastando-se em direção às árvores ainda com sua trouxa amarrada bem firme na altura dos quadris e o arrastando pelos cabelos o trio de cabeças decepadas.
Ainda precisava arranjar uma faca de trinchar, provavelmente, mas que pena que o Mercado do Lodo não possuía também os outros ingredientes pedidos por sua amada.
Talvez ele a trouxesse aqui algum dia, esse parecia o tipo de lugar que ela gostaria.
O pensamento o fez sorrir consigo mesmo, mas primeiro, ainda teria que reunir novecentos anos de orações proscritas.
*.*.*.*
Yukari estava a caminho da sala de aula quando os alto-falantes da escola soaram a melodia que anunciava um aviso oficial:
—Bom dia a todos, aqui quem fala é seu presidente, Kaño Tomoya, eu espero que tenham se lembrado de se agasalharem bem e da estrita proibição sobre trocar chocolates no dia de hoje, especialmente você, Tachibana Ume da turma da turma 3-4, mas, diferente do que alguns pensam, eu não sugeri essa medida por estar amargurado e de coração partido, mas sim por querer evitar distrações desnecessárias em um período tão importante próximo às provas, e também por prezar pela organização dentro do ambiente escolar, afinal muitos casais se separaram no último natal por precisarem de mais tempo para se concentrar nos estudos e pensar no futuro, assim como Tachibana Ume da turma 3-4 que terminou comigo na semana anterior ao natal, e gostaria também de relembrá-los que qualquer um que for pego distribuindo ou recebendo chocolates no dia de hoje estará sujeito a até três dias de suspensão, exceto Tachibana Ume da turma 3-4, que estará sujeita a duas semanas de suspensão, assim como quem receber chocolates dela… ah sim, mas todo o decreto será revogado caso Tachibana Ume queira vir até o conselho estudantil se desculpar, dizer que não sou infantil e reatar o namoro, e me entregue os chocolates caseiros que me prometeu em nosso aniversário no ano anterior, isso é tudo, tenham um bom dia.
Parece que, como presidente do conselho estudantil, agora não havia mais ninguém para deter as estranhas — e um pouco tirânicas, é verdade — mensagens de Kanõ-san, ou seus mandos e desmandos autoritários, nem mesmo o corpo docente parecia muito interessado em pará-lo…
—Quanto mais tempo será que essa tirânica fase de Sr. Hyde vai demorar ainda? — Sakura-chan reclamou frustrada, mais cedo naquela mesma manhã, enquanto revistava a mochila de Yukari perto dos armários de sapatos — Eu não acredito que ele fez todos os membros do conselho estudantil chegar mais cedo só para revistar as bolsas das garotas… quando é que o dr. Jenkyl vai voltar? — ela abriu o zíper da pasta escolar azul com alças brancas que Yukari segurava diante de si — Me desculpe por isso Yukari. — murmurou colocando a mão cuidadosamente e afastando alguns livros lá dentro — Será que o Sr. Hyde amarrou, amordaçou e trancou o pobre doutor no porta-malas? Acredita que ele pessoalmente vistoriou as bolsas de todos os membros femininos do conselho? E depois ameaçou que cada chocolate ilegal apreendido dentro das dependências escolares hoje acarretaria em horas extras de trabalho para todo conselho estudantil! — ela tirou o embrulho de tecido que guardava o bento de Yukari da bolsa, deixando a garota tensa, e sacudiu-o próximo ao ouvido — Eu nem devia estar aqui, sou a tesoureira, tecnicamente estou de férias do conselho até o balanceamento dos clubes no próximo semestre!
E colocou o embrulho de volta na bolsa, indicando com pouco caso para que Yukari fechasse a bolsa agora.
—N-não! Espera! — uma garota a poucos metros delas, e que também estava tendo sua bolsa revistada naquele momento, protestou desesperada — Não é o que parece!
—Então me faça o favor de explicar-me o que é isso. — o membro do conselho estudantil que a revistava indagou virando uma garrafa de alumínio de ponta cabeça e deixando cair na palma da mão três mini kitkats, ele arqueou uma sobrancelha — Porque a mim parece muito que você estava tentando contrabandear chocolates ilegais dentro da garrafa d’água.
—Não…! — ela ofegou — Digo, sim, talvez, mas eles são para mim, eu sou diabética, posso ficar hiperglicêmica se não comer regulamente e…!
—E onde está seu atestado?
—O que?! — a garota arregalou os olhos.
—Atestado?
Ela hesitou.
—Eu não…
—Confiscado. — ele a interrompeu esvaziando a garrafa de kitkats em uma sacola ecológica de compras que trazia pendurada ao ombro e devolvendo-a vazia — PRÓXIMA!
—Ironicamente os garotos são os mais empenhados na revista, parece que todos eles assumiram um pensamento coletivo de “se eu não vou ganhar chocolates, ninguém mais vai”, não duvido que montem postos de vigília junto às máquinas de venda na hora do almoço também. — Sakura-chan resmungou girando os olhos — Yukari, por favor, abra o casaco e esvazie os bolsos. —Yukari puxou o forro dos bolsos do casado para fora e então, engolindo em seco, o desabotoou e expôs o uniforme abaixo, mas hesitou antes de esvazia os bolsos da saia, Sakura-chan a olhou — E então…?
