A Lenda da Raposa de Higanbana

36 35: Não se aproxime de raposas.


Notas iniciais
Feliz Natal Pessoal! E como esse é o último capítulo do ano: Feliz Ano Novo! Glossário: Jittoku: Tipo de haori usando somente por homens.

Pode ser que ela tenha ficado parada no corredor em estado de absoluto choque por cerca de mais dois ou três minutos, até finalmente conseguir obrigar suas pernas a se moverem e retornar para assistir o final da partida.

E ali estava ele, sentado com a cara mais deslavada do mundo, como se não tivesse feito absolutamente nada demais enquanto ela sequer conseguiu sentar ao seu lado sem sentir o imediato formigamento na orelha direita que aquilo lhe provocou, e mal conseguiu conter o impulso de cobrir a orelha.

As poesias flutuavam ao seu redor sem que Yukari realmente as escutasse, ela via o adversário de Momiji se lançar em vários ataques desesperados seguidos, sem nunca conseguir capturar uma carta sequer, pois todas apareciam magicamente na mão da raposa — mesmo que Gintsune tivesse dito que ali não havia truque algum — sem que ela mal precisasse se mover.

Foi uma vitória esmagadora.

—Foi uma honra. — o rapaz disse erguendo-se ofegante após curvar-se perante Momiji, aceitando uma toalhinha que o velho bibliotecário havia lhe oferecido. — É uma profissional?

Mas Momiji limitou-se a dizer apenas:

—Você precisa treinar mais. — e então, ainda sentada sobre os calcanhares, voltou-se para Gintsune. — To-chan.

—Você foi magnífica irmã! — ele a parabenizou batendo palmas. — Qual o prêmio dela?

Perguntou aos demais.

—Prêmio? — vovô Yamada repetiu — Não damos prêmio algum aqui, meu jovem, apenas a satisfação de uma boa partida e a apreciação de alguma cultura.

Momiji acenou brevemente com a cabeça, mas Gintsune estava claramente inconformado, Yukari conteve-se para não girar os olhos.

—Se são prêmios o que querem, deviam ir até a Casa da Diversão, que está sendo apresentada pela turma 2-7. — o rapaz gordo sugeriu enquanto reagrupava as cartas. — Bem, na verdade é um cassino, parece que é o maior sucesso do festival esse ano.

Do lado de fora Gintsune ouviu Aiha, que havia retornado para seu posto de sentinela, solta uma exclamação ultrajada, e riu divertido.

—Um cassino, é? Certo… talvez passemos por lá. — comentou interessado, já se levantando e estendendo a mão para a irmã — Mas antes, querida irmã, tenho boas notícias: Finalmente encontrei Kakeru, ele está logo aí na frente esperando-nos!

—O contador de histórias. — ela assentiu.

Fez menção de pegar o braço do irmão, mas ele, sem perceber o movimento, acabou esquivando-se quando se virou para aquela garota humana.

—Yukari, quer vir conosco? — ele tirou do bolso um relógio de pulso — Você ainda tem uns vinte minutos do seu horário de folga.

Ela franziu o cenho.

—Onde foi que conseguiu esse relógio?

—Ah… por aí. — To-chan sorriu enquanto dava de ombros.

E então, bem diante dos olhos de Momiji, aquela garota simplesmente puxou o relógio das mãos de Tô-chan!

—Eu vou levar isso aos achados e perdidos. — afirmou autoritária, guardando o relógio no bolso da saia.

Como se ela tivesse algum direito…! Por que Tô-chan estava rindo?

—Tenho certeza que você pode fazer isso quando voltar ao serviço… — ele sugeriu pegando-lhe a ponta de uma daquelas trancinhas ridículas.

Foi apenas por um breve momento, mas os olhares das duas se cruzaram, e logo depois a garota recuou um passo, fazendo a ponta de sua trança escorregar de entre os dedos de Tô-chan.

—Na verdade ainda não almocei, e queria procurar por Kaoru também.

Com isso To-chan finalmente desistiu dela.

Havia um humano de óculos esperando por eles do lado de fora, que se colocou ereto assim que os viu, e seu precioso príncipe acenou para ele.

—Yo, Kakero! — o cumprimentou, tocando em seu ombro e indicando que os seguisse — Querida irmã, esse é Kakeru, de quem já lhe falei, ele é quem conheço que mais sabe sobre as lendas de Higanbana, e Kakeru, essa é minha linda e querida irmã.

O humano parou empalidecendo e cambaleou perto das escadas.

—Sua irmã…?

—Sim, mas você, sendo um grande admirador de lendas, conhece-a por outra alcunha.

—C-conheço?

Ele parecia a ponto de cair das escadas, seu auspicioso príncipe também pareceu percebe isso, por isso colocou a mão sobre o ombro dele, quando se inclinou em sua direção e sussurrou-lhe próximo ao ouvido:

—Sim “a raposa de Higanbana”. — e riu divertindo-se com a expressão assombrada do humano — Ora Kakeru, não faça essa cara, está bem? Eu já lhe disse que aquela história é apenas conversa fiada! — garantiu batendo de leve na bochecha dele com os nós dos dedos — E minha amada irmã jamais devoraria humanos… mas garanto que se tentar tocá-la, especialmente se tentar tocar em uma de suas caudas, não vai conseguir usar essa mão novamente.

O humano deu um sorriso trêmulo, que se parecia muito mais com um espasmo involuntário, e ajeitou os óculos que haviam escorregado até a ponta do nariz.

—É… é mesmo…?

Ele parecia um pouco mais estável agora, então Gintsune afastou a mão.

—Na verdade, Haruna, é exatamente por isso que estamos aqui: a irmã ama histórias, então queria que você contasse algumas das histórias de Higanbana a ela.