Yukari colocou as mãos nos bolsos, e puxou do bolso direito… o amuleto de raposa.
Calma. Disse a si mesma, mexendo desconfortavelmente no cachecol em torno do pescoço. Enquanto estivesse em posse do amuleto, as marcas não apareceriam…
Sakura-chan inclinou-se curiosa.
—O que é isso? — ela estendeu a mão — Uma peça de jogo…?
Arfando, Yukari rapidamente fechou os dedos em torno do amuleto e puxou o punho contra o peito, arregalando os olhos de forma completamente suspeita, mas Sakura-chan limitou-se a dar de ombros.
—Mas, pelo menos as garotas que forem flagradas na inspeção não serão punidas… tudo bem, você pode ir agora. — liberou-a.
Então, enfiando o amuleto de volta no bolso e recolhendo a bolsa, Yukari afastou-se a passos largos dali.
Fosse como fosse, Sakura-chan não havia feito um bom trabalho em sua revista e agora Yukari quase se sentia culpada por isso.
—Shibuya, por que você trouxe dois bentos?
A representante perguntou intrigada durante o horário de almoço, fazendo-a se remexer inquieta.
—Hã… isso é… digo… — pigarreou e estendeu a mão para destampar o segundo bento que trouxera.
Kaoru ofegou surpresa e cobriu a boca com a mão, a representante arqueou as sobrancelhas e inclinou-se para frente, apoiando-se sobre a mesa com um sorriso de lado, ao ver os brownies dispostos ali.
—Ora, ora Shibuya, quebrando as regras? — comentou — Quem poderia imaginar?
Yukari corou e escondeu as mãos sob a mesa, entrelaçando os dedos e os contorcendo sobre as pernas.
—Não foi minha intenção. — afirmou franzindo o cenho e encarando a mesa fixamente — Eu… eles são apenas chocolates de amizade, eu queria agradecer a vocês pelos conselhos que me deram, entende? E também me desculpar, mas não imaginava… que o veto de chocolates fosse tão severo assim. — confessou — Eu estava na cozinha ontem à noite, e pensei… e Sakura-chan também só me disse que aquelas que fossem pegas na revista não seriam punidas no fim!
As meninas piscaram.
—Minha nossa Shibuya. — a representante levou uma mão ao queixo, exibindo um sorriso brincalhão — É impressão minha ou você está se tornando fofa?
Yukari franziu o cenho, ela não achava que estava agindo de forma diferente.
—Na verdade eu também tinha pensado nisso e fiz alguns pirulitos de chocolates… — Kaoru admitiu — Mas não acreditaram em mim quando eu disse que eram para as minhas amigas, apesar de estarem etiquetados, ou que só os entregaria no final da aula, e foram confiscados na entrada.
—Vocês duas são muito fofas, mas esse ditador já está pedindo para ser deposto por um golpe de estado. — a representante estalou a língua — Então o que estamos fazendo aqui paradas ainda? Não deveríamos desperdiçar o ato de corajosa rebeldia de Shibuya…
—Eu não estava tentando ser rebelde…
Começou a dizer, mas a representante não estava interessada em escutá-la:
—Então melhor sumirmos com as provas antes que sejamos pegas em fragrante, afinal não se esqueçam de que aqueles que recebem chocolates são punidos também.
Concluiu já ansiosamente estendendo a mão em direção aos brownies, enquanto Kaoru concordava e pegava dois brownies para si também.
—Eu também queria dar alguns para Sakura-chan e Aoi-chan! — Yukari avisou-as, antes que acabassem com todos.
Especialmente para Aoi-chan, de todas, ela é com quem Yukari mais precisava se desculpar, embora não achasse que apenas alguns brownies resolveriam a situação…
—Mas e xe Xakura-chan a denunxiar?! — Kaoru perguntou enquanto cobria a boca com as mãos e tentando engolir um brownie inteiro. — Ela é do conxelho extudantil…
—Eu acho bem improvável. — a representante limpou as migalhas das mãos — Mas, só por precaução, melhor dar depois da aula quando todas formos ao “Raposa Encantada”.
Ela pegou mais um brownie antes de tampar o bento novamente.
—E eu também queria dar alguns ao professor Haruna. — acrescentou hesitante.
Pelo seu aniversário e… por tudo que as raposas o fizeram passar também, de alguma forma Yukari se sentia responsável por isso, embora soubesse que alguns chocolates ridículos não serviriam de nada também.
—Tudo bem, ele é menos provável de te denunciar do que a Ichinose. — a representante riu — Mas você disse que queria se desculpar também, Shibuya? Pelo que exatamente?
Instintivamente Yukari enfiou a mão no bolso da saia e apertou o amuleto de raposa ali dentro, engolindo em seco ela olhou para as amigas e respirou fundo antes de confessar.
—Eu não acredito que Shibuya simplesmente não veio conosco! — Aiha reclamou entrando de braços cruzados na cafeteria Raposa Encantada, ao lado de Nishiwake Aoi e Ichinose Sakura.— E Hongo também!
—Eu só estou feliz por finalmente termos conseguido entrar. — Ichinose balbuciou com as mãos bem enfiadas debaixo das axilas e tentando não morder a língua enquanto seus dentes batiam de frio — Foi quanto tempo de espera? Uma ou duas horas?
—Algo assim.
—O Dia dos namorados é muito movimentado, o que se pode fazer? — Nishiwake deu de ombros timidamente à sua direita. — Elas precisavam trabalhar.
—Ter negócios de famílias tem seus prós e contras. — Ichinose fez um grande esforço para conseguir tirar as mãos das axilas para começar a desabotoar o casaco antes de dizer à garçonete vestida de forma fofa que se aproximava: — Somos apenas nós três, obrigada.
—Podem se sentar aqui caras clientes. — a garçonete às conduziu a uma mesa que ficava mais ao fundo cercada de três lados por um sofá, e serviu cada uma com um copo d’água — Gostariam de pedir agora?
—Um chocolate com marshmallows bem quente, por favor, em ponto de ebulição se possível.
Ichinose foi rápida em pedir, enquanto Aiha e Nishiwake pediram o mesmo, mas “não precisava ser tão quente assim”, e a garçonete afastou-se após instruí-las a apertar a campainha sobre a mesa para chamá-la.
—Mas não deixa de ser injusto… — Aiha suspirou — Eu poderia aceitar melhor se elas não pudessem vir porque têm encontros, mas para trabalhar…
—Você reclamaria da mesma forma, não é? — Ichinose a provocou sorrindo.
—Iria, mas me sentiria melhor em relação a elas. — Aiha admitiu.
—Acho que estão melhor assim. — Nishiwake opinou movendo o indicador lentamente em círculos sobre a mesa — Especialmente Yukari-chan, levando em consideração os últimos acontecimentos…
—Aquele idiota da noite de Natal, certo? — Ichinose estalou os dedos — Não acredito que ela realmente gostava dele, se bem que eu entendo… nunca vi um homem mais bonito. — suspirou sonhadora, antes de perceber o olhar crítico de Aiha e pigarrear se recompondo — Só que é um completo idiota, claro.
—Ele é uma criatura traiçoeira e perigosa.
Nishiwake afirmou, justo no momento em que a garçonete voltou com os chocolates quentes delas.
—Isso ele é com certeza, por mais que a Shibuya negue, um cara daquela idade seduzindo uma garota ingênua do colegial feito ela… — Aiha soprou o chocolate quente, observando como Ichinose usava a própria caneca para aquecer as mãos com uma expressão de alivio — Mas já repararam como ela tem agido estranha?
—Estranha como? — Ichinose sorveu o primeiro gole de chocolate.
—Primeiro teve aquele relógio de pulso que ela apareceu usando depois do aniversário, mas ela se esquivou na mesma hora que eu perguntei sobre ele, eu dei uma boa olhada e parecia bem caro também.
—Pode ter sido um presente da família… — Nishiwake respondeu distraidamente.
Ela geralmente tinha um ótimo apetite, mas ainda nem tocara em seu chocolate quente, na verdade, Aiha achava que ela estava começando a perder peso também… provavelmente teria que ter também uma pequena conversa com Nishiwake, mas não ali, não agora.
—Mas aí ela não teria tentando desviar de assunto. — Aiha a encarou atentamente — E ela também se sobressalta sempre que alguém toca no assunto “chocolates”.
—Ah, isso é verdade. — Ichinose concordou prontamente — Tive a impressão que ela queria dar chocolates a alguém…
—Ela nos deu chocolates. — Nishiwake opinou fracamente.
—Ela não ficaria nervosa assim para dar chocolates ás amigas. — Ichinose cruzou os braços inclinando a cabeça — Será que era por que iria dar chocolate ao professor também? Ela com certeza é do tipo mais retraída.
—E pode não ser nada, mas ela também está sempre apalpando o bolso. — Aiha finalmente pegou o cardápio e começou a lê-lo. — Parece até um tique nervoso.
—Acho que ela só estava com medo de perder aquela coisinha. — Ichinose opinou — Já escolheu o que vai pedir?
Aiha baixou o cardápio.
—Que coisinha?
—Ah, eu o vi quando a estava revistando, estava no bolso dela, e ela parecia bem protetora com ele, nem me deixou tocar, era uma coisinha assim desse tamanho… — gesticulou com a mão — parecia uma pecinha de jogo ou quem sabe um amuleto, e tinha o formato de uma…
—Aquele otário é teimoso ou simplesmente burro?! — alguém reclamou alto em uma mesa próxima a elas.
Duas mesas mais a esquerda, uma mulher estava sentada usando um furisode estampado com flores amarelo pálidas sobre um calmo fundo marrom claro e combinando com hakamas marrons mais escuras, os lábios dela estavam pintados de um marcante tom carmim e essa era a única parte de seu rosto visível pelo ângulo delas, já que a metade superior estava parcialmente coberta por um chapéu sino feito de lã cinza que fazia conjunto com o xale em volta de seu pescoço, junto a ela, e de costas para a mesa das garotas, estava uma criança usando uma capa escura com capuz de orelhas de gato.