—E-eu? Contar lendas para duas criaturas saídas diretas delas? — aquele espasmo disfarçado de sorriso voltou ao rosto dele, dessa vez ainda maior — Sim! Digo… por que não vêem comigo ao clube paranormal? As lendas da cidade são justamente o nosso tema esse ano! — dizia enquanto se afastava pelo corredor, gesticulando para que o seguissem — Isso é incrível Gin-san, eu não achei que você retornaria algum dia, mas aqui está você com…! — ele calou-se repentinamente, tomando cuidado com as palavras sem saber até onde poderia falar sem que a maldição da raposa posta nele se ativasse — As crianças estão tentando o seu melhor para conseguir mais membros e impedir o fechamento do clube na primavera…

Os tempos realmente estavam diferentes, aparentemente era normal agora que humanos tivessem cabelos coloridos em tons de verde, azul e até de duas ou mais cores simultaneamente — assim como Momiji e o irmão observaram ao visitarem a antiga capital da terra do sol nascente, por isso ela não se incomodara em disfarçar os cabelos prateados hoje — e já não temiam nem odiavam tanto ao mundo sobrenatural, mesmo assim seu querido príncipe não devia agir de maneira tão segura assim com aqueles humanos.

—Haruna. — Gintsune o chamou rindo — Eu não vou criar nenhum poltergest só para atrair novos membros para o seu clubinho!

O professor parou diante de uma porta entreaberta com uma cortina preta onde se lia “Museu Paranormal de Higanbana” e sorriu-lhes.

—Mas nem um pequeninho?

—Esqueça! — Gintsune descartou-o ainda rindo.

—Tudo bem, mas de qualquer forma… raposas dão boa sorte, não é?

—Algumas vezes. — deu de ombros.

—Bom, então suponho que isso deve bastar, por favor, entrem! — Kakeru convidou-os sorrindo.

—Apenas se lembre de que nós não somos zashikis warashis, Haruna! — Gintsune o repreendeu entre risadas.

E tinha plena consciência da forma intrigada como a irmã olhava-o.

Afinal, mesmo que tivessem sido ensinados como brincar e se misturar com os humanos, também lhe foi ensinados a nunca revelarem-se a eles, o velho queimava e devorava qualquer um que ameaçasse chegar perto de descobrir a identidade deles, e mesmo sua alegre mãe, sempre tomara cuidado… mas ali estava Gintsune, revelando-se e conversando normalmente não apenas com um humano, mas sim dois, sobre o fato de eles serem raposas.

Verdade seja dita, ele sempre foi tido como o mais despreocupado dentre os quatro, mas provavelmente agora toda essa despreocupação estava começando a preocupar sua irmã, e Gintsune nem podia explicar-lhe como as coisas haviam chegado àquele ponto, pois isso poderia tornar-se perigoso… para Yukari.

—A entrada é paga. — Kakeru os avisou já colocando ele próprio duas moedas em uma caixa sobre uma mesa ao lado da porta, etiquetado com “Entrada: ¥50 por pessoa”, parece que ninguém confiava mesmo em dinheiro vindo de raposas, Gintsune deu um sorrisinho achando graça disso — E poderiam, por favor, assinarem seus nomes aqui?

Os olhos de Momiji se semicerraram.

—Você quer nossos nomes?

—Não! — Gintsune interpor-se rapidamente entre ambos, rindo com nervosismo. — Não foi isso que ele quis dizer, veja, basta colocar aqui “Gin” e “Momiji”, e isso já basta, certo Kakeru?

—Certamente! — o professor concordou de imediato. Era melhor ter ainda mais cuidado com o que dizia diante de Momiji-san, concluiu enquanto via-a observar com curiosidade o irmão escrevendo aqueles apelidos na lista de presença… talvez nunca houvesse visto uma caneta antes. — Então podemos?

A sala havia sido arrumada com vários painéis de fotos e desenhos e pedestais com objetos diversos expostos, mas havia somente uma alma viva ali: um rapaz de haori preto e lenço vermelho sobre a cabeça, que saltou diante deles assim que entraram.

—Professor! Onde estão os biscoitos que o senhor disse que traria para oferecermos aos clientes?

—Lamento muito, Mori-kun, mas acabei não podendo visitar a casa de chás dos meus alunos.

Então o professor pegava as guloseimas da atração de seus alunos e levava para serem distribuídos na atração dos outros alunos? Gintsune balançou a cabeça, achando graça.

—Mas veja… — Kakeru prosseguiu, indicando as raposas — Eu trouxe dois clientes.

Até então, durante aquele festival o clube paranormal só havia tido vinte e nove — agora trinta e um — visitantes, então Mori Takeru ficou compreensivelmente animado ao receber aquela notícia.

—Ah sério? Então por favor, me acompanhem…!

—Na verdade, Mori-kun. — o professor colocou a mão no ombro dele — Por que você não vai descansar e beber um pouco?

Professores deveriam apenas monitoras, mas graças à falta de pessoal no clube de investigação paranormal, Haruna acaba abrindo uma pequena exceção ali, de forma que Mori Takeru nem sequer hesitou em tirar o haori e o lenço de cabeça para entregá-los ao professor.

—Ah sério? Então tome conta de tudo professor, eu volto logo!

Assim que se viram sozinhos ali, Haruna colocou o uniforme — “Fantasmas” estava escrito em kanjis vermelhos nas suas costas — e virou-se para os visitantes.

—Então… sejam bem vindos ao museu paranormal de Higanbana! — cumprimentou-os abrindo os braços de forma teatral — Caros clientes, Higanbana tem cerda de 70% de sua renda anual baseada no turismo, mas para além de nossas belas paisagens e fontes termais, muitos vêm até aqui pelas lendas que cercam a região, pois aqui o sobrenatural e o natural se confundem!

—Kakeru, você ensaiou essas falas na frente de um espelho? — Gintsune zombou.

—Incansavelmente! — o professor assumiu orgulhoso, gesticulando para que o seguissem. — Aqui temos algumas imagens do templo local de Inari. — apresentou-lhes o primeiro painel de fotos — E bem aqui, nesse bordo japonês, alguns, com uma visão mais sensível, dizem conseguir ver entre seus galhos um belo uchikake pendurado, segundo as lendas foi um presente deixado pelo próprio deus Inari pelas ações do exterminador após capturar a temida raposa de… — foi deixando lentamente de falar, e engoliu em seco olhando-os — Hã, desculpe.

Ignorando-o, Momiji aproximou-se do painel para olhar as imagens mais de perto.

—Que técnica de pintura tão perfeita. — admirou-se.

—Na verdade, irmã, isso não é uma pintura. — Gintsune tocou-lhe o ombro — É uma coisa que os humanos inventaram, chama-se fotografia.

—Fotografia?