Mas o mais estranho era o homem usando trajes de monge e com o rosto encoberto por um enorme chapéu de palha de pé imóvel ao lado da cadeira da mulher.
—Cuidado com o que fala Zu-chan, porque é do meu auspicioso príncipe que você está falando. — a dama repreendeu a criança, mas embora sua voz soasse calma e contida, algo nela fez com que as garotas se arrepiassem e desviassem o olhar imediatamente.
Diante deles a mesa estava completamente repleta de doces, eles deviam ser além delas próprias, a única mesa sem um casal ali hoje.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Eu só estou dizendo… — a criança respondeu aparentemente de boca cheia, um pouco alto demais — Que não tem jeito que ele escape do cerco da mamãe apenas com simples força bruta, se fosse tão simples assim, acha que essa coisa estúpida não teria ido detê-lo ao invés de ficar aqui parado como se fosse uma das colunas de sustentação da taberna?
Ele apontou grosseiramente para o monge com uma mão envolvida por uma luva preta sem dedos com o formato de pata de gato, mas o clérigo, por sua vez, não demonstrou reação alguma.
—To-chan gosta de comprovar as coisas por si mesmo.
A mulher respondeu calmamente puxando um guardanapo de papel e estendendo a mão aparentemente com a intenção de limpar o rosto da criança, que começou a reclamar e tentar esquivar-se e empurrar a mão dela para longe.
—Eu acho que a conheço de algum lugar. — Aiha comentou, embora não conseguisse ver o rosto da mulher.
—Provavelmente, afinal Higanbana é tão pequena que aqui todos se conhecem. — Ichinose deu de ombros baixando o cardápio e estendendo a mão para pressionar o botão sobre a mesa — Já escolheram o que vão pedir?
—Mas também não acho que ela seja daqui.
Insistiu balançando levemente a cabeça, detendo-se apenas quando a garçonete aproximou-se para recolher seus pedidos, não sabia o que era, mas algo no fundo de sua mente parecia alfinetá-la para lembrar-se daquela mulher, mas onde já a havia visto…?
—Eu quero uma bomba de chocolate. — Nishiwake pediu à garçonete, embora mal tivesse tocado em sua caneca de chocolate quente até então.
Ichinose e Aiha também fizeram seus pedidos distraidamente, ainda observando o par na outra mesa.
—Vocês acham que eles vão mesmo comer tudo aquilo? — Ichinose perguntou curiosa, esticando o pescoço ao ver uma das garçonetes se aproximando para tirar os pratos vazios e substituir por novas sobremesas — Parece demais para duas pessoas, eles nem oferecem ao monge… e acho que só a criança está comendo tudo!
—Talvez estejam esperando por alguém.
Nishiwake sugeriu distraidamente bebericando seu chocolate quente (agora com certeza frio) e, como se houvesse profetizado, justo quando ela acabou de falar a porta da cafeteria abriu-se e uma inesperada corrente de ar varreu o lugar, fazendo voar guardanapos e cardápios de várias mesas e até levantando as saias de algumas garçonetes, que exclamaram surpreendidas.
—Aí está você seu fedelho! — exclamou o recém-chegado dirigindo-se diretamente para a mesa onde se sentavam a mulher e a criança glutona — Eu não acredito que você realmente arrastou a minha linda irmã para um lugar lotado de pessoas!
—Ela é minha irmã também! — a criança retrucou arremessando um bolinho — E como nos achou tão rápido?! Aqueles criados não aprendem mesmo a lição!
—Isso é só mais uma razão para você não submetê-la a situações desconfortáveis do tipo apenas em prol da sua gula!
O recém chegado reclamou apanhando o bolinho em pleno ar e então o empurrando contra o rosto da criança, como se quisesse fazê-la engolir inteiro de uma vez, junto a eles a irmã apenas acenava delicadamente com a mão e garantia que estava tudo bem com ela, enquanto duas garçonetes corriam até lá para avisá-los que estavam perturbando os outros clientes e tentar fazê-los se acalmar.
—Aquele ali não é…? — Ichinose começou a dizer.
—É a irmã dele! — Aiha lembrou-se de repente — Por isso achei que a conhecia: é a irmã dele, os dois estiveram juntos no último festival escolar. Mas o que ele faz de volta à Higanbana?! Shibuya disse que ele havia partido!
—Muitos turistas retornam à Higanbana. — Ichinose argumentou, sem conhecimento prévio de que aquele sujeito aparecia por lá com muito mais frequência do que apenas nas temporadas turísticas — Mas será que a Yukari-chan sabe que ele está na cidade? Olhando por esse lado é até bom que ela não tenha vindo…
—Será? Ela anda realmente estranha ultimamente. — Aiha comentou desconfiada. — Nishiwake o que você a…? — mas quando se virou, deparou-se com a amiga tão pálida que seus lábios havia se tornado azul, enquanto tremia incontrolavelmente. — Aoi! — assustou-se se levantando — O que você tem?!
A caneca de chocolate quente escorregou por entre os dedos de Aoi e estilhaçou-se no chão.
—Eu… eu…! — balbuciou com as pupilas muito dilatadas, e seus olhos encheram-se de lágrimas quando começou a murmurar de forma inteligível com a respiração acelerada: —… ele vai devorar todas as belas jovens… A besta de Higanbana… por que ele quer Yukari?!… Virá em busca de vingança, mas está fixado em Yukari primeiro… Piedade, piedade, por favor, piedade…!
—Aoi! Aoi o que você tem?
Sakura a chamava cada vez mais preocupada, porém os olhos da amiga estavam vítreos e desfocados e ela simplesmente não reagia a nem um dos chamados enquanto atraiam cada vez mais olhares das outras mesas e inclusive a gerente corria até elas para verificar o que se passava.
—E no fim parece que a Yukari realmente não veio com elas. — Gintsune comentou despreocupadamente virando-se em sua cadeira para vê-las, enquanto comia um sonho — Aquela mulher realmente nunca faz uma pausa para relaxar.
Embora, nesse momento, ele estivesse aliviado por ela e sua linda irmã não se encontrarem no mesmo recinto.
—Mas do que é que elas estão falando ali? — Anko também se virou, enquanto tentava enfiar uma fatia de torta de maçã e um crepe de nutela juntos e inteiros na boca.
—Quem se importa? — Momiji sorveu o chá de hibisco — Não passam de reles humanas.
—A algazarra delas está te incomodando, irmã? — Gintsune perguntou ansioso, já fazendo menção de se levantar — Posso fazê-las ficarem quietas…!
—É muito doce da sua parte, To-chan, mas eu estou bem. — Momiji garantiu acenando com um pequeno sorriso — Bebê você está se sujando de novo.
—Não me chame de bebê, mulher! — Anko reclamou lambendo os dedos pegajosos, enquanto espuma e chocolate escorria por seu queixo.
—Olha o respeito, moleque! — Gintsune o repreendeu empurrando a cabeça do filhote contra uma fatia de bolo com cobertura de glacê e segurando-o ali. — Irmã, se tem certeza de que está tudo bem…? Você não precisa se forçar só por causa desse fedelho mal agradecido…
—Está tudo bem, To-chan. — Momiji voltou a garantir-lhe, com um sorriso sereno.
—Bem, então se você diz… — Gintsune pigarreou inquieto antes de começar a se levantar — Eu estou indo agora, há um lugar ao qual preciso ir, e… — ele olhou-a incerto — mas esse lugar não está muito cheio? Posso esvaziá-lo só para você…
Pouco importava a ele enquanto as garotas na mesa no canto se alvoroçavam com algum mal súbito de se sua amiga e a gerente do estabelecimento corria até lá, o bem estar de sua linda irmã era o mais importante e, de qualquer forma, Yukari não estava com elas.
—Pode ir To-chan. — Momiji o dispensou gentilmente.
Assim que ele se foi, Anko pôde enfim tirar a cara da torta de glacê.
—Para onde aquele imbecil foi?! — reclamou olhando de um lado para o outro — Aposto que ele foi de novo atrás daquela mulher, não é? — com uma mão pegou um trio de macarones e os enfiou na boca antes de continuar — Não sei por que está tão obcecado com uma criatura enfadonha daquelas e nem por que ficou tão incomodado de estarmos presos aqui, ela com certeza não vai a lugar nenhum…
Mas apesar de ele continuar falando alto e comendo sem nem uma educação, agora todos no recinto estavam centrados demais nas garotas para percebê-lo, inclusive Momiji que, enquanto olhava-as fixamente por cima da borda da xícara de chá, ergueu a mão livre à altura do rosto e murmurou por entre dentes:
—Criados, venham aqui.
E em um apenas um piscar de olhos as três pequenas raposas tubo — que haviam chegado junto com To-chan, mas se mantido próximas ao teto e longe das garras de Anko — desceram e pousaram cada uma, sobre um de seus dedos, todas tão pequenas quanto shima enagas.
—Estamos aqui, jovem dama! — responderam com suas vozes diminutas e agudas.
Ainda sem desviar o olhar da mesa no canto, e especialmente daquela garota que parecia ficar mais pálida a cada segundo, Momiji aproximou-os de seus lábios e ordenou-lhes entre sussurros:
—Quero que sigam aquela mulher, e confirmem algo para mim…
Afinal ela era a irmã mais velha, e seu dever era proteger seus adoráveis irmãozinhos para que eles pudessem andar livremente pelo mundo.
E para isso… encontraria e eliminaria qualquer possível ameaça inclusive aquelas que eles não percebiam que poderiam se tornar uma ameaça.
…
Yukari deveria ter sido mais específica com Gintsune, ela lhe dissera para só vir depois da escola, mas isso só serviu para ficar todo o seu expediente na pousada desconfiada de que a qualquer instante ele fosse aparecer com aquele seu sorriso inocente e comportamento problemático para ficar seguindo-a e incomodando-a, como já fizeram muitas vezes antes e, quando ele não apareceu, começou a ter dúvidas e achar que na verdade Gintsune havia se esquecido dela hoje, apesar de ter prometido que viria.