—Eu explico depois. — prometeu, antes de virar-se zombeteiro para o professor. — Agora, meu sábio professor, o que você dizia sobre o lendário Uchikake de Inari?

Haruna piscou.

—Tem mesmo algo lá, não tem? — perguntou conspiratório — Quer dizer, Oda me disse que se olhar pelo canto dos olhos durante o crepúsculo, ele pode ver uma silhueta ali… mas vocês podem ver claramente, não é?

Olhou com expectativa para a foto.

De fato podiam.

Gintsune apontou.

—Está bem aqui.

—De verdade?! — Haruna quase pulou para fora dos próprios sapatos — E de que cor ele é?

—Azul e verde. — deu de ombros.

—Ele começa com um calmo tom de azul celeste na gola e desce com um dégradé até terminar em um profundo tom de verde perto da barra. — sua irmã, refinada como sempre, especificou, e passando os dedos sobre uma fotografia tirada mais de perto continuou: — Há uma paisagem de uma floresta ricamente bordada nele pelas mãos de uma habilidosa mestra, as copas das árvores mais altas pairam um pouco acima da altura dos quadris, há esquilos, coelhos e pássaros escondidos entre as árvores, um rio serpenteia pela barra, com peixes prateados nele, na manga esquerda há uma mulher de cabelos negros vendo dois filhotes de raposa prateada brincando, na manga direita um monge com um grande chapéu de palha e uma flauta se aproxima, mas por trás dele há olhos prateados o espreitando.

—Fascinante… — Haruna comentou embasbacado.

—Um presente divino dado àquele homem, essa é a história que contam. — os lábios de Momiji apertaram-se levemente — Humanos sempre foram tão tolos e egocêntricos.

—Então a história é mentira? — o professor perguntou curioso.

—Haruna, todas as lendas são belas mentiras com um pequeno fundo de verdade… — Gintsune zombou-lhe com um sorriso de lado, passando o braço por sobre seus ombros — Aquele uchikake já estava ali antes daquele homem chegar à cidade, e quem o deixou lá foi a minha linda e delicada irmã.

E ainda rindo, empurrou levemente o queixo de Haruna para cima, pois o professor havia ficado boquiaberto.

—Isso é… é… — balbuciou.

—História velha para nós, Haruna, então nos conte alguma novidade. — Gintsune interrompeu-o afastando-se.

—Uma… novidade? Entre lendas com mais de um século de idade?— o professor olhou em volta, parecendo perdido com um riso prestes a escapar-lhe — Bem, temos aqui uma réplica em madeira feita à mão do pente descrito na lenda da Senhora dos Raios…

—A minha linda irmã ama dançar entre os raios durante uma tormenta, embora ela geralmente não faça isso visível aos olhos humanos. — Gintsune o interrompeu.

—Ás vezes alguns humanos, mesmo aqueles que não possuem nenhum tipo de visão espiritual, acabam vendo algumas coisas a depender de alguns dias e horários específicos. — Momiji comentou virando o pente entre os dedos.

Era um pente de madeira envernizado pintado em azul cobalto com raios prateados o atravessando.

—Esse deve ter sido especialmente abençoado, já que sobreviveu. — Gintsune sorriu.

—Eu não reparei nele ali. — Momiji guardou o pente de madeira dentro da manga.

Engolindo em seco o professor começou a olhar para os lados e procurar pela próxima história com nítida ansiedade crescendo em seu rosto, claramente mais interessado em ouvir a versão que as raposas tinham a comentar sobre as lendas do que em contá-las realmente, ele parecia um homem faminto diante de um banquete que não sabia por qual prato começar.

Por fim ele os guiou até o painel da “Princesa Vaga Lume”, sobre quem Momiji também tinha uma ou duas palavrinhas a dizer também: antigamente costumava morar na nascente do rio que cortava aquela região um youkai que controlava os vaga-lumes, mas quando ela chegou ali, ele imediatamente ordenou que todos os seus servos servissem como uma escolta de honra a ela sempre que quisesse andar pelas florestas à noite…

—Humanos sempre foram tão impressionáveis e criativos para criarem histórias. — deu de ombros.

—Mas você pode culpá-los querida irmã? — Gintsune sorriu-lhe — Muito me admira não terem a confundido com uma divindade de novo e criado uma história sobre uma “divindade dos vaga-lumes” naquela floresta, e não uma princesa vaga-lume…

—D-de novo?! — Haruna gaguejou com a boca seca — Momiji-sama, por acaso também és o deus das flores?

Esfregou ansiosamente as palmas das mãos suadas nas calças.

—Não. — Gintsune respondeu no lugar da irmã, que nem se dignou a olhar para o professor, rindo da clara decepção dele.

O painel seguinte mostrava a fachada e o interior de uma casa de estilo clássico japonês, com aparência antiga e abandonada.

—Essas são fotos tiradas pelos membros do clube no verão do ano passado, durante nossa excursão do teste de coragem. — o professor explicou-lhes — Aqui é a casa do “pequeno deus da boa sorte”.

Ele parou com expectativa, certamente aguardando para saber o que as raposas tinham a contar sobre aquele local, Momiji torceu o nariz.

—“Pequeno deus da boa sorte”? — repetiu — Não me parece um lugar muito auspicioso.

—Sim, bem… — o professor pigarreou antes de assumir aquele seu típico tom que sempre usava para contar histórias: — Diz à lenda que, muitos anos atrás, um pequeno deus da boa sorte vagava por essas terras espalhando prosperidade e felicidade, sem nunca pedir nada em troca… mas então, certa vez um homem quis ter a prosperidade do pequeno deus somente para si e assim, tomado pela ganância, esse homem atraiu o pequeno deus a sua casa e lá o aprisionou… capturado, o pequeno deus começou a lamentar-se: “ah, por que me fizeram isso? Eu fui bom para eles, por que me prendem?” — o tom de Kakeru tornou-se mais sinistro quando, interpretando ao pequeno deus, ele agarrou os cabelos e lamentou-se: — “Ah quero sair! Quero sair! Quero sair! Odeio-os! Odeio-os! Odeio-os todos! Vou amaldiçoá-los, amaldiçoá-los! Amaldiçoá-los!” — baixando as mãos ele retornou ao tom soturno de antes e finalizou: — Assim, corrompendo-se pela dor e o desespero, ao invés de abençoar aquele homem, o pequeno deus da boa sorte o amaldiçoou, e miséria e calamidade acometeram a ele e sua família… agora o velho casarão está abandonado, mas o pequeno deus da boa sorte continua ali, lamentando e vagando por entre os corredores, amaldiçoando todos aqueles que ali pisam.