Isso não seria impossível considerando o quão obcecado e devotado ele se mostrava àquela irmã, e agora havia ainda mais um irmãozinho… mas esses pensamentos logo sumiram, quando entrou em seu quarto e deparou-se com a raposa sentada no centro da cama com as pernas cruzadas à espera dela.
—Yo, Yukari! — a cumprimentou segurando os calcanhares e balançando a cauda animadamente de um lado para o outro.
—Eu achei que você não viria. — confessou franzindo o cenho e fechando a porta enquanto, discretamente ocultava por detrás do corpo a sacola de papel que trazia.
—Estava sentindo tanto assim a minha falta? — ele provocou inclinando-se para frente e apoiando o queixo sobre a mão — Eu poderia ter vindo mais cedo, mas tive medo que você alegasse que eu a estava atrapalhando e me enxotasse sem direito a chocolate.
—Acho que isso seria bem possível… — admitiu sentando-se na beira da cama e, o mais discretamente possível, empurrando com o pé a sacola de papel para trás do móvel.
—E então… — Gintsune balançou-se para frente e para trás com um sorriso ansioso — E onde está?
Yukari arqueou uma sobrancelha.
—O que?
—Meus chocolates. — ele piscou — Você sabe, hoje é… Você os estava fazendo ontem à noite.
Gintsune estendeu as mãos, fazendo uma expressão que parecia extremamente desolada, Yukari desviou o olhar sem coragem de encará-lo.
—Desculpe, mas eu só… — pigarreou — Eu só estava fazendo brownies para as minhas amigas elas tiveram problemas e se preocuparam bastante por minha causa ultimamente.
—O que?! — o queixo de Gintsune caiu — Mas e quanto a mim?!
—E eu também fiz alguns para o professor Haruna, mas não pude entregar… — confessou torcendo o tecido da saia entre as mãos.
—Então os dê para mim! — Gintsune a encarava incrédulo e de olhos arregalados.
—Claro que não! — Yukari o encarou irritada — São para o professor, vou entregá-los amanhã!
—Então espero que ele tenha uma indigestão horrível de uma semana, pelo menos! — praguejou bufando e virando a cara fazendo beiço — Como é que todos ganharam chocolates menos eu?!
E já estava planejando como roubaria os chocolates de Haruna quando ouviu algo inesperado: Yukari estava rindo.
—Se você realmente acha que eu cozinho tão mal assim, então acho que não está interessado nisso aqui… — ela comentou bem humorada e pegando de detrás da cama uma sacola de papel fofa e cor de rosa, decorada com uma fita azul.
—Ah, meus chocolates! — ele comemorou contente puxando a sacola para si e beijando-lhe a bochecha — Eu sabia que você não esqueceria o cara de quem você gosta dias depois de se declarar perdidamente apaixonada e justamente no dia dos namorados!
A risada de Yukari morreu e ela pressionou a palma da mão contra os lábios enquanto corava cada vez mais.
—Poderia não ser tão explicito? — murmurou.
—E por que não? — Gintsune cantarolou alegremente esticando as pernas para fora da cama e acomodando-se ao lado dela enquanto retirava da sacola de papel uma caixa de papelão branca com tampa transparente, onde havia dois lindos cupcakes de chocolate — Você estava tão linda se declarando naquele dia… ah e realmente me enganou agora a pouco, espertinha.
Deitou a cabeça no ombro dela enquanto retirava outra caixa com mais dois cupcakes da sacola.
—Eu realmente estava fazendo chocolates para minhas amigas e para o professor ontem a noite. — Yukari se remexeu, mas não o afastou — Os seus cupcakes já estavam guardados na geladeira, eles têm recheios de marshmallow, então se quiser pode dividi-los com seu irmãozinho…
—Nunca! — Gintsune protestou colocando-se ereto de repente — O fedelho já conseguiu açúcar o bastante para conseguir cáries e apodrecer toda a arcada dentária de uma só vez, esses aqui são meus! Você os fez para mim!
—Vocês podem ter cáries? — ela o avaliou.
—Francamente não sei, mas no ritmo que vai, ele vai acabar descobrindo. — Gintsune riu — Eu até os compartilharia com minha linda irmã… mas ela acabaria ficando dividida entre vir aqui cuspir na sua cara, ou comê-los só para me agradar. Só é uma pena que não os tenha decorado com morangos também.
As orelhas de Yukari se aqueceram e ela se afastou significativamente dele.
—Minha nossa, você é um devasso da pior espécie! — resmungou constrangida.
—Mas eu só mencionei alguns morangos, o que há de devasso em umas frutas inofensivas? — Gintsune riu deixando as caixas com cupcakes de lado, sobre a mesinha de cabeceira. — Afinal no que essa sua mentizinha suja estava pensando, hein? — de repente Yukari ofegou quando ele a puxou para seu colo — Pervertida.
Ela o socou no ombro e tentou levantar-se.
—Seu…!
Mas ele a manteve onde estava, abraçando-a pela cintura, e a beijou.
Aparentemente cada vez mais confortável com aquela estranha relação deles, Yukari o recebeu docilmente, abrindo a boca e passando as mãos por seus ombros, arranhando de leve sua nuca, como se procurasse entrelaçar os dedos aos longos cabelos deles, mas as madeixas estavam todas ocultas sob a touca, ele, por outro lado, tinha livre acesso aos cabelos dela, e Yukari sentiu um leve e rápido puxão nas pontas de suas tranças.
—Ar…! — ela ofegou após alguns instantes, erguendo a cabeça — Me deixe respirar…
—Você precisa aumentar a sua resistência física, Yukari… — ele murmurou rindo, descendo em direção ao pescoço dela, mas decepcionou-se ao perceber que ela estava usando uma camisa de gola alta e, graça aos limites impostos por ela, não havia nada que pudesse fazer a respeito — Acho que odeio o inverno…
Ainda com os dedos entrelaçados por detrás da nuca dele, Yukari franziu o cenho.
—Mas por que você está falando sobre o tempo ag…?
Ela deteve-se ofegando por entre os dentes quando Gintsune alcançou sua orelha direita, enquanto uma das mãos dele descia por sua coxa e a outra se espalmava na base de sua coluna, refém de suas carícias, Yukari apertou-o mais contra si, pressionando-se contra ele e suspirando de satisfação, fechou os olhos pouco antes de virar o rosto buscando por mais beijos de Gintsune e nem sequer se deu conta da forma lenta e perigosa como a mão dele voltavam a se mexer, com aquela em sua coxa subindo novamente e trazendo — apenas por acaso — uma considerável parte de sua saia junto, antes de ele voltar a afastar-se minimamente, distribuindo uma trilha de pequenos beijos por sua delicada mandíbula e pescoço.
—Por que você está usando uma blusa tão incômoda? — ele murmurou aconchegando-se à curva do pescoço dela — Você com certeza não precisa dela para esconder minhas marcas, já que meu amuleto pode fazer isso para você…
A mão que antes estivera na base da coluna dela, agora descansava na lateral de seu torso, na altura de suas costelas com o polegar indo de lá para cá sobre o… peito dela.
Abrindo um pouco mais os olhos, Yukari cuidadosamente pegou aquela mão e forçou-o a baixá-la de volta para uma altura segura e mais próxima da cintura, e segurou-a ali.
—É inverno, está frio.
—Então eu esquento você. — ele retrucou com voz abafada — Por que não a tira?
—Isso com certeza não acontecerá! — ela silvou vexada.
E ele riu, arranhando com as pontas das garras suavemente a meia calça de Yukari, no alto da coxa, e ela de repente alarmada abaixou o olhar. Quando foi que ele tinha colocado a mão debaixo de sua saia?!
—Gintsune, eu disse para não colocar as mãos por debaixo das minhas r-r-r-r…!
—Oh desculpe. — porém a mão dele não se moveu dali, enquanto ele descansava o queixo contra o peito dela, sorrindo-lhe cretinamente — Mas veja bem, eu não tirei nada e nem estou tocando sua pele por debaixo das roupas… — suas garras voltaram a arranhar de leve a meia calça — Vê? Há tecido aqui, então minha mão não está realmente debaixo de suas roupas…
—Só tire logo a mão daí, seu devasso!
Ele riu, mas fez o que ela pedia, deixando a mão comportadamente sobre o joelho dela… por enquanto.
—Então posso ganhar um beijo agora?
Yukari desviou o olhar para o teto, talvez buscando paciência ou simplesmente querendo evitar que ele a visse corar.
—Já estávamos fazendo isso…
—Não. — ele apertou a mão na cintura dela — Eu a beijei e você correspondeu, mas eu gostaria de ser beijado também… por favor?
Piscou inocentemente.
Ele até que tinha razão, Yukari refletiu, e se pedia daquela maneira… então, após um segundo de hesitação, ela segurou-lhe o rosto entre as mãos e começou a inclinar-se em sua direção, mas aquele cretino, ao invés de fechar logo os olhos, permaneceu com eles abertos e muito atentos, como se quisesse comprovar que ela realmente faria aquilo.
Por que ele tinha que ser assim?! Ela tinha certeza que não era a primeira vez que ela o beijava! Então fechando os olhos ela mesma, Yukari tocou os lábios de Gintsune com os seus de uma vez.
Durante vários segundos, foi de fato apenas isso.
Yukari esperava que, como das outras vezes, Gintsune tomasse a dianteira a partir dali, mas agora ele parecia realmente resoluto a “ser beijado por ela” e ela podia jurar que ele estava se divertindo com isso também, cretino! De forma que juntou mais um pouco de coragem antes de finalmente espreitar com a língua e, timidamente pedir passagem… o que ele rapidamente concedeu.
Depois de algum tempo, novamente precisando de ar — e sabia que ele zombaria dela por isso outra vez —, Yukari o empurrou suavemente, mas Gintsune deve ter entendido o gesto de forma equivocada, porque ao invés de afastar-se, ele acabou jogando-se para trás e levando-a consigo entusiasmado pela sua iniciativa, e inclusive pegou-lhe a mão, que antes descansava sobre o tórax dele, e guiou-a para debaixo da camisa dele, dobrando a perna de forma a ficar entre as pernas de Yukari, separando-as.