—E mesmo assim você e seus alunos foram até lá fazer uma excursão? — Gintsune arqueou uma sobrancelha sorrindo de lado com escárnio — Kakeru você não se cansa de acumular maldições?

O professor encolheu os ombros.

—Depois daquilo um aluno quebrou a perna e precisou ficar duas semanas sem vir para a escola, mas fora isso…

—Se esse clube realmente fechar, pelo menos você pode se candidatar para monitorar o clube de teatro. — Gintsune sugeriu dando-lhe tapinhas em um dos ombros.

—Essa vaga já é de Suzuki Kazume há uns nove anos, ela me expulsaria de lá a vassouradas! — Haruna riu.

Eles ainda estavam rindo e brincando um com o outro quando Momiji repentinamente virou-se, fazendo esvoaçar as longas mangas amarelas estampadas de seu furosode, e afastou-se dali.

—Vamos To-chan!

Gintsune não hesitou em segui-la, mal se dando ao trabalho de despedir-se de Haruna antes de irem embora.

—Irmã, aconteceu alguma coisa? — perguntou ao alcançá-la no corredor.

—Humanos! — proferiu como se fosse a pior das ofensas enquanto entrelaçava o seu braço ao do irmão mais novo — Sempre tão gananciosos e podres… aprisionam um ser inocente e bom, usam-no, exploram-no e o corrompem, e mesmo agora continuam divertindo-se às custas de seu sofrimento…!

—Irmã. — chamou-a suavemente, enquanto desciam às escadas — É só uma lenda, eles têm dezenas dessas aqui em Higabana, são apenas armadilhas para turistas…

—To-chan, todas as lendas são belas mentiras com um pequeno fundo de verdade. — ela o olhou seriamente… e parou.

Olhando para além do ombro do irmão, algo lhe chamou a atenção e ela piscou fascinada o soltando, diante de si um mural com várias daquelas “fotografias” estava exposto, mas somente uma delas lhe importava: aquela que mostrava uma linda e graciosa garota de cabelos negros e olhos cinzentos sobre um palco, com uma faixa transversal sobre o peito e um buquê de flores na mão.

—Ah, esse é o concurso de princesas do ano passado. — Gintsune comentou ao seu lado, também observando a mesma foto.

—Um concurso de princesas? — repetiu com um sorriso encantado. — Você sempre foi nosso auspicioso príncipe afinal.

Gintsune sorriu apontando-lhe mais algumas fotos.

—Eu fui bem popular enquanto estive por aqui sob a face de Ayaka Shiori. — gabou-se.

—É evidente. — Momiji anuiu maravilhada.

Afinal como os humanos poderiam resistir ao seu adorável príncipe?

Gintsune apontou uma segunda foto:

—E aqui estou eu interpretando a raposa de “A raposa de Higanbana”…

Sua voz foi sumindo lentamente quando se lembrou da reação da irmã pelos humanos explorarem e divertirem-se à custa de seres aprisionados, mas ela limitou-se a lhe dar o mesmo sorriso gentil de sempre.

—Oh, é mesmo? Eu gostaria de ter visto.

—Haruna tem uma gravação em vídeo! — reanimou-se imediatamente.

Ele voltou a procurar entre as fotos, havia fotos de todos os tipos: a fogueira de encerramento, o concurso de princesas, a apresentação de teatro, pessoas fantasiadas, fotos de classe, fotos de visitantes e, obviamente, Ayaka Shiori estava em várias delas… mas por que não havia nenhuma de Yukari?

—Gostariam de comprar memórias de nosso festival anterior? — uma colegial com crachá do comitê do festival e braçadeira de membro do conselho estudantil aproximou-se — Cada foto custa entre ¥25 a ¥100, vocês recebem uma cópia imprensa e uma cópia digital pelo celular ou e-mail e, por mais ¥50 uma cartela de adesivos.

—Quero todas as fotos com Ayaka Shiori. — Momiji respondeu sem pestanejar.

—Mas não precisamos das cópias digitais. — Gintsune completou.

—Será um prazer! — a colegial animou-se com a venda — Eu posso ajudá-los em mais alguma coisa?

—Na verdade sim. — Gintsune sorriu-lhe conquistador, pegando-lhe o queixo — Nós também ouvimos falar de certo cassino por aqui…

Agora que sabia que Gintsune estava no colégio, ficar responsável pelos avisos e anúncios no sistema de auto-falantes da escola, era tudo o que Yukari não queria, mas foi justamente ali onde ela foi colocada quando retornou ao trabalho.

Para além das atividades usuais, o comitê do festival havia recebido mais uma tarefa extra: caso Mimi, a cadelinha de estimação do presidente do conselho estudantil, fosse vista nas dependências da escola, ela deveria ser levada o mais rápido e discretamente possível para a sala do conselho estudantil de onde o aviso “Tanaka Mina-chan está esperando por Tanaka Hiroshi na sala do conselho estudantil” seria transmitido para a escola, então, embora Yukari tenha dito expressamente “Tanaka Mina-chan está esperando pelo pai na sala do conselho estudantil”, o erro do presidente ao aparecer buscando por sua cadelinha e encontrar uma garotinha de cinco anos foi compreensível… e seu constrangimento também.

—Precisamos de outro código! — lamentou-se suspirando e aceitando o copo d’água que Yukari lhe entregou quando a menina perdida foi levada pelo pai.

—Talvez pudéssemos dizer…

Yukari começou a falar, mas foi interrompida por dois outros membros do comitê, quando estes chegaram à sala rindo e conversando:

—… perdi tudo!

—Mas aquele outro cara estava com sorte!

—Sorte até demais, viu só a cara de desespero do Eisuke? Parecia até que o cassino estava prestes a falir!

Os dois riram juntos, Yukari franziu o cenho ao ouvir aquilo.

—Com licença. — o presidente os chamou levantando-se e ajeitando os óculos — O que está acontecendo no cassino da sala 2-7?