Mas Yukari realmente precisava respirar!
Ela sentou-se ofegante, tirando os cabelos do rosto, afinal quando foi que suas tranças haviam se desfeito…?
—Assim não vale! — Gintsune reclamou abaixo dela, mas estava com um sorriso exultante no rosto, que simplesmente não conseguia disfarçar — Se você toma a iniciativa, só deveria parar quando eu pedisse!
—Mas você nunca diria para parar, seu devasso! — reclamou ofegante.
—Ora. — Gintsune arqueou uma sobrancelha, descansando as mãos casualmente nos quadris dela — Tem certeza que deveria estar me chamando assim na posição em que se encontra?
E enquanto falava sua cauda roçou e enroscou-se suavemente à panturrilha direita de Yukari que, de repente dando-se conta da forma como a camisa de Gintsune estava toda enrolada quase na altura do peito dele — aquilo era obra dela ou dele próprio?! — e que estava simplesmente montada nele, arregalou os olhos e afastou-se saltando para longe com uma agilidade surpreendente.
—A culpa é sua! — chiou com as costas grudadas à parede e agitando a perna para livrar-se da cauda de raposa ainda agarrada ao seu tornozelo, mesmo sem saber pelo que exatamente o estava acusando.
Ginsune riu sentando-se e arrumando a camisa com uma mão enquanto cruzava as pernas e com a outra mão colocava o travesseiro sobre elas.
—Está bem, talvez seja melhor mesmo que paremos por aqui, ou então eu iria querer provar, além dos cupcakes presenteados, dos frutos que me foram proibidos. — comentou pegando a primeira caixa de cupcakes da mesinha e a abrindo.
—Você já ganhou mais do que o suficiente por hoje! — Yukari retrucou escandalizada, cruzando os braços na altura do peito e, ainda sentada, dando-lhe as costas — E não derrube migalhas na minha cama!
—Não se preocupe. — ele garantiu-lhe inclinando-se para frente e apoiando o rosto na mão livre, admirando-a enquanto comia o doce… a forma como a respiração e o coração dela lentamente se tranquilizavam, os cabelos soltos nas costas e como a orelha esquerda permanecia vermelha enquanto ela se recusava encará-lo… Gintsune fez uma expressão sofrida. — Isso será muito doloroso.
Lamentou-se.
—O que? — Yukari olhou-o por cima do ombro, franzindo o cenho para sua expressão.
Gintsune terminou o primeiro cupcake, tirou o segundo da caixa e girou-o entre as mãos, sem coragem de encará-la.
—Há algo que preciso te contar. — confessou — É sobre meus pais.
—O que?
Gesticulando, Gintsune pediu-lhe que ela se sentasse ao seu lado, e quando Yukari o fez, ele deitou a cabeça em seu ombro e entrelaçou uma das mãos à dela.
—Aparentemente aquele criado bizarro enviado por minha mãe não é só um mensageiro enviado para me avisar de que estou muito encrencado: ele veio nos buscar.
—Buscá-los…?
Gintsune assentiu.
—A mim, minha linda irmã e ao fedelho que nem deveria estar aqui também, sua missão é levar-nos todos de volta para o nosso mundo.
—Por quanto tempo? — Durante um longo momento Gintsune não foi capaz de responder. — Gin…
—Receio que eu nunca mais vá poder voltar. — confessou em fim.
Yukari sentiu o coração afundar no peito, e o calor da mão de Gintsune foi substituído por um dos cupcakes que ela própria fizera.
—Então é assim? — lutou para não falar com voz trêmula — Você vai simplesmente embora outra vez, mas dessa vez para sempre? Quando?
De repente Gintsune a abraçou, afundando o rosto na curva de seu pescoço e aspirando o perfume de shampoo dos cabelos.
—Eu não sei, mas se dependesse de mim não iria nunca, mas aquela senhora não é alguém a quem possa se negar qualquer coisa… tenho certeza que o velho fará picadinho de mim também. — respondeu com voz abafada — Tsubaki praticamente me implorou para não fazer isso, mas eu quero tanto te levar comigo…!
Mas Yukari, entorpecida, já não estava mais o escutando, ela apenas limitava-se a encarar o cupcake em suas mãos.
—Também tenho algo que eu preciso contar, já deveria ter contado há tempos.
—O que? — Gintsune respondeu sem se afastar os soltá-la.
—Antes precisa me prometer que não fará mal a nenhuma das minhas amigas.
—Não ligo para elas, por que faria mal a elas? — ele resmungou.
—Prometa!
—Não vou tocar em um fio de cabelo de nenhuma amiga sua.
Yukari respirou fundo, tremulamente.
—É sobre Aoi-chan…
E Gintsune a ouviu atentamente, erguendo a cabeça com uma expressão séria cada vez mais grave a cada detalhe, a situação definitivamente não era boa.
Mas mesmo se Yukari podia fazer com que uma raposa não tocasse em Aoi… o mesmo não podia ser dito sobre a irmã.
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