Uma hora atrás um homem de cabelos compridos, acompanhado de uma mulher vestindo roupas tradicionais, havia chegado a “Casa de Diversões” e, desde então, viera apostando e jogando seguidas vezes em cada atração disponível ali, ganhando os prêmios máximos todas às vezes.

Não podia ser ele.

Mas mesmo enquanto esse pensamento ainda lhe ocorria, Yukari já pedia licença ao presidente do conselho estudantil, oferecendo-se para ir verificar a situação e saindo a passos largos da sala.

Pois não havia como não ser ele.

Quando chegou à “Casa de diversões” o caos já havia sido instaurado: uma garota vestida de coelhinha e um rapaz de colete e gravata borboleta juntamente com outro membro do comitê tentavam organizar a fila do lado de fora e acalmar os ânimos que já se exaltavam pela demora, e parecia também haver reclamações dentro do cassino… mas ninguém estava saindo da sala.

Franzindo o cenho, Yukari entrou pela porta dos fundos onde uma placa logo acima indicava “saída”.

E ali estavam: os arautos do caos.

—Façamos um acordo. — Gintsune propôs inclinando-se sobre o balcão de prêmios, uma montanha considerável de tickets estava diante dele — De quantos desses papeizinhos eu preciso para receber alguma bebida de verdade?

Ao lado dele Momiji bebia em silêncio uma taça de cidra sem álcool.

E além deles uma dúzia de clientes com seus próprios tickets reclamavam pela demora em serem atendidos.

—Senhor cliente, por favor…

—Tudo bem, tudo bem. — Gintsune estalou a língua pegando um dos tickets displicentemente com as pontas dos dedos — Mas o que eu posso levar em troca de tudo isso?

Yonekura Eisuke em pessoa estava atendendo-os, Yukari quase ficou pena quando o viu secar o suor da testa com a manga da casaca… se bem que ele merecia um pouco.

Yukari ficou ali mais um pouco para assistir.

—E-eu precisaria contá-los antes, é claro, mas acho que seria mais da metade dos prêmios que temos aqui, m-mas acho que tivemos um pequeno erro de cálculos, porque isso nos faria fechar mais cedo e…

—Bem, então é melhor começar a contar. — Gintsune empurrou a montanha de tickets em sua direção.

O representante Yonekura ficou lívido.

—Talvez possamos fazer um acordo!

Interessado, Gintsune apoiou o rosto entre as mãos.

—Estou ouvindo. — sorriu amigável.

—Ouça, não podemos lhe dar nenhum tipo de bebida alcoólica aqui, é claro, mas minha família é proprietária de um restaurante, então talvez eu pudesse lhe arranjar um jantar grátis lá…

Yukari franziu o cenho.

—Tenho quase certeza de que isso deve constar contra as regras em algum lugar. — pronunciou-se.

O representante Yonekura ajeitou a cartola ao vê-la.

—Você é uma das assistentes do presidente, certo? — reconheceu-a — Mas está tudo em ordem por aqui eu garanto que não há necessidade…

—Yo Yukari. — Gintsune acenou-lhe — Veio se divertir também?

—Eu estou de serviço. — suspirou.

—Claro que está. — Gintsune girou os olhos e comentou com Yonekura-kun: — Ela é uma ranzinza estraga prazeres.

—Esperem vocês se conhecem? — ele olhou de um para o outro e, detendo-se em Yukari, semicerrou os olhos ajeitando os óculos sobre o nariz — Você não é amiga de Aiha?

Yukari deu de ombros.

—A representante tem vários amigos.

—Sabotagem!

Yonekura-kun exclamou ultrajado, batendo com a mão espalmada no balcão.

—To-chan, se você já terminou de brincar aqui, poderíamos ir embora logo? — Momiji suspirou.

Para além deles as reclamações pela demora se tornaram mais ruidosas.

—Apenas entregue logo os prêmios que lhe são devidos. — Yukari olhou para a montanha de tickets — Eu posso lhe ajudar a contá-los se isso for agilizar…

—Há 789 tickets. — Gintsune declarou sorrindo.

Yukari franziu o cenho.

—Como conseguiu tantos em tão pouco tempo?!

—Ah… eu tenho uma sorte muito boa. — ele piscou-lhe — E gosto de fazer apostas altas.

—Mas como…? Como foi que contou todos…? — Yonekura-kun balbuciou incrédulo enquanto remexia nos tickets.

—Também sou muito bom com números. — a raposa sorriu de lado.

Yukari franziu o cenho.

—Por favor, acabem logo com isso, estão causando transtorno no corredor. — pediu se retirando.

Mas pelos próximos vinte minutos ficou parada diante da sala, aguardando até que as duas raposas saíram de lá, Gintsune trazendo duas grandes sacolas de papel — sem dúvida recheadas de prêmios — em cada mão, e Momiji carregando uma pequena bolsinha de punho tradicional feita em tecido vermelho com estampas de padrões geométricos e cordões dourados.

—Yukari, você ainda está aqui! — ele exclamou alegremente, aproximando-se ao avistá-la.

Yukari olhou para as sacolas.

—Tenho certeza de que você não precisa de nada que esteja aí.

—Yukari, não se consegue prêmios porque você precisa deles. — Gintsune girou os olhos, mas logo depois lhe sorriu. — Além de que isso é apenas uma parte do que eu poderia ter conseguido: troquei trezentos tickets por um jantar grátis. Mas ele me fez prometer que não te contaria… ops.

Cobriu os lábios com as pontas dos dedos, piscando inocentemente.

Por um instante Yukari considerou se deveria relatar aquilo ao presidente do conselho estudantil, mas por fim acabou suspirando e decidindo que o prejuízo seria muito maior para Yonekura-kun mais tarde.

Gintsune pegou sua mão.

—E já sei! Façamos assim: você finge que eu não disse nada e nós te levamos para passear no festival, vamos comer alguma coisa! — propôs.

Parada a alguns passos deles, Momiji encarava-a inexpressiva, Yukari tentou puxar a mão, mas Gintsune segurou as pontas de seus dedos.

—Estou de serviço. — relembrou-o.

Não que ele se importasse, é claro…

—Mas uma das suas funções não é justamente vistoriar se tudo está em ordem? Afinal foi por isso que veio aqui… então una o útil ao agradável! — tentou dissuadi-la e, puxando sua mão um pouco mais parra si, acrescentou: — Venha Yukari, vamos nos divertir… só um porquinho…

Bem em seu íntimo Yukari teria que admitir que ficou tentada…

Momiji continuava a encará-la impassível, aparentemente também aguardando sua resposta, e a colegial suspirou deslizando seus dedos para longe do contato de Gintsune.

—Eu realmente não posso. — recusou desviando o olhar e afastando-se um passo — Por favor, tentem não criar muita confusão.

A decepção de Gintsune foi nítida.

—Se é assim que prefere. — ele deu de ombros — Mas tente não ficar mais presa em porões, eu não posso ficar te salvando o tempo todo, sabe?

Sorriu provocando-a.

Girando os olhos Yukari ainda atreveu-se a dar um último olhar de canto à Momiji antes de virar-se e afastar-se apressadamente.

Não voltou a encontrar as raposas diretamente depois disso, embora tenha os visto ao longe vez por outra, geralmente nas proximidades de atrações com comida ou com algum tipo de prêmio e, de alguma forma, Momiji sempre parecia saber quando ela os avistava, o que a obrigava a desviar o olhar rapidamente.

Também ouviu falar que Gintsune retornou à “Casa de Diversões” por uma segunda vez, e depois disso eles tiveram que fechar as portas, mesmo que ainda faltasse mais de três horas e meia para o final do festival, isso, quem lhe contou, foi uma exultante representante que não fazia questão alguma de esconder sua satisfação ao completar:

—Shibuya, quando vir o Gin pode dizer que ele tem direito a cinco tigelas grátis de ocha-zuka! Apenas como um agradecimento… por ter me ajudado com Isao é claro.

Completou sorrindo.

Mas Yukari não voltou a falar com Gintsune até que o festival houvesse acabado e já estivesse em sua casa à noite: Estava de jinbei e toalha na cabeça quando entrou em seu quarto e encontrou Gintsune deitado de bruços na sua cama, olhando para uma série de fotos espalhadas diante dele.

—Yo Yukari.

Yukari fechou a porta franzindo o cenho.

—O que faz aqui?

—Você disse que sentiu minha falta, não é? Então decidi te presentear com um pouco mais de tempo na minha presença. — ele sorriu piscando-lhe, e então farejou o ar — Você trocou o xampu? Eu gostei.

—E quanto a sua irmã? — ela cruzou os braços.

—Ela está bem. — ele pegou uma das fotos na cama e apontou para ela reclamando: — Yukari, como pode ser tão sem graça que não há uma foto sua sequer nas fotos do festival do ano passado?!

—Eu tirei uma foto com o resto da classe. — girou os olhos.

—O que? — ele começou a remexer entre as fotos — Onde você… olha aqui, mal dá para te ver! Só porque você é um pouco mais altas que as outras garotas, não deveria ficar assim tão para trás, deveria ter ficado mais para frente junto comi…

—Esqueça isso, o que foi aquilo que você fez mais cedo?

—Aquilo o que? — Ele a olhou.

—Aquilo. — ela ergueu uma das mãos automaticamente para cobrir a orelha direita.

As sobrancelhas de Gintsune se arquearam com compreensão, por isso é que ela não se aproximava e esteve evitando-o? Estava tentando manter uma distância segura dele? Ele quase riu.

—Oh. — apoiou o rosto entre as mãos com um sorriso cínico — Por razão especial nenhuma, foi só porque eu quis, foi um impulso, por assim dizer.

Ele tinha certeza que aquela resposta a deixaria, no mínimo, bem estressada, mas Yukari teve apenas a sua reação costumeira de sempre:

—Entendi. — franziu o cenho abaixando a mão. — Ouça Gintsune, eu sei que você se sente confortável comigo porque eu sei o que você é, e não precisa fingir comigo estar preso a… — ela fez uma pausa, parecendo procurar as palavras — todas as nossas convenções humanas, mas…

—Não está brava? — inclinou o rosto levemente de lado, estudando-a.

—Não realmente, sei que c… gatos, e outros animais, costumam brincar de morder uns aos outros. — Então era assim que ela havia encarado aquilo? Gintsune riu brevemente, é verdade que ele sempre dizia o quanto Yukari era entediante, mas a verdade é que algumas vezes ela podia se revelar bem interessante, ela lhe deu as costas para abrir o guarda roupas e começar a procurar por algo lá dentro — Mas eu agradeceria se ainda mantivesse alguma compostura comigo.

—Eu uso roupas sempre que interajo com você, o que mais quer de mim? — brincou divertido.

—Humanos não mordem uns aos outros. — retrucou sem hesitar.

—Você que pensa. — provocou-a com um sorriso astuto — E fazem muito mais se quer saber…

Se interrompeu rindo desconcertado quando Yukri jogou um cobertor sobre sua cabeça.

—Eu concertei o seu quimono enquanto você estava fora. — ela declarou.

Gintsune sentou-se cruzando as pernas na posição de lótus e segurou o lençol diante do rosto, não era um lençol afinal, era seu quimono.

—Obrigado. — Ele sorriu. — Isso me lembra: eu também te trouxe uma coisa.

Então, enquanto Yukari o observava curiosa, ele inclinou-se para frente e esticou o braço para pegar uma grande sacola de papel que estava no chão ao lado da cama.

—O que é? — ela franziu o cenho sem fazer qualquer menção de aceitar a sacola quando ele a ofereceu.

—Abra e saberá! — Gintsune riu.

Yukari franziu ainda mais o cenho, mas mesmo assim acabou pegando a sacola e sentando-se ao lado da raposa na cama, enquanto espiava com cuidado o que havia ali dentro, não conseguiu identificar de imediato, mas parecia ser algo com pelos brancos…

—Vamos Yukari, abra de uma vez, não é nenhuma bomba e é totalmente inofensivo, juro!

Gintsune incitou-a entre risadas, enquanto dava tapinhas entre suas omoplatas, ela não estava usando sutiã, mas porque ele estava reparando uma coisa dessas?!

Afastando a mão, ele calou-se e esperou enquanto Yukari colocava ambas as mãos de dentro da sacola e finalmente puxava lentamente de lá o seu presente:

Era um pequeno, fofo e macio Gintsune em miniatura!

Yukari piscou surpresa e confusa, na verdade era uma raposa branca de pelúcia com nove caudas — ao invés de quatro — abrindo-se em leque às suas costas, e um adorável capuz rosa pastel em sua cabeça.

Por um instante a expressão de Yukari suavizou-se em um sorriso distraído, mas antes que Gintsune sequer pudesse pensar que aquela expressão tão rara merecia uma foto, ela desapareceu e Yukari olhou-o com a mesma expressão desconfiada de cenho franzido de sempre.

—Onde você…?

—Eu não a roubei. — garantiu, jogando-se para trás e deitando com as mãos cruzadas atrás da cabeça — Eu ganhei naquele cassino da sua escola, e antes que pergunte o dinheiro que usei para pagar o ingresso não era falso, aliais nenhum dinheiro que passei hoje no festival era falso. — deu de ombros olhando para o teto — Acontece que consegui mais dinheiro do que precisava em Kyoto e ainda tinha algum sobrando.

E com certeza ele não havia conseguido aquele dinheiro por nenhum meio legal, mas Yukari supunha que isso seria o máximo que poderia esperar de Gintsune, ela abraçou a raposa de pelúcia, repousando o queixo em sua cabeça.

—Obrigada.

—Eu a peguei para que você não se sentisse mais tão solitária sem mim por perto. — Gintsune provocou-a — Pode chamá-la de Chibi Gin, ou quem sabe até de Ginko…!

—Vou chamá-la de Kon. — ela o interrompeu.

—Que sem graça. — Gintsune estalou a língua.

Mas acabou sorrindo quando ouviu Yukari rir baixinho.

—Você vai embora de novo? — Ela perguntou ainda abraçando a raposinha de pelúcia, depois de alguns instantes em silêncio.

Ainda olhando para o teto, Gintsune pensou na resposta por algum tempo, antes de responder:

—Eu disse à irmã que voltaríamos hoje só para falar com Kakeru sobre algumas das lendas aqui, eu queria confirmar algumas suspeitas. — começou a falar lentamente — Mas talvez ainda haja algumas histórias para ouvir e… na verdade eu gosto daqui, então quem sabe?

Depois disso ele calou-se por um longo momento e, quando Yukari finalmente olhou para trás, ele já havia desaparecido.

Assim, eram somente ela e a raposa de pelúcia agora.

—To-chan, você parece feliz. — Momiji comentou recostando-se às pedras na beira da terma.

—Hã? — sentado ali perto, submerso em água quente até o peito, seu irmãozinho ergueu a cabeça tirando a toalha morna de cima de um dos olhos — Por que está dizendo isso irmã?

Mas mesmo enquanto perguntava isso, aquele sorriso bobo não desaparecia de seu rosto, seu precioso príncipe era mesmo tão adorável… Momiji sorriu de volta.

—Já tem algum tempo que você está sorrindo aí sozinho. — respondeu cálida — Aconteceu algo de bom?

—Ah, não eu não diria exatamente isso. — tirando de uma vez a toalha de cima dos olhos, To-chan esfregou levemente a boca com ela, como se quisesse tirar o sorriso dali, mas só o que conseguiu foi fazê-lo crescer ainda mais.

—Ah sim? E como você diria então? — incitou-o curiosa.

—Yukari me deu uma bronca. — ele contou rindo.

A expressão de Momiji tornou-se séria.

—Como é?

—Bem, não foi bem uma bronca, Yukari está sempre me repreendendo por uma coisa ou outra. — To-chan contou-lhe ainda rindo distraído.

—E por que ela te repreendeu? — Momiji semicerrou os olhos.

—Ah, porque mordi a orelha dela! — ele contou rindo.

As sobrancelhas de Momiji se arquearam.

—Sei que não estava tentando devorá-la e eu nunca ouvi falar de um amante seu reclamando por algo assim.

—Yukari não é uma de minhas amantes, irmã. — ele balançou a cabeça sorrindo — Ela comparou aquilo às travessuras de um animal, aquela garota é muito peculiar às vezes. — gargalhou deitando a cabeça para trás, apoiando-a nas pedras. — Ela acha que eu me sinto mais confortável ao lado dela, porque ela sabe o que eu sou, e talvez tenha razão, a esposa do tengu também é assim: “Gintsune você não pode seqüestrar meus filhos a hora que bem entende!”, “Gintsune não jogue pedras no telhado!”, “Gintsune não prenda meu marido dentro do poço!”, “Gintsune pare de escavar minha horta!”… acho que tem algo de satisfatório em saber que elas sabem o que sou e o que posso fazer e mesmo assim não me temerem nem por um segundo sequer… mas o sentimento com Yukari é ligeiramente diferente… Ah.

Ele ergueu a cabeça parando de sorrir de repente.

—O que foi?

O irmão olhou-a com os olhos arregalados.

—Acabei de perceber que se Yukari estava com uma toalha na cabeça àquela hora, então eles provavelmente ainda estavam molhados!

Momiji piscou sem entender.

—E daí?

—E daí? — ele arfou — Eu perdi a chance de vê-los soltos!

Ele lamentou-se cobrindo o rosto com ambas as mãos e afundando lentamente na água, e Momiji encarou a seqüência de bolhas brotando logo acima do local onde a cabeça do irmãozinho desapareceu, sem compreender em absoluto o que de tão importante poderia haver em ver os cabelos soltos e molhados de uma reles humana.

Mas de uma coisa Gintsune estava certo: era realmente satisfatório conviver com humanos que mesmo conhecendo sua face inumana ainda assim não o temiam. Veja Kakeru, por exemplo, ele sabia sobre Gintsune e até animava-se com seu poder, mas a raposa sabia que um mero “Bu” seria capaz de fazê-lo sujar as calças, o que não deixava de ser divertido também, mas mesmo assim… quantos humanos podia-se dizer que haviam visto a face de um youkai, e aceitado plenamente isso sem temor e nem receio algum?

Por que ela tivera que ir até ali? Por que…?

—Por favor, sim? Deve ter alguma… no porão… é que já está quase acabando o meu turno aqui e eu quero ir passear com minha namorada. — oras, o turno dela estava para acabar também, eles estavam no mesmo turno! — E depois que voltar, você pode tirar a sua folga.

Ela agora não conseguia mais se lembrar o que havia ido buscar ali.

Tudo o que lembrava era dele e suas terríveis garras e presas.

Seu professor estava ocupado e não havia nenhum membro do comitê a vista, mas ainda assim ela poderia ter dito “não”, devia ter dito “não”… se ao menos tivesse dito não…!

Mas “não” era uma palavra que parecia ser inexistente em seu vocabulário, pois quando pressionara era impossível para ela conseguir dizê-la… por isso as pessoas sempre tiravam proveito dela.

Por isso ela havia descido até o porão naquela hora.

Enquanto ela descia as escadas, não viu sinal de mais ninguém ali, mas então no segundo seguinte lá estava ele, Gin-san, como se houvesse simplesmente se materializado do próprio ar, mas isso era impossível! Não era?

Ele não a notou, sua atenção estava toda voltada para a porta diante de si e ainda enquanto ela observava, ele aproximou-se da porta e espalmou sua mão nela.

—Yukari? — chamou.

Alguém talvez tenha respondido lá de dentro, mas o seu choque era tamanho que ela não foi capaz de dizer com certeza, e de repente ele saltou para trás rosnando, e ela só poderia agradecer ao que deve ter sido uma providência divina por aquele movimento ter derrubado várias caixas e objetos de uma estante atrás dele produzindo um barulho muito alto, de forma que ele não foi capaz de ouvir o som de seus joelhos chacoalhando de terror enquanto via que garras e presas cresciam nele além de uma longa… oh céus, oh céus, oh céus, ele tinha uma cauda!

Era um monstro!

Ela pressionou a mão contra a boca para abafar um soluço, e então se virou e fugiu chorando de pavor.

Não pôde permanecer no festival depois disso, pálida e suando frio, aparentava estar tão mal que a enfermeira não hesitou em logo lhe ceder uma dispensa, mas do que adiantava ter ido para casa se quando fechava os olhos ela ainda podia vê-lo bem ali diante de si, rosnando e mostrando suas ferozes e afiadas presas para ela.

—Você me viu… você me viu… garotinha… — ele rosnava de um jeito terrível e inumano, surgindo em seus sonhos — Você me viu e agora eu vou devorá-la por isso…

Ameaçava bestialmente logo antes de saltar sobre ela, para rasgar e devorar sua carne, fazendo-a acordar gritando e empapada em suor.

Na escuridão de seu quarto todas as sombras pareciam com monstros à espreita prestes a devorá-la, e ela ainda era capaz de ouvi-lo rosnando em seu ouvido:

“Você me viu… Você me viu… e agora eu vou devorá-la por isso”.

Ela sentiu o seu hálito fétido na nuca e estremeceu.

O estômago revoltou-se e, jogando as cobertas para longe, saltou da cama e correu para o banheiro.

—Filha? — era sua mãe batendo à porta do banheiro, mais de meia hora depois — Está passando mal de novo? Podemos ir para o hospital.

Mas estremecendo e forçando suas entranhas para fora, ela era incapaz de responder. Um médico?

Quase riu amargamente, mas tudo o que conseguia fazer era vomitar e chorar.

Médico nenhum poderia ajudá-la, pois ela estava condenada: vira uma besta em forma humana.

*.*.*.*

Mayu sempre havia adorado correr na floresta da propriedade de seu pai, desde pequena ela escapulia para lá sempre que encontrava a menor das oportunidades, erguendo as saias e fugindo com os cabelos soltos entre risadas enquanto ouvia os chamados desesperados de sua ama.

Hoje sua ama não estava chamando-a, nem havia qualquer som na floresta a sua volta, parecia que ninguém se dera conta ainda do desaparecimento de Mayu, mesmo assim ela tentava ser o mais silenciosa possível enquanto corria, pressionando as mãos sobre a boca para conter as risadas, sem se incomodar com o frio, ou com suas roupas de dormir colando-se ao seu corpo ou com as pedrinhas e galhos que se afundavam e perfuravam a sola macia de seus pés descalços.

Sorrindo extasiada ela viu seu amado à diante e estendeu os braços prontos para encontrá-lo…!

—Honorável esposa!

De repente correias de aço ataram sua cintura e arrancaram-na do chão.

Esperneando, Mayu chutou e tentou se libertar, sentindo gotas geladas de chuva como agulhas em sua pele.

—Honorável Esposa! — o chamado mais uma vez, agora ao pé de seu ouvido, mas completamente carregado de urgência — Mayu acorde!

Mayu ofegou, não estava na floresta da propriedade de seu pai, a sua volta tudo era escuridão, onde estava?!

Satoshi também não estava esperando-a… ela havia deixado-o para trás!

Sim estavam ambos dormindo no quarto que lhes fora cedido no castelo do dragão — isso, eles estavam no castelo do dragão! — e então ela se levantara e… por que havia saído?

—Pronto, está tudo bem agora. — disse a voz próxima a ela, pondo-a de volta no chão — Consegue ficar de pé?

Pequenas labaredas de chamas verdes crepitavam próximo aos pés dela, com criaturinhas de papel contorcendo-se e gritando baixinho por entre as labaredas que se apagavam lentamente sob a chuva.

Mayu balançou a cabeça, confirmando aturdida.

—Ryosuke-sama, o que…?

A chuva pesava em seus cílios, eles estavam na ponte diante do portão principal do castelo e a frente deles… olhos dourados brilhavam na escuridão.

—A raposa feiticeira pôs a cidade inteira para dormir e tentou levá-la na calada da noite. — Ryosuke explicou-lhe seriamente, colocando o braço sobre seus ombros.

Aqueles olhos dourados encararam-nos por mais algum tempo, e então a grande raposa, cuja pelagem negra confundia-se com a escuridão, virou-se e fugiu dali.

Mayu abraçou-se tremendo de frio.

—Para que foi isso?! — reclamou.

Desviando o olhar, Ryosuke emprestou-lhe seu próprio jittoku, colocando-o sobre seus ombros.

—Vamos. — chamou-a, guiando-a de volta com uma mão em suas costas — Melhor retornarmos antes que o honorável esposo acorde e dê por sua falta.

Notas finais
E por fim a segunda e última parte do festival escolar! ♥ Corrigi esse capítulo na correria então me desculpem qualquer coisa. Até 2022!